A Direita e o Populismo

O Populismo

Não se tem uma definição clara do termo populismo. O termo é utilizado de diversas maneiras, mas um discurso populista geralmente tem o tom “eles contra nós” e “nós contra os donos do poder”. Discursos populistas tendem a serem irresponsáveis e “prometer tudo a todos”.

Populismo pode ser de esquerda como de direita. Geralmente o líder populista apela para o medo de grande parte da população. No caso do populismo de esquerda, o discurso é “a defesa do povo contra os interesses da elite repressiva”, geralmente acompanhado com uma proposta de redistribuição de renda. No populismo de direita, o discurso é o povo contra a elite corrupta dos políticos que detêm o poder. O discurso populista assusta, pois, o discurso de que os adversários, sejam eles empresários ou sejam eles políticos, são todos corruptos e corrompíveis os deslegitima. Se o sistema está completamente podre, porque não acabar com ele? Isso abre uma brecha para governos mais autoritários e coloca em risco a democracia. Vimos isso na Venezuela, aos poucos Hugo Chavez foi acabando com a democracia e se perpetuando no poder. Chavez perseguiu oposicionistas, mudou a constituição e interferiu no poder judiciário. Atualmente, o Chavismo – sob a liderança de Nicolás Maduro – atravessa uma profunda crise.

Na América Latina, os governos populares de esquerda têm perdido espaço e poder: na Bolívia, por exemplo, Evo Morales perdeu o plebiscito que o permitiria se candidatar para um terceiro mandato. Já nos Estados Unidos e na Europa, houve um ressurgimento de movimentos populares de direita.

O populismo tem sido um termo muito usado nas últimas eleições políticas na Europa e nos Estados Unidos. Tem sido uma competição entre a ordem estabelecida - “o establishment” - e o “antiestablishment”. O movimento “antiestablishment” é liderado pelo político não convencional ou por alguém que até então nem fazia parte da política, como foi o caso de Donald Trump, nos Estados Unidos. Os eleitores, muitas vezes dessatisfeitos e fartos das velhas estruturas políticas, procuram o antitradicional.

O populismo de direita tem um discurso nacionalista e conservador, contra as tendências da globalização. A retorica é contra o livre mercado e em favor do protecionismo. Nesse aspecto, sua posição a aproxima de populismo de esquerda. Os políticos populistas de direita pregam o fechamento de fronteiras, em relação a bens e a pessoas, e são a favor de seus países se retirarem de acordos comerciais internacionais. O discurso anti-imigrante é bem acentuado. A retorica é xenofóbica pregando que os imigrantes pegam os empregos dos cidadãos do país, cometem crimes e podem até ser terroristas. O político populista de direita passa a mensagem que a única forma de proteger sua população, em termos de segurança e bem-estar econômico, é fechando suas fronteiras.

Partidos populistas estão bem representados na maioria dos parlamentos da Europa. Atualmente, há também presidentes e primeiros-ministros populistas governando os Estados Unidos e algumas nações europeias.

Vale ressaltar, porém, que a maioria desses líderes e partidos políticos não são meramente populistas. Eles combinam o populismo com certas características ideológicas. Por exemplo, o populismo de esquerda é frequentemente associado a algum tipo de socialismo, como no caso do chavismo venezuelano. O populismo de direita costuma estar entrelaçado com o autoritarismo e o nativismo. Exemplificando: Donald Trump nos Estados Unidos e Geert Wilders na Holanda.

É notável que a mais recente eleição norte-americana reuniu os dois tipos de populismo. Por um lado, representado a direita, havia o republicano Donald Trump, que venceu as eleições. Por outro, representado a esquerda, havia Bernie Sanders – o pré-candidato democrata derrotado por Hillary Clinton.

A Direita de Donald Trump: Alt Right – a direita alternativa


Donald Trump. Foto: CNN

A ascensão de Donald Trump, primeiramente como candidato pelo Partido Republicano e agora como presidente dos Estados Unidos, é considerada uma manifestação de um novo movimento de direita, que está se espalhando pelo mundo. Um novo termo que é utilizado para descrever os apoiadores mais radicais de Donald Trump é “Alt Right”, (Alternativa Right), ou seja, a direita alternativa. A Alt Right, portanto, denomina outro tipo de direita, que, na opinião de muitos analistas políticas, não faz parte do movimento conservador.

Para podermos entender o que significa direita alternativa, é fundamental definirmos o que constitui direita política. Evidentemente, isso varia de país para país. Mas em geral, a direita é constituída por pessoas que são conservadores socialmente (em muitos casos, religiosos), mas liberais na economia, isto é, pregam que o governo deveria interferir o menos possível na economia. Nos Estados Unidos, o movimento conservador é representado pelo Partido Republicano. Evidentemente, há exceções: há conservadores que, por um motivo ou outro, preferem o Partido Democrata e há liberais que costumam votar em candidatos republicanos.

O movimento conservador, como o próprio nome indica, objetiva conservar os valores e os alicerces da nação. Exemplificando: os conservadores tendem a interpretar a Constituição dos Estados Unidos de forma literal.

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, que resultou na deflagração da guerra norte-americana contra o terrorismo, o movimento conservador passou a ser muito influenciado pela ideologia dos Neo Con – os neoconservadores. Estes defendiam a ideia de que os Estados Unidos deveriam aumentar a ação política e militar em todas as partes do mundo. Assim, poderiam lutar contra o terrorismo e contra os países que o apoiavam. Os Neo Cons influenciaram muito o governo do republicano George W. Bush, que era presidente quando ocorreram os ataques terroristas de 11 de setembro. As guerras iniciadas pelo governo Bush, tanto no Afeganistão como no Iraque, gerar déficits altíssimos para o governo norte-americano. Além disso, o país não obteve vitórias militares decisivas. Os Estados Unidos pagaram muito caro por tais conflitos – milhares de soldados norte-americanos morreram e bilhões de dólares foram gastos. Isso prejudicou muito o Partido Republicano e deixou espaço para a emergência de novos movimentos conservadores.

O presidente Barack Obama, um democrata, foi o sucessor de George W. Bush. Obama afirma que seu governo, que durou dois mandatos (oito anos no total), salvou o país de uma depressão econômica. De fato, seu governo consegui combater a forte retração econômica herdade de Bush. Não obstante, os Estados Unidos de Barack Obama não ostentavam o mesmo poder de antes. Assim, rivais e inimigos dos Estados Unidos, como Rússia, China e Irã, se tornaram mais influentes no cenário internacional.

Outro fenômeno que ocorreu durante o governo Obama foi a notório piora de vida dos blue collar workers – operários cujos empregos envolvem força física e habilidade manual. Os avanços tecnológicos e a globalização prejudicaram muito os blue collar workers dos Estados Unidos, pois os empregos do setor industrial migraram para países cuja mão de obra é muito mais barata que nos Estados Unidos. Boa parte desses trabalhadores norte-americanos não conseguem ou não têm interesse em aprenderem uma nova profissão. Assim, caem no caso do desemprego estrutural, que mesmo um boom econômico não consegue resolver.

Até recentemente, a maioria dos blue collar workers dos Estados Unidos tinham um padrão de vida razoável. Era possível viver confortavelmente mesmo sem ter feito um curso superior. Isso mudou nos últimos anos. Pessoas com esse tipo de perfil – que fazem trabalhos manuais e nunca fizeram curso superior – tiveram perda de emprego e redução de salários. Além disso, muitos foram substituídos por imigrantes que chegam aos Estados Unidos, muitos do quais são mais bem treinados e qualificados do que o típico blue collar worker.

Muitos blue collar workers não culpam a tecnologia e as mudanças econômicas por sua decadência econômica. Em vez disso, culpam as elites, os políticos, os estrangeiros, a mídia, etc. A Internet a mídia social permite que tais pessoas compartilhem suas frustrações e ressentimentos com milhões de pessoas. Alguns apelam ao preconceito e racismo.

O início da ascensão de Trump ocorreu no discurso que deu em que ofendeu os mexicanos, caracterizando-os de “criminosos, traficantes de drogas e estupradores”. Com isso, abriu as portas do Partido Republicano para milhões de pessoas que talvez não eram republicanos tradicionais, mas que concordavam com Trump que os mexicanos eram indesejáveis. Em breve, racistas, antissemitas e xenófobos abraçaram a campanha de Donald Trump porque acreditaram que ele pensava como eles.

Segundo Milo Yannopoulus, uma das principais vozes do Alt Right, essa ideologia constitui um movimento de contracultura que une conservadores descontentes.

Uma das marcas do Alt Right é o saudosismo. Para os proponentes dessa ideologia, os Estados Unidos eram um país extraordinário, mas que foi corrompido pelas elites e por imigrantes. Acreditam que basta eleger a pessoa certa – alguém como o Donald Trump, por exemplo – para que o país volte a ser o que é. Isso constitui uma visão extremamente obtusa. Mesmo medidas econômicas protecionistas não frearão o progresso tecnológico e a globalização.

Muitas pessoas enxergam o Alt Right como um movimento extremamente conservador. Contudo, na realidade abraça várias políticas que estão tradicionalmente associadas à esquerda, como o protecionismo e medidas que supostamente previnem o terrorismo, mas que são contrárias à Constituição dos Estados Unidos.

A Direita Na Europa

Não é apenas nos Estados Unidos que movimentos de extrema direita crescem e se espalham. Uma rede de blogueiros e ativistas de extrema direita surge nas redes sociais britânicas como uma voz para nacionalistas, racistas, xenófobos e opositores do multiculturalismo.

O maior movimento antirracista da Grã-Bretanha, o Hope not Hate (Esperança Não Ódio) declarou que há novas forças surgindo que podem aumentar o apoio ao Alt Right e alcançar um enorme público internacional.

Em 2016, foi evidente o crescimento da rede de extrema-direita global. O Brexit é um sintoma disso. Houve um notável ressurgimento populista por toda a Europa e os Estados Unidos. Alguns grupos de extrema direita propagam opiniões da Alt Right e idealizam ataques à democracia liberal.

A extrema-direita na Europa está se inserindo de forma significativa na política: recebe mais votos que no passado e conta com uma presença maior nos governos e parlamentos europeus. A extrema-direita se posiciona contra a União Europeia, os imigrantes e os mulçumanos e opõe à abertura de fronteiras para refugiados. É um discurso que foca no medo.

O crescimento da Frente Nacional na França, partido de Marie Le Pen, exemplifica o fortalecimento da extrema-direita europeia. Isso se evidenciou nas eleições locais, em 2015, em que candidatos da Frente Nacional chegaram em primeiro lugar em seis das 13 regiões da França. Nas eleições presidenciais de 2017, Marie Le Pen, candidata xenofóbica, chegou ao segundo turno das eleições contra Emmanuel Macron. Ela prometeu que se fosse eleita, a França se retiraria da União Europeia. Le Pen também prometeu que se vencesse as eleições, proibiria imigrantes de adentrarem a França e expulsaria do país todos os imigrantes ilegais. Apesar de ter sido derrotada por Emmanuel Macron, Le Pen obteve cerca de 35% dos votos no segundo turno. A vitória de Macron foi vista como a vitória do moderado, do centrista. Contudo, Macron está longe de representar a ordem estabelecida. Eleito aos 39 anos, é novo na política e, portanto, não representa a velha política francesa. Os franceses votaram por uma mudança que seja de caráter centrista, não extremista ou preconceituosa.


Marie Le Pen. Foto: Newsweek

Na Alemanha, evidencia-se também uma tendência em direção à extrema-direita do país. Criado em 2013, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) é um partido populista de extrema-direita que se posiciona contra muçulmanos e imigrantes. O slogan do partido é: “O Islã não é parte da Alemanha”. No ano de 2016, 10 dos 16 parlamentos estaduais do país continham membros do AfD. Os líderes do partido, Frauke Petry e Jörg Meuthen, foram duramente criticados por terem declarado que a Alemanha não mais precisava expiar pelos crimes e atrocidades cometidos pelo regime nazista.

Na Holanda, a extrema-direita ganha força por meio do partido Jobbik (Movimento por uma Hungria Melhor). O Jobbik é um partido anti-imigração cujo discurso é racista e antissemita. Nas eleições parlamentares de 2016, tornou-se o partido com a segunda maior presença no Parlamento holandês.

A mesma tendência – o crescimento da extrema-direita – se manifesta em diversos outros países europeus, como Hungria, Áustria, Itália, Bélgica, Suécia, Grécia, Eslováquia e Bulgária.