O Gênero Lírico

O gênero lírico compreende textos em que a musicalidade e a reflexividade se juntam para formar um conjunto expressivo. O gênero lírico originou-se de uma modalidade poética que, na Idade Média, era cantada ao som de instrumentos como a lira. Isso explica a origem da expressão “lírico”.

Tradicionalmente, o gênero lírico é identificado com o texto poético. Isso não impede, porém, muitos artistas de desenvolver textos em prosa com lirismo, seja na forma seja no conteúdo, produzindo prosa lírica, também denominada prosa poética.

O poema

O poema é um gênero lírico constituído não apenas por ideias e sentimentos, mas também pelo emprego do verso e de seus recursos musicais, como sonoridade e ritmo de palavras, e de palavras que possuam sentido figurado, isto é, conotativo.

A própria definição de poesia varia conforme a época e o movimento literário. O poeta francês Mallarmé a definiu como a “suprema forma de beleza”. Cassiano Ricardo afirmou: “Pouca importa, contudo, definir o que seja poesia. O que importa, literariamente, é que ela encontre o seu núcleo no poema, feito e trabalhado precisamente para consegui-la. Ela é indefinível, porém definidora”.

Muitos poemas do nosso tempo não são feitos apenas para serem lidos, mas também, para serem vistos. Por meio de um trabalho com letras, com palavras e seu significado, procuram transmitir, além de emoções e sentimentos, também movimento, cor, forma, etc. Os poemas que fazem uso desses recursos são chamados poemas concretos.

Eu Lírico

No gênero lírico há um elemento fundamental, necessário para expressas as emoções mais subjetivas, os pensamentos e os sentimentos profundos: o eu-lírico. É um ser ficcional que enuncia o conteúdo do texto lírico. É uma entidade fictícia, que não deve ser confundida com o autor do texto. Exemplificando: o autor do texto pode pertencer ao sexo masculino e o eu-lírico, por ser ficcional, pode ser do sexo feminino.

O eu-lírico preocupa-se tanto com conteúdo reflexivo quanto com musicalidade. Ele pode ser denominado eu poético, eu poemático, sujeito-lírico ou simplesmente sujeito.

O eu lírico enfoca aquilo que diz respeito ao seu ser: seus gostos, sentimentos e existência. Não existe texto lírico que não possua nenhum traço de subjetividade. Mesmo quando o poeta aborda temas objetivos, a subjetividade está presente.

Musicalidade

Para atingir a musicalidade, o artista emprega uma variedade de recursos:

Versos

O verso é uma sucessão de sílabas ou de fonemas que formam uma unidade rítmica e melódica. Geralmente, um verso corresponde a uma linha do poema: é, portanto, a unidade mínima de composição poética.

Os versos se organizam em estrofes. Estrofe ou estância é um agrupamento de versos.

O número de versos agrupados em cada estrofe pode variar. Dístico é o nome que se dá à estrofe de dois versos.

Leia o poema, a seguir, de Mário Quintana, formado por um único dístico:

Viajante

Eu, sempre que parti, fiquei nas gares
Olhando, triste, para mim...
(Mário Quintana. Apontamentos de história sobrenatural. São Paulo: Globo. by Helena Quintana).

Outros tipos de estrofe:

- terceto: três versos

- quadra ou quarteto: quatro versos

- quintilha: cinco versos

- sexteto ou sextilha: seis versos

- sétima ou septilha: sete versos

- oitava: oito versos

- nona: nove versos

- décima: dez versos

As formas fixas:

Uma das composições de forma fixa mais conhecidas é o soneto, em que os versos são agrupados em duas quadras e dois tercetos. O soneto geralmente desenvolve uma ideia até o penúltimo verso e no último, apresenta uma síntese do que foi desenvolvido.

Os grandes sonetistas da língua portuguesa foram Camões, Antero de Quental, Bocage e Vinícius de Morais.

Outros poemas de forma fixa são a balada (três oitavas e uma quadra), o vilancete (um terceto e outros tipos de estrofe) e o rondó (apenas quadras, ou quadras combinadas com oitavas).

Um tipo de forma fixa é o haicai – poema de origem japonesa. O haicai é constituído por uma estrofe de três versos. Deve ter 17 sílabas, distribuídas da seguinte maneira: 1º verso: 5 sílabas, 2º verso: 7 sílabas; 3º verso: 5 sílabas.

Ritmo

O que distingue o verso de um enunciado comum é o fato de possuir ritmo, que pode ser definido como a presença regular de uma estrutura. O próprio poema possui seu próprio ritmo, que é definido pela alternância de sílabas acentuadas e não acentuadas, isto é, sílabas que apresentam maior ou menor intensidade quando são pronunciadas.

Vale lembrar que o ritmo não é exclusividade da poesia. O ritmo se encontra também na música e em artes visuais, contanto que haja uma repetição regular de um determinado elemento.

Métrica

A métrica é a medida dos versos: o número de sílabas poéticas apresentadas por eles.

Para determinar a medida de um verso, deve-se dividi-lo em sílabas poéticas. Tal procedimento é denominado escansão.

A divisão silábica poética tem por base a oralidade – fala ou canto – e, portanto, obedece a princípios diferentes dos que orientam a divisão silábica gramatical. Na divisão silábica poética, as vogais átonas são agrupadas em uma única sílaba e a contagem das sílabas é feita até a última tônica.

Compare a divisão silábica gramatical à divisão silábica poética do seguinte verso: Minha desgraça, ó cândida donzela,

Divisão silábica gramatical:

Mi/nha/des/gra/ça,/ó/cân/di/da/don/ze/la
1     2     3    4    5   6   7   8   9   10   11  12

Divisão silábica poética:

Mi/nha/des/gra/ça, ó/ cân/di/da/don/ze/la
1    2      3   4        5      6   7   8    9   10  

Na divisão silábica poética, a 5ª sílaba é formada pela união das sílabas ça e ó. Isso ocorre sempre que há o encontro de duas vogais átonas no final de uma palavra e início de outra.  Na divisão silábica poética, a contagem se encerra na sílaba tônica da última palavra do verso: no exemplo acima, na sílaba ze da palavra donzela.

De acordo com o número de sílabas poéticas, os versos recebem as seguintes denominações: monossílabo (uma sílaba), dissílabo (duas sílabas), trissílabo (três sílabas), redondilha menor ou pentassílabo (cinco sílabas), redondilha maior ou heptassílabo (sete sílabas), octossílabo (oito sílabas), decassílabo – a medida mais clássica dentre todas (dez sílabas), alexandrino (doze sílabas), etc.

O verso cuja métrica se repete é chamado de verso regular. No século XX, os poetas modernos criaram o verso livre, que não obedece a uma regularidade métrica.

Rima

A rima é um recurso musical baseado na semelhança sonora de palavras no final de versos (rima externa) e, às vezes, no interior de versos (rima interna). A rima pode ser definida, portanto, como a coincidência sonora ao final dos versos.

As ritmas externas classificam-se como intercaladas, alternadas e emparelhadas, segundo sua organização em esquemas ABBA, ABAB e AABB, respectivamente.

Os versos que não apresentam rimas entre si são denominados versos brancos.

Observe como o compositor Chico Buarque, no seguinte trecho da canção “Quando o Carnaval chegar”, explora tanto a rima no final dos versos quanto a rima interna:

Quem me vê sempre parado, distante
Garante que eu não sei sambar
Tô me guardando para quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo,
Escutando, não posso falar
Tô me guardando para quando o carnaval chegar
(In: Adélia Bezerra de Menezes Bolle, org. Chico Buarque de Hollanda. São Paulo: Abril Educação, 1980. P. 34. by Marola Edições Musicais Ltda.)

Quanto à qualidade, as rimas classificam-se como:

- Pobres: Realizadas com terminações comuns ou vulgares no idioma, normalmente entre palavras de mesma classe gramatical.

- Ricas: Realizadas com terminações menos comuns na língua, normalmente entre palavras de classes gramaticais diferentes.

- Preciosas (ou Raras): Produzidas com terminações muito pouco comuns no idioma. Muitas vezes, rima-se uma palavra com uma combinação de palavras.

Quando à disposição, as rimas classificam-se como:

- Emparelhadas: Ocorrem “em pares”, seguindo o esquema AABB.

- Alternadas: Ocorrem entre os versos ímpares e entre os versos pares, seguindo o esquema ABAB.

- Interpoladas (ou Opostas): O primeiro verso rima com o quarto, seguindo o esquema A x x A.

- Misturadas: Não obedecem a um esquema simétrico.

Quando ao Elemento Rítmico, as rimas classificam-se como:

- Consoante (ou Soante): Todos os sons coincidirem a partir da última tônica.

- Toante (ou Assoante): Apenas a vogal ou as vogais da última tônica coincidirem.

Figuras de Sonoridade

Além da métrica e da rima, os poetas podem utilizar figuras de sonoridade, que podem gerar efeitos intensos e expressivos. As principais figuras de sonoridade são:

Aliteração: Repetição constante de um mesmo fonema consonantal, mesmo que expresso por letras diferentes.

Observe como o poeta Castro Alves alitera o fonema /b/ nestes versos:

Auriverde pendão de minha terra.

Que a brisa do Brasil beija e balança.

Assonância: Repetição constante de um mesmo som vocálico em sílabas tônicas de palavras próximas.

Observe a assonância do fonema vocálico /a/ nestes versos de Cruz e Souza:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

Onomatopeia: Por meio de palavras, certos sons são imitados.

Paronomásia: A utilização de parônimos (palavras semelhantes na forma ou no som, mas de sentidos diferentes) em um espaço curto de texto.

Observe a paronomásia a seguir:

As sobras de tudo que chamam lar

As sombras de tudo que fomos nós.
(Chico Buarque. In: Adélia Bezerra de Menezes Bolle, org., op. Cit., p. 45)

Anáfora: A repetição de uma mesma palavra ou expressão no início de cada frase, período ou verso.

Polissíndeto: A repetição de uma mesma conjunção (síndeto) em coordenação.

Paralelismo: A repetição de palavras ou estruturas sintáticas que se correspondem quanto ao sentido.

Observe o paralelismo nestes versos da canção “Sem fantasia”, de Chico Buarque:

Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu.
(In: Adéli Bezerra de Menezes Bolle, org. op. cit. p. 23)

As Líricas

Ao longo da história, duas lógicas predominaram na visão de mundo dos poetas: uma subjetiva e outra, objetiva.

A lógica subjetiva (romântica) marca a Idade Média, o Barroco, o Romantismo e o Simbolismo e a lógica objetiva (clássica), a Antiguidade Clássica, o Classicismo, o Neoclassicismo (ou Arcadismo) e o Parnasianismo.

Na modernidade, uma outra lógica, mais “neutra”, ocupou, a cosmovisão dos poetas.

A Lírica Clássica

Em sua fase inicial, a Filosofia procurava entender os fenômenos físicos com base no próprio mundo concreto. Posteriormente, passou a buscar o sentido da existência humana por meio de uma visão racional: explicações lógicas e criação de parâmetros para apreender o mundo. Houve, portanto, uma grande mudança no pensamento humano: a abstração sensível foi substituída pela Ciência e Lógica.

A Lírica Clássica, fundamentada nessa cosmovisão, enfatizava o racionalismo, a contenção das emoções, a correção gramatical e a regularidade de formas e estruturas. Na Lírica Clássica, a mitologia deixou de ser uma forma de apreensão do mundo e passou a ser um modelo de comportamento e uma fonte de valores morais.

Princípios clássicos: Para falar de sua dor amorosa, o eu lírico recorre primeiro à observação de uma cena externa, na busca de um modelo objetivo para sua expressão. Isso gera um distanciamento entre o emissor e a matéria lírica. Tais procedimentos revelam um comportamento racional do eu lírico, que, além de consciente da diferença real entre a cena observada e sua própria vida, procura uma explicação lógica para seu estado de espírito. O aspecto formal revela claramente a influência clássica: harmonia, equilíbrio e correção se aliam a uma linguagem poética, mas contida, sem arroubos discursivos mais intensos.

A Lírica Romântica

A Lírica Romântica é caracterizada pelo desejo de projeção do estado de espírito do eu lírico na realidade. Tal fenômeno, denominado sentimentalização, permite que o emissor do texto busque projeções, idealizações e evasões como formas de relacionamento com o mundo.

Tal cosmovisão influencia a estruturação formal do texto. Já que a inspiração e a liberdade são elementos essenciais da lírica romântica, a rigidez da forma poemática é relativizada: metros populares, como a redondilha, e mesmo versos livres convivem com sonetos e outras formas fixas. A linguagem se torna mais intensa e a função emotiva se torna mais evidente.

A Lírica Moderna

Uma grande revolução artística ocorreu no século XX. Devido aos grandes avanços tecnológicos, as artes entraram em crise: afinal, uma fotografia poderia representar a realidade com maior grau de precisão do que uma pintura.

Houve, portanto, uma ruptura com os modelos artísticos. Isso caracterizou a Lírica Moderna. Algumas de suas características são a preferência pelo experimentalismo formal, a criação de objetos líricos não convencionais e a o uso e a negação tanto da lógica racional como da sentimental.

Sumário

- O poema
- Eu Lírico
- Musicalidade
i. Versos
ii. Ritmo
iii. Métrica
iv. Rima
v. Figuras de Sonoridade
- As Líricas
i. A Lírica Clássica
ii. A Lírica Romântica
iii. A Lírica Moderna
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