Modernismo e Pós-Modernismo - Características

Localização Cronológica

Portugal

1915 - Revista Orpheu

Brasil

1922 - Semana de Arte Moderna

O Abaporu, Tarsila do Amaral
O Abaporu, Tarsila do Amaral

Panorama Histórico

Início do século XX: apogeu da Belle Époque. O burguês comportado, tranquilo, contando seu lucro. Capitalismo monetário. Industrialização. Neocolonialismo.

Reivindicações de massa. Greves. Turbulências sociais. Melhores salários. Melhores condições de vida e trabalho.

Progresso científico: eletricidade. Motor a combustão: automóvel e avião. Concreto armado: “arranha-céu”. Telefone, telégrafo. Mundo da máquina, da informação, da velocidade.

Primeira Guerra Mundial. Alemanha, França e Inglaterra. Revolução Russa. Socialismo. Ameaça. Clima de caos. Desarticulação social. Descontentamento - Insatisfação. Agitações.

Abolir todas as regras. Abolidas. Primeira Guerra, o que aconteceu? Abolir. Romper. O passado é responsável. O passado, sem perfil, impessoal. Eliminar o passado. Romper com o passado responsável.

Arte Moderna. Inquietação. Nada de modelos a seguir. Recomeçar. Rever. Reeducar. Chocar. Buscar o novo: multiplicidade e velocidade, originalidade e incompreensão, autenticidade e novidade.

Vanguarda. Estar à frente, repudiar o passado e sua arte. Abaixo o padrão cultural vigente. Arte Moderna. Modernismo.

Vanguardas Europeias

Cronologicamente, as vanguardas europeias são: Futurismo (1909); Expressionismo (1910); Cubismo (1913); Dadaísmo (1916) e Surrealismo (1924) e suas variantes como o Cubo-Futurismo, o Dado-Surrealismo, entre outras.

As Vanguardas propõem uma integração entre as artes: Literatura, Artes Plásticas, Arquitetura, Música, Teatro e Cinema, expressando o caos, a crise, os novos valores e desencadeando as perspectivas da Arte no século XX.

Impressões:

- À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica; Tenho febre e escrevo - (Fernando Pessoa)

- O olho só funciona em estado selvagem - (André Breton)

- Desejamos demolir os museus e as bibliotecas. - (Filippo T. Marinetti)

- A Arte deve ser inestética ao extremo, inútil e impossível de justificar. - (Francis Picabia)

- A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. - (Oswald de Andrade)

- No pequeno tanque que vocês chamam de Pensamento, os raios de luz do espírito apodrecem como folha velha. - (Antonin Artaud)

O romper do século XX traz inquietações em relação aos valores artísticos. O instigante e convulsivo mundo novo exige uma tomada de posição mais próxima, adaptada e integrada ao moderno. O que é moderno? A dúvida permanece até hoje. Talvez moderno seja hic et nunc (= aqui e agora); talvez o que se faz novo, inusitado, original; talvez o que se refaz - ready made. Ou, então, o que se revisa e recupera estabelecendo uma nova visão. O fato é que, analisar o momento, vivendo o momento, necessita de cautela e, assim, moderno no início do século XX é vanguarda (= avant gard, frente, dianteira, ideias avançadas): as Vanguardas Europeias.

Tempo de crise e caos, o estabelecido é abalado e não há mais modelos a seguir. Vale ressaltar que a destrutividade, a combatividade e a originalidade das vanguardas, avançando sobre a arte do século XX, abarcaram os novos valores da sociedade e, reveladoras, apresentam seu significado histórico. Passado o momento de agitação e recusa, e cumprido o objetivo a que se propunham, as vanguardas, absorvidas pelo cotidiano moderno, acabam estabilizando-se. Muitas obras de sua produção tomam parte de acervos de museus por elas recusados.

A seu tempo, as vanguardas abrem espaços para a arte do século XX.

Futurismo

O primeiro “Manifesto do Futurismo” é publicado em 20 de fevereiro de 1909 por Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944) no jornal francês “Le Figaro”. Propõe a exaltação da vida moderna, da máquina, da eletricidade, da velocidade.

  1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito à energia e à temeridade.
  2. Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a audácia e a revolta.
  3. Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada e o soco.
  4. Nós declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre adornado de grossos tubos como serpentes de fôlego explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a “Vitória de Samotrácia”.
  5. Não há mais beleza senão na luta. Nada de obra-prima sem um caráter agressivo. A poesia deve ser um assalto violento contra as forças desconhecidas, para intimá-las a deitar-se diante do homem.
  6. Nós estamos sobre o promontório extremo dos séculos! ... Para que olhar para trás, no momento em que é preciso arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós vivemos já no absoluto, já que nós criamos a eterna velocidade onipresente.
  7. Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutivo anarquista, as belas ideias que matam, e o menosprezo à mulher.
  8. Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.

(MARINETTI, F.T. “Manifesto do Futurismo” Apud. TELES, Gilberto Mendonça, Vanguarda Europeia e Modernismo Brasileiro)

Em 1912, surge o Manifesto Técnico da Literatura Futurista que apresenta um aeroplano sobrevoando Milão com a hélice em “desejo furioso” de libertar as palavras da “inanidade ridícula da velha sintaxe herdade de Homero”. Libertar as palavras da “prisão do período latino” é o que a hélice prega:

  • É preciso destruir a sintaxe, dispondo os substantivos ao acaso, como nascem.
  • Deve-se usar o verbo no infinitivo, para que se adapte elasticamente ao substantivo e não submeta ao eu do escritor que observa ou imagina (...).
  • Deve-se abolir o adjetivo para que o substantivo desnudo conserve a sua essência (...).
  • Deve-se abolir o advérbio, velha fivela que une as palavras umas às outras. O advérbio conserva a frase numa fastidiosa unidade de tom.
  • (...)

O Futurismo escreve mais de 30 manifestos

O Futurismo escreve mais de trinta manifestos (à Literatura, à Pintura, à Música, à Arquitetura etc.) e seu líder, Marinetti, viajando pelo mundo para difundi-lo, acaba tornando-se sinônimo do movimento: Marinetti = Futurismo. Depois de 1919, Marinetti adere ao fascismo de Mussolini e coloca-se como porta-voz das conquistas do Duce.

Filippo Marinetti esteve no Brasil duas vezes. Em 1926, no Teatro Cassino Antártica para difundir o Futurismo, recebido por uma plateia irreverente - munida de ovo choco, gaita, tomate, corneta etc. - comporta-se ironicamente dizendo: “Essa vaia não me atinge. Os senhores não podem ser meus inimigos, pois nem sequer conhecem minhas ideias. Meus inimigos são seus professores que os induzem a vaiar. Vê-se que São Paulo é um estado rico...”. Em 1935, volta para falar do fascismo: as conquistas de Mussolini na Abissínia, na Etiópia. É recebido entusiasticamente pelos membros do Integralismo (Camisa Verde de Plínio Salgado) aos brados de “Anauê! Anauê!”. É uma recepção amorosamente ideológica.

Oswald de Andrade toma conhecimento do Futurismo em suas várias viagens à Europa. A palavra futurismo, aqui no Brasil, acaba designando qualquer postura inovadora na Arte. Tanto é que, em 1921, Oswald, para saudar Mário de Andrade, escreve um artigo intitulado “O Meu Poeta Futurista”. Mário não gosta. Teme a identificação com o fascismo e responde no prefácio de Pauliceia Desvairada: “Não sou Futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de contato com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me de futurista, errou”.

A propósito da primeira estada de Marinetti no Brasil, Mário é incisivo: “Esse carcamano veio fazer a gente perder quase a metade do caminho andado”.

Expressionismo

Distorcendo as formas, produzindo traços violentos e de formação expressivas, o grupo expressionista abandona a suavidade dos motivos e aproxima-se da caricatura e do grotesco. Van Gogh e E. Munch; Erich Heckel, Max Beckmann e Otto Dix (do grupo Die Brüecke - A Ponte, 1905); Egon Schiele, Gustav Klimt; Rivera, Orozco, Siqueiros (mexicanos); Portinari, Segall, Anita Malfatti.

Kasimir Edschmid escreve o único e tardio manifesto da poesia expressionista, onde pode-se destacar o seguinte trecho:

Assim o universo total do artista expressionista torna-se Visão. Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestalt). Ele não colhe, ele procura. Agora não existe mais a cadeia dos fatos: fábricas, casas, doenças, prostitutas, gritaria e fome. Agora existe a visão disso. Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão do artista os atravessa para agarrar o que se encontra além deles. (...)

Cubismo

No intuito de reeducar o olho buscando uma nova noção de perspectiva e proporção, o Cubismo subverte a realidade. Veja o que diz um dos principais representantes, Pablo Picasso: “Eu não pinto uma mulher, eu pinto um quadro (...) não vejo a natureza como ela é, ela é como eu a vejo.”

Os pintores - Picasso, Georges Braque, Juan Gris, Fernand Léger, André Lothe - afirmam que as coisas existem a partir das relações e mudam de aparência de acordo com o ponto de vista escolhido para observá-las. Fragmentam o objeto e reorganizam as partes em um sistema de sobreposição e simultaneidade - colagem.

Na literatura, em 1913, Guillaume Apollinaire (1880-1918) assina o manifesto - síntese que, entre outras coisas, destaca a preocupação com a construção do texto e ressalta a importância dos espaços em branco e em preto da folha de papel (composição gráfica que influencia a chamada Poesia Concreta brasileira da década de 60). Além disso, propõe a liberdade de criação, o uso do verso livre, a ausência de pontuação.

Cubo Futurismo

Em 1912, sai o manifesto Bofetada no Gosto Público, assinado por Burlink, Kruchenik, Maiakovski, Khlebnikov. Articula as propostas do Futurismo italiano com o Cubismo francês. Apregoa a “poesia de nossa época”, rompendo drasticamente com o passado e assumindo as bases da Revolução Russa de 1917. Destaca, ainda, o princípio de coautoria, a recusa de dados autobiográficos, a valorização do teatro como forma de literatura mais acessível às massas e a poesia como ofício.

Impressões:

Aos leitores do nosso povo, primitivo, inesperado.

Somente nós somos o rosto do nosso tempo. A corneta do tempo ressoa na nossa arte verbal (...).

Do alto dos arranha-céus discernimos a sua nulidade! Ordenamos que se respeite o direito dos poetas:

  1. a ampliar o volume do vocabulário com palavras arbitrárias e derivadas (neologismos);
  2. a odiar sem remissão a língua que existiu antes de nós;
  3. a repelir com horror da própria fonte altaneira a coroa daquela glória barata que fabricastes com as escovas de banho;
  4. a estar fortes sobre o escolho da palavra “nós”, num mar de assobios e indignações.

E se em nossos rabiscos ainda restam rastros do vosso “bom sentido” e do vosso “bom gosto”, nestes, todavia, já palpitam, pela primeira vez, as lâmpadas de nossa futura beleza da palavra autônoma (autoevoluída).

Dadaísmo

O mais radical movimento de vanguarda. Dadá significa nada. É a negação total, a apologia do absurdo e do incoerente, do casual e do lúdico, do nonsense.

Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra os manifestos, como sou também contra os princípios (...)

Fundado em 1916, na Suíça (Cabaret Voltaire), por refugiados de guerra (Hugo Ball, Marcel Janco, Hans Arp, Francis Picabia, Vicente Huidobro, Tristan Tzara), prega a destruição:

(...)

Eu destruo as gavetas do cérebro e as da organização social: desmoralizar por todo lado e lançar a mão do céu ao inferno, os olhos do inferno ao céu, restabelecer a roda fecunda de um circo universal nos poderes reais e na fantasia de cada indivíduo(...)

Lúdica e reaproveitadora (ready-made), a linguagem Dadá protesta contra a linguagem tradicional: não há sintaxe, não há verbo, não há nada.

Veja como se faz um poema dadaísta segundo Tristan Tzara:

Pegue um jornal
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.

E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

Veja, agora, outros trechos do Manifesto Dadá de 1918:

Sabe-se pelos jornais que os negros Krou denominaram a cauda de uma vaca santa: DADÁ. O cubo é a mãe em certa região da Itália: DADÁ. Um cavalo de madeira, a ama de leite, dupla afirmação em russo e em romeno: DADÁ.
DADÁ NÃO SIGNIFICA NADA
A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque a beleza está morta.
Como querer ordenar o caos que constitui esta infinita informe variação: o homem? O princípio: “ama teu próximo” é uma hipocrisia. “Conhece-te” é uma utopia, porém mais aceitável porque contém a maldade. Nada de piedade. Após a carnificina, resta-nos a esperança de uma humanidade purificada.
... nasceu DADÁ de um desejo de independência, de desconfiança na comunidade. Aqueles que nos pertencem conservam sua liberdade. Nós não reconhecemos nenhuma teoria.

Surrealismo

Paris, 1924. André Breton (1896-1970) lança o Manifesto Surrealista. Oriundo do Dadaísmo, o Surrealismo é um movimento pós Primeira Guerra e, como tal, absorve os traumas econômico-político-sociais desse período. Baseado nas outras vanguardas (Futurismo, Expressionismo, Cubismo), estabelece o estudo aprofundado de conteúdos ainda não explorados: sondagem do primitivo e do subconsciente, do inconsciente, do sonho e da loucura, dos estados alucinatórios, enfim, de tudo quanto é avesso ao racional e positivista.

Veja como foi conceituado o Surrealismo:

SURREALISMO, n.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se pretende exprimir, verbalmente ou por escrito, ou de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado pelo pensamento, na ausência de qualquer vigilância exercida pela razão, para além de qualquer preocupação estética ou moral.

ENCICL. Filos. O surrealismo assenta na crença da realidade superior de certas formas de associação, negligenciadas até aqui, no sonho todo-poderoso, no jogo desinteressado do pensamento. Tende a arruinar definitivamente todos os outros mecanismos [psíquicos] e a substituir-se a eles na resolução dos principais problemas da vida. Fizeram profissões de SURREALISMO ABSOLUTO os senhores Aragon, Baron, Boiffard, Breton, Carrive, Crevel, Delteil, Desnos, Éluard, Gérard, Limbour, Malkine, Morise, Naville, Noll, Péret, Picon, Soupalt, Vitrac.

Na Literatura, a escrita automática, a maneira do escritor deixar-se levar pelos impulsos e emoções, sem se preocupar com o encadeamento lógico dos fatos, é a grande conquista:

Mande vir com que escrever, depois de se ter instalado num lugar tão favorável quanto possível à concentração do seu espírito sobre si mesmo. Coloque-se no estado mais passivo, ou receptivo, que puder. Abstraia do seu gênio, dos seus talentos e dos de todos os outros. Repita a si mesmo que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa sem assunto prévio, suficientemente depressa para não parar e não ter tentação de reler.

O nome Surrealismo vem de sugestão de Guillaume Apollinaire que, em 1917, classifica sua peça As Mamas de Tirésias como drama surrealista.

O Século da Máquina, o Século da Eletricidade ganha grandes avanços científicos. O austríaco Freud (1856-1939) publica A interpretação dos Sonhos (1900), Três Contribuições a uma Teoria Sexual (1905) e outros livros onde analisa o que denominou “complexo de Édipo”: o conjunto de relações que vinculam a criança a seus pais. Para Freud, essas relações constituem o núcleo central da personalidade e seu desenvolvimento não regular acaba se tornando o principal responsável pelas neuroses e psicoses.

Em 1905, Albert Einstein elabora a Teoria da Relatividade, colocando a noção do espaço-tempo como relativa; Max Planck esboça a Teoria dos Quanta, segmentando o conceito de energia discreta; N. Bhor traça os modelos da física atômica e molecular. É o começo da pesquisa de estado sólido (componentes semicondutores) e da física do plasma. A eletrônica se desenvolve.

A Antropologia parte para a pesquisa de campo, sistematizando sociedades através de B. Malinowski (1884-1942) e outros. A Linguística é estruturada por F. Saussure (1857-1913) e, posteriormente por R. Jakobson (1896) com as funções da linguagem (emotiva, referencial, apelativa, fática, poética e metalinguística).

No cinema, Fritz Lang, cineasta alemão, apresenta Metropolis onde aparece o “homem máquina” da ficção científica. Eiseustein faz o Encouraçado Potenkin; Mário Peixoto, brasileiro, filma Limite; Charles Chaplin cria Tempos Modernos. É o começo das produções cinematográficas.

A música passa a ser ouvida simultaneamente ao ruído da máquina. É a música da máquina ou a música com a máquina. O aperfeiçoamento técnico aparece em todas as atividades artísticas: cinema, música, dança, teatro, revistas em quadrinhos, literatura, arquitetura, pintura, etc.

Modernismo em Portugal 

1915 / Hoje - Revista Orpheu

Contexto Histórico

Portugal do início do século XX assiste a uma fase particularmente agitada de sua política: o descontentamento com o regime monárquico, retrógrado e anacrônico, e o ufanismo republicano que visa colocar o país em compasso com as grandes nações imperialistas europeias chocam-se. O rei adota a emigração de grandes contingentes para as colônias de além-mar, a fim de buscar matérias-primas e agrícolas para suprir as indústrias têxtil e alimentícia da Metrópole.

Em 1910, depois de quase quarenta anos de pressão, proclama-se a República. Os republicanos, através da economia imperialista, sustentam o novo regime. Nota-se, então, que, comparativamente, não há grandes transformações na organização econômica do país. Entretanto, o que sobressai na vida portuguesa é uma participação mais acentuada dos intelectuais junto ao governo, pois, desde o primeiro momento, os intelectuais republicanos difundiram ativamente o processo de conscientização e modernização de Portugal.

Os republicanos bipartem-se: por um lado, os Conformados, que veem na República a continuação dos ideais seculares, através da exploração das colônias; por outro, os insatisfeitos, que formam o Grupo Integralista. Os integralistas assumem o poder em 1926 e em 1933 aparece a ditadura militar, apoiada pela nazificação da Alemanha e pela Guerra Civil Espanhola (1936).

É nesse contexto de agitação que desponta o Modernismo português.

Modernismo em Portugal - Desenvolvimento

Em 1910, forma-se o Grupo Renascença Portuguesa em torno da revista A Águia, publicada por Teixeira de Pascoaes, pregando o saudosismo. Objetiva o robustecimento cultural do novo regime político. Para Teixeira de Pascoaes, “a alma portuguesa gerou nas suas entranhas, penetradas por uma luz celeste, a saudade, a nebulosa do futuro Canto Imortal, o Verbo do novo mundo português. A Saudade de Viriato, Afonso Henriques e Camões desmaterializados, reduzidos a um sentimento, postos em alarma extremo. A Saudade é o próprio sangue espiritual da raça; o seu estigma divino, o seu perfil eterno, (...) É na Saudade revelada que existe a razão da nossa Renascença; nela ressurgiremos, porque ela é a própria Renascença original e criadora.”

Entre os seguidores da Renascença Portuguesa, pode-se citar: Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.

O ano de 1915 marca o aparecimento da revista “Orpheu” (fundada, entre outros, por Luís de Montalvor, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada-Negreiros e o brasileiro Ronald de Carvalho) dando continuidade ao saudosismo de Pascoaes e buscando a necessidade de renovação de fundo/conteúdo e de forma/estilo, procurando criar uma poesia viva, distante da estagnação da vida intelectual portuguesa da época.

I Fase: Geração Orpheu

1915 - Revista Orpheu

1927 - Revista Presença

II Fase: Geração Presença

1927 / 1940

Revista Presença

Gaibéus de Alves Redol

A geração da Revista Presença dá continuidade ao Modernismo português lançado pela Revista Orpheu. Entre estas duas revistas, surgiram outras: Centauro (1916), Portugal Futurista (1917), Anthena (1924-1925), Contemporânea (1922-1926).

O programa da Presença é vasto e busca a consolidação das conquistas da primeira fase através de uma preocupação com a própria arte, fazendo a “arte pela arte” ou “literatura artística”. Segundo José Régio: “a finalidade da arte é apenas produzir-nos esta emoção tão particular, tão misteriosa, e talvez tão complexa: a emoção estética (...). O ideal do artista nada tem com o do moralista, do patriota, do crente ou do cidadão (...) tanto o que se chama um vício, como o que se chama uma virtude podem ser poderosos agentes de criação artística: podem ser elementos de vida de uma obra”.

O programa estabeleceu, ainda, a ênfase individual, o intuitivo sobre o racional, a introspecção, o social, desvinculando a arte de qualquer compromisso religioso, econômico ou filosófico; estabelece a ênfase da “literatura viva” (entende-se por “literatura viva”, segundo José Régio, no primeiro número da Presença, “aquele em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria”) sobre a “literatura livresca”.

III Fase: Neorrealismo

1940 / hoje

Gaibéus de Alves Redol

“Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem.”

Repudiando a metafísica e o psicologismo presencista, os autores da terceira geração do Modernismo português destacam a miséria dos pobres em contraste com a opulência dos ricos, revelando as contradições da sociedade em crise, analisando a vida dos camponeses e do proletariado; em suma, abordando a problemática do desenvolvimento industrial dentro de Portugal, país eminentemente agrário.

Assumem uma postura antiburguesa, socialista, antitradicionalista e republicana. Daí a semelhança com os autores da chamada “Geração de 70” (Realistas do século XIX, Eça de Queirós, Antero de Quental etc.); daí o rótulo de Neorrealistas. Antônio José Saraiva resume o programa neorrealista: “Uma visão mais completa e integrada dos homens, a consciência do dinamismo da realidade e a identificação do escritor com as forças transformadoras do mundo”.

Apresentando influência da literatura norte-americana (John Steinbeck, John dos Passos, Ernest Hemingway) e da literatura brasileira (Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Raquel de Queirós), o Neorrealismo apresenta, entre outros, os seguintes autores: Alves Redol, Manuel da Fonseca, Virgílio Ferreira, Fernando Namora, Ferreira de Castro.

Surrealismo em Portugal

A introdução do Surrealismo em Portugal dá-se com mais de uma década de atraso, em relação ao primeiro manifesto do Surrealismo (1924), de André Breton, na França. O Surrealismo aparece em Lisboa como “resposta ao Neorrealismo, como via alternativa, em franca oposição àquelas palavras de ordem” (engajamento, intervenção, crítica, etc.). De certo modo, a resistência ao radicalismo de esquerda (stalinismo) e de direita (salazarismo) se constitui fundamental para os surrealistas portugueses. Realismo e fascismo não passam de duas formas equivalentes, opostas apenas aparentemente.

Em lugar da literatura realizada a partir de determinados pressupostos temáticos e ideológicos, a Escola Surrealista propõe uma forma de criação livre explorando o anímico, o onírico e o inventivo sem a inibição de racionalismos, de moralismos e de tradicionalismos. Mário Cesariny de Vasconcelos e outros propõem a verdadeira revolução: o desregramento dos sentidos humanos; a desordem e o caos; a libertação dos poderes imaginativos por meio do sonho, da magia. Tudo em busca de romper com a falsa ordem que há séculos predomina através da tradição castrodra que, na opinião dos surrealistas, nada mais é do que a literatura Neorrealista.

O fato é que, em essência, Neorrealismo e Surrealismo assumem atitudes revolucionárias na literatura. Olham a revolução de maneira diferente, mas contribuem exemplarmente para descrever, narrar e refletir sobre Portugal do século XX.

Participam do movimento, entre outros, Mário Cesariny de Vasconcelos, Antônio Maria Lisboa, Alexandre O´Neil, Antônio Pedro, Agustina Bessa-Luís.

Fernando Pessoa

(Lisboa, 1888-1935)

Cena do filme Terra Estrangeira de Walter Salles e Daniela Thomas.
Cena do filme Terra Estrangeira de Walter Salles e Daniela Thomas. Paco, um dos protagonistas da história, recita Fernando Pessoa em algumas cenas.

“o mytho é o nada que é tudo”.

(“Ulysses” in Mensagem)

“Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.”

(“Pecado Original” in Poesia de Álvaro de Campos)

Poeta de obra complexa e vasta em que se constatam o relativismo, o fragmentário do mundo e a procura do referencial absoluto. Ser e estar, haver e ter. Na tentativa de expressar a angústia, o desespero e a solidão, Fernando Pessoa destitui-se a cada nova invenção, buscando-se em várias pessoas ou, então, em uma pessoa de falas diversas.

“A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta”.

Pessoa - poeta por convicção e vocação - encarna, se assim se pode dizer, o ofício de poetar como uma missão divina e eterna, preenchendo a insignificância da vida.

"Órfão de pai, é levado por sua mãe e seu padrasto para a África do Sul: Durban, onde passa a infância e a adolescência e, depois na Cidade do Cabo (1903-1904) onde frequenta a universidade. Em 1905, regressa a Portugal e prossegue seus estudos no Curso Superior de Letras.

Vive como correspondente comercial de várias empresas desde 1908 até o fim da vida.

Confessa-se “histeroneurastênico”, com uma tendência orgânica constante para a despersonalização e simulação. Daí a criação dos heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, entre outros.

Fernando Pessoa, parece, desde cedo sentiu essa necessidade de criar heterônimos; o primeiro, aos seis anos, foi “um certo Chevalier de Pas”, por quem escrevia cartas dele para ele mesmo. Além dos citados, o poeta define um “semi-heterônimo”, Bernardo Soares (cujo textos se encontram no Livro do Desassossego), em carta a Adolfo Casais Monteiro de 13/11/1935:

“(...) o meu semi-heterônimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterônimo porque, não sendo a personalidade a minha, é não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afetividade. A prosa, salvo o que o raciocínio está de ‘tênue’ à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer ‘eu próprio’, em vez de ‘eu mesmo’ etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado.”

Obras

  • Poesias de Fernando Pessoa, 1942;
  • Poesias de Álvaro de Campos, 1944;
  • Poemas de Alberto Caeiro, 1946;
  • Odes de Ricardo Reis, 1946;
  • Mensagem, 1934;
  • Poemas Dramáticos de Fernando Pessoa, 1946;
  • Poesias Inéditas (1919-30), 1956;
  • Poesias Inéditas (1930-35), 1956;
  • Páginas de Doutrinas Estética, 1946;
  • Páginas Íntimas de Autointerpretação, 1966;
  • Páginas de Estética, Teoria e Crítica Literária, 1966;
  • Textos Filosóficos, 1968;
  • O Livro do Desassossego, 1962.

Todas são póstumas, com exceção de Mensagem, única obra que Pessoa publicou em vida.

A seguir, há trechos da carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro a respeito da criação e descrição dos heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis:

Ricardo Reis nasceu em 1887 (...), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 (...).
(...) lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro - de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira - foi em 8 de março de 1914 - acerquei-me de uma cômoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevei trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, “O Guardador de Rebanhos”. (...)
(...) dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tanto poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa (...).
(...) Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de descobrir - instintiva e subconscientemente - uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome e ajustei a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a “Ode Triunfal de Álvaro de Campos - a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.
Criei, então, uma “coteri” inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei minhas influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. se algum dia eu puder publicar discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não nada na matéria (...)
(Campos). Este , como se sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inatividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil, (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos - o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma = só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias, fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.”

a) Fernando Pessoa, “ele mesmo”

Características de sua obra:

  • Sentimento filtrado através da razão intelectualizada;
  • Musicalidade suave e difusa;
  • Enigma do mundo, tédio, solidão;
  • Portuguesismo (apego ao folclore, à dança, ao mar, ao cais...) e sebastianismo (louvor aos heróis da história e lenda de Portugal; Ulisses, Viriato, d. Sebastião, Padre Antônio Vieira).

b) Alberto Caeiro

Características:

  • Camponês;
  • Mestre de Álvaro de Campos e Ricardo Reis;
  • Antifilosófico, guiado pelos instintos e inteligência;
  • Linguagem simples, ligada à natureza;
  • O Guardador de Rebanhos (1946).

ALBERTO CAEIRO
VISTO POR ÁLVARO DE CAMPOS

(...) E expliquei-lhe, mais ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro ouviu-me com uma atenção de cara dolorosa, e depois disse-me bruscamente:
“Mas isso é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião, e portanto sem desculpa nenhuma”.
Fiquei atônito, e apontei-lhe várias semelhanças entre o materialismo e a doutrina dele, salva a poesia desta última. Caeiro protestou.
“Mas isso a que você chama poesia é que é tudo. Nem poesia é: é ver. Essa gente materialista é cega. Você diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que eles viram isso no espaço?”
(...)
Este gênero de argumentação, cumulativamente infantil e feminina, e portanto irrespondível, atou-me o cérebro durante uns momentos.
“Mas você concebe isso?” deixei cair por fim.
“Se concebo o quê? Uma coisa é ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe. Existir é haver outra coisa qualquer e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma coisa é uma coisa, e não está sempre a ser uma outra coisa que está mais adiante?”
Nessa altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com outro universo. (...)

c) Ricardo Reis:

Características:

  • Médico;
  • Helenista, latinista, clássico;
  • Inspirado em Horácio;
  • Sintaxe clássica e vocabulário erudito;
  • Musa: Lídia.
  • Odes de Ricardo Reis (1946)

[Coroai-Me de Rosas]

COROAI-ME de rosas,
Coroai-me em verdade
de rosas -
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta

(Odes)

[LÍDIA]

VEM SENTAR-SE comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa.
Vais para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Enlacemos as mãos, porque não vale a pena
cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria.
E sempre iria ter ao mar.

(Odes)

d) Álvaro de Campos

Características:

  • Engenheiro naval;
  • Poeta do século XX: futurista;
  • Tema do desespero, da angústia e da solidão;
  • Veloz, técnico, caótico.

e) Bernardo Soares

Características:

  • Ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa;
  • Prosador;
  • Preocupado com a língua portuguesa;
  • Capta o cotidiano através de reflexões e análises.

Modernismo no Brasil - 2ª Fase: 1930

Para estudar esta fase é interessante conhecer a caracterização feita por Afrânio Coutinho, que consegue sintetizar em poucas palavras os elementos estéticos, bem como citar os autores mais importantes:

“A segunda fase colheu os resultados da precedente, substituindo o caráter destruidor pela intenção construtiva, “pela recomposição de valores e configuração da nova ordem estética” (Cassiano Ricardo). Cessada a batalha, as águas assentaram, e puderam os membros da nova geração tirar os efeitos do desmonte e aplicar as fórmulas estéticas obtidas com a revolução em tentativas de novas sínteses. A poesia prossegue a tarefa de purificação de meios e formas iniciada antes, ampliando a temática na direção da inquietação filosófica e religiosa, com Vinicius de Moraes, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, ao tempo em que a prosa alargava a sua área de interesse para incluir preocupações novas de ordem política, social e econômica, humana e espiritual. À piada sucedeu a gravidade de espírito, a seriedade da alma, propósitos e meios. Uma geração grave, preocupada com o destino do homem e com as dores do mundo, pelos quais se considerava responsável, deu à época uma atividade excepcional.

No entanto, foi principalmente na prosa que ela mais se elevou, desde quando, em 1928, com A Bagaceira de José Américo de Almeida e Macunaíma de Mário de Andrade, se inicia a “década do romance” modernista, início ruidoso de uma era de extraordinário esplendor, em que se distinguiu uma plêiade de artistas dotados de poderosa capacidade criadora. De um lado, a linha do estudo e do ensaio, com Gilberto Freyre, Afonso Arinos de Melo Franco, Otávio de Faria, Almir de Andrade, Euríalo Canabrava. Do outro lado, o grupo do renascimento do romance, na direção do neonaturalismo regionalista e social, a terra sobrelevando a tudo, com José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Raquel de Queirós, Amando Fontes, ou na linha da investigação psicológica, o mundo interior monopolizando as preocupações, com Cornélio Pena, José Geraldo Vieira, Otávio de Faria, Lúcio Cardoso, Ciro dos Anjos, João Alphonsus, Eduardo Frieiro, Érico Veríssimo”. (in “A Literatura no Brasil”, vol. VI)

2ª geração - Prosa - Romance Regionalista

1. Rachel de Queiroz

(Fortaleza, 1910... atualidade)

Rachel de Queiroz viveu parte da infância em Fortaleza, onde nasceu e iniciou seus estudos. A seca de 1915 atinge sua família (de proprietários rurais, no interior do estado), que se muda para o Rio de Janeiro, para Belém do Pará e novamente para Fortaleza. Em 1925 termina o curso Normal (Magistério). Em 1927 opta pelo jornalismo, publicando poemas e crônicas em jornais. Em 1930 (aos 20 anos) publica o romance O Quinze, que lhe angaria um prêmio e reconhecimento público. Muda-se para Rio em 1932. Milita no Partido Comunista Brasileiro e é presa em 1937, por suas ideias esquerdistas. A partir de 1940 dedica-se à crônica e ao teatro. Mora atualmente no Rio de Janeiro, dividida entre a atividade jornalística e a literatura. Rachel quebra uma velha tradição, e, em 1977, torna-se a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.

Sua literatura caracteriza-se, a princípio, pelo caráter regionalista e sociológico, com enfoque psicológico, que tende a se valorizar e a aprofundar-se à proporção que sua obra amadurece. Seu estilo é conciso e descarnado, sua linguagem fluente, seus diálogos vivos e acessíveis, o que resulta numa narrativa dinâmica e enxuta.

Obras:

Romances:

  • O Quinze e João Miguel (seca; coronelismo; impulsos passionais);
  • Caminho de Pedras e As três Marias (literatura engajada, esquerdizante, social e política, trata ainda da emancipação feminina);
  • O Galo de Ouro (folhetim em “O Cruzeiro”);
  • Memorial de Maria Moura (1992; surpreende seu público e é adaptado para a televisão).

Teatro:

  • Lampião;
  • A Beata Maria do Egito (raízes folclóricas);
  • A Sereia Voadora.

Crônica:

  • A Donzela e a Moura Torta;
  • Cem Crônicas Escolhidas;
  • O Brasileiro Perplexo - Histórias e Crônicas;
  • O Caçador de Tatu.

Literatura Infantil:

  • O Menino Mágico;
  • Andira.

2. José Lins do Rego

( Pilar, Paraíba 1901, Rio de Janeiro 1957 )

José Lins do Rego Cavalcanti nasceu no Engenho Corredor, em Pilar, Paraíba, em 1901. Formou-se em Direito em Recife onde se aproxima de José Américo de Almeida e Gilberto Freire, intelectuais responsáveis pela divulgação do modernismo no nordeste e pela preocupação regionalista. Transfere-se para Maceió, onde conhece Graciliano Ramos, e depois para o Rio de Janeiro, onde participa ativamente da vida literária. Sua infância no engenho influenciou fortemente sua obra.

Obras:

Romances

  • Menino de Engenho
  • Doidinho
  • Bangüê
  • O Moleque Ricardo
  • Usina
  • Pureza
  • Pedra Bonita
  • Riacho Doce
  • Água-mãe
  • Fogo Morto
  • Eurídice
  • Cangaceiro

Literatura infantil, memórias e crônicas

  • Histórias da Velha Totônia
  • Gordos e Magros
  • Seres e Coisas
  • Meus Verdes Anos

José Lins do Rego é considerado um dos melhores representantes da literatura regionalista do Modernismo. Suas obras Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê, Moleque Ricardo, Usina e Fogo Morto compõem o que se convencionou chamar de “ciclo da cana de açúcar”. Nestas obras J. L. Rego narra a gradativa decadência dos engenhos e a transformação pela qual passam a economia e a sociedade nordestina. Sua técnica narrativa se mantém nos moldes tradicionais da literatura realista: linearidade, construção do personagem baseado na descrição dos caracteres, linguagem coloquial, registro da vida e dos costumes. O tom memorialista é o fio condutor de uma literatura que testemunha uma sociedade em desagregação: a sociedade do engenho patriarcalista, escravocrata. As obras mais representativas desta fase são Menino de Engenho e Fogo Morto. A primeira é a história de um menino, órfão de pai e mãe, que é criado no Engenho Santa Rosa, de seu avô José Paulino, típico representante do latifundiário nordestino. Há momento de grande emoção na obra, como a descrição da enchente, o castigo dos escravos, a descoberta da própria sexualidade.

Fogo Morto é considerada sua melhor obra: dividida em três partes que se inter-relacionam, compõe um quadro social e humano do Nordeste. Mestre José Amaro, seleiro, orgulhoso de sua profissão, sofre as pressões do coronel Lula de Holanda, senhor do Engenho Santa Fé, em decadência econômica. Antônio Silvino, cangaceiro, é o terror da região e ataca os engenhos. O capitão Vitorino Carneiro da Cunha, lunático, é uma espécie de místico e profeta do sertão. Além destas obras, José Lins escreveu: Pedra Bonita e Cangaceiro, onde continua a traçar um quadro da vida nordestina, aproveitando agora elementos do folclore e do cordel. Estes romances pertencem ao “ciclo do cangaço, misticismo e seca”. Além destes, escreveu também Água-mãe e Eurídice, de ambientação urbana.

3. Graciliano Ramos

(Quebrângulo, Alagoas 1892-Rio De Janeiro 1953)

Graciliano Ramos completou seus estudos secundários em Maceió. Estabeleceu-se em Palmeira dos Índios, onde o pai vivia do comércio. Passou algum tempo no Rio de Janeiro onde trabalhou como revisor na Revista Imprensa. Regressando à Palmeira dos Índios para tornar-se prefeito da cidade, redige seu primeiro livro, Caetés. Viveu depois em Maceió onde conheceu alguns escritores do grupo regionalista: José Lins, Jorge Amado, Raquel de Queirós. Nessa época redige São Bernardo e Angústia. Envolvendo-se em política, é preso e acusado de comunista. Embora sem provas de acusação, passou algum tempo na prisão. Muda-se para o Rio de Janeiro, onde passa a escrever sua obra. Em 1945 ingressa no Partido Comunista e empreende uma viagem aos países socialistas, narrada no livro Viagem.

Cena do filme "Vidas Secas"

(Cena do filme "Vidas Secas" de Nelson Pereira dos Santos, baseado no romance de Graciliano Ramos).

Obras

  • Caetés, S. Bernardo
  • Angústia
  • Vidas Secas
  • Dois Dedos
  • Insônia
  • A Terra dos Meninos Pelados
  • Infância
  • Memórias do Cárcere
  • Histórias de Alexandre
  • Viagem
  • Linhas Tortas
  • etc...

Graciliano Ramos é, sem dúvida, o mais importante escritor da década de 30. Sua obra se destaca das demais produções da época: supera o regionalismo documental de J. L. Rego e J. Amado e se aprofunda na investigação da existência humana. Suas personagens não são meras representantes da sociedade local, mas configuram simbolicamente a consciência problemática do homem contemporâneo. Tanto Paulo Honório ( personagem de São Bernardo), quanto Luís da Silva (de Angústia) são o que se chama de “herói problemático”, em conflito com o meio e consigo mesmos, em luta constante para adaptar-se e sobreviver, insatisfeitos e irrealizados.

Manipulando o foco narrativo em 1ª pessoa, G. Ramos desenvolve nestas duas obras romances ao mesmo tempo psicológicos (pela revelação da consciência problemática) e sociais (pela análise das relações humanas). Até em Vidas Secas, seu romance mais propriamente regional, G. Ramos soube criar personagens de grande profundidade psicológica: Sinhá Vitória, Fabiano, Os Dois Meninos e a Cachorra Baleia, representam este mesmo conflito básico de todos os personagens. Seu estilo é denso, descarnado, seco, desprovido de adjetivos, despojado. Ao contrário da maioria dos modernistas, sua sintaxe é clássica, tradicional, sem os “experimentalismos” tão comuns na época.

4. Jorge Amado

(Itabuna, Bahia, 1912)

Jorge Amado de Faria nasceu em Ferradas, município de Itabuna, Bahia, em 1912. Filho de um proprietário de terras da região do cacau, fez o curso secundário no Colégio Jesuíta do Rio de Janeiro. Estudou Direito e trabalhou na Imprensa.

Aproxima-se do grupo modernista da Bahia e do Rio de Janeiro. Viaja pelo interior do Brasil, depois pela América Latina e ingressa em 1935 na Aliança Nacional Libertadora, movimento político de esquerda. Foi preso em 1936. Em 1946 é eleito deputado pelo Partido Comunista Brasileiro.

Com o fechamento do Partido exila-se e começa a viajar pelo mundo. Nesta época já tem publicadas suas principais obras, que começam a ser traduzidas para outros idiomas. Obteve o Prêmio Stalin de Literatura. Regressando ao Brasil, vive algum tempo no Rio de Janeiro e, depois, em Salvador, onde passa a escrever seguidamente vários romances.

Na vasta ficção de Jorge Amado convivem lirismo, sensualismo, misticismo, folclore, idealismo, engajamento político, exotismo. Este painel, sem dúvida, bastante rico, aliado a uma linguagem coloquial, fluida, espontânea, aparentemente sem elaboração, tem sido responsável pela grande aceitação popular de sua obra. Além disso, seus heróis são marginais, pescadores, marinheiros, prostitutas e operários; todos personagens de origem popular. Suas obras estão ambientadas no quadro rural e urbano da Bahia e seu aspecto documental a torna autenticamente regionalista. Podemos dividir assim a sua produção:

1º) Ciclo do Cacau: Cacau, Suor , Terras do Sem Fim, São Jorge de Ilhéus, romances onde a preocupação com problemas coletivos o aproxima do chamado “realismo socialista”.

2º) Romances líricos, com um fundo de problemática social: Jubiabá, Mar Morto, Capitães de Areia.

3º) Romances de costumes provincianos, geralmente sentimentais e eróticos: Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois Maridos.

Sua obra é bastante vasta, incluindo ainda escritos de pregação partidária (Cavaleiro da Esperança, Os Subterrâneos da Liberdade).

Obras

  • A.B.C de Castro Alves;
  • O Cavaleiro da Esperança. A vida de Luis Carlos Prestes;
  • Agonia da Noite;
  • O Amor de Soldado;
  • Os Ásperos Tempos;
  • Bahia Amada Amado (Jorge Amado e Maureen Bisilliat);
  • Bahia de Todos os Santos;
  • A Bola e o Goleiro;
  • Brandão entre o Mar e o Amor;
  • Cacau;
  • O Capeta Carybe;
  • Capitães de Areia;
  • O Capitão de Longo Curso;
  • Compadre de Ogum;
  • A Descoberta da América pelos Turcos;
  • Dona Flor e seus Dois Maridos;
  • Farda Fardão Camisola de Dormir;
  • Gabriela, Cravo e Canela;
  • O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá;
  • Jubiaba;
  • Tereza Batista Cansada de Guerra;
  • O Sumiço da Santa;
  • Suor;
  • Tenda dos Milagres;
  • A Luz no Túnel;
  • Terras do Sem Fim;
  • Mar Morto;
  • Tieta do Agreste;
  • Tocaia Grande;
  • Os velhos Marinheiros;
  • O Menino Grapuina;
  • O Milagre dos Pássaros;
  • A Morte e a Morte de Quincas Berro D´gua;
  • Navegação de Cabotagem;
  • O País do Carnaval;
  • Os Pastores da Noite;
  • São Jorge dos Ilhéus;
  • Seara Vermelha;
  • O Capitão de Longo Curso;
  • Os Primeiros Subterrâneos da Liberdade, I;
  • Os Subterrâneos da Liberdade,II;
  • Os Subterrâneos da Liberdade,III;
  • Os Subterrâneos da Liberdade,IV.

5. Érico Veríssimo

(Cruz Alta, Rio Grande do Sul, 1905-1975)

Érico Veríssimo nasceu em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, em 1905. Sua família era rica, entretanto foi à falência e o escritor teve que trabalhar em vários ofícios sem possibilidade de seguir estudos na Universidade. Mudando-se para Porto Alegre, entra em contato com a vida literária e inicia-se no jornalismo. Começa então a publicar contos e romances, entre os quais, “Clarissa”, que logo se tornou um sucesso. Viajou para vários países, entre os quais o México e os Estados Unidos, onde lecionou Literatura Brasileira e trabalhou na OEA. Voltando ao Brasil, dedica-se a escrever e produz uma vasta obra.

Obras

  • Fantoches;
  • Clarissa;
  • Música ao Longe;
  • Caminhos Cruzados;
  • Um Lugar ao Sol;
  • Olhai os Lírios do Campo;
  • Saga;
  • O Resto é Silêncio;
  • Noite;
  • O Tempo e o Vento: O Continente, O Retrato, O Arquipélago;
  • O Senhor Embaixador;
  • Incidente em Antares;
  • Aventuras de Tibicuera;
  • Gato Preto em Campo de Neve.

Escritor de grandes dimensões, em sua produção se incluem romances, crônicas, literatura infantil. Os romances que compõem a trilogia O Tempo e o Vento (O Continente, O Retrato, O Arquipélago) traçam um painel histórico de várias gerações: desde a época colonial sucedem-se as lutas entre portugueses e espanhóis, farrapos e imperiais, maragatos e pica-paus (nomes dos partidos em guerra política). Duas famílias, os Terra Cambará e os Amaral, são durante dois séculos o fio narrativo que unifica a história. Érico Veríssimo compõe uma verdadeira saga romanesca, com todas as suas características: guerras intermináveis, aventuras, amores, traições, gerações que se sucedem, criando um painel histórico da comunidade rio-grandense e do próprio Brasil. A obra é uma aglutinação de novelas, onde ressaltam as figuras épicas de Ana Terra e do Capitão Rodrigo Cambará. O estilo de Érico Veríssimo é coloquial, poético, intimista. Sua técnica de construção romanesca é o contraponto: onde várias histórias se desenvolvem paralelamente, a ação concentrada e o dinamismo. Em suas últimas obras, como O Prisioneiro, O Senhor Embaixador e Incidente em Antares, desenvolveu a ficção política, ambientada nos dias atuais.

Érico Veríssimo é escritor de grande capacidade narrativa. A opinião de Wilson Martins sobre sua obra é a seguinte:

"Érico Veríssimo foi, com certeza, o mais popular de todos os romancistas modernos do Brasil e o mais injustiçado pela crítica: houve sempre contra o escritor, por parte desta última, uma atitude de reserva, se não de hostilidade, que se explica, antes de mais nada, pelo marginalismo que o situava ao lado das correntes literárias em voga. Realmente, tanto quanto Graciliano Ramos, mas por motivos completamente diversos, Érico Veríssimo foi um excêntrico com relação à história literária: sem viver no Rio de Janeiro, escrevia o romance urbano de costumes quando a moda era criar o romance de protesto social, nordestino e rural ao calor das ruas cariocas; num momento de intolerantes opções políticas, pela direita ou pela esquerda, ele foi um democrata de tipo clássico, pregando o credo, realmente um pouco simples, da fraternidade e do humanitarismo e denunciando (aqui está o defeito da couraça) a má consciência do intelectual por não ser um homem de ação."

6. Carlos Drummond de Andrade

(Itabira, Minas Gerais, 1902)

Carlos Drummond de Andrade, descendente de família tradicional, formou-se em Farmácia, mas não exerceu a profissão. Em Belo Horizonte fundou, com outros escritores da época, “A Revista”, órgão modernista de Minas Gerais. Mudando-se para o Rio de Janeiro em 1933, ingressou no funcionalismo público, aposentando-se no Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Inicia colaboração na imprensa que foi mantida durante muito tempo.

A obra de C. D. A. representa uma espécie de amadurecimento e superação de toda a tradição poética do modernismo. Em suas primeiras obras Alguma Poesia, Brejo das Almas e Sentimento do Mundo já se evidencia que as técnicas da poesia experimental do modernismo não são essenciais nas mesmas. De moderno, Drummond tem mais de “sentimento” e postura do que de recursos estilísticos. Seu verso rigoroso demonstra um grande domínio da linguagem poética, onde se observam, lado a lado, metáforas de grande expressividade e um léxico originário do prosaico e do cotidiano. Em A Rosa do Povo realiza uma poesia empenhada na participação política, mas, a partir de Claro Enigma sua visão de mundo se torna cética, melancólica, amargurada, evoluindo para preocupações existenciais. Sua poesia revela toda a problemática do homem do nosso tempo, esmagado e reificado pela civilização material, incapaz de encontrar um sentido e um valor para a sua existência. Sua obra poética tem variadas faces: inicialmente ligado ao urbano, ao cotidiano, ao passado, sua poesia vai aos poucos se tornando desencantada e intencionalmente antilítica como a retratar a desarmonia entre os seres e o mundo, entre o homem e a nossa época, e outras vezes surge como uma resistência a este mundo, propondo a solidariedade mas constatando a indiferença. Sobre Carlos Drummond de Andrade, comenta Antônio Cândido:

“Desde o início, pois, era visível na poesia de Drummond a ideia de que, para usar a expressão de um personagem de Eça de Queirós, vivemos num “mundo muito mal feito”. Esta ideia vai aumentando, até que do mundo avesso do obstáculo e do desentendimento surja a ideia social do “mundo caduco”, feito de instituições superadas que geram o desajuste e a iniquidade, devido aos quais os homens se enrodilham na solidão, na incomunicabilidade e no egoísmo. A sufocação do ser, que vimos sob as formas do emparedamento e da mutilação no plano individual, aparece no plano social como medo, - motivo importante na tomada de consciência do poeta em sua maturidade. O medo paralisa, sepulta os homens no isolamento, impede a queda das barreiras e conserva o mundo caduco. “Congresso internacional do medo” construído segundo o mesmo processo de saturação da palavra-chave empregado em “No meio do caminho”, descreve essa paralisia que se estende a todos os níveis, todos os lugares, todos os grupos, para terminar na paralisia geral da morte: depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.

Obras

 POESIA

  • 1930 - Alguma poesia
  • 1934 - Brejo das almas;
  • 1940 - Sentimento do mundo;
  • 1942 - José;
  • 1945 - A rosa do povo;
  • 1948 - Novos poemas;
  • 1951 - A mesa;
  • 1951 - Claro enigma;
  • 1952 - Viola de bolso;
  • 1954 - Fazendeiro do ar;
  • 1955 - Soneto da buquinagem;
  • 1957 - Ciclo;
  • 1959 - A vida passada a limpo;
  • 1962 - Lição de coisas;
  • 1964 - Viola de bolso II;
  • 1967 - Versiprosa;
  • 1967 - José & outros;
  • 1968 - Boitempo & A falta que ama;
  • 1968 - Nudez;
  • 1969 - Reunião;
  • 1973 - As impurezas do branco;
  • 1973 - Menino antigo (Boitempo II);
  • 1977 - A visita;
  • 1978 - O marginal Clorindo Gato;
  • 1979 - Esquecer para lembrar (Boitempo III);
  • 1980 - A paixão medida;
  • 1983 - Nova reunião;
  • 1984 - Corpo;
  • 1985 - Amar se aprende amando;
  • 1986 - Tempo vida poesia;
  • 1988 - Poesia errante;
  • 1996 - Farewell.

Antologias poéticas

  • 1956 - 50 poemas escolhidos pelo autor;
  • 1962 - Antologia poética
  • 1971 - Seleta em prosa e verso
  • 1975 - Amor, amores;
  • 1982 - Carmina Drummondiana;
  • 1987 - Boitempo I e Boitempo II.

 Infantis

  • 1983 - O elefante;
  • 1985 - História de dois amores.

 Edições de poesia reunida

  • 1942 - Poesias;
  • 1948 - Poesia até agora;
  • 1954 - Fazendeiro do ar & Poesia até agora;
  • 1959 - Poemas;
  • 1969 - Reunião;
  • 1983 - Nova reunião;
  • 1997 - Coleção Verso na Prosa Prosa no Verso;
  • 1997 - Coleção Mineiramente Drummond - A palavra mágica.

Prosa

  • 1944 - Confissões de Minas;
  • 1945 - O gerente
  • 1951 - Contos de aprendiz
  • 1952 - Passeios na ilha;
  • 1957 - Fala, amendoeira;
  • 1962 - A bolsa & a vida;
  • 1966 - Cadeira de balanço;
  • 1970 - Caminhos de João Brandão;
  • 1972 - O poder ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso;
  • 1974 - De notícias & não notícias faz-se a crônica;
  • 1977 - Os dias lindos;
  • 1978 - 70 historinhas;
  • 1981 - Contos plausíveis;
  • 1984 - Boca de luar;
  • 1985 - O observador no escritório;
  • 1987 - Moça deitada na grama;
  • 1988 - O avesso das coisas;
  • 1989 - Autorretrato e outras crônicas.

Conjunto de Obra

  • 1964 - Obra completa.

Antologias Diversas

  • 1962 - Quadrante;
  • 1963 - Quadrante II
  • 1965 - Vozes da cidade;
  • 1965 - Rio de Janeiro em prosa & verso (em colaboração com Manuel Bandeira)
  • 1966 - Andorinha, andorinha, de Manuel Bandeira;
  • 1967 - Uma pedra no meio do caminho (Biografia de um poema. Com estudo de Arnaldo Saraiva);
  • 1967 - Minas Gerais.
  • 1971 - Elenco de cronistas modernos
  • 1972 - Don Quixote;
  • 1977 - Para gostar de ler
  • 1979 - O melhor da poesia brasileira I
  • 1981 - O pipoqueiro da esquina;
  • 1982 - A lição do amigo;
  • 1984 - Quatro vozes;
  • 1984 - Mata Atlântica.

7. Cecília Meireles

(1901 - 1964)

Cecília nasceu, viveu e faleceu no Rio de Janeiro (1901-1964), onde estudou, casou-se duas vezes, dedicou-se ao magistério, ao jornalismo e à literatura. Viajou por vários países do mundo com o segundo marido, proferindo conferências sobre literatura brasileira, e satisfazendo seu interesse pessoal pelas culturas orientais.

Órfã de pai antes do nascimento, e de mãe aos três anos de idade, foi educada pela avó materna, uma senhora portuguesa.

Sua biografia marcou sensivelmente a obra de Cecília, que é considerada a principal voz feminina da poesia brasileira. Deixou ainda contribuições para a literatura infantil, folclore, crônica e conto, além do teatro.

Obras:

Poesia:

Espectros;
Nunca Mais...;
Poema dos Poemas;
Baladas para El Rei;
Viagem;
Vaga Música;
Mar Absoluto;
Retrato Natural;
Amor em Leonoreta;
Doze Noturnos de Holanda;
O Aeronauta;
Romanceiro da Inconfidência;
Pequeno Oratório de Santa Clara;
Pistoia, Cemitério Militar Brasileiro;
Canções; Romance de Santa Cecília;
A Rosa Metal Rosicler;
Poemas Escritos na Índia;
Antologia Poética;
Solombra;
Ou Isto ou Aquilo;
Crônica Provada da Cidade de San Sebastian;
Poemas Italianos;
Seleta em Prosa e verso.

Teatro:

  • O Menino Atrasado

Ficção:

  • Olhinhos de Gato.

Prosa Poética:

  • Giroflê, Giroflá;
  • Evocação Lírica de Lisboa;
  • Eternidade de Israel.

Crônica:

  • Escolha o seu Sonho;
  • Inéditos.

Características de sua poesia

  • ligação com a tradições da poesia lírica luso-brasileira, em que a realidade é filtrada pela sensibilidade;
  • intimismo e feminilidade, refletidos na delicadeza de imagens e seleção vocabular;
  • caráter neossimbolista, confirmado pela participação da Poeta na revista carioca “Festa”, que defendia o universalismo e a presença de valores tradicionais, entre os quais o espiritualismo e o orientalismo;
  • musicalidade e fluidez, com tendência ao emprego do verso curto, paralelismo, versos redondilhos, ritmo fácil e popular;
  • uso de aliterações e de sinestesias, com total aproveitamento dos sentidos para apreensão das sensações: superposição da imagem e do sonho;
  • recorrência de temas relacionados com a fugacidade do tempo e a precariedade do mundo e da vida, refletindo uma aceitação da passagem, do envelhecimento, da morte;
  • valorização da intuição e da sensibilidade na apreensão do mundo, do amor, da natureza, da própria criação artística;

No Romanceiro da Inconfidência, Cecília consegue a fusão perfeita entre sensibilidade e releitura crítica do fato histórico, criando um poema épico-lírico de apurado valor estético-literário. Com grande intensidade dramática, o Romanceiro reconstrói artisticamente o panorama social, econômico, político e cultural do Brasil colônia durante o ciclo da mineração (1789). Mistura cenários, falas, exortações, narrativas, lendas, reflexões e denúncias, lembrando a estrutura dos “romances” medievais. Foi publicado em 1953, fruto de dez anos de estudos e pesquisas e é considerado sua obra-prima.

8. Vinícius de Moraes

(1913 - 1980)

Marcus Vinícius de Mello Moraes nasceu em 19 de outubro de 1913 e faleceu a 09 de julho de 1980, no Rio de Janeiro. Estudou no Colégio Santo Inácio e formou-se em Letras (1929) e Direito (1933), iniciando-se na carreira literária. Trabalhou como censor de cinema e na década de 40, ingressa na carreira diplomática e jornalística (cronista e crítico cinematográfico). Serviu em Paris, Los Angeles, Montevidéu e novamente em Paris, onde teve contato com artistas do mundo todo.

Interessando-se pela música (popular e de câmara), começa a compor na década de 50 (Orfeu da Conceição, 1956, com Tom Jobim) e participa, juntamente com João Gilberto, da gênese do movimento “Bossa Nova”.

Após breve passagem pela temática de reflexão sociopolítica (O operário em Construção), envolve-se cada vez mais com a vida de cantor e compositor (década de 60), produtor de espetáculos, boêmio e amante do amor, tão conhecida de todos, levando para a música popular requintes literários.

Obras

  • O caminho para a Distância (1933);
  • Forma e Exegese (1935); 
  • Ariana, a Mulher (1936); 
  • Novos Poemas (1938); 
  • Cinco Elegias (1943); 
  • Poemas, Sonetos e Baladas (1946); 
  • Pátria Minha (1949); 
  • Antologia Poética (1955); 
  • Livros de Sonetos (1957); 
  • Novos Poemas II (1959);
  • Cordélia e o Peregrino (1965).

Crônicas e poemas

  • Para viver um grande amor (1962).

Crônicas

  • Para Uma Menina com uma Flor (1966).

Teatro

  • Orfeu da Conceição (1962).

Características das Obras

  • inicia sua carreira literária dentro de uma linha neossimbolista e “transcendental, frequentemente mística, resultante de sua fase cristã”, segundo palavras do próprio Poeta. Predomina a oposição entre matéria e espírito, e uma sensação de angústia diante do “pecado”,
  • na segunda obra, começa a desligar-se do plano místico, tentando unir o material e o espiritual;
  • a partir de Ariana...vai-se transformando em um lírico essencialmente instintivo, emocional, terminando por constituir-se um poeta de um erotismo maciço perene, cada vez mais forte;
  • Cinco Elegias mostram um autor preocupado com a realidade circundante e superando o misticismo em Poemas, Sonetos e Baladas;
  • aos poucos, a linguagem enfática e grandiloquente das primeiras obras vai sendo atenuada por uma expressividade mais próxima da fala, mais acessível, mais comunicativa e melodiosa à medida que se encaminha para a música popular;
  • o melhor de sua obra manifesta-se através dos sonetos “de linguagem camoniana”, alguns dos quais verdadeiras obras-primas, em que dá preferência ao fecho de ouro mais emocional que filosófico;
  • alguns poemas marcam-se pela reflexão sociopolítica, como por exemplo A rosa de Hiroxima e O Operário em Construção.

3ª geração - Teoria, Autores e Obras

1. Guimarães Rosa

(Cordisburgo, Minas Gerais, 1908 -1967)

Grande Sertão

João Guimarães Rosa fez o curso secundário em Belo Horizonte e formou-se em Medicina. Clinicou pelo interior de Minas e em 1934 fez concurso para o Ministério do Exterior. Foi cônsul-geral em Hamburgo, secretário de embaixada em Bogotá, conselheiro diplomático em Paris e, em 1958, de volta ao Brasil, tornou-se ministro. Faleceu em 1967, de enfarte, três dias depois de sua posse solene na Academia Brasileira de Letras.

Obras

Sagarana, Corpo de Baile (depois desdobrado em Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá no Pinhém, Noites do Sertão), Grande Sertão: Veredas, Primeiras Estórias, Tutameia: Estas Estórias, Magma (poemas).

A obra de G. Rosa é extremamente inovadora e original. Seu livro, Sagarana (1946), vem colocar uma espécie de marco divisor na literatura moderna do Brasil: é uma obra que se pode chamar de renovadora da linguagem literária. Seu experimentalismo estético, aliando narrativas de cunho regionalista à uma linguagem inovadora e transfigurada, veio transformar completamente o panorama da nossa literatura.

O livro Grande Sertão: Veredas (1956), romance narrado em primeira pessoa por Riobaldo num monólogo ininterrupto onde o autor e o leitor parecem ser os ouvintes diretos do personagem, G. Rosa recuperou a tradição regionalista, renovando-a. Há um clima fantástico na narrativa: Riobaldo conta suas aventuras de jagunço que quer vingar a morte de seu chefe, Joca Ramiro, assassinado pelo bando de Hermógenes.

Sua narrativa é entremeada por reflexões metafísicas em torno dos acontecimentos e dois fatos se repropõem constantemente: seu pacto com o Diabo e seu amor por Diadorim (na verdade, Deodorina, filha de Joca Ramiro, disfarçada de jagunço). As dúvidas de Riobaldo têm raízes místicas e sua narrativa torna-se então não mais um documento regionalista, mas uma obra de caráter universal, que toca em problemas que inquietam todos os homens: o significado da existência, as dimensões da Realidade. Mas não é só isto que é novo em G. Rosa: sua linguagem é extremamente requintada.

Recuperando as matrizes arcaicas da língua portuguesa e fundindo-as com a fala sertaneja, G. Rosa chega a criar um linguajar mítico, onde o novo e o primitivo perdem as dimensões tornando-se um linguajar ao mesmo tempo real e irreal, pessoal e universal. Arcaísmos, neologismos, rupturas, fusões, toda uma técnica elaboradíssima concorre para tornar o seu discurso literário ímpar em toda a nossa literatura. Sobre sua obra, comenta Alfredo Bosi:

“A alquimia, operada por João Guimarães Rosa, tem sido o grande tema de nossa crítica desde o aparecimento dessa obra espantosa que é Grande Sertão: Veredas.

Após a sua leitura, começou-se a entender uma antiga verdade: que os conteúdos sociais e psicológicos só entram a fazer parte da obra quando veiculados por um código de arte que lhes potencia a carga musical e semântica. E, em consonância com todo o pensamento de hoje, que é um pensar a natureza e as funções de linguagem, começou-se a ver que a grande novidade do romance vinha de uma alteração profunda no modo de enfrentar a palavra.

Para Guimarães Rosa, como para os mestres da prosa moderna (um Joyce, um Borges, um Gadda), a palavra é sempre um feixe de significações: mas ela o é em um grau eminente de intensidade se comparada aos códigos convencionais de prosa. Além de referente semântico, o signo estético é portador de sons e de formas que desvendam fenomenicamente as relações íntimas entre o significante e o significado.

Toda voltada para as forças virtuais da linguagem, a escritura de Guimarães Rosa procede abolindo intencionalmente as fronteiras entre narrativa e lírica, distinção batida e didática, que se tornou, porém, de uso embaraçante para a abordagem do romance moderno.

Grande Sertão: Veredas e as novelas de Corpo de Baile incluem e revitalizam recursos da expressão poética: células rítmicas, aliterações, onomatopeias, rimas internas, ousadias mórficas, elipses, cortes e deslocamentos de sintaxe, vocabulário insólito, arcaico ou de todo neológico, associações raras, metáforas, anáforas, metonímias, fusão de estilos, coralidade. Mas como todo artista consciente, Guimarães Rosa só inventou depois de ter feito o inventário dos processos da língua. Imerso na musicalidade da fala sertaneja, ele procurou, em um primeiro tempo (tempo de Sagarana) fixá-la na melopeia de um fraseio no qual soam cadências populares e medievais”.

A hora e a vez de Augusto Matragá, de Roberto Santos

2. Clarice Lispector

(Tchetchelnik, Ucrânia 10 de dezembro de 1925 - Rio de Janeiro, 09 de dezembro de 1977).

Seus pais imigraram para o Brasil quando Clarice completou dois meses de idade, estabelecendo-se no Recife - por isso, sentia se “brasileira”.

Em 1937 falece a mãe, mudam-se para o Rio, onde cursa a Faculdade de Direito. Em 1944 forma-se e publica o livro que escreveu durante o curso - Perto do Coração Selvagem surpreendendo a crítica e agradando ao público.

Casa-se com um diplomata, afastando-se do Brasil durante longos períodos, mas sem interromper a produção artística. Separa-se do marido e volta ao Rio de Janeiro. Em 1976 participou, como representante do Brasil, do Congresso Mundial de Bruxaria na Colômbia.

Morre na véspera de seu aniversário, em plena atividade literária, reconhecida como uma das mais importantes vozes da literatura brasileira, que ajudou a revolucionar e inovar.

Obras

Romances:

Perto do Coração Selvagem (1944);
O Lustre (1946);
A Cidade Sitiada (1949);
A Maçã no Escuro (1961);
A Paixão segundo G. H. (1964);
Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969);
Água Viva (1973);
A Hora da Estrela (1977).

Contos:

Alguns Contos (1952);
Laços de Família (1960);
A Legião Estrangeira (1964);
A Via - Crucis do Corpo (1974);
Onde Estiveste de Noite (1974); 
A bela e a Fera (1979).

Entrevista:

De Corpo Inteiro.

Literatura infantil:

O Mistério do Coelhinho Pensante;
A Mulher que Matou os Peixes;
A Vida Íntima de Laura;
Quase de Verdade.

Características de sua produção literária:

  • sondagem dos mecanismos mais profundos da mente humana;
  • técnica “impressionista“ de apreensão dessa realidade interior (predominância de impressões, de sensações);
  • ruptura com a sequência linear da narrativa;
  • predomínio do tempo psicológico e, portanto, subversão do tempo cronológico;
  • as ações passam a ter importância secundária, servindo principalmente como ilustração de características psicológicas das personagens (introspecção psicológica);
  • introdução da técnica do fluxo da consciência (“stream of consciousness”, praticada no exterior por James Joyce e Marcel Proust) - quebra os limites espaço-temporais e o conceito de verossimilhança, fundindo presente e passado, realidade e desejo na mente dos personagens, cruzando vários eixos e planos narrativos sem ordem ou lógica aparente;
  • características físicas das personagens diluem-se: muitas nem nome apresentam;
  • presença da epifania (“revelação”): aparentemente equilibradas e bem ajustadas, subitamente as personagens sentem um estranhamento frente a um fato banal da realidade. Nesse momento, mergulham num fluxo de consciência, do qual emergem sentindo-se diferentes em relação a si mesmas e ao mundo que as rodeia; esse desequilíbrio momentâneo por certo mudará sua vida definitivamente;
  • suas principais personagens são mulheres, mas não se limitam ao espaço do ambiente familiar: Clarice visa a atingir valores essenciais humanos e universais tais como a falsidade das relações humanas, o jogo das aparências, o esvaziamento do mundo familiar, as carências afetivas e as inseguranças delas decorrentes, a alienação, a condição da mulher, a coexistência dos contrastes, das ambiguidades, das contradições do ser, num processo meio “barroco”;
  • fusão de prosa e poesia, com emprego de figuras de linguagem: metáforas, antíteses, paradoxos, símbolos e alegorias, aliterações e sinestesias;
  • uso de metalinguagem - “Algumas pessoas cosem para fora; eu coso para dentro”- em associação com os processos intimistas e psicológicos, político-sociais, filosóficos e existenciais ( A Hora da Estrela, 1977).

“Depois que descobri em mim mesma como é que se pensa, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros”.

3. João Cabral de Melo Neto

(Recife, 1920 - Atualidade)

Filho e neto de donos de engenho, cresceu em contato com a terra e o povo (o que despertou seu interesse pelo folclore nordestino e pela literatura de cordel), com a palavra escrita (livros e jornais, desde os dois anos de idade) e a parentela ilustre e culta (primo de Manuel Bandeira e Gilberto Freire).

Estudou com os padres maristas e, aos 17 anos, já apaixonado por literatura, começa a escrever poemas. Aos vinte anos, lia no original os grandes poetas da literatura universal.

Em 1942, muda-se para o Rio de Janeiro, terminado o curso secundário. Não desejando fazer curso superior, presta concurso público. Em 1945, ingressa na carreira diplomática e viaja pelo mundo : Barcelona, Londres, Sevilha, Marselha, Genebra, Berna, Assunção, Dacar, etc.

Em 1952, volta para o Recife, afastando-se da carreira;

Em 1954, recebe um prêmio pela obra poética;

Em 1955, retorna à diplomacia;

Em 1956, escreve o poema dramático Morte e Vida Severina, que, encenado pelo TUCA em 1966, com músicas de Chico Buarque, consagra-o definitivamente;

Em 1969 toma posse na Academia Brasileira de Letras. Viveu mais alguns anos no Rio, onde se aposentou.

Obras

Prosa:

  • Considerações sobre a Poeta Dormindo (1941);
  • Juan Miró (1950)

Poesia:

  • Pedra do Sono (1942);
  • O Engenheiro (1945); 
  • Psicologia da Composição (1947); 
  • O cão sem Plumas (1950); 
  • O Rio (1954); 
  • Poemas reunidos (os livros anteriores mais Os Três Mal-Amados, 1954); 
  • Duas Águas (os livros anteriores mais Morte e Vida Severina, Paisagens com figuras e Uma Faca só Lâmina, 1956); 
  • Quaderna (1960); 
  • Dois Parlamentos (1961); 
  • Terceira Feira (os dois livros anteriores mais Serial, 1961); 
  • A Educação pela Pedra (1966); 
  • Poesias Completas (1968); 
  • Museu de Tudo (1975); 
  • Escola das Facas (1987); 
  • Auto do Frade (1984); 
  • Agrestes (1985); 
  • Crime na Calle Relator (1987);
  • Sevilha Andando (1987-1993).

Características de sua produção literária: no início da carreira, apresenta um tendência à objetividade, convivendo com imagens surrealistas e oníricas (relativas aos sonhos): aos poucos, afasta-se da influência surrealista e aprofunda a tendência à substantivação, à economia da linguagem, submetendo as palavras a um processo crescente de depuração, com uso de metáforas, personificações, alegorias e metonímias (a pedra; a faca; o cão); a partir de 1945, influenciado pela concepção arquitetônica de Le Corbusier, procede à geometrização do poema, aproximando a arte do Poeta à do Engenheiro; a preocupação com o descarnamento, com a confecção da poesia dessacralizada, afastada cada vez mais do subjetivismo e da introspecção, leva-o à elaboração do poema objeto.

Nele, o fruir poético atinge-se através da lógica do raciocínio, da razão, eliminando-se emoções superficiais (ruptura total com o sentimentalismo romântico); o Poeta questiona o próprio ato de escrever e a função da poesia; na década de 50, surge e amadurece a preocupação política e principalmente a denúncia social do Nordeste e sua gente: os “severinos” retirantes, as tradições e o folclore regional, a herança medieval, a estrutura agraria canavieira, injusta e desigual... Aparece ainda  a paisagem da Espanha, que apresenta pontos em comum com o cenário nordestino. Continua viva e atuante a reflexão sobre a Arte em suas várias manifestações, desde a pintura (Miró, Picasso, Vicente do Rego Monteiro), a literatura (Paul Valéry, Cesário Verde, Augusto dos Anjos, Graciliano Ramos, Drummond), passando pelo futebol e fechando com a sua própria maneira de poetar:

“Sempre evitei falar de mim, falar-me.
Quis falar de coisas. Mas na seleção dessas
coisas não haverá um falar de mim?”

MORTE E VIDA SEVERINA

(Auto de Natal Pernambucano)

Morte e Vida Severina, obra mais popular de João Cabral, é um auto de Natal do folclore pernambucano. Sua linha narrativa segue dois movimentos que aparecem no título: “morte” e “vida”.

No primeiro movimento, há o trajeto de Severino, personagem-protagonista, que segue do sertão para Recife, em face da opressão econômico-social. Severino tem a força coletiva de um personagem típico: representa o retirante nordestino.

No segundo movimento, o da “vida”, o autor chama a atenção para a confiança no homem e em sua capacidade de resolver problemas.

Antologia

Antologia

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa "ele mesmo"

MENSAGEM (1934)

I. ”Ulysses”

O MYTHO é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade.
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

VII. Occidente

COM DUAS mãos - o Acto e o Destino -
Desvendamos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o facho trêmulo e divino
E a outra afasta o véu.
Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou.
Foi alma a Sciencia e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Alberto Caeiro

V

HÁ METAFÍSICA
bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos.
Começa a não saber o que é sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada;

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e terem ramos
e a de dar frutos na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber o que não sabem?
“Constituição íntima das cousas”...
“Sentido íntimo do Universo”...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins.
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago outo lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer eu conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?)
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes.
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo.
E ando com ele a toda a hora.

O Guardador de Rebanhos

Álvaro de Campos

LISBON REVISITED (1923)

NÃO: NÃO quero nada,
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito de sê-lo.
Com todo o direito de sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Poemas

Aniversário

NO TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração de parentesco.
O que fui de verões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus! o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo gelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos, na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que comemoravam o dia dos meus anos...
Para, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Bernardo Soares

O Livro do Desassossego

Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem não sabe sintaxe, não quem não escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como o escarro direto que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
....................................................
Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto (em) que, sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes da vida.
.....................................................
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, seres reais visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou sonho - , transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem.

Nota:

Heterônimo designa o autor que publica sua obra, com nome alheio, como se não lhe pertencesse. Tal nome diz respeito a outro ser com identidade própria, com produção estética e filosófica peculiar e inconfundível. É diferente de pseudônimo, caso em que o autor, apenas, publica sua obra com nome diferente.

Veja como Fernando Pessoa dá vida a dois de seus heterônimos, colocando-os frente a frente.

Rachel de Queiroz

O Quinze.

O título de seu romance de estreia faz referência à grande seca que assolou o Nordeste, no ano de 1915. A trama do livro desenvolve-se a partir do entrelaçamento de dois eixos narrativos:

1º O êxodo dos trabalhadores rurais da região de Logradouro e do Quixadá para a capital, Fortaleza, em busca de condições de sobrevivência. Dentre os retirantes, destacam-se o vaqueiro Chico Bento e sua família, e o grande proprietário e criador de gado, Vicente.

2º A história de amor impossível entre o caboclo Vicente, moço puro, mas rude, e Conceição, moça culta da cidade, que socorre os flagelados, procura sua identidade social dentro de uma sociedade patriarcal.

Texto 1 / Cap. 18

"Sentado na salinha da Rua de S. Bernardo, o velho chapéu entre as pernas, uma tira áspera de cabelos envesgando os olhos, Chico Bento conversava com Conceição e a avó sobre o futuro, o seu incerto futuro que a perversidade de uma seca entregara aos azares da estrada e à promiscuidade miserável dum abarracamento da flagelados.
Tristemente contou toda a fome sofrida e as consequentes misérias.
A morte do Josias, afilhado do compadre Luís Bezerra, delegado do Acarape, que lhes tinha valido num dia bem desgraçado! - a morte do Josias, naquela velha casa de farinha, deitado junto de uma trave de aviamento, com a barriga tão inchada como a de alguns paroaras quando já estão para morrer...
E aquele caso da cabra, em que - Deus me perdoe! - pela primeira vez tinha botado a mão em cima do alheio... E se saíra tão mal, e o homem o tinha posto até de sem-vergonha, e ele tão morto, tão sem coragem, que o que fez foi ficar agachado, aguentando a desgraça...
Os olhos da moça se enchiam de água, e comovidamente Dona Inácia levantou os óculos o lenço pelas pálpebras.
O vaqueiro continuou a falar, no mesmo jeito encolhido, estirando apenas, uma vez ou outra, o braço mirrado, para vergastar o ar numa imagem de miséria mais aguda, ou de desespero mais pungente...
Depois era fuga do Pedro, e aquela noite na estrada em que a mulher, estirada no chão, com o Duquinha de banda, todo o tempo arquejou, variando, sem sentido, como quem está pra morrer.
E ele de cócoras, junto dela, com os dois outros meninos agarrados nas pernas, não teve forças nem de mexer, de caçar um recurso, nem de, ao menos, tentar descobrir um rancho...
Agora, felizmente, estavam menos mal. O de que carecia era arranjar trabalho; porque a comadre Conceição bem via que o que davam no Campo mal chegava para os meninos.
Conceição concordou:
- Eu sei, eu sei, é uma miséria! Mas você assim, compadre, tão fraco, lá aguenta um serviço bruto, pesado, que é só o que há para retirante?!
Ele alargou os braços, tristemente:
- A natureza da gente é que nem borracha ... Havendo precisão, que jeito? dá pra tudo...
Ela lembrou:
- Olhe, todo dia, você ou a comadre apareçam por aqui, e o que nós juntarmos, em vez de se dar aos outros, guarda-se só pra você. E eu vou ver se arranjo alguma coisa que lhe sirva... Assim uma vendinha de água, hein, Mãe Nácia?
Dona Inácia ajeitou os óculos...
- Sim, uma venda de água ... A questão é o animal...
A caridade da moça esbarrou no animal. Onde iria buscar um jumento? E ampliou mais vagamente as promessas:
- Um endereço qualquer... Há de se dar um jeito!
Duro e seco na sua cadeira, Chico Bento ouvia. Depois, lentamente, lembrou:
- E o Tauape, comadre?
Conceição acolheu com calor aquela lembrança oportuna:
- Ah! O Tauape! Lá, naturalmente, é fácil de se arranjar!
Chico Bento retificou:
Fácil não era não... Que ele tinha visto muitos, bem recomendados, voltando porque não tinha mais ferramenta.
- Só se a comadre arranjasse um cartãozinho do bispo! Fique certo. Vou e arranjo. Mais um ou dois dias, e você está no Tauape...
O vaqueiro levantou-se para ir embora.
Conceição cochichou com a avó, e entrou pelo corredor, gritando:
- Espere aí, compadre! Tenho uma encomendazinha para você levar pros seus meninos..."

Texto 2 / Cap. 23

"Conceição passava agora quase o dia inteiro no Campo de Concentração, ajudando a tratar, vendo morrer às centenas as criancinhas lazarentas e trôpegas que as retirantes atiravam no chão, entre montes de trapos, como um lixo humano que aos poucos se integrava de todo no imundo ambiente onde jazia.
Dona Inácia, as vezes que podia, acompanhava a neta nessa labuta caridosa, em que a moça empregava o melhor da sua natureza.
De vez em quando, porém, a avó tinha que repreendê-la por quase não comer, por sempre chegar em casa atrasada, por consumir todo o ordenado em alimentos e purgantes para os doentinhos do Campo; ela respondia, rindo:
-Mãe Nácia, eu digo como a heroína de um romance que li outro dia:
“Não sei amar com metade do coração...”.
Ao que a avó respondia, aborrecida:
- Pois vá-se guiando por heroica de romance, e depois não acabe tísica...
Mas apesar de censurar os exageros da neta, seu coração de velha avó todo se confragia e mortificava com a mortandade horrorosa que aquele novembro impiedoso ia espalhando debaixo dos cajueiros do Campo. E sua bolsa de couro preto já estava com a mola gasta de tanto fechar e abrir."

“O Quinze”. Rio de Janeiro, José Olympio, 1976.

Carlos Drummond de Andrade

Também já fui Brasileiro

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forte
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.
Eu também fui poeta.
Bastava olhar para uma mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.
Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Sentimental

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.

Soneto da Perdida Esperança
Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.
Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.
Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa
com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.

Sentimento do Mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Elegia

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta de amor, e na secura nossa
amar a água implícita e o beijo tácito, e a sede infinita.

Cecília Meireles

Texto I

“Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas.
entre sigilo e espionagem
acontece a Inconfidência.
Liberdade, ainda que tarde
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva e sobe na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus - pois se atreveram
a falar em Liberdade.
Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.”

Texto II

Romance LXII ou Do Bêbedo Descrente

— Vi o penitente
de corda ao pescoço.
— A morte era o menos:
mais era o alvoroço.
— Se morrer é triste,
por que tanta gente
vinha pela rua
com cara contente?
(Ai, Deus, homens, reis, rainhas...
Eu vi a forca - e voltei.
os paus vermelhos que tinha!)
— Batiam os sinos, rufavam tambores,
havia uniformes,
cavalos com flores...
— Se era um criminoso,
por que tantos brados,
veludos e sedas,
por todos os lados?
(Quando me respondereis?)
— Parecia um santo,
de mãos amarradas,
no meio de cruzes,
bandeiras e espadas.
— Se aquela sentença
já se conhecia,
por que retardaram a sua agonia?
(Não soube. Ninguém sabia.)
— Traziam-lhe cestas
de doce e de vinho
para ganhar forças naquele caminho.
— Se era condenado
e iam dar-lhe morte,
por que ainda queriam que morresse forte?
(Ninguém sabia. Não se.)
— Não era uma festa.
— Não era um enterro.
—Não era verdade
e não era erro.
— Então por que se ouvem
salmo e ladainha,
se tudo é vontade
da nossa Rainha?
(Deus, homens, rainhas, reis...
Que grande desgraça a minha!
— Nunca vos entenderei!)

Texto III

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço
— não sei, não sei, Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

(Meireles, Cecília. In: Flor de poemas. 6. ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. p. 63.)

Texto IV

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

(MEIRELES, Cecília. In: Flor de poemas. 6. ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. p.63.)

Texto V

Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo... - mais nada.
Mas a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
| que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vinícius de Moraes

Soneto de Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor, prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

O Operário em Construção

(...)

Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão
E o operário disse: não!
— Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
de um homem pobre e esquecido,
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção

Obra poética. Rio de Janeiro, Aguillar, 1965.

Guimarães Rosa

“Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim — de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei — na hora. Melhor alembro. Eu estava sozinho, num repartimento dum rancho, rancho velho de tropeiro, eu estava deitado numa esteira de taquara. Ao perto de mim, minhas armas. Com aquelas reluzentes nos canos, de cuidadas tão bem, eu mandava a morte em outros, com a distância de tantas braças. Como é que, dum mesmo jeito, se podia mandar o amor? O rancho era na borda-da-mata. De tarde, como estava sendo, esfriava um pouco, por pejo de vento — o que vem da Serra do Espinhaço — um vento com todas as almas. Arrepio que fuchicava as folhagens ali, e ia, lá adiante longe, na baixada do rio, balançar esfiapado o pendão branco das canabravas. Por lá, nas beiras, cantava era o joão-pobre, pardo, banhador. Me deu saudade de algum buritizal, na ida duma vereda em capim tem-te que verde, termo da chapada. Saudades, dessas que respondem ao vento; saudades dos Gerais. O senhor vê: o remoo do vento nas palmas dos buritis todos, quando é ameaço de tempestade. Alguém esquece isso? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio põe no colo. Eu sou donde eu nasci. Sou de outros lugares. Mas, lá na guararavacã, eu estava bem. O gado ainda pastava, meu vizinho, cheiro de boi sempre alegria faz. Os quem-quem, corriam, catavam, permeio às reses, no liso do campo claro. Mas, nas árvores, pica-pau bate e grita. E escutei o barulho, vindo do dentro do mato, de um macuco — sempre solerte. Era mês de macuco ainda passear solitário — macho e fêmea desemparelhados, cada um por si. E o macuco vinha andando, sarandando, macucando: aquilo ele ciscava no chão, feito galinha de casa. Eu ri — “Vigia este, Diadorim!”— eu disse; pensei que Diadorim estivesse em voz de alcance. Ele não estava. O macuco me olhou, de cabecinha alta. Ele tinha vindo quase endireito em mim, por pouco entrou no rancho. Me olhou, rolou os olhos. Aquele pássaro procurava o que? Vinha me pôr quebrantos. Eu podia dar nele um tiro certeiro. Mas retardei. Não dei. Peguei só num pé de espora, joguei no lado donde ele. Ele deu um susto, trazendo as asas para diante, feito quisesse esconder a cabeça, cambalhota fosse virar. Daí, caminhou primeiro até de costas, fugiu-se, entrou outra vez no mato, vero, foi caçar poleiro para o bom adormecer.

O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente - “Diadorim, meu amor...” Como era que eu podia dizer isso? Explico ao senhor: como se drede fôsse para eu não ter vergonha maior, o pensamento dele em mim escorreu como figura diferente, um Diadorim assim meio singular, por fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de todos, de todas as outras pessoas - como quando a chuva entre-onde-os-campos. Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim - que não era de verdade. Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas. Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. Mas - de dentro de mim: uma serpente. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.

O que sei, tinha sido o que foi: no durar daqueles antes meses, de estropelias e guerras, no meio de tantos jagunços, e quase sem espairecimento nenhum, o sentir tinha estado sempre em mim, mas amortecido, rebuçado. Eu tinha gostado em dormência de Diadorim, sem mais perceber, no fôfo dum costume. Mas, agora, manava em hora, o claro que rompia, rebentava. Era e era. Sobrestive um momento, fechado os olhos, aquilo, com outras minhas forças. Daí, levantei.

Levantei, por uma precisão de certificar, de saber se era firme exato. Só o que a gente pode pensar em pé — isso é que vale. Aí fui até lá, na beira dum fogo, onde Diadorim estava, como Drumão, o Paspe e Jesualdo. Olhei bem para ele, de carne e osso; eu carecia de olhar, até gastar a imagem falsa do outro Diadorim, que eu tinha inventado. — “Hê, Riobaldo, eh, uê, você carece de alguma coisa?”— ele me perguntou, quem-me-vê, com o certo espanto. Eu pedi um tição, acendi um cigarro. Daí, voltei, para o rancho, devagar, passos que dava. “Se é o que é”— eu pensei — “eu estou meio perdido...” Acertei minha ideia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrado daquilo. Ia, por paz de honra e tenência, sacar esquecimento daquilo de mim. Se não, pudesse não, ah, mas então eu devia quebrar o morro: acabar comigo! — com uma bala no lado de minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo. Ou eu fugia — virava longe no mundo, pisava nos espaços, fazia todas as estradas. Rangi nisso — consolo que me determinou. Ah, então eu estava meio salvo! Aperrei o nagã, precisei de dar um tiro — no mato — um tiraço que ribombou. — “Ao que foi?”— me gritaram pergunta, sempre riam do tiro tolo dado. — “Acho que um macaquinho miúdo, que acho que errei...”— eu expendi. Tanto também, fiz de conta estivesse olhando Diadorim, encarando, para duro, calado comigo, me dizer: “Nego que gosto de você, no mal. Gosto, mas só como amigo!...”Assaz mesmo me disse. De por diante, me acostumei a me dizer isso, sempre vezes, quando perto de Diadorim eu estava. E eu mesmo acreditei. Ah, meu senhor! — como se o obedecer do amor não fôsse sempre ao contrário... O senhor vê, nos Gerais longe: nuns lugares, encostando o ouvido no chão, se escuta barulho de fortes águas, que vão rolando debaixo da terra. O senhor dorme em sobre um rio? (...)

(...) Daí, deu um sutil trovão. Trovejou-se, outro. As tanajuras revoaram. Bateu o primeiro toró de chuva. Cortamos paus, folhagens de coqueiros, aumentamos o rancho. E vieram uns campeiros, rever o gado da Tapera Nhã, no renovame, levaram as novilhas em quadra de produzir. Esses eram homens tão simples, pensaram que a gente estava garimpando ouro. Os dias de chover cheio foram se emendando. Tudo igual — às vezes é uma sem-gracez. Mas não se deve de tentar o tempo. As garças é que praziam de gritar, o garcejo delas, e o socó-boi range cincerros, e o socó latindo sucinto. Aí pelo mato das pindaíbas avante, tudo era um sapal. Coquexavam. De tão bobas tristezas, a gente se ria, no friinho das entrechuvas. Dada a primeira estiada, voltou aquele vaqueiro Bernabé, em seu cavalinho castanho: e vinha trazer requeijão, que se tinha incumbido a ele, e que por dinheirinho bom se pagou. — “A vida tem de mudar um dia para melhor”— a gente dizia. Requeijão é com café bem quente que é mais gostoso. Aquele vaqueiro Bernabé voltou, outras diversas vezes.

Ah, e, vai, um feio dia, lá ele apontou, na boca da estrada que saía do mato, o cavalinho castanho dava toda pressa de vinda, nem cabeceava. Achamos que fôsse ele mesmo. Aí, não era. Era um brabo nosso, um cafuzo pardo, de sonome o Gavião-Cujo, que de mais norte chegava. Ele tinha tomado muitas chuvas, que tudo era lamas, dos copos do freio à boca da bota, e pelos vazios do cavalo. Esbarrou e desapeou, num pronto ser, se via que estava ancho com muitas plenipotências. O que era? O Gavião-Cujo abriu os queixo, mas palavra logo não saiu, ele gaguejou ar e demorou - decerto porque a notícia era urgente ou enorme. — “Ar’uê, então?!” — Titão Passos quis — “Te rogaram alguma praga?” O Gavião-Cujo levantou um braço, pedindo prazo. À fé, quase gritou:

— “Mataram Joca Ramiro!...”

Aí estralasse tudo — no meio ouvi um uivo de Diadorim — : todos os homens se encostavam nas armas. Aí, ei, feras! Que no céu, só vi tudo quieto, só um moído de nuvens. Se gritava - o araral. As vertentes verdes do pindaibal avançassem feito gente pessoas. Titão Passos bramou as ordens. Diadorim tinha quase caído no chão, meio amparado a tempo por João Vaqueiro.

Caiu, tão pálido como cera do reino, feito um morto estava. Ele, todo apertado em seus couro e roupas, eu corri, para ajudar. A vez de ser um desespero. O Paspe pegou uma cuia d’água, que com os dedos espirrou nas faces do meu amigo. Mas eu nem pude dar auxílio: mal ia pondo a mão para desamarrar o colete-jaleco, e Diadorim voltou a seu si, num alerta, e me repeliu, muito feroz. Não quis apoio de ninguém, sozinho se sentou, se levantou. Recobrou as cores, e em mais vermelho o rosto, numa fúria, de pancada. Assaz que os belos olhos dele formavam lágrimas. Titão Passos mandava, o Gavião-Cujo falava. Assim os companheiros em estupor. Ao que não havia mais chão, nem razão o mundo nas juntas se desgovernava.

— “Repete, Gavião!”

— “Ai, chefe ai, chefe: que mataram Joca Ramiro...”

— “Quem? Adonde? Conta!”

Arre, eu surpreendi eriço de tremor nos meus braços. Secou todo cuspe dentro do estreito de minha boca. Até atravessado, na barriga, me doeu. Antes mais, o pobre Diadorim. Alheio ele dava um bufo e um soluço, orço que outros olhos, se suspendia nas sussurrosas ameaças. Tudo tinha vindo por cima de nós, feito um relâmpago em fato.

— “...Matou foi o Hermógenes...”

— “Arraso, cão! Caracães! O cabrobó de cão! Demônio! Traição! Que me paga!...”- constante não havendo quem não reclamasse. O ódio da gente, ali, em verdade, armava um pojar para estouros. Joca Ramiro podia morrer? Como podiam ter matado? Aquilo era como fôsse um touro preto, sozinho surdo nos ermos da Guararavacã, urrando no meio da tempestade. Assim Joca Ramiro tinha morrido. E a gente raivava alto, para retardar o surgir do medo - e a tristeza em cru - sem se saber por que, mas que era de todos, unidos malaventurados.

- “... O Hermógenes... Os homens do Ricardão... O Antenor... Muitos...”

- “Mas, adonde onde!?”

- “A desgraça foi num lugar, na Jerara, terras do Xanxerê, beira da Jerara - lá onde o córrego da Jerara desce do morro do Voo e cai barra no Riachão... Riachão da Lapa... Diz-se que foi sido de repente, não se esperava. Aquilo foi à traição toda. Morreram os muitos, que estavam persistindo lealmente. Aí, mortos: João Frio, o Bicalho, Leôncio Fino, Luís Pajeú, o Cambó, Leite-de-Sapo, Zé Inocêncio... uns quinze. Até se deu um tiroteio terrível; mas o pessoal do Hermógenes e do Ricardão era demais numeroso... Dos bons, quem pôde, fugiram corretamente. Silvino Silva conseguiu fuga, com vinte e tantos companheiros...”

Mas Titão Passos, de arrompe, atalhaou a narração, ele agarrou o Gavião-Cujo pelos braços:

- “Hem, diá! Mas quem é que está pronto em armas, para rachar Ricardão e Hermógenes, e ajudar a gente na vingança agora, nas desafrontas? Se tem, e ond’é que estão?!”

- “Ah, sim, chefe. Os todos os outros: João Goanhá, Sô Candelário, Clorindo Campêlo... João Goanhá para com porçanheira de homens, na Serra dos Quatis. Aí foi ele quem me mandou trazer este aviso... Sô Candelário ainda está para o Norte, mas o grosso dos bandos dele se acha nos pertos da Lagoa-do-Boi, em Juramento... Já foi portador para lá. Sendo que se despachou um positivo também para dar parte a Medeiro Vaz, nos Gerais, no de lado de lá do Rio... Sei que o sertão pega em armas, mas Deus é grande!”

io... Sei que o sertão pega em armas, mas Deus é grande!”

— “Louvado. Ah, então: graças a Deus! Ao que, então, está bem...” — Titão Passos se cerrou.

E estava. Era a outra guerra. A gente ficávamos aliviados. Aquilo dava um sutil enorme.

— “Teremos de ir... Teremos de ir...”— falou Titão Passos, e todos responderam reluzentemente. Tínhamos de tocar, sem atraso, para a Serra dos Quatis, a um lugar dito o Amoipira, que é perto de Grão Mogol. Artes que o Gavião-Cujo ainda contava mais, as miúcias — parecia que tinha medo de esbarrar de contar. Que o Hermógenes e o Ricardão de muito haviam ajustado entre si aquele crime, se sabia. O Hermógenes distanciou Joca Ramiro de Sô Candelário, com falsos propósitos, conduziu Joca Ramiro no meio de quase só gente dele, Hermógenes, mais o pessoal do Ricardão. Aí, atiraram em Joca Ramiro, pelas costas, carga de três revólveres... Joca Ramiro morreu sem sofrer. — “E enterraram o corpo?”— Diadorim perguntou, numa voz de mais dor, como saía ansiada. Que não sabia — o Gavião-Cujo respondeu; mas que decerto teriam enterrado, conforme cristão, lá mesmo, na Jerara, por certo. Diadorim tanto empalidecesse; ele pediu cachaça. Tomou. Todos tomamos. Titão Passos não queria ter as lágrimas nos olhos. — “Um homem de alta bondade tinha mesmo de correr perigo de morte, mais cedo mais tarde, vivendo no meio de gente tão ruim...”

— Ele me disse, dizendo num modo que parecia ele não fôsse também jagunço, como era de se ser. Mas, agora, tudo principiava terminado, só restava a guerra. Mão do homem e suas armas. A gente ia com elas buscar doçura de vingança, como o rominhol no panelão de calda. Joca Ramiro morreu como o decreto de uma lei nova.

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Mulheres vão e vêm nadando
em rios invisíveis.
Automóveis como peixes cegos
compõem minhas visões mecânicas.

Texto I

O engenheiro
A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.
O lápis, o esquadro, o papel:
o desenho, o projeto, número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.
(Em certas tardes nós subíamos
ao edifício. A cidade diária,
como um jornal que todos liam,
ganhava um pulmão de cimento e vidro).
A água, o vento, a claridade,
de um lado o rio, no alto as nuvens,
situavam na natureza o edifício
crescendo de suas forças simples.

Texto II

É mineral o papel
Onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.
São minerais
as flores e as plantas,
quando em estado de palavra.
É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.
É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.
que: = porque.

Trechos de Morte e Vida Severina

O retirante explica ao leitor quem é e a que vai:

- O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
(...)
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
‘na mesma cabeça grande
que a custa é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte Severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
(...)

Aproxima-se do retirante o morador de um dos mucambos que existem entre cais e a água do rio:

— Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabe me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
está água grossa e carnal?
— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado:
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muita água:
basta que chegue ao abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.
— Severino, retirante,
pois não sei o que lhe conte:
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte;
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando o vazio da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço;
sei que a miséria é mais largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
— Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que o puxão das águas
não é melhor se entregar?
— Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alaga
devasta a terra inteira.
— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
— Severino retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.
— Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais,
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?
— Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
— Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me liga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso de tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

O carpina fala com o retirante que esteve de fora, sem tomar parte em nada:

— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavra, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina.
(...)

Manuel Bandeira

Estrela da manhã

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassinado e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo

Te esperei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

Procurem por toda parte
Pura ou desgradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã

Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
-O que eu veja é o beco.

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos da vida
Confiantes na vida

Um no entanto se descobriu num gesto largo e desmoronado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Tragédia Brasileira

Misael, funcionário da fazenda, com 63 anos de idade.
Conheceu Maria Elvira na Lapa - prostituta, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura...
Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado. Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel,Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá

As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipnotizam.
Oh, a três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem
Ó brancaranas azêdas,
Mulatas cor da lua vem saindo cor de prata
Ou celestes africanas:
Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá?
São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?

São as três Marias?

Meu Deus, serão as três Marias?
A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse...Oh, então nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim!
Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei?
Queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca.
Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
Teresópolis, 1931

Clarice Lispector

A Hora da Estrela

A culpa é minha
ou
A hora da estrela
ou
Ela que se arranje
ou
O direito ao grito
ou
- Quanto ao futuro -
ou
Lamento de um blue
ou
Ela não sabe gritar
ou
Uma sensação de perda
ou
Assovio no vento escuro
ou
Eu não posso fazer nada
ou
Registro dos fatos antecedentes
ou
História lacrimogênea de cordel
ou
Saída discreta pela porta dos fundos

... Proponho-me a que não seja complexo o que aqui escreverei, embora obrigado a usar as palavras que vos sustentam. A história - determino com falso livre arbítrio - vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, esta, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.

História exterior e explícita, sim, mas que contém segredos - a começar por um dos títulos, “Quanto ao futuro”, que é precedido por um ponto final e seguido de outro ponto final. Não se trata de capricho meu - no fim talvez se entenda a necessidade do delimitado. (Mal e mal vislumbro o final que, se minha pobreza permitir, quero que seja grandioso.) Se em vez de ponto fosse seguido por reticências o título ficaria aberto a possíveis imaginações vossas, porventura até malsãs e sem piedade. Bem, é verdade que também eu não tenho piedade do meu personagem principal, a nordestina: é um relato que desejo frio. Mas tenho o direito de ser dolorosamente frio, e não vós. Por tudo isto é que não vos dou a vez. Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira.

Pretendo, como já insinuei, escrever de modo cada vez mais simples. Aliás o material de que disponho é parco e singelo demais, as informações sobre os personagens são poucas e não muito elucidativas, informações essas que penosamente me vêm de mim para mim mesmo, é trabalho de carpintaria.

Sim, mas não esquecer para escrever não importa o quê o meu material básico é a palavra. Assim é que esta história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evoca um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases. É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordais? Mas não vou enfeitar a palavra pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro— e a jovem (ela tem dezenove anos) e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência. Limito-me a humildemente — mas sem fazer estardalhaço de minha humildade que já não seria humildade — limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela.

Devo acrescentar um algo que importa muito para a apreensão da narrativa: é que esta é acompanhada do princípio ao fim por uma levíssima e constante dor de dentes, coisa de dentina exposta. Afianço também que a história será igualmente acompanhada pelo violino plangente tocado por um homem magro bem na esquina. A sua cara é estreita e amarela como se ele já tivesse morrido. E talvez tenha.

Tudo isso eu disse tão longamente por ter prometido demais e dar apenas o simples e o pouco. Pois esta história é quase nada. O jeito é começar de repente assim como eu me lanço de repente na água gélida do mar, medo de enfrentar com uma coragem suicida o intenso frio. Vou agora começar pelo meio dizendo que — que ela era incompetente. Incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma. Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim. (Vai ser difícil escrever esta história. Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através dela por entre espantos meus. Os fatos são sonoros mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro o que me impressiona.)

Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Tanto que (explosão) nada argumentou em seu próprio favor quando o chefe da firma de representante de roldanas avisou-lhe com brutalidade (brutalidade essa que ela parecia provocar com sua cara de tola, rosto que pedia tapa), com brutalidade que só ia manter no emprego Glória, sua colega, porque quanto a ela, errava demais na datilografia, além de sujar invariavelmente o papel. Isso disse ele. Quanto à moça, achou que se deve por respeito responder alguma coisa e falou cerimoniosa a seu escondidamente amado chefe:

— Me desculpe o aborrecimento.

Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão - os maus antecedentes de que falei. Com dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão de Alagoas, lá onde o diabo perdera as botas. Muito depois fora para Maceió com a tia beata, única parente sua no mundo. Uma ou outra vez se lembrava de coisa esquecida. Por exemplo a tia lhe dando cascudos no alto da cabeça porque o cocuruto de uma cabeça de via ser, imaginava a tia, um ponto vital. Dava-lhe sempre com os nós nos dedos na cabeça de ossos fracos por falta de cálcio. Batia mas não era somente porque ao bater gozava de grande prazer sensual — a tia não se casara por nojo — é que também considerava de dever seu evitar que a menina viesse um dia a ser uma dessas moças que em Maceió ficavam nas ruas de cigarro aceso esperando homem. Embora a menina não tivesse dado mostras de no futuro vir a ser vagabunda de rua. Pois até mesmo o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação. A mulherice só lhe nasceria tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol. As pancadas ela esquecia pois esperando-se um pouco a dor termina por passar. Mas o que doía mais era ser privada da sobremesa de todos os dias: goiabada com queijo, a única paixão na sua vida. Pois não era que esse castigo se tornara o predileto da tia sabida? A menina não perguntava por que era sempre castigada mas nem tudo precisava saber e não saber fazia parte importante de sua vida.

Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por uma colega de moradia, Maria da Penha, ligava bem baixinho para não acordar as outras, ligava invariavelmente para a Rádio Relógio, que dava a hora certa e culturas, e nenhuma música se pingava em som de gotas que caem — cada gota de minuto que passava. E sobretudo esse canal de rádio aproveitava intervalos entre as tais gotas de minuto para dar anúncios comerciais — ela adorava anúncios. Era rádio perfeita pois também entre os pingos do tempo dava curtos ensinamentos dos quais talvez um dia viesse precisar saber. Foi assim que aprendeu que o Imperador Carlos Magno era na terra dele chamado Carolus. Verdade que nunca achara modo de aplicar essa informação. Mas nunca se sabe, quem espera sempres alcança. Ouvira também a informação de que o único animal que não cruza com filho era cavalo.

— Isso, moço, é indecência, disse ela para o rádio.

Outra vez ouvira: “Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade”. Então ela se arrependera. Como não sabia bem de que, arrependia-se toda e de tudo. O pastor também falava que a vingança é coisa infernal. Então ela não se vingava.

Havia coisas que não sabia o que significavam. Uma era “efeméride”. E não é que seu Raimundo só mandava copiar com sua letra linda a palavra efemérides ou efemérica? Achava o termo efemírides absolutamente misterioso. Quando o copiava prestava a tenção a cada letra. Glória era estenógrafa e não só ganhava mais como não parecia se atrapalhar com as palavras difíceis das quais o chefe tanto gostava. Enquanto isso a mocinha se apaixonara pela palavra efemérides.

Maio, mês das borboletas noivas flutuando em brancos véus. Sua exclamação talvez tivesse sido um prenúncio do que ia acontecer no final da tarde desse mesmo dia: no meio da chuva abundante encontrou (explosão) a primeira espécie de namorado de sua vida, o coração batendo como se ela tivesse englutido um passarinho esvoaçante e preso. O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois nordestinos, bichos da mesma espécie que se farejam. Ele a olhara enxugando o rosto molhado com as mãos. E a moça, bastou-lhe vê-lo par torná-lo imediatamente sua goiaba-com-queijo.

Ele...

Ele se aproximou e com voz cantante de nordestino que a emocionou, perguntou-lhe:

— E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear?

— Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa antes que ele mudasse de ideia.

— E, se me permite, qual é mesmo sua graça?

— Macabéa.

— Maca - o quê?

— Bea, foi ela obrigada a completar.

— Me desculpe mas até parece doença, doença de pele.

— Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas parece que deu certo — parou um instante retomando o fôlego perdido e acrescentou desanimada e com pudor — pois como o senhor vê eu vinguei... pois é...

— Também no sertão da Paraíba promessa é questão de grande dívida de honra.

Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado:

— Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

Da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que ensopava os ossos. Sem nem ao menos se darem as mãos caminhavam na chuva que na cara de Macabéa pareciam lágrimas escorrendo.

Da terceira vez em que se encontraram — pois não é que estava chovendo? — o rapaz, irritado e perdendo o leve verniz de finura que o padrasto a custo lhe ensinara, disse-lhe:

— Você também só sabe é mesmo chover!

— Desculpe.

Mas ainda não expliquei bem Olímpico. Vinha do sertão da Paraíba e tinha uma resistência que provinha da paixão por sua terra braba e rachada pela seca. Trouxera consigo, comprada no mercado da Paraíba, uma lata de vaselina perfumada e um pente, como posse sua exclusiva. Besuntava o cabelo preto até encharcá-lo. Não desconfiava que as cariocas tinham nojo daquela meladeira gordurosa. Nascera crestado e duro que nem galho seco de árvore ou pedra ao sol. Era mais passível de salvação que Macabéa pois não fora à toa que matara um homem, desafeto seu, nos cafundós do sertão, o canivete comprido entrando mole-mole no fígado macio do sertanejo. Guardava disso segredo absoluto, o que lhe dava a força que um segredo dá. Olímpico era macho de briga. Mas fraquejava em relação a enterros: às vezes ia três vezes por semana a enterro de desconhecidos, cujos anúncios saíam nos jornais e sobretudo no “O Dia”: e seus olhos ficavam cheios de lágrimas. Era uma fraqueza, mas quem não tem a sua. Semana em que não havia enterro, era semana vazia desse homem que, se era doido, sabia muito bem o que queria. De modo que não era doido coisa alguma. Macabéa, ao contrário de Olímpico, era fruto do cruzamento de “o quê” com “o quê”. Na verdade ela parecia ter nascido de uma ideia vaga qualquer dos pais famintos. Olímpico pelo menos roubava sempre que podia e até do vigia das obras onde era sua dormida. Ter matado e roubar faziam com que ele não fosse um simples acontecido qualquer, davam-lhe uma categoria, faziam dele um homem com honra já lavada. Ele também se salvara mais do que Macabéa porque tinha grande talento para desenhar perfeitamente perfeitas caricaturas ridículas dos retratos dos poderosos nos jornais. Era a sua vingança. Sua única bondade com Macabéa foi dizer-lhe que arranjaria para ela um emprego na metalúrgica quando fosse despedida. Para ela a promessa fora um escândalo de alegria (explosão) porque na metalúrgica encontraria a sua única conexão atual com o mundo: o próprio Olímpico. Mas Macabéa de um modo geral não se preocupava com o próprio futuro: ter futuro era luxo.

No dia seguinte, segunda-feira, não sei se por causa do fígado atingido pelo chocolate ou por causa do nervosismo de beber coisa de rico, passou mal. Mas teimosa não vomitou para não desperdiçar o luxo do chocolate. Dias depois, recebendo o salário, teve a audácia de pela primeira vez na vida (explosão) procurar o médico barato indicado por Glória. Ele a examinou, a examinou e de novo a examinou.

— Você faz regime para emagrecer, menina?

Macabéa não soube o que responder.

— O que é que você come?

— Cachorro quente.

— Só?

— Às vezes como sanduíche de mortadela.

— Que é que você bebe? Leite?

— Só café e refrigerante.

— Que refrigerante? - perguntou ele sem saber o que falar. À toa indagou:

— Você às vezes tem crise de vômito?

— Ah. nunca! — exclamou muito espantada, pois não era doida de desperdiçar comida, como eu disse. O médico olhou-a e bem sabia que ela não fazia regime para emagrecer. Mas era-lhe mais cômodo insistir que não fizesse dieta de emagrecimento. Sabia que era assim mesmo e que ele era médico de pobres. Foi o que disse enquanto lhe receitava um tônico que ela depois nem comprou, achava que ir ao médico por si só já curava. Ele acrescentou irritado sem atinar com o porquê de sua súbita irritação e revolta:

— Essa história de regime de cachorro quente é pura neurose e o que está precisando é de procurar um psicanalista!

Ela nada entendeu mas pensou que o médico esperava que ela sorrisse. Então sorriu.

O médico muito gordo e suado tinha um tique nervoso que o fazia de quando em quando ritmadamente repuxar os lábios. O resultado era parecer que estava fazendo beicinho de bebê quando está prestes a chorar.

Esse médico não tinha objetivo nenhum. A medicina era apenas para ganhar dinheiro e nunca por amor à profissão nem a doentes. Era desatento e achava a pobreza uma coisa feia. Trabalhava para os pobres detestando lidar com eles. Eles eram para ele o rebotalho de uma sociedade muita alta à qual também ele não pertencia. Sabia que estava desatualizado na medicina e nas novidades clínicas mas para pobre servia. O seu sonho era ter dinheiro para fazer exatamente o que queria: nada.

Quando ele avisara que ia examiná-la ela disse:

— Ouvi dizer que no médico se tira a roupa mas eu não tiro coisa nenhuma.

Passara-a pelo raio X e dissera:

— Você está com começo de tuberculose pulmonar.

Ela não sabia se isso era coisa boa ou coisa ruim. Bem, como era uma pessoa muito educada, disse:

— Muito obrigada, sim?

O médico simplesmente se negou a ter piedade. E acrescentou: quando você não souber o que comer faça um espaguete bem italiano.

E acrescentou com um mínimo de bondade a que ele se permitia já que se considerava também injustiçado pela sorte:

— Não é tão caro assim...

— Esse nome de comida que o senhor falou eu nunca comi na vida. É bom?

— Claro que é! Olhe só a minha barriga! Isso é resultado de boas macarronadas e muita cerveja. Dispense a cerveja, é melhor não beber álcool. Ela repetiu cansada:

— Álcool?

— Sabe de uma coisa? Vá para raios que te partem!

Sim, estou apaixonado por Macabéa, a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiura e anonimato total pois ela não é para ninguém. Apaixonado por seus pulmões frágeis, a magricela. Quisera eu tanto que ela abrisse a boca e dissesse:

— Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém, todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha.

Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra. E acontece que não tinha consciência de si e não reclamava nada, até pensava que era feliz. Não se tratava de uma idiota mas tinha a felicidade pura dos idiotas. E também não prestava atenção em si mesma: ela não sabia. (Vejo que tentei dar a Maca uma situação minha: eu preciso de algumas horas de solidão por dia senão “me muero”.)

Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho. Quando eu era pequeno pensava que de um momento para outro eu cairia para fora do mundo. Por que as nuvens não caem, já que tudo cai? É que a gravidade é menor que a força do ar que as levanta. Inteligente, não é? Sim, mas caem um dia em chuva. É a minha vingança.

Sobretudo estava conhecendo pela primeira vez o que os outros chamavam de paixão: estava apaixonada por Hans.

— E que é que eu faço para ter mais cabelo? - ousou perguntar porque já se sentia outra.

— Você está querendo demais. Mas está bem: lave a cabeça com sabão Aristolino, não use sabão amarelo em pedra. Esse conselho eu não cobro.

Até isso? (explosão) bateu-lhe o coração, até mais cabelo? Esquecera Olímpico e só pensava no gringo: era sorte demais pegar homem de olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos, não havia como errar, era vasto o campo das possibilidades.

— E agora - disse a madama -você vá embora para encontrar o seu maravilhoso destino. E mesmo porque tem outra freguesa esperando, demorei demais com você, meu anjinho, mas valeu a pena!

Num súbito ímpeto (explosão) de vivo impulso de Macabéa, entre feroz e desajeitada, deu um estalado beijo no rosto da madama. E sentiu de novo que sua vida já estava melhorando ali mesmo: pois era bom beijar. Quando ela era pequena, como não tinha a quem beijar, beijava a parede. Ao acariciar ela se acariciava a sí própria.

Madama Carlota havia acertado tudo, Macabéa estava espantada. Só então vira que sua vida era uma miséria. teve crepúsculo vontade de chorar ao ver o seu lado oposto, ela que, como eu disse, até então se julgava feliz.

Saiu da casa da cartomante aos tropeços e parou no beco escurecido pelo crepúsculo — crepúsculo que é a hora de ninguém. Mas ela de olhos ofuscados como se no último final da tarde fosse mancha de sangue e ouro quase negro. Tanta riqueza de atmosfera a recebeu e o primeiro esgar da noite que, sim, sim, era funda e faustosa. Macabéa ficou um pouco aturdida sem saber se atravessaria a rua pois sua vida já estava mudada. E mudada por palavras — desde Moisés se sabe que a palavra é divina. Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro. Sentia em si uma esperança tão violenta como jamais sentira tamanho desespero. Se ela não era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho. Assim como havia sentença de morte, a cartomante lhe decretara sentença de vida. Tudo de repente era muito e muito e tão amplo que ela sentiu vontade de chorar. Mas não chorou: seus olhos faiscavam como o sol que morria.

Então ao dar o passo de descida da calçada para atravessar a rua, o Destino (explosão) sussurou veloz e guloso: é agora, é já, chegou a minha vez!

E enorme como um transatlântico o Mercedes amarelo pegou-a - e neste mesmo instante em algum único lugar do mundo um cavalo como resposta empinou-se em gargalhada de relincho.

Então — ali deitada — teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte. A morte que é nesta história o meu personagem predileto. Iria ela dar adeus a si mesma? Acho que ela não vai morrer porque tem tanta vontade de viver. E havia certa sensualidade no modo que se encolhera. Ou é porque a pré-morte se parece com a intensa ânsia sensual? é que o rosto dela lembrava um esgar de desejo. As coisas são sempre vésperas e se ela não morre agora está como nós na véspera de morrer, perdoai-me lembrar-vos porque quanto a mim não me perdoo a clarividência.

Um gosto suave, arrepiante, gélido e agudo como no amor. Seria esta a graça a que vós chamais de Deus? Sim? Se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher. Não, não era morte pois não a quero para a moça: só um atropelamento que não significava sequer desastre. Seu esforço de viver parecia uma coisa que, se nunca experimentara, virgem que era, ao menos intuíra, pois só agora entendia que mulher nasce mulher desde o primeiro vagido. O destino de uma mulher é ser mulher. Intuíra o instante quase dolorido e esfuziante do então destino do amor. Sim, doloroso reflorescimento tão difícil que ela empregava nele o corpo e a outra coisa que vós chamais de alma e que eu chamo - o quê?

Aí Macabéa disse uma frase que nenhum dos transeuntes entendeu. Disse bem pronunciado e claro:

— Quanto ao futuro.

Terá tido ela saudade do futuro? Ouço a música antiga de palavras e palavras, sim, é assim. Nesta hora exata Macabéa sente um fundo enjoo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.

O que é que estou vendo agora e que me assusta? Vejo que ela vomitou um pouco de sangue, vasto espasmo, enfim o âmago tocando no âmago: vitória!

E então - então o súbito grito estertorado de uma gaivota, de repente a águia voraz erguendo para os altos ares a ovelha tenra, o macio gato estraçalhando um rato sujo e qualquer, a vida como a vida.(...)

Sumário

- Localização Cronológica
- Panorama Histórico
- Vanguardas Europeias
i. Futurismo
ii. Expressionismo
iii. Cubismo
iv. Cubo Futurismo
v. Dadaísmo
vi. Surrealismo
- Modernismo em Portugal
- Fernando Pessoa
- Modernismo no Brasil - 2ª Fase: 1930
- 2ª geração - Prosa - Romance Regionalista
i. Rachel de Queiroz
ii. José Lins do Rego
iii. Graciliano Ramos
iv. Jorge Amado
v. Érico Veríssimo
vi. Carlos Drummond de Andrade
vii. Cecília Meireles
viii. Vinícius de Moraes
- 3ª geração - Teoria, Autores e Obras
i. Guimarães Rosa
ii. Clarice Lispector
iii. João Cabral de Melo Neto
- Antologia
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