Humanismo - Características

Panorama histórico

O Humanismo não é uma estética literária, e sim um período de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna, caracterizado por profundas transformações políticas, econômicas e sociais (inclusive religiosas).

Politicamente, o século XIV é marcado pela decadência do sistema feudal, consequência da Peste Negra (entre 1347 e 1350 esta peste devasta a Europa, causando milhares de vítimas; só em Portugal eliminou mais de 1/3 da população); da Guerra dos Cem Anos (entre Inglaterra e França, mas com repercussões em toda a Europa entre 1346 e 1450); a consequente escassez de mão de obra para as pequenas indústrias artesanais emergentes.

Com o advento do século XV, diminuem as guerras, as crises, as revoltas, seguindo-se uma recuperação política e econômica conhecida como mercantilismo. Com o enfraquecimento do poder dos senhores feudais e o surgimento da burguesia, classe concentradora de riquezas, fortalece-se o poder real. Alteram-se as relações sociais. Os nobres empobrecem e os burgueses enriquecem com o comércio, provocando o surgimento das cidades (burgos). O "status" econômico torna-se mais importante que a nobreza de origem.

A necessidade do estabelecimento de novas rotas comerciais estimula as grandes navegações, ampliando os horizontes do europeu ocidental.

A própria Igreja, abalada em seus alicerces e minada por crises internas, vai, aos poucos, perdendo seu poder: a religiosidade e o teocentrismo medievais cedem lugar a um homem que se descobre senhor de seu destino e dominador da natureza. O antropocentrismo apresenta-se como uma nova visão de mundo e culmina com o Renascimento da cultura clássica.

Panorama cultural

O Humanismo foi um movimento cultural desencadeado pela atuação dos "humanistas" italianos, no século  XIV; entre estes, Petrarca e Bocaccio. Os homens desse grupo se interessavam pela cultura greco-latina, cujos textos eram pesquisados, traduzidos, divulgados.

Toda a arte produzida no século XV registra a passagem de uma visão teocêntrica para uma visão antropocêntrica de mundo. As pinturas não se apresentam apenas como cenas religiosas; a escultura também adquire autonomia e aproxima-se de uma visão mais realista da vida. A arquitetura gótica começa a modificar-se (gótico flamejante) e novas formas começam a projetar-se.

A literatura tende a refinar-se, sofrendo influência dos autores gregos e latinos, cada vez mais lidos e apreciados. A própria língua escrita passa por um acurado processo de latinização, sofisticando-se no decorrer dos séculos XV e XVI.

Humanismo em Portugal

Fatos importantes em Portugal:

  • centralização do poder monárquico nas mãos de D. João I, o mestre de Avis (Revolução de Avis, 1383-1385); a expansão ultramarina, a partir de 1415, com a tomada de Ceuta;
  • ambiente cultural propício ao desenvolvimento das artes e das letras, estimulado pelos reis da Dinastia de Avis (D. João I, D. Duarte, D. Pedro).
  • nomeação de Fernão Lopes para guarda-mor da Torre do Tombo (torre do castelo de Lisboa onde se guardavam os documentos oficiais do Reino), em 1418.
  • nomeação de Fernão Lopes para cronista-mor do Reino, com a incumbência de "pôr em crônica as histórias dos reis de Portugal", em 1434, fato considerado marco inicial do Humanismo português.
  • 1527: volta da Itália o poeta Sá de Miranda, onde permanecera seis anos em contato com o Renascimento, cujas ideias serão difundidas em Portugal. Tal data é considerada o marco inicial do Classicismo português.

A prosa, a poesia e o teatro testemunham as mudanças ocorridas no período, deixando transparecer a substituição da cultura medieval por uma nova maneira de avaliar a vida e o homem.

Prosa (gênero narrativo)

a) Prosa doutrinária (didática) e religiosa

Durante a dinastia de Avis, os príncipes preocuparam-se em mandar traduzir obras importantes, organizar bibliotecas e escrever.

Na prosa doutrinária, dirigida à nobreza, destacam-se:

    • Livro da montaria, de D. João I.
    • Livro da ensenança de bem cavalgar toda sela e Leal conselheiro, de D. Duarte.
    • Virtuosa benfeitoria, de D. Pedro.
    • Livro da falcoaria, de Pero Coelho.

b) Novelas de cavalaria

As narrativas das aventuras de cavaleiros medievais enfrentando provações físicas e morais em nome da honra e do amor, entremeadas de elementos fantásticos e sobrenaturais, sobrevivem durante o Humanismo. No século XIV, surge a novela Amadis de Gaula, matriz de mais de uma dezena de outras novelas ao longo dos séculos XV e XVI (Ciclo dos Amadises). São da mesma época O Palmeirim da Inglaterra e a Crônica do Imperador Clarimundo. D. Quixote encerra o ciclo das novelas de cavalaria, satirizando o herói cavalheiresco.

Sua herança, no entanto, permanece até hoje, seja em trechos de congada e cavalhada, seja na literatura de cordel, no nordeste brasileiro (as histórias de Carlos Magno e os Doze Pares de França), seja em histórias em quadrinhos ou desenhos animados destinados a crianças e jovens, seja em filmes de pretensões épicas como El Cid,  Excalibur, Indiana Jones e a Última Cruzada.

O Teatro (gênero dramático)

Representações teatrais sempre foram apreciadas nas cortes, igrejas, feiras e praças das cidades medievais. Tais representações cênicas não se caracterizavam como teatro, pois não existiam textos elaborados para representação. Havia dois tipos de representações:

a) Encenações religiosas ou litúrgicas:

  • mistérios: encenação de passagens da Bíblia, da vida de Jesus etc.
  • milagres: encenação da vida dos santos da Igreja.
  • moralidades: encenações que utilizavam personagens alegóricas, sugerindo a moralização dos costumes.

b) Encenações profanas:

  • arremedilhos ou arremedos: imitação humorística.
  • momos: espécie de improvisações "carnavalescas".
  • "sotties" ou farsas: representações satíricas de origem popular, onde aparece com frequência a figura do parvo (louco).

c) Gil Vicente

Gil Vicente soube aproveitar os elementos cênicos anteriores e, dando-lhes forma dramática e estilo pessoal, pode ser considerado o verdadeiro criador do teatro português.

Encenou sua primeira peça em 1502, o Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação, no quarto de D. Maria, esposa de D. João III. Antes disso, pouco se sabe de sua vida: teria sido ourives ou mestre da balança na corte portuguesa, onde gozou de prestígio e proteção, a ponto de sentir-se à vontade para criticar todas as classes sociais (algumas de suas peças foram posteriormente censuradas pela Inquisição).

Possuía bons conhecimentos da língua portuguesa, do castelhano, do latim e de assuntos teológicos. Durante 34 anos produziu textos teatrais (influenciado a princípio por escritores espanhóis) e algumas poesias (colaborou no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende). Sua obra compõe-se de 44 peças (17 em português, 11 em castelhano e 16 bilíngues), sendo as mais conhecidas: Auto da Índia; O Velho da Horta e Quem tem farelos?; Auto de Mofina Mendes; Auto da Alma; Trilogia das Barcas (Auto da Barca do Inferno, da Glória e do Purgatório); Auto da Lusitânia; Farsa de Inês Pereira.

Obras:

Crônica del-Rei D. Pedro I: D. Pedro I, oitavo rei de Portugal, reinou entre 1357 a 1367, sucedendo a seu pai Afonso IV. Casado com Da. Constança de Castela, apaixona-se por Inês de Castro, dama de companhia de D. Constança. Com ela pretende casar-se, após a morte da esposa. Em 1355, Inês é assassinada (degolada) por ordem de Afonso IV, desencadeando profunda revolta em D. Pedro e uma crise irremediável com o pai. Em 1361, já rei, D. Pedro I exuma o corpo de Inês com pompas de rainha. Tais fatos transformaram-se em mito e aparecem em outras obras da História e da Literatura Portuguesa.

Crônica del-Rei D. Fernando: reconstitui o período do reinado de D. Fernando, seu casamento com Leonor Telles, até o início da Revolução de Avis.

Crônica del-Rei D. João I:  aborda dois períodos: 1383 (morte de D. Fernando) a 1385 (D. João é aclamado rei); 1385 a 1411 (governo de D. João I até a paz com Castela).

Poesia Palaciana (gênero lírico)

Os trovadores medievais e as cantigas trovadorescas praticamente desaparecem de meados do século XIV até por volta de 1450. Tal fato relaciona-se a uma nova visão de mundo (burguesa), voltada para a vida prática, as navegações, a expansão marítima, a austeridade da dinastia de Avis, as mudanças formais do texto, o empobrecimento dos temas palacianos.

A partir de 1450, sob o reinado de Afonso V, protetor das letras, ocorre um reflorescimento da poesia, palaciana, aristocrática e rebuscada. Aparece compilada no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, publicado em 1516, com mais de 1000 poesias líricas e satíricas, de diversos autores: "A leitura do Cancioneiro mergulha-nos em plena vida palaciana. À medida que se concentrava em torno do rei, a corte desenvolvia e variava sua vida social, procurava formas novas e próprias de passatempo e animação. A grande maioria das composições do Cancioneiro Geral destinava-se aos serões do paço, onde se recitava, se disputavam concursos poéticos, se ouvia música, se galanteava, se jogava, se realizavam pequenos espetáculos de alegorias ou paródias. Tudo isso se fazia dentro dum estilo que tendia a apurar-se, como se apurava o vestuário, o penteado, a linguagem e o gesto." (Antônio J. Saraiva e Oscar Lopes).

Características da poesia palaciana:

  • distanciamento da dança e do acompanhamento musical;
  • consequente necessidade de aprimoramento técnico: o poeta deve conseguir musicalidade com recursos de linguagem artística: uso consciente de rimas, métricas e ritmos; ambiguidades e jogos de palavras; aliterações e figuras de linguagem, entre outros;
  • impressão de poemas e sua divulgação, popularizando-os para leitura e não mais para serem ouvidos;
  • persistência do tema amor-sofrimento, originário da lírica trovadoresca: de um lado o amor platônico, de outro o amor sensual, reflexo do Humanismo e do Renascimento;
  • a mulher, extremamente idealizada na lírica medieval, transforma-se pouco a pouco em um ser mais humano, mais concreto;
  • são frequentes as poesias religiosas, com alusões à Virgem Maria; acrescentam-se textos com preocupações morais e éticas (Bem);
  • quanto à estrutura, observa-se uma grande variedade de formas de composição: versos redondilhos (maiores e menores), vilancetes, esparsas, motes glosados.

Historiografia: crônicas de Fernão Lopes:

Fernão Lopes é considerado o pai da historiografia portuguesa. Viveu por volta de 1380 a 1460. Em 1418 é nomeado guarda-mor da Torre do Tombo (arquivo do Reino) e, em 1434, incumbido pelo rei D. Duarte de escrever a história dos reis de Portugal.

Fernão Lopes introduz visão nova sobre a historiografia. Seus predecessores constituíam-se meros compiladores, que ordenavam os fatos e os registravam cronologicamente, tecendo elogios aos reis. Fernão Lopes é reconhecido como "historiador-cientista" por sua preocupação com a verdade histórica; e como narrador-artista pela beleza da narrativa e preocupação com a forma.

Principais características de suas crônicas:

  • desprezo do relato oral e busca de documentação escrita; comparação de várias fontes documentais para interpretação de um mesmo fato; busca de fontes de informação fidedignas; valorização do papel do povo ("arraia-miúda") nas guerras, rebeliões e transformações sociais;
  • importância dos fatores econômicos nessas rebeliões; preocupação com o estilo e amplo domínio das palavras;
  • emprego de técnicas novelísticas de relato, tais como: descrições minuciosas, movimentadas, coloridas, das aldeias, das festas populares, das guerras e rebeliões;
  • cortes no fluxo das ações e simultaneidade de cenas; emprego de diálogos com o leitor e entre as personagens; criação de perfis humanos reais, com suas ambições, fraquezas, atos de bravura e covardia (D. João, Da. Leonor Telles, D. Fernando, D. Pedro, etc.).

  • Aulas relacionadas

Sumário

- Panorama histórico
- Panorama cultural
- Humanismo em Portugal
i. Prosa (gênero narrativo)
ii. O Teatro (gênero dramático)
iii. Poesia Palaciana (gênero lírico)
- Antologia
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