Realismo e Naturalismo - Características

Autores, características e tendências

Este movimento é formado, no Brasil, pelos escritores sertanistas românticos e pela poesia social de Castro Alves e Sousândrade. Estes apresentavam produções bastante próximas dos pressupostos estéticos e ideológicos do Realismo que dão origem à literatura realista brasileira.

O período de dominância da literatura realista-naturalista iniciou-se com a publicação do primeiro romance realista: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, e do primeiro romance naturalista, O Mulato, de Aluísio Azevedo em 1902. Com a publicação de Canaã, de Graça Aranha, ocorreram rupturas com os padrões do Naturalismo. No final do séc XIX, o declínio do Realismo-Naturalismo chega fazendo com que outras influências ganhem importância no meio artístico.

Machado de Assis (1839 - 1908)

Machado começa a trabalhar para Paulo Brito (dono de tipografia e livraria) corrigindo originais, revendo textos e vendendo livros. Entre os anos de 58 e 67, colaborou assiduamente em jornais e revistas (O Espelho, Correio Mercantil, "Diário do Rio de Janeiro", "Semana Ilustrada", "Jornal das Famílias") com contos, crônicas, críticas teatrais e comentários políticos. Em 1867 ingressa no funcionalismo, permanecendo até o fim de sua vida nesse setor, chegando ao cargo de Diretor da Secretaria Ministerial da Viação. No mesmo ano, casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, irmã do poeta português Faustino Xavier.

Em 1897, recebe o título de presidente perpétuo da Academia Brasileira de Letras.

1904 é o ano da morte da esposa, fazendo da dedicatória do seu livro Relíquias da Casa Velha (1906) uma homenagem à companheira com o soneto:

À CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas desta longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.
Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.
Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Morre em 1908, consagrado e rodeado de amigos.

Obs.:

A obra machadiana, pelo caráter universal que assume, independentemente do tempo e do espaço, requer uma classificação mais apurada e refletida que foge ao propósito deste material. Vale notar que todo grande escritor transborda, por assim dizer, a escola literária na qual é didaticamente inserido, sendo passível de outras leituras.

A grande fase que se inicia com Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance que inaugura fase Realista de Machado de Assis, é considerada a 1ª fase da obra machadiana.

Caracterização

Humor e ironia, uso da função metalinguística: quando das interrupções do narrador para uma conversa com o leitor e quando das digressões sobre variados assuntos.

Pessimismo niilista: influência de Shopenhauer.

Tema da miséria humana (egoísmo, adultério, corrupção, interesse, etc.
"[O homem] é uma errata pensante... Cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."

Universalismo: os temas abordados por Machado independem do tempo e do espaço porque se constituem em atitude essencialmente humanas.

Análise psicológica das personagens: metalinguagem, tema da miséria humana, ironia e sutileza acabam por aprofundar personagens cíclicas e complexas que o autor cria com habilidade e grandiosidade. Machado de Assis é considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa.

Veja o que diz o professor Alfredo Bosi:
"O ponto mais alto e mais equilibrado da prosa realista brasileira acha-se na ficção de Machado de Assis."

OBRAS MACHADIANAS

  • Desencantos (1861)
  • Crisálidas (1864)
  • Contos Fluminenses (1870)
  • Ressurreição (1872)
  • Teatro (1863)
  • Falenas (1870)
  • Histórias da Meia-Noite (1873)
  • A Mão e a Luva (1874)
  • Quase Ministro (1864)
  • Americanas (1875)
  • Helena (1876)
  • Poesias Completas (1901)
  • Papéis Avulsos (1822)
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
  • Páginas Recolhidas (1899)
  • História Sem Data (1884)
  • Dom Casmurro (1900)
  • Relíquias da Casa Velha (1906)
  • Várias Histórias (1895)
  • Esaú e Jacó (1904)
  • Memorial de Aires (1908)

Naturalismo

O Naturalismo é o Realismo interessado na colocação de teorias científicas. No Brasil, o romance A Carne (1887), de Júlio Ribeiro, é considerado a obra que, na sua estrutura, melhor expressa a estética naturalista.

Aluísio Azevedo e Raul Pompeia, com O Cortiço e O Ateneu, respectivamente, apresentam traços do Naturalismo. Além desses, pode-se destacar os seguintes autores: Inglês de Sousa (O Missionário, 1891), Adolfo Caminha (O Bom Crioulo, 1893), Manuel Oliveira Paiva (Dona Guidinha do Poço, 1897) e Domingos Olympio (Luzia - Homem, 1903).

1. Aluísio Azevedo, vida e obra

Aluísio Azevedo nasce em 1857, em São Luís do Maranhão

Aos 17 anos vai para o Rio de Janeiro onde estuda Desenho e Pintura na Escola de Belas Artes e colabora em jornais (O Fígaro, O Mequetrefe, Semana Ilustrada, Zig-Zag, entre outros), como chargista político.

Em 1897, morre seu pai e Aluísio regressa ao Maranhão. Nesse mesmo ano, publica Uma Lágrima de Mulher, um romance com feições românticas. Em 1880, ajuda no lançamento de um jornal voltado para criticar o clero de São Luís, chamado O Pensador.

Entre o jovem Aluísio e a cidade São Luís (então apelidada de Atenas brasileira) só havia incompreensão e hostilidade. Conservadora e provinciana, São Luís não acolheu o artista e escritor, que recebeu severas críticas quando da publicação de O Mulato (1881), como por exemplo a do redator Euclides Faria, do jornal do clero maranhense, A Civilização: "Precisamos de braços e não de prosas em romances. À lavoura, meu estúpido! À lavoura!"

Retorna ao Rio de Janeiro, trabalhando intensamente na imprensa, para se manter. Publica, em folhetim, Memórias de um Condenado, na A Gazetinha e Mistério da Tijuca na Folha Nova, simultaneamente em 1882. Editados os livros, têm seus títulos modificados para Condessa Vésper (1902) e Girândola de Amores (1900). No entanto, esses romances se mostram inferiores a O Mulato. Com Casa de Pensão (1884) - baseado na "Questão Capistrano" que ocorrera no Rio nos anos de 1876 - 1877, na casa de D. Júlia Clara Pereira, professora de piano que aceita pensionistas, entre eles João Capistrano da Cunha, que acaba mantendo um caso amoroso com a filha da professora, também chamada Júlia Capistrano; levado ao tribunal e absolvido é morto por Antonio Alexandre, irmão de Júlia - Aluísio dá uma guinada qualitativa em suas obras. Em 1885, publica o romance O Coruja, em 1897 é eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Aluísio elaborou um projeto de um grande painel da vida social brasileira aos moldes do painel social de Eça de Queirós. O painel chamar-se-ia Brasileiros Antigos e Modernos e do qual fariam parte os seguintes romances: A Família Brasileira; O Felizardo; A Loureira; A Bola Preta e O Cortiço (1890). Apenas O Cortiço chegou a ser concretizado, pois Aluísio trocou a carreira literária pela diplomacia. Serviu como cônsul na Espanha, Japão, Inglaterra, Itália e Argentina onde veio a falecer em 1913.

Obras

Romances Românticos: Uma Lágrima de Mulher, 1880; Mistérios da Tijuca (ou Girândola dos Amores), 1882; Memórias de Um Condenado (ou Condessa Vésper), 1882; Filomena Borges, 1884; A Mortalha de Alzira, 1894.

Romances Naturalistas: O Mulato, 1881; Casa de Pensão, 1884; O Coruja, 1885; O Homem, 1887; O Cortiço, 1890; O Livro de Uma Sogra, 1895.

Escreveu ainda: conto, teatro e crônica.

Características Principais

Sua produção literária mescla o Romantismo e o Realismo-Naturalismo. Por um lado, escrevia porque apreciava a literatura e as artes e, por outro, pela necessidade de sobrevivência.

Romance social: nos livros melhor realizados, revela extraordinário poder de dar vida aos agrupamentos humanos, às habitações coletivas, onde os protagonistas vão, social e econômica e dos impulsos irreprimíveis da sexualidade, taras e vícios.

Visão rigorosamente determinista do homem e da sociedade.

Utilizou a técnica do tipo, deformando, pelo exagero, os traços, criando verdadeiras caricaturas. Não conseguiu criar personagens que pudessem transcender às condições sociais que as geraram. As personagens são psicologicamente superficiais e subsistem apenas em função de contextos predeterminados. Não há drama moral, os protagonistas são vistos "de fora", e a tragédia em que as tramas desembocam decorre apenas do fatalismo das doutrinas deterministas.

Influência de Eça de Queirós e Émile Zola.

2. Raul Pompeia, vida e obra

Raul Pompeia nasceu em Jacuencangá (Angra dos Reis, R.J), no ano de 1863. Aos 10 anos entrou para o Colégio Abílio como interno, onde acumulou experiência e elementos para escrever mais tarde o romance O Ateneu, que seria uma "crônica de saudades". No entanto, "não se pode tomar ao pé da letra que o Ateneu seja o mesmo colégio Abílio. Na vida de Raul Pompeia, o diretor Abílio César Borges, Barão de Macaúbas, gozou de uma lembrança bem contrária daquele ódio que Aristarco desperta em Sérgio, narrador e protagonista. Em 1891, quando morreu o famoso barão, Pompeia dedicou-lhe verdadeira homenagem"(Mário Curvello, em Literatura Comentada, Editora Abril, 1981).

Mais tarde, foi transferido para o Colégio Pedro II, que recebia constantes visitas do Imperador que lhes prescrevia normas e disciplinas. Nessa época escreveu Uma Tragédia na Amazônia.

Em 1881, matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde teve uma intensa vida política. Abolicionista e republicano, além de jornalista e orador, Raul Pompeia começou a ser perseguido pelos escravocratas, principalmente após uma charge contra o "Diário de Campinas", órgão de proprietários rurais. A Faculdade refletia o clima político e, em 1884, foi reprovado nos exames finais. Em 1885, juntamente com 94 colegas, transferiu o curso para Recife.

De volta ao Rio, frequentou os cafés, a rua do Ouvidor, participou de discussões políticas e literárias com Coelho Neto, Aluísio Azevedo, Luís Murat, Olavo Bilac, Machado de Assis, Capistrano de Abreu... A partir de 1891, não escreveu mais obras literárias, interessou-se apenas por política.

A instabilidade política do país, as rebeliões, a sucessão do presidente Floriano Peixoto por Prudente de Morais acabam levando o autor a romper com vários colegas do tempo de estudante. Rompeu, principalmente, com Olavo Bilac, desafiando-o para um duelo, que nunca se realizou.

Professor de Mitologia da Escola de Belas-Artes e depois diretor da Biblioteca Nacional, acabou sendo destituído do cargo, logo após a morte do presidente Floriano Peixoto.

Florianista, desacatou o novo presidente quando se encontrava no cemitério rendendo as últimas homenagens a Floriano. Luís Murat publica um panfleto (Um Louco no Cemitério) com severas críticas à atitude de Pompeia, além de concordar com a demissão da Biblioteca Nacional e chamá-lo de covarde na questão do desfecho do duelo com Bilac.

"À Notícia e ao Brasil declaro que sou homem de honra: 25 de dezembro de 1895. Raul Pompeia".

Eis o bilhete deixado por Pompeia ao Jornal Gazeta de Notícias antes de se suicidar.

Grande parte de sua produção está dispersa em jornais em que colaborou, como " Microscópio"(contos), "Agonia"(romance) e "Alma Morta"(meditações).

Obras

Uma Tragédia no Amazonas, 1880; Joias da Coroa (em folhetim na "Gazeta de Notícias" - RJ), 1882; Canções Sem Metro (poesia, no "Jornal do Comércio" - SP), 1883; O Ateneu (folhetim na "Gazeta de Notícias"), 1888.

O Ateneu (1888)

Subtítulo: Crônica de Saudades
"Vais encontrar o mundo, disse meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta."

Narrado em 1ª pessoa, Sérgio recupera através da memória (tempo psicológico) episódios de sua passagem pelo colégio interno o Athenaeum, "o grande colégio da época".
Sérgio expressa o descrédito em relação ao diretor, Dr. Aristarco Argolo de Ramos, devido ao seu caráter autoritário e arrogante.
"Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa."
A sequência de episódios constitui a vida do internato: as aulas, a sala de estudos, a ginástica e a piscina, os passatempos e as leituras, o dormitório e o refeitório, as brigas e os casos amorosos, o grêmio literário "Amor ao Saber", a fanfarra, as comemorações cívicas, a morte do colega Franco, vítima da má educação de casa e dos maus tratos do Ateneu, etc.
Além disso, os amigos de turma: "eram cerca de vinte: uma variedade de tipos que me divertia: o Gualtério, o Nascimento, o Álvares, o Mânlio, o Almeidinha, o Maurílio, o Negrão, o Batista Carlos, o Cruz, o Sanches e o resto, uma cambadinha indistinta, adormentados nos últimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala."
É dado destaque ao relacionamento homossexual latente entre os colegas, como o caso de Cândido Lima (Cândida) e Emílio Tourinho ou como o do próprio Sérgio com Bento Alves: "estimei-o femininamente porque era grande, forte, bravo; porque podia me valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse ânimo de ser amigo."
Aristarco acaba personificando, apesar da antipatia de Sérgio, a figura paterna e sua mulher, D. Ema, por quem Sérgio nutre um amor platônico, assume a postura de mãe.
"Olhei furtivamente para a senhora. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras, lúcidas, numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos, pensava eu."
No fim, Sérgio encontra um amigo, o Egbert, e passa para um ambiente mais adulto e masculino descrevendo os hábitos, as fugas noturnas, etc. E termina o romance com o incêndio "propositadamente lançado pelo Américo", um aluno revoltado, colocado à força pelo seu pai no internato.
E o autor conclui: "Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo - o funeral para sempre das horas".

Sumário

- Autores, características e tendências
- Machado de Assis
- Naturalismo
i. Aluísio Azevedo, vida e obra
ii. Raul Pompeia, vida e obra
- Realismo Em Portugal - Prosa
i. Panorama Histórico
ii. Caracterização
- Realismo Em Portugal - Poesia
i. Questão Coimbrã
ii. Poesia Realista
iii. Antero de Quental, vida e obra
iv. Cesário Verde, vida e obra
- A Prosa de Ficção
i. Eça de Queiroz, Vida e Obra
- Antologia
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