Gêneros jornalísticos dissertativos

Iniciaremos a aula sobre gêneros jornalísticos dissertativos com a seguinte afirmação: é raro, se não impossível, encontrar um texto desprovido de subjetividade, pois todos eles, de uma forma ou de outra, revelam a visão de mundo de quem os redigiu. Isso vale especialmente para os gêneros jornalísticos. Tudo o que é publicado em um jornal revela uma ideia, opinião, tese, preferência, posicionamento ou tendência.

Muitas pessoas acreditam erroneamente que textos jornalísticos — em especial as reportagens sobre os acontecimentos cotidianos — são objetivos e imparciais, pois apresentam fatos, e não opiniões. Na realidade, a imparcialidade jornalística não existe. O próprio assunto — a escolha dos fatos ou dados revelados — escolhido para publicar no jornal, o título da reportagem e a escolha de palavras, possibilita a identificação da opinião do jornalista. A maioria dos redatores busca causar uma impressão de imparcialidade e objetividade, não veiculando explicitamente juízos de valor. Contudo, todo texto transmite o ponto de vista de quem o escreveu.

Consideremos a seguinte situação: um jornalista decide escrever sobre um incidente ocorrido durante a guerra dos Estados Unidos no Iraque.

Observe a diferença entre estas duas escolhas para o título do texto:

- Guerrilheiros no Iraque retaliam contra as forças de ocupação norte-americanas.

- Terroristas no Iraque atacam soldados norte-americanos.

Os dois títulos transmitem, essencialmente, a mesma informação: soldados dos Estados Unidos sofrem um ataque no Iraque. Contudo, as diferenças entre os dois títulos são evidentes. O primeiro título chama os responsáveis pelo ataque de “guerrilheiros” enquanto o segundo, de “terroristas”. O termo “guerrilheiro”, ao contrário de “terrorista”, não tem necessariamente uma conotação negativa. Outra clara distinção entre os títulos é que, no primeiro, os soldados norte-americanos são chamados de “forças de ocupação”. A mensagem transmitida pelo primeiro título é que o ataque foi justificado. Vale notar que o verbo “retaliam” é utilizado. Retaliação significa revidar um ataque. Já no segundo título, o que é transmitido é que terroristas — pessoas vis — atacaram soldados dos Estados Unidos. Diferentemente de “retaliam”, a palavra “atacam” geralmente tem uma conotação negativa. 

Nesse exemplo, a subjetividade que existe em ambos os títulos do texto é clara. Mesmo que a matéria vise a ser objetiva, o título escolhido revelará o ponto de vista do jornalista. Em outros casos, a subjetividade pode ser mais sutil. É importante, portanto, que o leitor esteja ciente de que tudo que é publicado em um jornal ou revista é a manifestação de uma determinada visão de mundo, ou seja, reflete o ponto de vista do escritor.

Durante campanhas políticas, torna-se evidente que todo jornal favorece os candidatos cujas ideias políticas estão alinhadas com sua visão de mundo. Assim, é importante que o leitor esteja ciente de que a mídia influencia muito a opinião pública. Os jornais não apenas transmitem notícias, mas também influenciam os leitores.

Há muitos casos em que o redator escreve um texto claramente opinativo, isto é, o jornalista expressa sua opinião ou visão de mundo explicitamente. É o que ocorre com editorais e artigos assinados. Trata-se de exemplos de textos temáticos, que, por meio de conceitos abstratos, defendem um ponto de vista de maneira explícita. Quando um escritor deseja manifestar uma opinião abertamente, costuma recorrer a temas — a conceitos abstratos.

Os editorais são textos temáticos em que o editor opina sobre uma questão polêmica. Essa opinião é chamada de linha editorial do jornal.

Além do editorial, a grande maioria dos jornais permite que colunistas escrevam textos opinativos — são os artigos assinados. Vale ressaltar que a opinião de um artigo assinado não reflete necessariamente a linha editorial do jornal. Por exemplo, o editorial de um jornal pode ter se manifestado a favor do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, mas um colunista que escreve para a mesma publicação pode ter escrito que o afastamento da ex-presidente constituiria um golpe contra a democracia brasileira. Em certos casos, o jornal pode até mesmo publicar, no mesmo dia, duas colunas assinadas sobre o mesmo tema, que manifestam pontos de vista opostos.

Artigos Assinados

Há diferenças significativas entre um artigo assinado e um editorial. Por exemplo, os traços de subjetividade são muito mais claros em artigos assinados do que em editoriais. Além disso, o autor do artigo assinado não costuma hesitar em recorrer à primeira pessoa gramatical: “eu”, “meu”, “minha”.

O uso dessa primeira pessoa constitui uma forma de transmitir que o texto foi escrito por um indivíduo que tem opiniões pessoais sobre determinado assunto. Além do uso da primeira pessoa, o artigo assinado pode ser extremamente crítico e até empregar um tom sarcástico. Esse tipo de artigo pode ser muito instigante e conter provocações. Já que se trata de um texto cujo autor se identifica, o jornal, com raríssimas exceções, não tem responsabilidade pelas opiniões nele expressas. Por outro lado, se o texto não fosse assinado, seria de responsabilidade do jornal que o publicou. Vale notar que muitos jornalistas adotam posturas polêmicas para que as pessoas leiam e comentem seus artigos.

Essa estratégia não vale para o editorial do jornal, pois poderia fazer com que perdesse credibilidade e leitores e assinantes. Em geral, o editorial visa a veicular a opinião imparcial de um meio de comunicação. Portanto, não pode adotar posturas muito provocativas. Apenas publicações sensacionalistas contêm editorais extremamente polêmicos.

Editoriais

Diferentemente de artigos assinados, o editorial precisa ser caracterizado por equilíbrio e contenção. A menos que se trate de uma publicação sensacionalista, o tom dos editoriais não pode ser provocativo. É necessário que reflitam ponderação, principalmente quando se trata de um jornal de renome. Em um editorial, deveriam ser transmitidas visões de mundo não de um indivíduo, e sim, de um meio de comunicação. Portanto, a provocação, o sarcasmo, os ataques muito cáusticos e os efeitos de humor são evitados. Os leitores esperam que um jornal demonstre seriedade, responsabilidade e equilíbrio quando trata de questões controversas. Inegavelmente, a credibilidade de um jornal depende muito da qualidade, conteúdo e linguagem dos editorais.