República Oligárquica

República Oligárquica

A República Oligárquica (1894-1930) foi um período na história do Brasil em que as oligarquias rurais dominavam o poder político. A República Oligárquica foi marcada pela alternância de poder entre as oligarquias cafeeiras dos estados de Minas Gerais e de São Paulo. Durante essa época, a maioria dos presidentes eleitos eram membros do Partido Republicano Paulista ou do Partido Republicano Mineiro.


Presidente Prudente de Morais

O governo de Prudente de Morais (1894-1898)

A oligarquia cafeeira não controlava a presidência do Brasil, que era ocupada pelos militares, mas ocupava os mais importantes cargos legislativos pelo Partido Republicano Paulista. No ano de 1893, os cafeicultores paulistas fundaram o Partido Republicano Federal (PRF), de âmbito nacional, com o objetivo de lançar a candidatura de um político civil para a presidência.

Havia dois principais grupos rivais entre os republicanos: os representantes da oligarquia cafeeira e os florianistas. Apesar de suas diferenças, ambos pertenciam ao Partido Republicano Federal.

Para a insatisfação dos florianistas, Prudente de Morais concorreu à presidência pelo Partido Republicano Federal, e venceu. O primeiro civil a ser eleito presidente tomou posse no Palácio do Itamarati; porém, apenas um representante do governo anterior foi recebê-lo.

A administração do novo governo foi bastante cuidadosa e favorecia medidas políticas que pudessem trazer a paz e unificar os diferentes grupos republicanos. O novo presidente aceitou homens de confiança do Marechal Floriano para ocupar cargos importantes dentro do governo. Todavia, estava claro que o governo favorecia os interesses da oligarquia, especialmente da burguesia cafeeira paulista.

Incentivando a indústria no Brasil

No final do século XIX, o governo brasileiro passou a incentivar a expansão industrial nacional e fez isso ao conceder crédito para a importação de maquinário. Foram estabelecidas tarifas para proteger a indústria local dos bens industrializados importados de países estrangeiros.

Esse incentivo à industrialização não agradou as oligarquias rurais, que desejavam que os recursos do governo fossem utilizados para seu benefício. Além disso, eles exportaram bens agrícolas e utilizaram os rendimentos para comprar produtos manufaturados que eram importados para o Brasil. Os impostos adicionais tornavam a aquisição desses produtos importados ainda mais difícil.

Enquanto o preço do café no mercado internacional caía, a oligarquia cafeeira brasileira tentava fazer o governo tomar medidas que protegeriam seus interesses.

As desavenças entre os florianistas e as oligarquias rurais agravaram-se durante os dois últimos anos de governo de Prudente de Morais. A pacificação conquistada na Revolução Federalista no Rio Grande do Sul ajudou o presidente no início de seu governo, mas Prudente adoeceu exatamente quando a situação em geral no Brasil – incluindo a econômica – começou a melhorar.

Prudente de Morais deixou a presidência e foi substituído por seu vice, Manuel Vitorino, que era um representante dos florianistas. Pouco antes de Prudente de Morais deixar a presidência, irrompeu a Revolta de Canudos. O fracasso de Vitorino em solucionar o conflito permitiu o retorno de Prudente de Morais ao poder.

As medidas econômicas que haviam sido adotadas para solucionar as dificuldades do país somaram-se a essa crise. As desavenças entre os florianistas e a oligarquia cafeeira ficaram mais nítidas: era evidente que o Partido Republicano Federal não poderia mais conter ambas facções.

A crise foi solucionada nos últimos meses de 1897, graças a alguns fatores. Prudente de Morais sofreu um atentado: um suboficial do exército atirou contra ele quando inspecionava suas tropas vitoriosas em Canudos. O tiro atingiu fatalmente o Ministro da Guerra, Marechal Bittencourt.

Este atentado à vida do presidente permitiu com que ele declarasse um estado de sítio. E assim, com total poder, Prudente voltou-se contra seus adversários e assegurou o controle absoluto da oligarquia cafeeira sobre o país. Em 17 de dezembro de 1897, ele promulgou um decreto que aboliu as políticas protecionistas, reduzindo tarifas em 25%. Algumas tarifas chegaram a sofrer reduções de até 80%.

A Guerra de Canudos


Cena do filme – “Guerra de Canudos”

No final do século XIX, o latifúndio e a monocultura caracterizavam a estrutura rural brasileira, especialmente no Nordeste. Quando as usinas açucareiras foram abertas no Nordeste, milhares de camponeses foram expulsos de suas terras. Ao mesmo tempo, uma grande seca e o crescimento significativo na exploração da borracha resultaram em uma grande migração do Nordeste para a Amazônia.

Para enfrentar a miséria, a fome e a exploração resultantes da estrutura latifundiária, os nordestinos formavam grupos de cangaceiros e jagunços, ou seguiam líderes religiosos. Primeiramente, os cangaceiros e jagunços haviam protegido os coronéis, mas muitos se uniram para lutar contra os donos do poder, ameaçando poderosos latifundiários.

As seitas religiosas fundadas na época eram uma forma de consolo muito procurada pelos nordestinos. Os líderes religiosos pregavam que as pessoas deveriam dar mais importância às suas almas que ao seu bem-estar físico; seus ensinamentos místicos apelavam àqueles que achavam os ideais do catolicismo espiritualmente insatisfatórios.

Em 1893, no arraial de Canudos, no sertão da Bahia, no Vale do Rio Vaza-Barris, formava-se uma comunidade de fiéis seguidores do beato Antônio Conselheiro, que pregava a salvação. Circulando desde 1876 pelo sertão do Nordeste, rezando, pregando e liderando grupos de pessoas para consertar igrejas e cemitérios, o beato atraiu uma multidão de fiéis que, em 1893, se assentou no vilarejo abandonado. Em pouco mais de dois anos, cerca de 20 mil desafortunados de todo tipo passaram a habitar o local.

Os moradores do arraial mantinham pequenas plantações e criações de animais. A maior parte do que produziam era consumido ali, e o restante era vendido para as cidades vizinhas; desta forma conseguiam dinheiro para adquirir bens que não eram produzidos pelo arraial. Eles organizaram grupos armados para proteger a sua comunidade; um dos comandantes de destaque da comunidade foi Pajerú, que liderou duas vitórias sobre as forças do governo.

À medida que Canudos crescia, a Igreja perdia fiéis e os latifundiários perdiam trabalhadores. Em 1896, um incidente deu início ao fim trágico de Canudos. Antônio Conselheiro mandou seus adeptos comprarem tábuas na cidade de Juazeiro, para cobrir uma nova igreja, mas os comerciantes locais recusaram-se a entregar a madeira. O beato ordenou que um grupo de fiéis fosse buscá-las. Temerosos, os comerciantes se dirigiram ao destacamento militar de Juazeiro e acusaram o pregador de monarquismo, pois ele, acostumado ao antigo regime – onde não havia separação entre Estado e Igreja – não aceitava que os cemitérios deixassem de ser locais sagrados e fossem administrados pelas autoridades civis, como previa a nova Constituição republicana.

O governo da Bahia organizou duas expedições para destruir o núcleo de Canudos. A primeira foi liderada pelo Tenente Manuel Pires Ferreira, com 100 homens. Esta expedição foi derrotada em grande parte devido à estratégia de Pajerú e João Abade, que organizaram o movimento de resistência dos sertanejos. A segunda expedição, liderada pelo Major Febrôncio de Brito e composta por 550 homens, também foi derrotada. Os jagunços jogavam-se contra as tropas invasoras e tomaram suas armas.

Na capital do Rio de Janeiro e em outras cidades, espalhavam-se as notícias sobre Canudos, que eram contadas de acordo com a visão dos latifundiários. Para justificar o fracasso, os derrotados exageraram a força do inimigo, caracterizando-o como ameaça à República.

Uma terceira expedição foi organizada, sob liderança do Coronel Moreira César, que morreu em combate e cujos homens foram derrotados. O problema foi passado para o Ministro da Guerra, Carlos Bittencourt, que preparou uma quarta expedição consistindo de 10 mil homens fortemente armados. Após três meses de cercos e equipados com canhões, os soldados invadiram o arraial.

Canudos resistiu, mas toda a população foi dominada e morta pelas tropas do governo. Sem água e sem comida, os moradores de Canudos foram abatidos a tiros de canhão e fuzil. Milhares de pessoas no arraial foram executadas, inclusive mulheres e crianças; não foi levado nenhum prisioneiro. O Conselheiro morreu de fome, poucos dias antes do ataque final, durante o qual foram fuziladas as últimas quatro pessoas vivas da vila arrasada. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o presidente organizava celebrações para a sua vitória sobre Canudos.

Entretanto, a opinião pública sobre Canudos começou a mudar, principalmente devido à heroica resistência do povo do arraial. Os alunos da Faculdade de Direito da Bahia recusaram-se a celebrar a vitória do governo e exigiram explicações pelo fato de não ter sido feito nenhum prisioneiro. Rui Barbosa criticou o governo no Senado, e posteriormente, Euclides da Cunha denunciou em seu livre, Os Sertões, o grande massacre realizado em Canudos.

O governo de Campos Sales (1898-1902)


Presidente Campos Salles

O presidente que sucedeu a Prudente de Morais foi Manuel Ferraz de Campos Sales, um republicano que havia sido governador de São Paulo. Sua vitória nas eleições agradou a oligarquia rural, principalmente a oligarquia cafeeira paulista.

Campos Sales não concordava com os ministros da Fazenda dos governos da República da Espada. Ele afirmava que as tentativas de industrialização nacional resultaram em conflitos sociais e econômicos, e em caos. Campos Sales declarou que o país deveria importar todos os bens que eram produzidos melhor pelos estrangeiros do que tentar produzi-los no Brasil. Sua intenção era claramente a de que o Brasil se especializasse na exportação de produtos agrícolas e minerais: algodão, açúcar, cacau, borracha e, principalmente, o café. Ao mesmo tempo, o país importaria bens manufaturados, assim como maquinário e ferramentas.

Este objetivo econômico obviamente foi saudado pelos países industrializados. Campos Sales e seu Ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, suspenderam a ajuda à indústria nacional e, novamente, o Brasil abriu suas portas aos bens manufaturados estrangeiros. O país permaneceu uma nação agrícola, o que agradava aos outros poderes estrangeiros da época.

Quando Campos Sales foi eleito presidente, a situação econômica brasileira era crítica: a inflação crescia enormemente, enquanto o preço do café decaía muito no mercado internacional. A economia brasileira beirava a falência, e parecia impossível que o país pudesse pagar sua enorme dívida externa.

O Ministro da Fazenda Joaquim Murtinho acreditava que só era possível solucionar os problemas econômicos do Brasil através de medidas drásticas, incluindo cortar os créditos para a indústria, não emitir mais papel-moeda, aumentar os impostos existentes e criar novos impostos. Para diminuir a inflação, ele também planejou reduzir os gastos públicos, incluindo o salário de funcionários. Entretanto, essas medidas anti-inflacionárias resultaram nos assalariados perdendo seu poder de aquisição. Nem mesmo os cafeicultores ficaram satisfeitos com essas medidas. Até então, eles haviam compensado as baixas de preço do café no mercado internacional (que era calculado em libras inglesas) por meio da desvalorização da moeda nacional no mercado interno. Com a nova política econômica do governo, essa estratégia inflacionária passou a ser controlada.

Mesmo antes de assumir a presidência, Campos Sales havia viajado para a Europa para negociar com os credores do Brasil. Ele fez um acordo com banqueiros ingleses que ficou conhecido como o funding-loan, segundo o qual o Brasil poderia tomar um empréstimo de 10 milhões libras esterlinas dos britânicos; os juros somente começariam a ser amortizados dentro de 3 anos e a dívida só começaria a ser paga 13 anos após assinado o acordo, com um prazo de 63 anos para ser liquidada. Ao mesmo tempo, o governo tiraria de circulação da economia brasileira a mesma quantia em dinheiro que havia sido emprestada, para diminuir a quantidade de dinheiro em circulação e, assim, diminuir a inflação.

Que garantias o Brasil oferecia em troca pelos empréstimos? Toda a renda da alfândega do Rio de Janeiro e, se necessário, das outras alfândegas também, assim como as receitas da Estrada de Ferro do Brasil e do serviço de abastecimento de água do Rio de Janeiro.

As medidas econômicas passadas por Campos Sales beneficiaram algumas regiões do Brasil, enquanto prejudicava outras. Estes conflitos foram refletidos politicamente. Campos Sales não tinha intenções de governar com um Congresso hostil ou com a insubordinação dos governos estaduais. O presidente conseguiu levar adiante seu governo impopular – impedindo a subida dos militares ao poder e os conflitos entre os estados – graças a um esquema de troca de favores entre os políticos municipais, estaduais e federais.

No Brasil agrário, os latifundiários mantinham o poder político; eram eles, com seus agregados e dependentes, que organizavam grupos armados e resolviam conflitos locais pelo uso de força. Esses coronéis interferiam na escolha dos governadores estaduais, pois o voto, na época, não era secreto. Em troca, o governador eleito utilizava o dinheiro público conforme a vontade dos coronéis: escolas, pontes e estradas eram construídas exatamente nas regiões em que esses latifundiários exerciam poder.

Nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia, os fazendeiros mais poderosos articulavam-se para controlar o respectivo partido. Os dois partidos mais poderosos eram o Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Republicano Mineiro (PRM), de onde eram indicados os candidatos à presidência da República. Esse arranjo político – um jogo de cartas marcadas – entrou para a história com o nome de “política dos governadores”. Campos Sales foi eleito conforme esse esquema. Por isso, seu governo favoreceu as oligarquias que o elegeram. Em contrapartida, o presidente exigiu que as oligarquias formassem um Congresso Nacional submisso.

Os grandes proprietários rurais de São Paulo e Minas Gerais foram os que mais se beneficiaram com a política dos governadores. Eles monopolizaram o poder; eles se revezavam na presidência – um presidente era paulista, o próximo mineiro, e assim por diante. Este sistema ficou conhecido como a política do café com leite.

Em assuntos de política externa, Campos Sales solucionou a questão de fronteira do estado do Amapá. Desde a Era Colonial, a França reivindicava aproximadamente 26 mil km² na região Norte, na fronteira com a Guiana Francesa. A disputa foi mediada pelo governo suíço, e sua decisão favoreceu o Brasil, que era representado pelo Barão do Rio Branco. A maioria do curso do Rio Oiapoque foi estabelecida como limite natural entre o Amapá e a Guiana Francesa.

O governo de Rodrigues Alves (1902-1906)


Presidente Rodrigues Alves

Graças ao café, São Paulo havia se tornado o estado mais rico do Brasil; era o único que tinha uma economia diversificada em atividades industriais e comerciais. Entretanto, os paulistas não tinham poder suficiente para governar o país sozinhos.

Os cafeicultores paulistas se aliaram aos fazendeiros mineiros – produtores de leite – com quem tinham inclusive laços de parentesco, para dividir a administração governamental do Brasil. Esse acordo político, conhecido como a política do café com leite, consolidou-se na gestão do presidente paulista Rodrigues Alves, cujo vice foi o mineiro Afonso Pena.

Francisco de Paula Rodrigues Alves foi nomeado pelo presidente Campos Sales. Como seu antecessor, o presidente Alves era um grande proprietário de terras de São Paulo e havia sido Ministro da Fazenda durante o governo de Prudente de Morais. Ao controlar as oligarquias regionais, Campos Sales não teve dificuldades em eleger seu candidato, que contou com o apoio do Partido Republicano Paulista e pelo Partido Republicano Mineiro.

Rodrigues Alves governou o Brasil durante o ciclo da borracha. Lucros resultantes da exportação deste produto, assim como os empréstimos estrangeiros – resultado da política econômica de seu antecessor – ajudaram-no a investir no setor público. Enquanto isso, o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, apoiado pelos planos do presidente, decidiu fazer do Rio a mais bela e impressionante cidade do país. Porém, ele executou tudo de forma irresponsável e mal planejada: desapropriou terras, derrubou casas para alargar as ruas e construiu praças, tornando a cidade num caos cheio de desabrigados. O prefeito recebeu o apelido de “Bota-Abaixo”.

Enquanto Pereira Passos demolia casas, o médico sanitarista Osvaldo Cruz tentava sanear a cidade, e instituir a vacinação obrigatória para combater a varíola e a febre amarela. O povo, já revoltado com a perda de suas casas devido à ambição de Pereira Passos, demonstrou insatisfação com a política de vacinação obrigatória.

Durante quatro dias, os populares do Rio de Janeiro enfrentaram a polícia: enquanto gritavam “abaixo a vacina”, eles cometiam atos de vandalismo e revidaram os disparos da polícia. A Revolta da Vacina refletia a insatisfação geral do povo do Rio com as diversas medidas que haviam sido instituídas pelo governo e que eles julgavam ser prejudiciais. Mas nem mesmo a Revolta da Vacina comprometeu o programa de obras da cidade, que atingiu seu apogeu nas décadas de 1920 e 1930.

Os militares que favoreciam o florianismo e se opunham a Rodrigues Alves tentaram usar esta insatisfação popular para organizar um golpe, que foi liderado por Lauro Sodré. O governo reagiu ao declarar um estado de sítio. Apoiado pelas tropas de São Paulo e Minas Gerais, reprimiu violentamente a revolta. A vacinação passou a ser opcional.

Durante o governo de Rodrigues Alves, foi implantada a política de valorização do café. Reagindo à queda no preço do produto no mercado internacional, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro firmaram o Convênio de Taubaté, segundo o qual o governo compraria café para reduzir sua oferta no mercado (e assim aumentar os preços). O governo iria manter este café, e vendê-lo apenas quando surgisse uma oportunidade vantajosa.

O presidente Rodrigues Alves não concordou com as propostas do Convênio de Taubaté, pois, se fossem implementadas, causariam com que a dívida externa brasileira aumentasse e toda a nação seria obrigada a pagar os prejuízos dos cafeicultores. Mas o vice-presidente Afonso Pena prometeu sustentar o preço do café se fosse eleito. De fato, ele foi eleito, tornando-se presidente da República ainda em 1906.

Quanto à política externa do governo de Rodrigues Alves, o Barão de Rio Branco, que havia negociado com sucesso as fronteiras do Amapá, trabalhou para anexar o Acre ao território brasileiro.

O Acre era uma província boliviana, porém muitos nordestinos viviam lá e trabalhavam na extração de látex. O Brasil começou a reivindicar a região. Em 1903, foi assinado o Tratado de Petrópolis, segundo o qual a Bolívia receberia dois milhões de libras esterlinas em troca pelo Acre. Além disso, o governo brasileiro concordaria em construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, permitindo que a Bolívia tivesse uma saída para o Oceano Atlântico, pela Bacia do Amazonas.

O governo de Afonso Pena (1906-1909)


Presidente Afonso Pena

Rodrigues Alves foi sucedido pelo conselheiro Afonso Augusto Moreira Pena, sob indicação do Partido Republicano Mineiro. Os paulistas, que haviam indicado Bernardino de Campos, foram derrotados.

Durante o mandato de Afonso Pena, o governo federal implementou a política de valorização do café. O governo comprou toda a safra do produto para armazená-lo e vendê-lo quando terminasse a crise, a preços mais altos. Para prosseguir com o plano, a administração de Afonso Pena tomou mais empréstimos da Inglaterra. Ainda assim, estava claro que a burguesia cafeeira usava seu poder para fazer com que o governo federal agisse segundo seus desejos.

O novo presidente também procurou desenvolver a indústria e autorizou o início da imigração japonesa.

Em 14 de junho de 1909, o presidente Afonso Pena faleceu e o vice-presidente Nilo Peçanha assumiu o governo.

O governo de Nilo Peçanha (1909-1910)


Presidente Nilo Peçanha

Afonso Pena faleceu em 14 de junho de 1909, antes de completar seu mandato, e foi substituído pelo vice-presidente Nilo Peçanha.

O governo de Nilo Peçanha durou apenas um ano e meio. Sua administração foi marcada por uma disputa de poder pela sucessão, na qual a aliança entre São Paulo e Minas Gerais foi rompida. Durante seu governo, Nilo Peçanha criou o Serviço de Proteção ao Índio, presidido pelo Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon e pelo Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio.

O homem forte do governo de Afonso Pena havia sido o vice-presidente do Senado, o líder gaúcho José Gomes Pinheiro Machado. Ao assumir o governo, Nilo Peçanha tentou conter a influência de Pinheiro Machado. Diante disso, Pinheiro Machado se aproximou do ministro da Guerra, o marechal Hermes da Fonseca, e o lançou como candidato à sucessão presidencial. Com o objetivo de conquistar o apoio do Partido Republicano Mineiro, Machado ofereceu a vice-presidência a Venceslau Brás, governador de Minas.

Diante disso, o Partido Republicano Paulista lançou o nome do baiano Rui Barbosa, que teve o apoio do presidente Nilo Peçanha.

Rui Barbosa apoiava a necessidade de uma reforma política e de um processo eleitoral mais justo e moral. Ele também pregava a favor do antimilitarismo. Sua campanha ficou conhecida como Campanha Civilista, já que seus seguidores vinham principalmente dos principais centros urbanos. Por outro lado, o Marechal Hermes da Fonseca tinha grande apoio dos setores mais conservadores da oligarquia, que não simpatizavam com as ideias reformistas de Rui Barbosa.

Apesar de ter recebido muitos votos, Rui Barbosa não conseguiu derrotar a oligarquia, que cometeu fraude nas eleições. Hermes da Fonseca foi o sucessor de Nilo Peçanha, e a eleição de 1910 foi a primeira a ser verdadeiramente disputada na República Velha.

O governo de Hermes da Fonseca (1910-1914)


Presidente Hermes da Fonseca

Quando o Marechal Hermes da Fonseca foi eleito, a nação voltou a ser governada por um líder militar. O presidente uniu-se aos líderes militares e jovens políticos pertencentes à sua família. Juntamente com oligarquias menos poderosas, eles tentaram diminuir a influência das oligarquias tradicionais.

Na época, o político mais influente era Pinheiro Machado, o Senador do Rio Grande do Sul, que controlava até mesmo as oligarquias no Norte e Nordeste do Brasil. Em 1910, no auge de seu poder político, Pinheiro Machado criou o Partido Republicano Conservador (PRC).


Pinheiro Machado

Para combater a influência de Pinheiro Machado e do PRC, o presidente instituiu a política salvacionista. Com o pretexto de acabar com a corrupção e salvar a “pureza” das instituições republicanas, o governo enviou tropas federais para alguns estados para substituir uma oligarquia por outra. A desigualdade continuava; a única coisa que mudou é que diferentes pessoas passaram a ser beneficiadas.

A política salvacionista gerou muitas revoltas, sendo que a mais notória ocorreu no Ceará e envolvia o Padre Cícero. O padre era considerado um santo e grande milagreiro, sendo muito popular no sertão nordestino. O deputado federal Floro Bartolomeu, aliado de Pinheiro Machado, tinha grande influência política sobre Padre Cícero e, consequentemente, sobre a população local.

Quando o presidente Hermes da Fonseca interveio no Ceará, afastando a oligarquia composta pela família Acioly, Floro Bartolomeu influenciou o Padre Cícero, pedindo a ele proteção contra esta intervenção. Consequentemente, milhares de sertanejos armados, guiados pelo padre, envolveram-se em uma luta que nem mesmo era sua, mas sim dos coronéis. A violência resultante do conflito foi tamanha que o governo viu-se obrigado a voltar atrás, retirando o interventor e devolvendo o poder à antiga oligarquia. O grande beneficiado com este conflito foi Pinheiro Machado.

A Revolta da Chibata

Outra grande revolta enfrentada pelo governo do Marechal Hermes da Fonseca foi a Revolta da Chibata. Mesmo no século XX, os marinheiros eram punidos fisicamente por falhas disciplinares. O Brasil havia modernizado a marinha nacional e havia se tornado um dos grandes poderes navais da época. Contudo, o código de disciplina na marinha era o mesmo utilizado durante o Império. O processo de recrutamento era arbitrário e resultava num serviço obrigatório de 10 a 15 anos.

A revolta irrompeu em Minas Gerais. O marinheiro Marcelino Rodrigues recebeu uma punição de 250 chibatadas, o que resultou na explosão de um movimento de revolta que já havia sido planejado pelo marinheiro João Cândido, conhecido como o “Almirante Negro”. Na noite de 22 de novembro de 1910, os marinheiros se amotinaram e assumiram o comando de Minas Gerais. Outros marujos se apossaram dos encouraçados da Bahia, São Paulo e Deodoro, e apontaram seus canhões contra os principais portos do Rio de Janeiro.

A rebelião teve o apoio de alguns membros do Parlamento e de parte da população do Rio de Janeiro. Sem conseguir derrotar a rebelião, o Marechal Hermes da Fonseca cedeu às exigências dos rebeldes, acabando com os açoites e garantindo anistia aos rebeldes. Entretanto, pouco depois, o governo federal voltou atrás, passando um decreto que afastava os marinheiros considerados causadores de problemas e aprisionando 22 deles.

Os marinheiros novamente se rebelaram, mas desta vez foram bombardeados por canhões do exército e da própria marinha. Dezenas de rebeldes morreram no conflito e o número de capturados foi enorme. Alguns chegaram a ser levados à Amazônia; durante o percurso, sete foram acusados de conspiração e executados. João Cândido e dezessete outros marinheiros foram presos na Ilha das Cobras, onde quinze deles morreram poucos dias depois.

João Cândido sobreviveu, mas foi internado no Hospital dos Alienados no Rio de Janeiro, apesar de ter sido julgado mentalmente saudável pelos médicos que o examinaram. Ele foi levado a julgamento em 1912, e absolvido juntamente com todos os outros marinheiros que haviam sobrevivido à revolta. Mas o objetivo principal desta revolta foi alcançado: as punições corporais contra os marinheiros foram abolidas.

O governo de Venceslau Brás (1914-1918)


Pres. Venceslau Brás

No início do processo que determinaria o sucessor de Hermes da Fonseca, Pinheiro Machado era o candidato favorito. Porém, numa tentativa de inviabilizar sua candidatura, o Partido Republicano Paulista aliou-se ao Partido Republicano Mineiro. A restauração da política do café com leite anulou as perspectivas políticas do gaúcho Pinheiro Machado.

O líder mineiro Venceslau Brás passou a ser considerado o favorito a vencer as eleições presidenciais. Ele tinha o apoio até mesmo de pessoas que apoiavam Pinheiro Machado. Rui Barbosa, que fundou o Partido Republicano Liberal, também tentou concorrer à presidência. Porém, sem o apoio financeiro ou ajuda dos grandes estados, sua campanha não deslanchou.

Após ser eleito, Venceslau Brás governou durante a Primeira Guerra Mundial. A guerra gerou prosperidade na América Latina porque as nações em conflito compravam tudo o que a região conseguia produzir, já que suas próprias indústrias estavam completamente dedicadas à produção de armamentos e suprimentos bélicos.

Em vista disso, o Brasil, que nunca havia se estabelecido como uma potência manufatureira, começou a produzir bens industrializados. Pequenas oficinas tornaram-se grandes fábricas; surgiram um operariado e uma burguesia industrial no país. Estes acontecimentos fizeram com que o governo do Brasil se interessasse nas questões industriais nacionais. O Brasil ajudou os países da Tríplice Aliança durante a Primeira Guerra Mundial (Inglaterra, França e Rússia), fornecendo-lhes comida e matéria-prima.

Durante o governo de Venceslau Brás, a então chamada “Guerra Santa” do Contestado, que tivera início durante a presidência de Hermes da Fonseca, continuou. Esta revolta foi semelhante ao movimento religioso de Canudos, e ocorreu em uma região que era disputada pelo Paraná e por Santa Catarina. Os posseiros destas terras foram expulsos e uniram-se a um grupo comandado por um líder messiânico, o “monge” José Maria.


Guerra do Contestado

Os confrontos entre os seguidores de José Maria e o governo federal foram violentos. Após algumas expedições fracassadas, o governo organizou uma tropa de sete mil homens que derrotou os rebeldes.

Outro acontecimento significante que ocorreu durante a presidência de Venceslau Brás foi a promulgação do Código Civil, elaborado por Clóvis Bevilaqua.

O fortalecimento da classe operária no Brasil

O desenvolvimento da indústria no Brasil levou ao crescimento da classe operária do país. Em 1880, o Brasil tinha aproximadamente 54 mil operários; por volta de 1920, o número já era superior a 200 mil. Porém, assim como em muitos outros países, este crescimento industrial não significou melhores condições para os operários. Naquela sociedade, cujo mercado de trabalho ainda estava em formação, não existia qualquer proteção ao trabalhador. A jornada de trabalho era de 14 a 16 horas por dia, não havia salário mínimo, as férias não eram remuneradas e os trabalhadores não recebiam compensação por acidentes ocorridos no local de trabalho. A utilização do trabalho infantil era justificada como forma de retirar as crianças das ruas.

Em São Paulo, havia um grande número de estrangeiros entre os operários. Muitos deles haviam imigrado para o Brasil no final do século XIX para trabalhar nas fazendas de café. Mas, ao buscar melhores condições de vida, muitos trabalhadores – principalmente de origem italiana – migraram para as cidades. Foram principalmente esses imigrantes que difundiram no meio operário as ideias de revoluções sociais e transformações radicais – socialistas e anarquistas – na sociedade.

Os anarquistas defendiam as ideias de supressão do Estado. Governos e patrões eram considerados por eles como sendo inimigos que deveriam ser combatidos. Os anarquistas desprezavam os políticos e os partidos políticos. Eles tiveram um importante papel nas tentativas de organização do operariado em nível nacional e defendiam a atuação sindical de resistência. Por esses motivos, os anarquistas eram perseguidos pelo empresariado nacional e pelo governo. A mídia os retratava como terroristas estrangeiros que estavam destruindo a paz que existia entre operários brasileiros e seus chefes. Foram até criadas leis de expulsão do país de lideranças operárias anarquistas.

Esse movimento anarquista ganhou mais força em São Paulo; no Rio de Janeiro, houve uma menor presença do anarquismo. A razão para isso, de acordo com o historiador Boris Fausto, é que no Rio de Janeiro se concentrava atividades vitais e, portanto, os trabalhadores eram tratados de forma melhor pelo governo. Boris Fausto também escreve que havia no Rio um maior contingente de trabalhadores nacionais imbuídos de uma tradição paternalista nas relações com os empresários e o governo.

Na década de 1910, os movimentos sindicais de São Paulo e Rio de Janeiro obtiveram maior apoio dos trabalhadores e foram capazes de liderar importantes movimentos grevistas para protestar contra as condições de trabalho. A maior das greves, ocorrida em uma fábrica de tecidos em São Paulo em 1917, logo se tornou uma greve geral. O número de participantes na greve era inicialmente 2 mil, mas logo subiu para 40 mil. O governo reprimiu os grevistas violentamente e diversos trabalhadores morreram. Entre 1918 e 1920, ocorreram greves nos principais estados do país. A classe operária obteve algumas de suas exigências por meio destas greves. O Congresso aprovou algumas leis trabalhistas, como a lei de férias para trabalhadores da indústria e do comércio e as limitações ao trabalho dos menores. Mas essas conquistas encontraram forte resistência do empresarias e, ao mesmo tempo, não satisfizeram os líderes sindicais.

As administrações de Delfim Moreira (1918-1919) e Epitácio Pessoa (1919-1922)

Como sucessor de Venceslau Brás, a política do café com leite reelegeu Rodrigues Alves por uma segunda vez. Entretanto, ele faleceu no início de sua nova gestão e seu vice-presidente, Delfim Moreira, foi obrigado a convocar novas eleições, assim como obrigava a Constituição.

Uma nova crise de sucessão ocorreu, e Rui Barbosa novamente (pela terceira vez) apresentou-se como candidato à presidência. Em oposição a Rui Barbosa, os cafeicultores apoiaram Epitácio Pessoa, que representou o Brasil na Conferência da Paz em Versalhes, no final da Primeira Guerra Mundial. Novamente, a política do café com leite prevaleceu e Epitácio Pessoa foi eleito.

O novo presidente era profundamente antiflorianista e uma de suas principais medidas após tomar posse foi substituir os ministros militares por civis, até mesmo nos postos que haviam sido tradicionalmente ocupados pelas Forças Armadas. Para o Ministério da Marinha, o presidente indicou Raul Soares; para o Ministério da Guerra, ele nomeou Pandiá Calógeras, ambos mineiros. Estas nomeações causaram descontentamento entre os militares.


Pres. Epitácio Pessoa

Epitácio Pessoa tentou solucionar os problemas do Nordeste, e criou a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Ao mesmo tempo, Pessoa modificou as políticas econômicas do governo: ele incentivou a importação de bens manufaturados, o que acabou prejudicando a indústria nacional e a balança comercial brasileira. Após a Primeira Guerra Mundial, o Brasil, que havia sido tradicionalmente dependente da Inglaterra, passou a depender da nova superpotência mundial: os Estados Unidos. O Brasil obteve vários empréstimos dos americanos, a maioria deles com o objetivo de apoiar a política de valorização do café.

A inflação no Brasil cresceu, assim como o custo de vida no país, mas Epitácio Pessoa recusou-se a aumentar os salários, mesmo o dos militares. Isto serviu para exacerbar ainda mais a tensão com os militares.

Em 1921, com o crescimento do movimento operário, Epitácio Pessoa promulgou a Lei de Repressão ao Anarquismo, com a intenção de conter revoltas dos operários. O anarquismo na época predominava no movimento sindical, durante as décadas de 1900 e 1910.

No final do mandato de Epitácio Pessoa, a crise das oligarquias tornou-se evidente. Uma das consequências desta crise foi o movimento tenentista, que surgiu pela primeira vez em 1922.

A Semana de Arte Moderna


A Negra, de Tarsila do Amaral.
Semana de Arte Moderna - 1922

Em 1922, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, foi realizada na cidade de São Paulo uma reunião de artistas e intelectuais. Esses artistas brasileiros, adeptos das estéticas modernistas, apresentaram-se no Teatro Municipal de São Paulo, que conheceu, naqueles dias, momentos dos mais agitados de sua história. Entre outros artistas, estavam os escritores Mário de Andrade e Oswald de Andrade, os artistas plásticos Brecheret, Anita Malfatti e Di Cavalcanti, e o músico Heitor Villa-Lobos. Esses artistas foram apoiados, inclusive financeiramente, por alguns integrantes do Partido Republicano Paulista, pelo jornal Correio Paulistano e por membros da nova burguesia paulista e carioca, como Armando Álvares Penteado, Paulo Prado e Alfrejo Pujol.

Os organizadores da Semana de Arte Moderna lançaram um manifesto modernista que defendia a liberdade de expressão e a adoção das “mais modernas formas de expressão do estrangeiro”, não para copiá-las, mas para recriá-las de maneira própria. Essa expressão artística brasileira conteria elementos diferentes, característicos de diversas regiões, ambientes e épocas do Brasil: o rural e o urbano, o antigo e o moderno.

Sumário

- O governo de Prudente de Morais
- Incentivando a indústria no Brasil
- A Guerra de Canudos
- O governo de Campos Sales
- O governo de Rodrigues Alves
- O governo de Afonso Pena
- O governo de Nilo Peçanha
- O governo de Hermes da Fonseca
- A Revolta da Chibata
- O governo de Venceslau Brás
- O fortalecimento da classe operária no Brasil
- As administrações de Delfim Moreira e Epitácio Pessoa
- A Semana de Arte Moderna
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