Memorial do Convento - José Saramago

Memorial do Convento - José Saramago

"O que eu quero saber, no fundo, é o que é isto de ser-se um ser humano"

J. Saramago em entrevista, revista Bravo publicada em outubro de 1997.

Biografia

José Saramago nasceu no dia 22 de novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga (Golêga). Mudou-se para Lisboa com menos de três anos de idade. Seus estudos, na capital portuguesa, foram interrompidos por dificuldades econômicas. Teve diversos empregos; nesses, foi, dentre outras coisas, serralheiro mecânico, desenhista, tradutor e jornalista. Em 1947, com quase 60 anos de idade lança seu primeiro livro, um romance chamado "Terra do Pecado", entretanto só no ano de 66 volta a escrever, publicando "Os Poemas Possíveis". Desde 1976, esse ganhador do prêmio Nobel (1998) vive exclusivamente de seu trabalho literário. Atualmente, Saramago vive na ilha de Lanzarote (arquipélago das Canárias) com sua mulher Pilar.

Obras:

Poesia:

  • Os Poemas Possíveis, 1966
  • Provavelmente Alegria, 1970
  • O Ano Velho de 1993, 1975

Crônicas:

  • Deste Mundo e do Outro, 1971
  • A Bagagem do Viajante, 1973
  • As opiniões que o DL teve, 1974
  • Os Apontamentos, 1976

Diário

  • Cadernos de Lanzarote I, 1994
  • Cadernos de Lanzarote II, 1995
  • Cadernos de Lanzarote III, 1996
  • Cadernos de Lanzarote IV

Viagem

  • Viagem a Portugal, 1981

Teatro

  • A Noite, 1979
  • Que Farei com este Livro?, 1980
  • A Segunda Vida de Francisco de Assis, 1987
  • In Nomine Dei, 1993

Conto

  • Objecto Quase, 1978
  • Poética dos Cincos Sentidos - Os Ouvidos, 1979
  • A Ilha Desconhecida

Romance

  • Terra do Pecado, 1947
  • Manual de Pintura e Caligrafia, 1977
  • Levantado do Chão, 1980
  • Memorial do Convento, 1982
  • O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1982
  • A Jangada de Pedra, 1986
  • História do Cerco de Lisboa, 1986
  • O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991
  • Ensaio sobre a Cegueira, 1995
  • Todos os Nomes.
  • A Caverna, 2000

Fatos importantes do enredo

  • D. João V e D. Maria Ana Josefa, casados há dois anos, empenham-se para gerar um herdeiro para o trono português.
  • Frei Antônio de São José simula uma premonição para conseguir do rei promessa de construção de um convento franciscano, em Mafra.
  • A rainha engravida. Sonha com o infante D. Francisco, irmão do rei. Contam-se milagres dos padres portugueses.
  • Passa o carnaval. Chega a quaresma, tempo de "mortificações" do corpo (atos de sadismo e masoquismo).
  • Chega a Lisboa, vindo aleijado (maneta) da guerra Baltasar Mateus, apelidado Sete-Sóis. Com dinheiro de esmolas, compra um gancho e um espigão para substituir a mão decepada, e trava conhecimento com João Elvas e outros mendigos e/ou ex-presidiários, com quem passa a conviver.
  • Durante o auto de fé em Lisboa, encontram-se Sebastiana Maria de Jesus (condenada pela Inquisição), sua filha Bliminda, o Padre Bartolomeu Lourenço e Baltasar. Após a cerimônia, Baltasar fica com Bliminda.
  • Bliminda come pão em jejum, para não ver as pessoas por dentro.
  • Padre Bartolomeu - o Voador - procura conseguir uma pensão para Baltasar Mateus. Enquanto isso, arruma-lhe emprego no açougue e, posteriormente, leva Baltasar e Bliminda para a quinta do duque de Aveiro, onde os três vão se dedicar à construção da passarola, a máquina de voar, que é o grande sonho do padre.
  • O casal vive bem e feliz. Baltasar Sete-Sóis e Bliminda Sete-Luas (apelido que lhe dá o padre, por ela poder ver o interior dos corpos) vão tornando realidade o sonho, montando e tecendo a passarola.
  • Na quinta o padre vem treinar seus sermões; e Domenico Scarlatti sua música (traz um cravo e delicia o casal).
  • Há novo auto de fé, Baltasar e Bliminda vão vê-lo e partem para Mafra, pois padre Lourenço fora à Holanda estudar ciências (o éter) para a passarola voar.
  • Em Mafra reencontram a família de Baltasar (pai, mãe, irmã, cunhado e sobrinhos). Os homens vão trabalhar na construção do convento (1717).
  • A rainha está grávida novamente (terá seis filhos) enquanto o rei faz visitas frequentes ao convento de Odivelas.
  • Volta o Padre após três anos e incumbe Baltasar de reconstruir a máquina e Bliminda de recolher o éter das vontades humanas e guardá-las num frasco de vidro com uma pastilha de âmbar (electro) no fundo.
  • Há uma epidemia em Lisboa. Bliminda e Baltasar andam por suas casas, recolhendo as vontades dos moribundos. Consegue mais de duas mil, porém adoece. O padre some de remorsos e Scarlatti toca vários dias para ela, até que Bliminda se recupera.
  • Padre Bartolomeu entra em crise teológica e é perseguido pela Inquisição. Foge e resolvem fazer a passarola voar.
  • Scarlatti chega na quinta atrasado: a estranha trindade já está no ar. Joga o cravo no poço, enquanto a máquina sobrevoa a costa. O mar, Lisboa, Mafra e, por esforço de Bliminda, cai sem danos no Monte Junto.
  • O padre tenta pôr fogo à máquina, é impedido pelo casal e foge. Baltasar e Bliminda voltam a Mafra e à construção do convento, que recebera a "visita milagrosa" do Espírito Santo.
  • 19 de novembro: terremoto e maremoto em Lisboa; morte do padre Bartolomeu em Toledo, na Espanha.
  • Baltasar começa a beber e a falar demais. Teme problemas com o Santo Ofício. Descreve-se o trabalho dos construtores do convento por vários meses. Trabalho duro e anônimo, à custa de sacrifícios e vidas. Digressões do narrador: histórias dentro da história.
  • Baltasar e Bliminda cuidam da máquina voadora, escondida no Monte Junto.
  • D. João V sonha construir uma basílica igual à de S. Pedro. Desiste quando percebe que não viveria para inaugurá-la. Apenas amplia o convento e marca a inauguração para o dia de seu aniversário (1730). Trabalhadores são requisitados à força para isso.
  • Unem-se as casas reais de Portugal e Espanha, com um casamento duplo. A festa nos é apresentada por João Elvas.
  • Os santos são levados para a construção. Baltasar e Bliminda estão envelhecidos, mas ainda se amam.
  • Baltasar vai ver a passarola, depois de meses. Distrai-se, as tábuas cedem, ele aciona o mecanismo acidentalmente e a máquina voa.
  • Bliminda espera em vão. Por nove anos, percorre terras de Portugal e Espanha procurando Baltasar ininterruptamente.
  • Reencontra-o em Lisboa, durante um auto de fé em que está sendo supliciado também o brasileiro Antônio José da Silva, o Judeu.
  • Bliminda olha finalmente dentro de Baltasar e chama sua vontade para ela, pois nada os poderia separar.

III - Personagens

3 grupos: nobreza, clero e povo, vistos complexa e ambiguamente;

A) Nobreza: D. João V, D. Maria Ana Josefa da Áustria e D. Francisco.

D. João V reinou na primeira metade do século XVIII. Caracteriza-se pela vaidade desmedida e perdulária (gastos/ construção de convento); pela ignorância e impulsividade (sem bom senso, age por impulso); pela sensibilidade e libertinagem ( convento de freiras para saciar seus impulsos eróticos e os interesses da nobreza).

D. Maria Ana Josefa: profundamente ingênua e beata, torna-se instrumento nas mãos do confessor e do marido. Enquanto se presta e essa manipulação, dorme enrolada em um cobertor de penas quente e mal cheiroso e tem sonhos/pesadelos com o cunhado.

O Infante D. Francisco sonha com a morte do irmão para sucedê-lo no trono e desposar a rainha. Treina pontaria tendo como alvo os marinheiros que navegam pelo rio, ao lado do castelo...

B) O clero tradicional aparece representado pelos padres franciscanos, dominicanos, jesuítas.

Construtores de conventos, confessores da nobreza, inquisidores insaciáveis. Manipulam informações obtidas em confessionário, são ávidos de poder e prazeres, perseguem e queimam hereges.

O clero transgressor tem como representante o Pe. Bartolomeu Lourenço de Gusmão, personagem histórica, brasileiro inventor do aeróstato, que viveu em Portugal, estudou ciências na Holanda e morreu na Espanha, louco e perseguido pelo Santo Ofício. O narrador constrói um padre fascinante e ambíguo, defensor de judeus, homem de ciência atormentado pelo dogma da Santíssima Trindade, personalidade em processo de desintegração, dividida entre a loucura, o sonho, e as obrigações religiosas e morais. Com Bliminda e Baltasar, cuja união aceita e abençoa, constitui uma trindade herética e extraordinária " que une ciência, trabalho e magia para realizar a grande utopia do homem: voar".

C) Baltasar, Bliminda e o povo português - as personagens principais da obra.

Baltasar Mateus, o Sete-Sóis. Camponês, alto, forte, bom e ingênuo. Aceita a vida como ela lhe vem - perde a mão, mendiga. Vive com presidiários, até conhecer Bliminda e o Padre. Passa a dedicar-se inteiramente aos dois: um amor total, incondicional e absoluto une-o à mulher; uma dedicação cega ao padre, torna-o o artesão da passarola (seu grande "voo" e sua perdição).

Bliminda de Jesus, a Sete-Luas. Por abrir os olhos dentro do útero da mãe ( Sebastiana de Jesus), adquiriu o poder mágico de enxergar dentro dos corpos sempre que estiver em jejum. Sua beleza, tanto exterior (alta, olhos mutantes, cabelos cor de mel) como interior (dedicação, vontade, disponibilidade total), sua sensualidade, sua força de caráter e seu poder mágico fazem de Bliminda a personagem central do romance, ao redor de quem se aglutinam as demais.

O povo português, a " arraia-miúda", constitui-se em personagem de destaque na obra. João Elvas, Manuel Milho, José Pequeno, Álvaro Diogo Pedreiro, Inês Antônia.... são heróis anônimos que constroem a pátria, trabalham pela glória do rei. Espécie de epopeia às avessas, a população corajosa que desfila a nossos olhos, é também desnudada em seus aspectos menos heroicos ou até grotescos "são feias, brutas, promíscuas, ingênuas até a inocência, com traços indisfarçáveis de alienação e até de sadomasoquismo.