Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente

Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente

Contexto histórico

Época do Humanismo (1434-1527), movimento cultural desencadeado pela atuação dos "humanistas" do século XIV (Petrarca, Bocaccio...), marcado pelas seguintes características:

Decadência do feudalismo e fortalecimento do poder real.

Recuperação política e econômica conhecida como mercantilismo.

Enriquecimento da burguesia e desenvolvimento das cidades (burgos).

Valorização do poder econômico em detrimento da nobreza de sangue ou linhagem.

Grandes navegações, estabelecimento de novas rotas comerciais (ampliação dos horizontes da Europa Ocidental).

Crise religiosa: a Igreja Católica e o teocentrismo medieval cedem lugar para um homem que se descobre senhor de seu destino e dominador da natureza (antropocentrismo), capaz de  questionar antigos dogmas e propor rupturas marcantes e definitivas (Reforma Protestante).

A literatura amadurece e tende a refinar-se, sofrendo influências dos "mestres" gregos e latinos (Renascimento).

A própria língua se transforma, passando por um cuidadoso processo de latinização, sofisticando-se no decorrer dos séculos XV e XVI.

Fatos importantes ocorridos em Portugal:

Centralização do poder monárquico por D. João I, o Mestre de Avis (Revolução de Avis, 1383-1385).

Ambiente cultural propício ao desenvolvimento das artes e das letras, estimulado pelos reis da Dinastia de Avis (D. João I, D. Duarte, D. Pedro);

Expansão ultramarina, desde 1415 (tomada de Ceuta) passando pela conquista de terras africanas, descoberta e ultrapassagem do Cabo das Tormentas, chegada à Índia.

Descobrimento do Brasil, que transforma Portugal em um império poderoso, e Lisboa, na "capital mundial da pimenta".

Nomeação de Fernão Lopes para a Guarda-mor da Torre do Tombo (1418) e para cronista-mor do Reino (1434);

Volta de Sá de Miranda da Itália (1527), onde permanecera por seis anos em contato com os renascentistas italianos, cujas ideias serão por ele difundidas em Portugal;

A literatura testemunha as mudanças ocorridas, deixando transparecer a substituição da cultura medieval por uma nova maneira de enxergar o homem e a vida:

Poesia: desaparecem as cantigas e a figura do trovador, abrindo espaço para novas técnicas de criação poética (Poesia Palaciana) e um novo campo de trabalho para o Poeta.

Prosa: permanecem as novelas de cavalaria (agora com novo enfoque) e surgem gêneros novos, tais como a prosa doutrinária e a historiografia (F. Lopes).

Teatro: as representações medievais (mistérios, milagres, moralidades, arremedilhos, momos e farsas) enriquecem-se com novos elementos cênicos, temas mais modernos e textos escritos, elevando-se à categoria de arte, graças ao trabalho de Gil Vicente.

Gil Vicente: vida e obra

Presume-se que tenha nascido por volta de 1465, durante o reinado de Afonso V, terceiro rei da dinastia de Avis, talvez em Barcelos, Guimarães ou mesmo em Lisboa.

Existem também dúvidas sobre suas atividades na corte portuguesa. Não se sabe ao certo se ele foi trovador, Mestre de balança, Ourives da Custódia de Belém ou das joias da Rainha.

Sabe-se que iniciou (1502) suas atividades como teatrólogo e mestre-de-cerimônias (organizador de todas as festas palacianas); na corte de D. Manuel.

Nesse ano, em 8 de junho, encena na câmara da Rainha D. Maria (segunda esposa do rei) o Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação, em homenagem ao nascimento do príncipe herdeiro (D. João III). Encantada com a apresentação, a Rainha pede-lhe que a reprise, por ocasião do Natal. Mas o teatrólogo - prepara-lhe uma surpresa: em vez de repetir o monólogo, Gil Vicente traz consigo uma equipe de saltimbancos e encena uma peça "de verdade", com diálogos e personagens vivas - o Auto Pastoril Castelhano - , em espanhol.

Foi o início de uma longa e bem sucedida carreira como autor e ator de peças teatrais, em saiaguês, português, espanhol e bilíngues, com que entretinha a nobreza em festas de casamentos, batizados, eventos políticos e religiosos.

Encenou sua última peça - Floresta de Enganos - no ano de 1536. Presume-se que tenha falecido em 1537.

Em 1562, seu filho, Luís Vicente, publicou toda sua produção artística (em 5 vol.), ainda durante o reinado de D. João III.

CRONOLOGIA DE SUAS OBRAS:

1502 - Monólogo do Vaqueiro e Auto Pastoril Castelhano
1503 - Auto dos Reis Magos
1504 - Auto de São Martinho
1509 - Auto da Índia
1512 - O Velho da Horta
1514 - Exortação da Guerra
1515 - Quem Tem Farelos?
1517 - Auto da Barca do Inferno
1518 - Auto da Barca do Purgatório; Auto da Barca da Glória; Auto da Alma
1522 - Pranto de Maria Parda e Dom Duardos
1523 - Farsa de Inês Pereira e Auto Pastoril Português
1525 - O Juiz da Beira
1526 - Breve Sumário da História de Deus
1527 - Farsa dos Almocreves; Auto Pastoril da Serra da Estrela
1528 - Auto da Feira
1529 - O Clérigo da Beira
1532 - Auto da Lusitânia
1533 - Romagem de Agravados e Auto de Amadis de Gaula
1534 - Auto de Morfina Mendes
1536 - Floresta de Enganos

Características do teatro vicentino

Representações teatrais sempre foram apreciadas nas cortes, igrejas, feiras e praças das cidades medievais. Tais encenações, não possuíam textos escritos nem marcações, repetindo-se tradições orais ou improvisando-se ao sabor das circunstâncias. Tratavam-se de encenações religiosas ou litúrgicas - mistérios, moralidades, milagres - e profanas - arremedilhos, momos e farsas.

Gil Vicente, inspirado nos espanhóis Juan del Encina e Torres de Naharro, aproveitou e enriqueceu os elementos cênicos anteriores: deu-lhes forma dramática e estilo pessoal, constituindo-se no verdadeiro criador de teatro português, com as seguintes caraterísticas:

Teatro alegórico ou simbólico, em virtude da pobreza de recursos.

Teatro de crítica social, denunciando as fraquezas, os desmandos, e pondo em evidência o ridículo dos atos humanos.

Seu teatro tenta moralizar os costumes através do riso ("ridendo castigat mores"), veiculando profunda religiosidade cristã. Visa, antes de mais nada, atingir a consciência do homem.

Suas personagens raramente são nomeadas; suas identificações são dadas pela classe social a que pertencem ou pela função que desempenham no grupo. Dessa forma, desfila "pelo palco" uma vasta galeria de tipos humanos, frequentemente caricaturizados: o frade ganancioso e namorador; o fidalgo orgulhoso e decadente; a alcoviteira (agenciadora de casamentos) inescrupulosa; o velho apaixonado e ridículo, explorado em sua fraqueza; a beata; o médico charlatão; o judeu ganancioso; a mulher adúltera; o escudeiro fanfarrão; o sapateiro ladrão; o nobre falido; o burguês ambicioso...

Sua linguagem incorpora a língua do povo no momento de transição entre a fase arcaica e moderna, documentando recursos sugestivos, aforismos, aspectos folclóricos, poéticos e até anedóticos dos diversos registros sociais.

Promove frequentemente a participação da plateia no desenrolar da representação.

Mistura intencionalmente o cômico e o sério, o poético e o humorístico.

Não respeita a "lei das três unidades" do teatro clássico (ação, tempo, lugar).

Apresenta os diálogos em estrutura poética, com predomínio do verso redondilho e emprega rimas, provérbios, canções e ditos populares adequados às situações e/ou contextos, o que torna suas leituras extremamente agradáveis.

Paralelamente às características incipientes do teatro medieval, percebem-se preocupações humanistas, tais como a presença de figuras mitológicas, críticas sociais, a condenação à perseguição dos judeus e cristãos-novos.

Enredo da peça

Em um braço de mar, encontram-se dois batéis (barcas) - um deles destina-se ao paraíso e o outro ao inferno. O arrais (capitão) do primeiro é um anjo; o do segundo é um Arrais Infernal (Diabo) e seu companheiro.

Ao começar a peça, conversam o Diabo e seu Companheiro, aprontando seu barco para a viagem que levará as almas dos mortos ao seu destino final.

Chega o primeiro "passageiro", um fidalgo coberto pelo manto da tirania, acompanhado de um pajem que lhe traz a cadeira da honra e da soberba. Apesar de seus argumentos (ter deixado na terra "quem rezasse por ele"; que é "fidalgo de solar"; a "esposa devotada..."), a barca do inferno é a única que comporta sua bagagem de pecados, e termina por nela embarcar, a contragosto.

Fidalgo: Para Senhor de tal marca
não há aqui mais cortesia?
Venha prancha e atairo (galas, pompas)
Levai-me dessa ribeira!
Anjo: Não vinde vós de maneira
pera ir neste navio.
Esse outro vai mais vazio:
a cadeira entrará,
e o rabo caberá (manto)
e todo vosso senhorio
[Nota: observe a ironia do Diabo ao convidar D. Anrique (Henrique)]
Ireis lá mais espaçoso
com fumosa senhoria (presunçosa)
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso;
e porque de generoso (ilustre, fidalgo)
[Observação: a caracterização do fidalgo]
desprezaste os pequenos,
Achar-vos-ei tanto menos
quanto mais fostes fumoso (vaidoso)
(...)

Ao inferno todavia!
Inferno há i pera mi?! (aí)
Ó triste! Enquanto vivi
não cuidei que o i havia. (pensei)
Tive que era fantasia (invenção)
folgava ser adorado;
confiei em meu estado
e não vi que me perdia."

[Nota: observe o arrependimento tardio do fidalgo e a crítica do teatrólogo, implacável com aqueles que transgrediam o código de ética cristão]

A segunda personagem que se apresenta é o Onzeneiro (agiota que empresta dinheiro a juros de 11%); velho e astuto, ao perceber que sua bolsa de dinheiro acha-se vazia, pretende retornar à vida para "trazê-lo meu dinheiro; | que aqueloutro marinheiro, | porque me vê vir sem nada, | dá-me tanta borregada..." (repreensão). Acaba condenado.