O Gênero Narrativo

O Gênero Narrativo

O gênero narrativo é o que se chama de prosa de ficção. No gênero narrativo, o escritor cria uma realidade ficcional em que personagens, inseridos em um determinado espaço e tempo, desenvolvem suas ações, que são narradas por um narrador.

A história contada se trata de ficção. É criada pelo autor. Não cabe, portanto, o conceito de verdadeiro ou falso. Basta que ela seja lógica. O autor pode estabelecer as regras do mundo imaginário que elabora, mas a história precisa fazer sentido.

O que importa em uma narrativa literária não é a veracidade do relato. O que importa é a verossimilhança: a coerência das ações com as leis do universo criado.

- Verossimilhança Externa: histórias fictícias que coincidem com a realidade.

- Verossimilhança Interna: enredos que fazem sentido na própria narrativa, mas que contêm absurdos em relação ao mundo real.

Características linguísticas

O texto narrativo expressa as relações entre os indivíduos, os conflitos e as ligações entre esses indivíduos e o restante do mundo, utilizando situações que contêm essa vivência. Há no interior do texto narrativo uma progressão temporal entre os acontecimentos relatados. Isso significa que os fatos narrados não são simultâneos: há mudanças de um estado para outro, segundo relações de sequencialidade e causalidade. Os enunciados relatam ocorrências anteriores e posteriores, umas às outras. Portanto, não é possível alterar a ordem dos enunciados sem que se altere o significado básico do texto.

Em todo texto narrativo há um narrador, que relata a progressão dos acontecimentos. Há também personagens, que praticam ações ou sofrem as consequências delas. O texto narrativo constitui-se de uma série de fatos, que se situam em um espaço e se sucedem no tempo.

A atividade de narrar uma história é até mais antiga do que o desenvolvimento da língua escrita. Desde a antiguidade, a narração oral garantiu a transmissão do conhecimento acumulado pela comunidade.

A narrativa pode utilizar apenas a linguagem visual, em que os elementos são vistos pelo leitor. Também pode utilizar apenas linguagem verbal (língua falada ou escrita), em que o receptor ouve ou lê as frases e cria em sua mente as imagens. Há uma terceira possibilidade: a utilização da linguagem visual e da linguagem escrita simultaneamente. Um bom exemplo dessa terceira possibilidade são as histórias em quadrinhos, que narram fatos – reais ou imaginários – por meio tanto do desenho como da língua escrita.

Características da narrativa

Um texto pode ser identificado como narrativo quando há nele mudança de um estado para outro, isto é, quando há transformação. Tais transformações ocorrem por meio de certos recursos linguísticos: uso preferencial de alguns tempos e modos verbais, uso de advérbios e expressões adverbiais, uso de um vocabulário mais concreto, presença de sujeito mais determinado, evidência de relações de anterioridade, posterioridade ou concomitância entre os fatos narrados.

1. Tempos e modos verbais

Em um texto, há dois modos de ordenar os tempos: em relação ao momento da fala e em relação a um marco temporal que se localiza no texto.

Com relação ao momento da fala, o acontecimento pode ser concomitante, anterior ou posterior. Cada uma dessas possibilidades corresponde a um tempo verbal, respectivamente: presente, pretérito perfeito e futuro do presente (modo indicativo). A expressão da posterioridade pode ser realizada também pela forma do presente, que dá maior expressividade à narração.   

Com relação a um marco temporal instaurado no texto, a ordenação dos tempos e modos é mais detalhada. Os fatos podem ser concomitantes, anteriores ou posteriores tanto a um marco temporal no passado como a um marco temporal no futuro.

Cada tempo verbal utilizado em um texto narrativo tem uma finalidade coesiva: é responsável pela progressão da ação.

2. Advérbios e expressões adverbiais

A organização do tempo pode também ser realizada por meio do uso de advérbios e expressões adverbais. Estes são utilizados tanto em relação ao momento da fala quanto em relação ao tempo focalizado no texto.

3. Coesão e coerência no texto narrativo

A estrutura narrativa é uma sequência de fatos relacionados entre si. Apresenta uma ordem temporal (cronologia) e uma ordem causal (relação de causa e efeito). Um texto coerente não significa que os acontecimentos são apresentados de forma linear. Os acontecimentos podem ser apresentados por meio de retornos no tempo – técnica denominada flashback.

O autor de um texto narrativo precisa cria personagens consistentes, motivados por determinados objetivos ou desejos, que se movimentam em um certo cenário.

Elementos estruturais do texto narrativo

1. Enredo

Enredo: a história a ser contada. Enredo é o nome dado ao desenrolar dos acontecimentos que ocorrem com os personagens em um determinado lugar. O enredo se organiza por meio do conflito – o desequilíbrio entre duas forças ou dois personagens. No final do enredo, há o desfecho, que pode ou não ser uma conclusão definitiva do conflito.

Como foi explicado acima, uma narrativa é uma ordenação de fatos em sequência temporal. É a própria existência do eixo do tempo que distingue a narração de outros gêneros – a descrição e a dissertação. Ao longo da narrativa, ocorrem alterações na relação entre os personagens. Há, assim, mudanças de estados narrativos.

Um enredo pode apresentar os seguintes elementos:

  • apresentação: momento em que são mostrados os dados do mundo ficcional construído e a situação de normalidade em que eles se encontram.
  • acontecimento (complicação): momento em que ocorrem os eventos que quebram a normalidade, gerando conflitos.
  • clímax: ápice de tensão. É quando ocorre o evento que possibilita o desfecho da narrativa.
  • desfecho: momento em que é apresentada a situação de normalidade final. Pode ser igual ou diferente da situação inicial.

Observação: Muitos autores costumam não apresentar todos os elementos ou não respeitar a ordem em que são apresentados. Isso pode gerar interessantes efeitos de sentido. Se a narrativa obedecer à ordem tradicional, é denominada de linear. Caso contrário, é alinear.

2. Personagens

Personagens são os seres inventados pelo autor. São as pessoas de uma história – as representações de seres humanos. Mesmo em uma narrativa alegórica, em que os personagens são animais ou objetos, estes são humanizados. Geralmente, um personagem é caracterizado por suas características físicas, psicológicas e emocionais, por suas ações e por sua linguagem.

Os personagens se movimentam e se relacionam. De fato, as relações entre os personagens caracterizam um estado narrativo. As mudanças ocorridas em tais relações caracterizam as ações. Um personagem pode viver uma relação harmoniosa ou conflituosa com outros personagens. O personagem também se relaciona consigo mesmo e com o mundo em volta dele. Na análise de uma narrativa, é fundamental percebera a natureza do personagem não apenas com outros personagens, mas também com o ambiente físico e social em que vive.

Em um texto narrativo bem construído, não há personagens desnecessários. Todos eles exercem um papel.

Entre os personagens há o protagonista (o herói) e o antagonista (o vilão). Há os personagens principais: o agente (o personagem responsável pela ação) e o paciente (o personagem afetado pela ação). Há também os personagens secundários (que contribuem para que a ação seja concluída ou que se opõem a ela) e os figurantes (que ajudam a compor o ambiente da estrutura narrativa dos personagens).

3. Narrador

Toda história possui um narrador – o ser ficcional que narra a história. O narrador é aquele que transmite as ações e caracteriza os personagens e os estados narrativos.

É fundamental não confundir o narrador com o autor da história. Já que o propósito da narrativa é que seja uma recriação do mundo real – e não sua transcrição exata –, o texto só pertence ao gênero narrativo se o autor e o narrador não forem a mesma pessoa.

O autor é alguém real: é a pessoa que escreve a história. O narrador, por outro lado, é um ser fictício, um dos personagens do livro, criado pelo autor. Por exemplo, o autor da obra Dom Casmurro é Machado de Assis. Já o narrador de Dom Casmurro é Bentinho – um ser fictício (um dos personagens do livro) criado por Machado de Assis.

Em certos textos narrativos, parece haver coincidência entre o narrador e o autor. É importante não confundir com o outro. Vale lembrar que toda obra literária é uma representação. Isso implica alguma distorção da realidade. Portanto, a personalidade do autor nunca é idêntica à do narrador.

O narrador pode se comportar como um observador: pode descrever fatos, ambientes e personagens em seus aspectos exteriores. Mas ela pode ser também onisciente: pode conhecer os pensamentos e os sentimentos dos personagens. Há também o conceito de onisciência relativa. Isso ocorre quando o narrador tem conhecimento onisciente sobre um determinado personagem ou um grupo restrito de personagens.

A análise da narração deve considerar três fatores: a trama, o foco narrativo e a linguagem do narrador.

4. Trama

A trama é o modo como a história é narrada: é o modo como o narrador mostra a sequência de ações ao leitor. Exemplificando: o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas se inicia com a narração da morte do personagem central – Brás Cubas. A seguir, sua vida é apresentada na progressão natural – desde à infância até a morte. A morte de Brás Cubas é, portanto, o final da história, mas é o início da trama.

O Foco Narrativo

O foco narrativo é o estudo do tipo de narrador – da relação entre o narrador e os personagens. O narrador pode ou não ser um dos personagens da história.
O conhecimento do narrador sobre o mundo criado e sobre a vida íntima dos personagens pode ser total ou parcial. Portanto, sua abordagem pode ser neutra ou parcial. A escolha do foco narrativo depende da mensagem que a obra objetiva transmitir.

Há, basicamente, quatro tipos de foco:

1ª Pessoa – protagonista: O narrador do texto participa da história e o personagem principal. Ele manifesta parcialmente suas opiniões, desejos e percepção dos eventos.

1a Pessoa – personagem secundário: O narrador não é o protagonista da história. Ele é apenas um narrador privilegiado das ações desempenhadas por outros personagens da história. Esse foco garante a verossimilhança à matéria narrada, pois, em geral, trata-se de um personagem que vivenciou a história.

3a Pessoa – onisciente: O narrador relata uma história de que não participa. Ele não é um dos personagens do mundo ficcional criado. Ele é onisciente, isto é, sabe tudo. Sua onisciência permite que ele narre o que ocorre em vários lugares simultaneamente. Ele também sabe o que pensam e sentem os personagens. É importante apontar que essa onisciência pode ser seletiva: pode se aplicar a apenas alguns eventos e personagens, não a todos.

3ª Pessoa – observador dos fatos: Há um narrador objetivo que relata o desenrolar dos eventos. Tudo o que se sabe da história, portanto, é o que se pode captar de seus atos e gestos.

É importante observar que o narrador pode mudar o foco utilizado.

Linguagem do narrador

A linguagem do narrador revela seu relacionamento com o universo da narrativa. Quanto mais próxima a linguagem do narrador for da linguagem dos personagens, maior será sua identificação com o mundo criado pela narrativa.

Os diferentes tipos de discurso determinam as diferentes formas que o narrador pode utilizar para relatar as falas dos personagens.

Discurso direto

O narrador delega voz à personagem. Trata-se de um efeito de realidade. Esse tipo de discurso valoriza a emoção dos personagens e torna a narrativa mais ágil.

Em geral, o discurso direto é marcado no texto por sinais: aspas, travessão, etc. Contudo, recentemente, tornou-se comum a falta de qualquer elemento estrutural para identificar o discurso direto.

Exemplo de discurso direto:

Duas mulheres conversando:
- Graças a mim, o meu marido ficou milionário!
- Ué! – estranhou a outra. – Quando vocês se casaram ele já não era milionário?
- Não, quando nos casamos ele era multimilionário!
Sírio Possenti. Os humores da língua. Agenda 2003. Campinas: Mercado de Letras, 2003.

Discurso indireto

O narrador relata o que foi dito pelo personagem. Isso gera um certo distanciamento do leitor em relação à história, pois ela é filtrada pelo narrador.

Exemplo:

Elisiário confessou que estava com sono. (Machado de Assis)

Há casos em que o narrador-personagem constrói seu próprio discurso indireto.

Exemplo:

Engrosso a voz e afirmo que sou estudante. (Graciliano Ramos)

O discurso indireto emprega verbo declarativo (dizer, afirmar, etc.), conjunção integrante “que” ou “se” e subordinada substantiva.

Observação: Na transposição do discurso direto para o indireto e vice-versa, é necessário que sejam feitas as mudanças necessárias nos tempos verbais, pronomes e advérbios.

Discurso Indireto Livre

É a forma mais íntima de ligação entre o narrador e o personagem. O narrador fala ou pensa como se estivesse vivendo aquela cena do personagem.

A voz que narra confunde-se com a da personagem. Esse tipo de discurso não possui a pontuação do discurso direto. Em vez disso, apresenta-se na terceira pessoa. É frequente o emprego do pretérito imperfeito, do futuro do pretérito e de exclamações e interrogações.

Exemplo:

Afinal para que serviam os soldados amarelos? Deu um pontapé na parede, gritou enfurecido. Para que serviam os soldados amarelos? Os outros presos remexeram-se, o carcereiro chegou à grade, e Fabiano acalmou-se.
Graciliano Ramos, Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 33

Transformação de discurso

Na transformação do discurso direto para o indireto, a fala do personagem se conecta ao discurso do narrador por meio da conjunção integrante que ou se (explícitas ou implícitas) e sofre mudanças significativas.

Tabela - Verbos

Discurso direto

Discurso indireto

Presente do Indicativo
Todos os eleitores disseram:
- Acreditamos no presidente.

Imperfeito do Indicativo
Todos os eleitores disseram que acreditavam no presidente.

Perfeito do Indicativo
O advogado perguntou:
- Ele não assinou o documento?

Mais-que-perfeito do Indicativo
O advogado perguntou se ele não assinara (tinha assinado) o documento.

Futuro do Presente
O técnico garantiu:
- Eu consertarei o computador.

Futuro do Pretérito
O técnico garantiu que consertaria o computador.

Presente do Subjuntivo
- Duvido de que o presidente aprove a lei – disse-lhe o deputado.

Imperfeito do Subjuntivo
O deputado disse-lhe que duvidava que o presidente aprovasse a lei.

Futuro do Subjuntivo
- Raquel disse: - Só sairei quando José chegar.

Imperfeito do Subjuntivo
Raquel disse que só sairia quando José chegasse.

Imperativo
- Passe-me o documento – pediu-me o policial.

Imperfeito do Subjuntivo
O policial pediu-me que lhe passasse o documento.

Tabela - Pronomes

Discurso direto

Discurso indireto

eu, nós, você(s), senhor(a)(s)
O escritor afirmou:
- Eu amo escrever.

ele (s), ela (s)
O escritor afirmou que ele amava escrever.

meu(s), minha(s), nosso(a)(s)
- Meus pais participarão da reunião – disse a aluna.

seu(s), sua(s), dele(a)(s)
A aluna disse que seus pais participariam da reunião.

este(a)(s), isto, isso
- Isso lhe pertence? – perguntou José ao amigo.

aquele(a)(s), aquilo
José perguntou se aquilo pertencia ao amigo.

Tabela – Advérbios

Discurso direto

Discurso indireto

ontem, hoje, amanhã
- Hoje não posso atendê-lo – disse o gerente.

no dia anterior, naquele dia, no dia seguinte
O gerente disse que naquele dia não podia atendê-lo.

aqui, cá, aí
- Não ensino mais aqui! – afirmou o professor.

ali, lá
O professor afirmou que não entrava mais ali.

Sumário

- Características linguísticas
- Características da narrativa
i. Tempos e modos verbais
ii. Advérbios e expressões adverbiais
iii. Coesão e coerência no texto narrativo
- Elementos estruturais do texto narrativo
i. Enredo
ii. Personagens
iii. Narrador
iv. Trama
- O Foco Narrativo
- Linguagem do narrador
i. Discurso Direto
ii. Discurso Indireto
iii. Discurso Indireto Livre
iv. Transformação de discurso
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