Governo Vargas (1951-1954)

Governo Vargas (1951-1954)


Pres. Getúlio Vargas

“Se for eleito a 3 de outubro, no ato de posse, o povo subirá comigo as escadas do Catete. E comigo ficará no governo”. Com discursos e promessas tão populistas, Getúlio Vargas concorreu à presidência, como candidato do PTB e apoiado pelo Partido Social Progressista (PSP). No final do governo Dutra, Vargas foi eleito com 48,7% dos votos, derrotando Eduardo Gomes (UDN), Cristiano Machado (PSD) e João Mangabeira (PSB).

Getúlio Vargas venceu as eleições com larga margem de votos. Seu vice foi o potiguar João Café Filho. Ao assumir o cargo em janeiro de 1951, Getúlio articulou um ministério conservador, integrado principalmente pelos políticos do PSD.

Uma das principais bases de sustentação de seu poder e prestígio continuava a ser o movimento sindical, que ele mesmo havia estruturado após a Revolução de 1930. Getúlio dizia-se comprometido com a classe trabalhadora e pretendia implementar medidas nacionalistas e desenvolver a indústria de base no Brasil. Para isso, assinou acordos com banqueiros e empresários norte-americanos, que forneceriam capitais e técnicos para as primeiras indústrias de carros e equipamentos elétricos pesados no país. Em contrapartida, o governo seria responsável pela produção de energia necessária para o funcionamento das indústrias.

No ano de 1952, Getúlio Vargas criou o Banco Nacional de Desenvolvimento e, com sua equipe econômica, iniciou um projeto para estabelecer o monopólio estatal do petróleo que resultou na criação da Petrobras. O governo de Getúlio também planejou a criação da Eletrobrás, responsável pela produção de energia elétrica.

Crises do governo Vargas

A partir de 1952, crescia a oposição à política nacionalista de Getúlio Vargas. A inflação e o déficit da balança comercial – consequências em parte das remessas para o exterior do lucro das empresas estrangeiras atuantes no Brasil – desestabilizaram o governo ainda mais.

Em março de 1953, uma greve dos setores têxtil e metalúrgico iniciada em São Paulo se espalhou para o interior do estado e chegou até o Rio de Janeiro, resultando na mobilização de diversos segmentos profissionais.

O movimento grevista foi parcialmente vitorioso em suas reivindicações salariais e contribuiu para a queda do ministro do Trabalho, Segadas Viana, que foi substituído pelo político trabalhista João Goulart. O crescimento dos movimentos de massa preocupava a classe dominante; ela temia que Getúlio perdesse o controle caso continuasse a adotar uma linha econômica nacionalista apoiada na mobilização popular. A classe média estava atemorizada com o crescimento do comunismo no país.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos resolveram pressionar o governo Vargas ao reduzir drasticamente o volume de importações do café brasileiro.

A crise política atingiu seu apogeu no dia 1o de maio de 1954: nas comemorações do Dia do Trabalho, Getúlio aceitou a proposta de João Goulart de aumentar em 100% o salário mínimo. A pressão da oposição foi tão forte que obrigou Goulart a renunciar, e o governo teve que suspender o aumento.

Os grupos de oposição a Vargas no Brasil escreveram contra ele na mídia, acusando-o de preparar um golpe que criaria uma república sindicalista no Brasil, semelhante à ocorrida no governo Perón, da Argentina. O jornalista Carlos Lacerda da UDN liderava o maior grupo antigetulista e expôs pessoas corruptas ligadas ao governo.

Em agosto de 1954, Carlos Lacerda foi vítima de um atentado, do qual conseguiu escapar com vida. Mas seu companheiro de partido, o major da Aeronáutica, Rubens Florentino Vaz, que estava com ele na ocasião, foi atingido e morreu.

Este episódio ficou conhecido como O Crime da Rua Toneleros. Apesar do envolvimento de Getúlio Vargas não ter sido provado, as investigações concluíram que Gregório Fortuante, seu principal guarda-costas, havia organizado o atentado.

O crime abalou o país. Gregório Fortunato foi preso; as Forças Armadas e o vice-presidente Café Filho pediram a renúncia do presidente. Em 22 de agosto de 1954, oficiais das forças aéreas exigiram que Getúlio deixasse o cargo, e o exército e outros grupos da sociedade assinaram um manifesto semelhante. No dia 24 de agosto, pela manhã, foi dado um novo ultimato a Vargas, desta vez com a assinatura do Ministro da Guerra, Zenóbio da Costa. O presidente isolou-se no Palácio do Catete, escreveu uma carta-testamento e cometeu suicídio, atirando contra seu peito.

CARTA TESTAMENTO

Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social.

Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo.

A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no congresso.

Contra a injustiça da revisão do salário mínimo se desencadearam ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma.

A Eletrobrás foi obstaculada até o desprezo. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o governo da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano.

Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco.

Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência.

Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com minha vitória.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo.

Eu vos dei a minha vida. Agora serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Em sua carta-testamento, Getúlio afirmava que havia morrido na defesa dos humildes, contra as imposições dos grupos internacionais que supostamente queriam explorar o país. O suicídio de Getúlio foi sua última vitória política contra seus adversários. A população brasileira, comovida, mobilizou-se em vários estados contra “os inimigos do trabalhismo e da nacionalização das riquezas do país”. A embaixada dos Estados Unidos foi apedrejada e as redações dos jornais que não apoiavam o governo Vargas foram depredadas.

Com a morte de Vargas, seu vice-presidente, Café Filho, ocupou o cargo para encerrar o mandato de Vargas, que terminaria no final de 1955.


Capa da revista Time - Dec. 6, 1954
www.time.com
Pres. Café Filho

Durante os quinze meses de seu mandato (de agosto de 1954 a novembro de 1955), o presidente Café Filho liderou um país que enfrentava uma crise econômica. Além da crise política gerada pelo suicídio de Vargas, a inflação estava em alta e os preços do café no mercado internacional continuavam a cair.

Nas eleições que logo aconteceriam, o PSD e o PTB aliaram-se e tinham como candidato à presidência Juscelino Kubitschek de Oliveira e para vice, João Goulart. A UDN, juntamente com o Partido Democrata Cristão (PDC), apresentou Juarez Távora como candidato. Ademar de Barros e o integralista Plínio Salgado também eram candidatos.

Juscelino venceu as eleições, mas uma tentativa de golpe antecedeu sua chegada ao poder. Café Filho foi obrigado a deixar o cargo por problemas de saúde e, em seu lugar, o presidente da Câmara dos Deputados Carlos Luz ocupou o poder. Apesar de pertencer ao PSD, ele se opôs a Juscelino. Com suspeitas de que um golpe estava sendo planejado, o Ministro da Guerra, General Henrique Teixeira Lott, ordenou que tropas do exército ocupassem os edifícios públicos, estações de rádio e os jornais mais importantes do Rio de Janeiro.


General Lott - Ministro da Guerra

Carlos Luz e os supostos golpistas do UDN refugiaram-se no navio Tamandaré. O poder foi assumido pelo presidente do Senado, Nereu Ramos, e Juscelino e Goulart ocuparam os cargos em 31 de janeiro de 1956.