A Guerra do Paraguai

A Guerra do Paraguai

As relações entre o Brasil e a Inglaterra

Durante o Segundo Reinado, o Brasil passou a dar prioridade a assuntos de política externa. O país procurava evitar o fortalecimento da Argentina, Uruguai e Paraguai para preservar o equilíbrio de poder na América do Sul. Nessa mesma época, as relações diplomáticas entre Brasil e Inglaterra deterioraram. Há décadas que a Inglaterra vinha exigindo que o Brasil abolisse o tráfico de escravos. Conflitos entre as duas nações culminaram na Questão Christie.

Em 1861, o navio inglês Príncipe de Gales afundou nas costas do Rio Grande do Sul e sua carga foi pilhada. William Christie, o representante diplomático da Inglaterra no Brasil, exigiu que o Brasil indenizasse seu país pela perda da carga do navio. A enorme quantia de 3200 libras foi exigida pelos ingleses. A tensão entre Brasil e Inglaterra aumentou ainda mais quando a polícia brasileira prendeu três oficiais britânicos que, estando bêbados, promoviam desordem nas ruas da capital, Rio de Janeiro.

Christie exigiu que o Brasil soltasse os oficiais e que punisse os policiais responsáveis pela prisão. D. Pedro II aceitou indenizar a Inglaterra pela carga do navio e também concordou em libertar os oficiais britânicos. Mas ele se recusou a punir os policiais que haviam prendido os três oficiais britânicos. Em represália, Christie ordenou o aprisionamento de cinco navios brasileiros, que foram levados para a Ilha de Palmas, no Atlântico Sul. Cidadãos brasileiros, indignados, passaram a se manifestar contra comerciantes ingleses que residiam no Brasil.

Decidiu-se que o conflito entre Brasil e Inglaterra seria solucionado através de arbitramento internacional. O rei da Bélgica, Leopoldo I, foi escolhido como juiz. O veredicto do rei belga acabou favorecendo o Brasil. Leopoldo I também declarou que a Inglaterra deveria se desculpar. Mas o governo inglês não respeitou a decisão de Leopoldo I. Em 1863, as relações diplomáticas entre Brasil e Inglaterra foram rompidas.

Porém, dois anos depois, preocupada com o crescimento da influência paraguaia na América do Sul, a Inglaterra procurou se aproximar do Brasil novamente e usou Portugal como mediador. Em 1865, na cidade gaúcha de Uruguaiana, um representante inglês pediu desculpas a D. Pedro II e relações diplomáticas entre os dois países foram restabelecidas.

Conflitos na região platina

A região platina é constituída pela Argentina, Paraguai e Uruguai. Esse território é banhado por três rios importantes: Paraná, Paraguai e Uruguai, que se juntam criando o rio da Prata.

A livre navegação desses rios facilitava o contato com as províncias do Centro-Oeste e Sudeste do continente sul-americano. As questões platinas foram intervenções brasileiras no Prata durante os anos 1851-1870. Essas questões foram uma disputa quanto à navegação dos rios. A Inglaterra apoiou o Brasil nessa disputa contra Argentina, Uruguai e Paraguai, pois os ingleses temiam que uma grande república platina fosse formada.

Em 1827, a antiga Província Cisplatina, que pertencera ao Brasil, se tornou a República do Uruguai. Pouco após a sua independência, o Uruguai, que é vizinho do Brasil e da Argentina, se encontrou dividido politicamente. Um partido uruguaio, o Blanco, que representava os interesses dos pecuaristas, apoiava-se na Argentina. O outro grande partido uruguaio, o Colorado, que era ligado aos comerciantes de Montevidéu, era pró-Brasil. Essa indefinição das alianças do Uruguai e o interesse pela liberdade de navegação no rio da Prata resultaram em vários conflitos.


J. Debret, Embarque das tropas para Montevidéu  
Museu Imperial, Petrópolis

Choques armados ocorreram entre os colorados, liderados por Frutuoso Rivera, e os blancos, chefiados por Manuel Oribe. Rivera havia sido o primeiro presidente do Uruguai e havia, mais tarde, apoiado Oribe. Mas após ter sido eleito, Oribe não mais deu atenção às decisões de Rivera e aliou-se ao governador argentino Juan Manuel Rosas, que planejava restaurar o antigo vice-reinado do Prata, criando uma confederação republicana. Contando com o apoio de Rosas, Oribe bloqueou o porto de Montevidéu, prejudicando assim o comércio inglês, francês e brasileiro.

Rivera contatou argentinos opositores a Rosas, inclusive o general Urquiza. Ele também agregou às suas forças brasileiros que haviam lutado na guerra dos Farrapos. Rivera liderou uma luta contra Oribe.

Objetivando manter livre a navegação no rio da Prata, D. Pedro II enviou tropas militares sob o comando de Caxias para a região. Com essa ajuda adicional, as forças de Rivera e Urquiza depuseram Oribe e colocaram os colorados no poder.

Mas mesmo a queda de Oribe não tranquilizou o governo brasileiro. O Brasil achava necessário derrotar Rosas também, pois o governador argentino apoiava os blancos uruguaios. Portanto, a luta continuou: os brasileiros subiram o rio Paraná e enfrentaram os argentinos. Auxiliados pelo almirante inglês Grenfell, as tropas brasileiras derrotaram Rosas na batalha de Monte Caseros, em 1852. O general Urquiza passou a controlar a Argentina.

Os ingleses auxiliaram os brasileiros porque desejavam derrotar Rosas. O governador argentino havia promulgado, em 1835, leis alfandegárias protecionistas que prejudicavam os interesses comerciais da Grã-Bretanha. O objetivo de Rosas, ao instituir essas leis alfandegárias, era proteger a indústria Argentina, o que obviamente prejudicava a venda de produtos ingleses importados para a Argentina.

Mas, contrário às expectativas brasileiras, a derrota de Oribe e Rosas não trouxe a pacificação favorável ao Brasil. Ao contrário: o conflito entre blancos e colorados aumentou e os blancos logo voltaram ao poder.

Durante a presidência de Aguirre (1864), líder blanco, incidentes envolvendo o Brasil voltaram a ocorrer: represálias contra brasileiros que residiam no Uruguai, violação de fronteiras e ataques de uruguaios às estâncias gaúchas.

O governo imperial brasileiro exigiu que o Uruguai indenizasse o Brasil por esses ataques. Mas Aguirre ignorou as exigências brasileiras e nem mesmo ofereceu explicações ao emissário brasileiro enviado por D. Pedro II. Era claro que uma solução diplomática era praticamente uma impossibilidade. Portanto, iniciou-se o conflito.

O general Mena Barreto comandou por terra a invasão do Uruguai. Ele obteve a adesão dos colorados, liderados por Venâncio Flores. A esquadra brasileira, comandada pelo almirante Tamandaré, posicionou-se diante da capital uruguaia. Montevidéu viu-se cercada. Aguirre renunciou e as exigências brasileiras foram atendidas.

A Guerra do Paraguai

O Paraguai, diferente dos outros países da América Latina, era autossuficiente e não precisava recorrer ao capital estrangeiro. O longo governo de Gaspar de Francia (1814-1840) criou condições para que o Paraguai se tornasse economicamente autossuficiente.

Francia sustentava seu governo nas massas camponesas. A oligarquia paraguaia foi destruída e o país se isolou dos países vizinhos que estavam comprometidos com o capital inglês.

Os governos paraguaios que sucederam Francia mantiveram sua linha. Em 1865, o Paraguai já possuía uma linha telegráfica, uma ferrovia e um respeitável número de indústrias. Técnicos estrangeiros supervisionavam as produções industriais do Paraguai.

O Paraguai tinha também sua própria indústria de guerra e uma frota mercante que construía navios nos estaleiros de Assunção. O Estado controlava as atividades econômicas essenciais da nação. O Paraguai exportava produtos como erva-mate, tabaco e madeira. O país mantinha uma balança comercial positiva, a moeda era forte e estável e havia riqueza para investir em obras públicas, sem a necessidade de se recorrer ao capital estrangeiro.

Quase todo o território paraguaio pertencia ao Estado, que cedia aos camponeses o direito de explorar parcelas dele em troca de povoá-lo, sem o direito de vender terras.

A Inglaterra se preocupava com o desenvolvimento nacionalista do Paraguai, pois poderia servir de exemplo para outros países do continente. Foi o embaixador inglês em Buenos Aires, Edward Thornton, que elaborou com o presidente da Argentina, Bartolomeu Mitre, um plano que culminou numa aliança entre Brasil e Argentina contra o Paraguai.

Solano López, o presidente do Paraguai, se manifestou contra a invasão brasileira no Uruguai. Ele argumentou que essa invasão contrariava os interesses do Paraguai, mas seus apelos não foram atendidos. Em 1864, ele retaliou, aprisionando o navio brasileiro Marquês de Olinda e atacando a cidade de Dourados, em Mato Grosso. Em maio de 1865, Brasil, Argentina e Uruguai firmaram um tratado criando a Tríplice Aliança. O presidente argentino Mitre foi nomeado para comandar essa aliança.

Na primeira fase da guerra do Paraguai, os brasileiros, chefiados pelo almirante Barroso, derrotaram os paraguaios na batalha de Riachuelo. Em maio de 1866, ocorreu a batalha de Tuiuti, que foi uma terrível derrota para as forças paraguaias. Porém, em setembro, os brasileiros sofreram uma derrota em Curupaiti.

Desentendimentos entre o general Osório, comandante das forças brasileiras e o argentino Mitre levaram D. Pedro a substituir Osório por Caxias como comandante das forças brasileiras.

Em 1867, os brasileiros fracassaram ao tentar retomar Mato Grosso dos paraguaios. Em 1867, o Uruguai e a Argentina se retiraram da guerra. Caxias reorganizou suas forças, obteve mais armamentos e suprimentos e tornou as operações militares brasileiras mais eficientes. A partir daí, o Brasil passou a ter uma série de vitórias, principalmente em Humaitá.

Em dezembro de 1868, as forças de Caxias venceram as batalhas de Itororó, Avaí, Lomas, Valentinas e Angosturá. No início de 1869, Assunção, a capital do Paraguai, foi conquistada pelo exército brasileiro. Caxias cedeu o comando das forças brasileiras ao genro de D. Pedro II, o conde D’Eu, que perseguiu Solano López violenta e desnecessariamente. Solano López foi morto em 1870 na batalha de Cerro Corá.

Ao final da guerra, a população do Paraguai foi reduzida a menos da metade que era antes de 1864. A indústria do país foi destruída e a miséria tomou conta do país. O Paraguai, que antes da guerra se desenvolvia de forma impressionante, passou a ser um paraíso para produtos estrangeiros e para os latifundiários.

Os países que venceram a guerra – Brasil, Argentina e Uruguai – emergiram da guerra mais endividados do que nunca com os bancos ingleses. O Paraguai, após a guerra, aceitou o primeiro empréstimo financeiro de sua história – da Inglaterra.

Uma das consequências da Guerra do Paraguai foi o fortalecimento do sentimento nacionalista dos brasileiros, principalmente dos militares. Tendo defendido o Império ao lutar contra o Paraguai, as forças armadas brasileiras passaram a exigir uma maior participação na política nacional.

Os políticos do Império, porém, temiam o crescimento da influência militar, pois tinham medo que os generais brasileiros ameaçassem a estabilidade do Império (o que aconteceu com os caudilhos na América Espanhola). Mas isto não ocorreu, pois parte da oficialidade brasileira passou a aderir à República, sendo influenciados pelas novas ideias introduzidas no Brasil a partir de 1870. Ordem e Progresso eram as palavras de ordem da filosofia positivista. Benjamin Constant, tenente-coronel e professor da Escola Militar, foi um dos principais propagandistas desses ideais no Exército; ele defendia - e pregava aos seus cadetes – a necessidade de uma República militar e autoritária para que o País progredisse.

Sumário

- As relações entre o Brasil e a Inglaterra
- Conflitos na região platina
- A Guerra do Paraguai
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