A Ucrânia

A Ucrânia é um país com 42 milhões de habitantes. Faz fronteira com a Rússia e com o Leste Europeu. A Ucrânia faz fronteira com Polônia, Eslováquia, Hungria, Romênia e Moldávia a oeste e sudoeste, com Belarus ao norte e com Rússia a leste e nordeste. Na região meridional, o Mar Negro e o Mar de Azov banham suas costas.

A Ucrânia tem uma história longa de guerras e conflitos territoriais. O país se tornou independente em 1991, com o fim da União Soviética.

A Ucrânia é um país dividido do ponto de vista étnico. A maioria da população do sul e do leste do país é russa, fala russo e tende a ser pró-Moscou. Já a população do centro e do oeste do país é ucraniana, nacionalista, fala ucraniano e deseja fazer parte da União Europeia. O leste do país é onde se concentram as riquezas naturais e o parque industrial.

Histórico

Ao longo de sua história, a Ucrânia perdeu sua independência diversas vezes.
A disputa com a Rússia em relação a questões territoriais ocorre desde o século XVIII, na época de Catarina, a Grande. Os russos conquistaram o sul da Ucrânia e a Crimeia, que, até então, encontrava-se sob o domínio do Império Otomano. 

No final do século XIX, após uma longa história marcada por conflitos contra poloneses, lituanos e tártaros, a Ucrânia foi absorvida pela Rússia, passando a ser denominada Província da Pequena Rússia.

Após a Revolução Russa, ocorrida em 1917, a Ucrânia foi palco de uma sangrenta guerra entre o poder soviético e seus inimigos. Em 15 de dezembro de 1917, Lenin firmou um armistício com os alemães, segundo o qual a Rússia se retiraria da guerra. Pelo Tratado de Brest-Litovsk (3 de março de 1918), a Rússia concordava em ceder a Polônia, a Ucrânia e algumas regiões fronteiriças. Cinco anos depois, quando o Primeiro Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia criou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a Ucrânia se tornou uma delas.

Contudo, o forte nacionalismo ucraniano nunca foi totalmente abafado pelos russos. Em 1941, boa parte da população ucraniana chegou a receber as tropas da Alemanha Nazista como libertadoras. Após a Segunda Guerra Mundial, a Ucrânia foi vítima de uma enorme repressão por parte dos russos, que acusaram os ucranianos de terem sido “colaboracionistas” com o invasor germânico.

Em 1954, o Partido Comunista da União Soviética entregou a região da Crimeia, até então parte integrante da Federação Russa, à Ucrânia. Foi um presente do líder soviético Nikita Khrushchev, que era ucraniano. 

Em tempos recentes, a Ucrânia foi vítima do mais grave acidente nuclear da história: a explosão do reator nuclear da usina de Chernobyl, que afetou diretamente uma área onde viviam 600 mil pessoas. Dessas, somente 135 mil foram evacuadas e, até o ano de 1993, calcula-se o número de mortos em 7 mil.

Em julho de 1990, o Parlamento da Ucrânia proclamou a soberania da República, confirmada por eleições populares, realizadas em dezembro de 1991. Nesse mesmo mês, Rússia, Ucrânia e Belarus fundaram a Comunidade de Estados Independentes (CEI).

Em 1991, com a independência da Ucrânia, Boris Yeltsin, o presidente russo na época, aceitou que a Crimeia continuasse a fazer parte da Ucrânia. Contudo, a frota russa continuaria na Crimeia, alugando as instalações do governo ucraniano.

Crise na Ucrânia

Desde novembro de 2013, a Ucrânia vive uma crise, tanto política como econômica. Na véspera de o país assinar um acordo de livre comércio com a União Europeia, seu presidente, Viktor Yanukovych foi convocado pelo governo russo. O presidente da Rússia, Vladmir Putin estava descontente com o fato de a Ucrânia estar se aproximando da Europa. Visando a manter sua influência sobre a Ucrânia, Putin ofereceu ao país $15 bilhões em investimentos e mais $2 bilhões anuais em abatimento no preço do gás fornecido pela Rússia. Vale ressaltar que a Ucrânia é totalmente dependente do gás russo como fonte de energia. É importante saber também que os dutos que transportam gás russo para a Europa passam pela Ucrânia.

O presidente Viktor Yanukovych aceitou a proposta russa e anunciou que havia desistido do acordo com a União Europeia. Protestos espontâneos irromperam em Kiev, capital ucraniana, em protesto à decisão do presidente Yanukovych. A violência empregada pelas forças do governo ucraniano na repressão das manifestações levou um número crescente de manifestantes às ruas.  Putin afirmava que os protestos em Kiev eram liderados pelo extrema-direita, por “nazistas disfarçados”. Na realidade, os protestos foram alimentados pela crise econômica, pela falta de emprego e pela corrupção generalizada em todas as esferas do governo ucraniano.

As intensas manifestações populares resultaram na queda do presidente Yanukovych, que fugiu para Rússia em fevereiro de 2014. Putin acusa o Ocidente de ter apoiado a retirada de Yanukovych do poder.  Em maio do mesmo ano, o bilionário Petro Poroshenko venceu as eleições ucranianas, garantindo a vitória já no primeiro turno.  De tendência pró-Ocidente, ele apoia as ações militares contra o movimento separatista pró-Rússia e adere à União Europeia.

A Ucrânia se dividiu entre os que querem que o país se aproxime da União Europeia e os que preferem a aproximação à Rússia. A parte ocidental do país deseja se aproximar da União Europeia. Já a maioria da população das partes sul e oriental do país, onde se fala russo e onde há fortes laços culturais com a Rússia, deseja que a Ucrânia se aproxime da Rússia.

Uma das consequências dessa divergência foi a crise na Crimeia, que acabou optando por fazer parte da Rússia. Tal crise deu início a um conflito entre forças ucranianas e separatistas pró-Rússia. A Rússia enviou soldados à Ucrânia, sob o pretexto de estar protegendo os cidadãos russos que vivem em território ucraniano.

Moscou não reconhece como legítima a troca de governo na Ucrânia, enquadrando-a como golpe de Estado. As populações ucranianas da fronteira com a Rússia alinham-se com Putin e denunciam a legitimidade do novo governo.

A Crimeia

A Crimeia era um território ucraniano autônomo. A maioria de sua população era de etnia russa.

A Crimeia é um território estratégico para Rússia, pois é via de acesso ao Mar Negro e abriga uma importante base naval russa em Sevastopol. Historicamente, a Crimeia fazia parte da Rússia. 

Com a queda do presidente ucraniano Viktor Yanukovych, em fevereiro de 2014, ativistas pró-Rússia tomaram o controle de prédios governamentais. Ao mesmo tempo, milhares de soldados sem identificação tomaram bases militares na Península da Crimeia, dando apoio aos separatistas pró-Rússia. Para justificar o envio de tropas armadas, Putin declarou que “A Crimeia sempre foi e é parte inseparável da Rússia” e vital para os interesses russos.

As tensões culminaram com a anexação da Crimeia pela Rússia, em março de 2014, após a realização de um referendo. Este não foi reconhecido nem pelo governo ucraniano nem pelos governos dos Estados Unidos e da União Europeia. Se os resultados do referendo forem legítimos, 95% das pessoas que participaram dele votaram a favor da Crimeia ser separada da Ucrânia e anexada à Rússia. Dois dias após a realização do referendo, o presidente da Rússia e dois líderes da Crimeia assinaram um acordo para que a Crimeia se tornasse parte da Rússia.

Houve pouco derramamento de sangue na Crimeia, pois o governo ucraniano não possuía um número suficiente de tropas mobilizadas para se opor à anexação.

Guerra Civil 

Após a anexação da Crimeia pela Rússia, outras regiões e cidades ucranianas de maioria russa também manifestaram sua intenção de se separar da Ucrânia. A guerra civil se iniciou em abril de 2014, com ativistas pró-Rússia tomando o controle de prédios governamentais situados em regiões ao leste do país. Separatistas pró-Rússia acabam criando áreas autoproclamadas como “repúblicas populares independentes”. Donetsk, Lugansk e Slaviansk se proclamaram independentes. Nessas regiões, a maioria da população fala russo e se alinha ao governo de Putin.  

O leste da Ucrânia concentra grande parte da indústria do país. Depois de perder a Crimeia, o governo ucraniano decidiu mobilizar suas tropas e lutar pela integridade territorial do país. Desde abril de 2014, há constantes combates entre separatistas rebeldes pró-Rússia e tropas do governo ucraniano. Os separatistas contam com o apoio militar da Rússia.

Segundo um relatório da ONU, até março de 2015, a guerra civil na Ucrânia já havia causado a morte de 6 mil pessoas. Além disso, havia 15 mil feridos. Entre as vítimas do conflito estão os 295 passageiros do voo MH17, que foram mortos no dia 17 de julho por rebeldes pró-Rússia, que abateram um avião da Malaysia Airlines. A guerra civil na Ucrânia também causou com que um milhão de pessoas fossem deslocadas internamente.

Desde o início das hostilidades na Ucrânia, Moscou e Kiev têm trocado sérias acusações. O governo ucraniano acusa o presidente russo Vladimir Putin de apoiar e armar os rebeldes separatistas. Putin nega tais acusações. Já Moscou afirma que as “operações punitivas” do governo ucraniano contra os separatistas são “atos criminosos”.

Em fevereiro de 2015, o presidente Putin e o presidente ucraniano Poroshenko acordaram um cessar-fogo.  

Alguns fatores devem ser considerados. Como já estudamos, a Ucrânia e a União Europeia dependem do gás russo: 43% do gás da Alemanha, por exemplo, é provido pela Rússia. Tal dependência faz com que os países da Europa fiquem receosos em tomar medidas mais drásticas contra o governo de Putin. Não obstante, a União Europeia ofereceu apoio financeiro à Ucrânia, para que o país possa se defender da Rússia.  

Uma nova guerra fria?

A interferência de Putin na Ucrânia e a anexação da Crimeia causou mudanças geopolíticas no mundo.  Os Estados Unidos e a União Europeia impuseram sanções contra a Rússia e buscam uma solução diplomática para o conflito.  Houve um aumento nas tensões e na retórica entre os Estados Unidos e a Rússia. Analistas políticos já falam do início de uma nova Guerra Fria.

As sanções e outros fatores econômicos, como a queda do preço do petróleo, já tiveram grande impacto sobre a economia russa.  O rublo, a moeda russa, sofreu uma desvalorização de 50% entre durante os anos 2014-2016.

A linguagem e as atitudes de Putin remetem ao tempo da Guerra Fria. Putin busca aumentar a influência russa no mundo e a reforçar o nacionalismo interno. Ele objetiva consolidar sua posição estratégica na geopolítica do mundo ao apoiar os rebeldes na Ucrânia, ao fornecer armas ao governo sírio de Assad e ao agir como uma força opositora a vários dos interesses do Ocidente.  Analistas especulam sobre os seus próximos passos. Uma coisa é certa: Vladimir Putin sente nostalgia do que era seu país na época da grande União Soviética.