Arcadismo - Características

De origem italiana, o Arcadismo é o movimento literário do século XVIII, o Século das Luzes.

O predomínio da razão sobre os demais valores da atividade humana faz com que o homem do século XVIII elimine a fé e a crença religiosa (dramáticas no período barroco) de sua rotina. Sendo assim, o rebuscamento excessivo da linguagem é abolido, fazendo com que a arte se torne mais simples, equilibrada e harmônica.

A Europa do século XVIII caracteriza-se por transformações no modo de pensar e conceber o mundo. A literatura não surge como expressão direta das vivências do autor, mas sim, como formação intelectual; uma literatura baseada nos autores clássicos consagrados (Camões, Horácio, Petrarca, Virgílio, Homero etc.). Por ser baseado nesses autores, o Arcadismo faz uso da mímese.

Caracterização

Entre as características principais do Arcadismo, podem-se destacar:

Imitação (mimesis): os poetas árcades imitam a erudição e o conhecimento dos autores clássicos; desse modo, demonstram uma preocupação ligada ao formalismo literário. Exemplo: Vila Rica, de Cláudio Manuel da Costa e Caramuru, de Santa Rita Durão, baseiam-se em Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.

Pastoralismo ou Panteísmo: o poeta árcade assume um pseudônimo pastoril e reage intelectualmente como um pastor perante seu rebanho, sua amada  e a Natureza.

Racionalismo e Universalismo: a fé e a crença religiosa são deixadas de lado,  o homem assume um comportamento racional, experimental diante do mundo.

Bucolismo: principal característica do Arcadismo, busca da paz e da tranquilidade do campo.  Fugere urbem (fuga do urbano, da cidade), Aurea mediocritas (pura simplicidade), Locus amoenus (lugar ameno) e Inutilia truncat (cortar as coisas inúteis).

Durante o período histórico que correspondeu à fase do colonialismo português no Brasil, o Arcadismo representou, na literatura, um momento de antítese na realidade brasileira. A coincidência de interesses entre a Coroa Portuguesa e a atividade de particulares, que depois formaram a classe dos proprietários de terras e escravos, no apogeu da agricultura (ciclo da cana-de-açúcar), causou uma ruptura entre a Coroa Portuguesa e a classe dos proprietários (dos quais faziam parte os letrados, desligados da realidade brasileira).

A atividade agrícola permitira o enriquecimento dos proprietários territoriais. Com tais condições, os filhos dos latifundiários estudavam na Europa, assimilando os valores daquele continente.

A produção literária do Arcadismo brasileiro possui valores e temas europeus, distantes da realidade deste país.

Autores e Academias Portuguesas

A Arcádia Lusitana ou Ulissiponense, fundada em 1756, por Antônio Dinis da Cruz e Silva e Manuel Esteves Negrão, é o marco inicial do Arcadismo português.Dela participaram Pedro Antônio Correia Garção, seu maior representante e criador dos estatutos. Extinta em 1776, renasceu em 1790, com a designação de Nova Arcádia ou Academia das Belas Letras de Lisboa, tendo como membros: Barbosa du Bocage, Nicolau Tolentino, Anastácio da Cunha, Domingos Caldas Barbosa, entre outros.

Arcadismo x Barroco

O arcadismo se opõe ao Barroco na medida em que condena o abuso das hipérboles, das antíteses, do jogo de palavras, das formas complicadas. Propõe uma literatura espontânea e natural. Seu lema fundamental era "inutilia truncat" (cortar o que é inútil) - a linguagem árcade será mais simples e equilibrada que a Barroca, (elaborada e exuberante). Seu modelo de composição é a literatura clássica greco-romana: simétrica, regular, contida.

Os Árcades opõe a Verossimilhança à fantasia do Barroco. Os temas fundamentais do Arcadismo são: bucolismo, pastoralismo, exaltação da vida natural como fonte de todo bem e felicidade ("fugere urbem"). Visão idílica da vida natural onde se vive sem paixões ou conflitos ("locus amoenus"). A vida é breve, é preciso aproveitar o tempo que passa ("carpe diem"). Elogio da simplicidade ("aurea mediocritas").

Ressurgimento da poesia pastoril no século XVIII

 A poesia pastoril e bucólica está ligada a contextos históricos nos quais houve grande desenvolvimento urbano; na Grécia de Teócrito (300 A.C.), na Roma de Virgílio (70 A.C.) e Horácio (60 A.C.), na Florença de Sannazzaro (1502). Nos fins do século XVII os valores clássicos ressurgem com a Arcádia Romana (1690) e se desenvolvem na Europa e no Brasil (século XVIII). Esse movimento foi, no plano da criação estética, uma superação da arte Barroca (mundo conturbado e inseguro). Neste período, no plano econômico e político estava a burguesia criando uma cultura adequada a seu "status" monetário; uma arte sofisticada, mas não exuberante, uma estética racionalista modelada nos conceitos da filosofia naturalista do século: no Iluminismo, no pensamento de Rousseau. Em Portugal, a Restauração, a expulsão dos jesuítas e a monarquia ilustrada de D. João V formaram o contexto no qual se desenvolveram as novas ideias, vindas da Itália e da França; nele, o intelectual brasileiro busca seus modelos.

Obra de Cláudio Manuel da Costa

Iniciador do Arcadismo no Brasil, Cláudio Manuel da Costa é um poeta  que utiliza a estética barroca. Marcado por um forte sentimento da terra brasileira, especialmente pela paisagem rochosa de Minas Gerais. Sua poesia revela inquietações existenciais, conflitos amorosos, dilaceramento interior e um acentuado lirismo. Além de "Obras Poéticas", escreveu o poema épico "Vila Rica," no qual narra a expansão bandeirante, a exploração das minas de metais preciosos e a fundação de Ouro Preto. Descreve a luta pela terra e os amores de uma índia, Gupeva, por um português; este é o primeiro livro nacional que apresenta uma visão lírica do índio, integrando-o esteticamente no texto. O pseudônimo pastoril de Cláudio Manuel da Costa era Glauceste Saturnio.

Obra de Tomás Antônio Gonzaga

Gonzaga escreveu: Marília de Dirceu e Cartas Chilenas. O primeiro é um livro de poesias líricas, escrito dentro dos moldes do Arcadismo que já anuncia em sua última parte posturas e inquietações pré-românticas. Seus temas mais comuns são: "carpe diem,"  "fugere urbem," "aurea mediocritas".

Gonzaga possui, um lirismo amoroso que o distingue de todos os escritores desse período. Sem a menor nota de sensualismo ou paixão, sua concepção de amor é serena, burguesa. Usa um tom coloquial em seus poemas, criando uma linguagem galante e singela. "Cartas Chilenas" é uma sátira ao governador da Capitania de Minas, Luís da Cunha Menezes. São doze cartas que Critilo escreveu a Doroteu, ridicularizando o governador do Chile, Fanfarrão Minésio, como um tirano sem escrúpulos. "Chilenas" equivale a Mineiras e "Minésio" a Menezes. Escritas num estilo mordaz e expressivo, são um índice de ideologia "ilustrada" de Gonzaga, um dos poetas que melhor realizou os cânones da poesia Árcade no Brasil.

Obra de Basílio de Gama

O Uraguai, sua principal obra, é, do ponto de vista de linguagem, bastante inovadora; é um poema épico em decassílabos brancos (sem rima) que não apresenta a mitologia grega em sua composição. Seu propósito inicial era criticar os jesuítas e defender a política do Marquês de Pombal; entretanto, ele  rompe com a intenção laudatória e cria uma poesia de grande qualidade, deslocando o foco da crítica para do jesuitismo, para a exaltação do indígena e da razão natural.Esse livro defende a luta do  índio contra os europeus, apresentando um ponto de vista anticolonial, sendo a primeira obra literária no Brasil a assumir esta postura. Esse poema épico narra a Guerra que moveu portugueses e espanhóis contra os índios e jesuítas das Missões dos Sete Povos do Uruguai, em consequência do tratado de Madri, que transferiu aquelas terras para os portugueses e a Colônia de Sacramento para a Espanha. Seus personagens principais são: Gomes Freire de Andrada, general português; Cacambo e Sepé, chefes indígenas; Lindoia, amante de Cacambo; Caitetu, irmão de Lindoia; Tanajura, feiticeira da tribo; Padre Baldo, jesuíta ambicioso;  Baldeta, seu filho.

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Sumário

- Caracterização
- Autores e Academias Portuguesas
- Arcadismo x Barroco
- Ressurgimento da poesia pastoril no século XVIII
- Obra de Cláudio Manuel da Costa
- Obra de Tomás Antônio Gonzaga
- Obra de Basílio de Gama
- Antologia
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