Aula 3: Escrevendo uma narrativa

Narrar é montar uma história com episódios sequenciados, de tal modo encadeados, que formem um todo coeso. A narrativa pode ser uma crônica, um conto, uma novela, um romance. As narrativas escolares são sempre um início para uns poucos que no futuro serão cronistas, romancistas, contistas... Para você avaliar o que estamos dizendo, leia o texto de Carlos Drummond de Andrade:

"Nasci numa tarde de julho, na pequena cidade onde havia uma cadeia, uma igreja e uma escola bem próximas umas das outras e que se chamava Turmalinas. A cadeia era velha, descascada na parede dos fundos. Deus sabe como os presos lá dentro viviam e comiam, mas exercia sobre nós uma fascinação inelutável (era o lugar onde se fabricavam gaiolas, vassouras, flores de papel, bonecos de pau). A igreja também era velha, porém não tinha o mesmo prestígio. E a escola, nova de quatro ou cinco anos, era o lugar menos estimado de todos. Foi aí que nasci:

Nasci na sala do 3º ano, sendo a professora D. Emerenciana Barbosa, que Deus a tenha. Até então, era analfabeto e despretensioso. Lembro-me: nesse dia de julho, o sol que descia da serra era bravo e parado. A aula era de Geografia, e a professora traçava no quadro-negro nomes de países distantes. As cidades vinham surgindo na ponta dos nomes, e Paris era uma torre ao lado de uma ponte e  um rio. A Inglaterra não se enxergava bem no nevoeiro, um esquimó, um condor surgiam misteriosamente, trazendo países inteiros. Então nasci. De repente nasci, isto é, senti necessidade de escrever. Nunca pensara no que podia surgir do papel e do lápis, a não ser bonecos sem pescoço, com cinco riscos representando as mãos. Nesse momento, porém, minha mão avançou para a carteira à procura de um objeto, achou-o, apertou-o irresistivelmente, escreveu alguma coisa parecida com a narração de uma viagem de Turmalinas ao Polo Norte.

É, talvez, a mais curta narração no gênero. Dez linhas, inclusive o naufrágio e a visita ao vulcão. Eu escrevia com o rosto ardendo, e a mão veloz tropeçando sobre complicações ortográficas, mas passava adiante. Isso durou talvez um quarto de hora, e valeu-me a interpelação de D. Emerenciana:

- Juquita, que você está fazendo?

O rosto ficou mais quente, não respondi. Ela insistiu.

- Me dá esse papel aí...me dá aqui.

Eu relutava, mas seus óculos eram imperiosos. Sucumbido, levantei-me, o braço duro segurando a ponta do papel, a classe toda olhava para mim, gozando já o espetáculo da humilhação. D. Emerenciana passou os óculos pelo papel e, com assombro para mim, declarou à classe:

- Vocês estão rindo do Juquita. Não façam isso. Ele fez uma descrição muito chique, mostrou que está aproveitando bem as aulas.

Uma pausa e rematou:

- Continue, Juquita, Você ainda será um grande escritor.

A maioria, na sala, não avaliava o que fosse um grande escritor. Eu próprio não avaliava. Mas sabia que no Rio de Janeiro havia um homem pequenino, de cabeça enorme, que fazia discursos muito compridos e era inteligentíssimo. Devia ser, com certeza, um grande escritor, e em meus nove anos achei que a professora me comparava a Rui Barbosa."

ANDRADE, Carlos Drummond de, Contos de Aprendiz. 4ª ed. do Autor.

Estas aulas não pretendem formar escritores. Escritores não se formam: nascem e evoluem. A razão deste trabalho é torná-lo apto a produzir textos simples, solicitados nas escolas, nos exames vestibulares ou nos concursos públicos. Dentro desta ótica, todo cidadão tem o direito e o dever de produzir seus textos escritos.

Na sequência, algumas noções para identificação de vários tipos de textos em prosa.

O conto

Uma característica importante desse tipo de texto em prosa é seu caráter circunscrito, ou seja, não prevê, necessariamente, a possibilidade de desdobramento, ampliação. Seu conteúdo é unicelular e isto quer dizer que a narrativa nasce, desenvolve-se e encerra-se baseada num único evento. Nisto difere do romance: obra que relaciona, coordena ou subordina diversos núcleos de fábula.

Na verdade, embora o conto seja narrativa curta, não existe um parâmetro para sua extensão. Há em nossa literatura contistas com grande poder de síntese, como Dalton Trevisan, mostra no exemplo abaixo:

Paz e guerra

"Os porcos de João arrasando as plantações, ele sai com a foice atrás de quem reclama. Cachaceiro, não é do trabalho e vive às custas da mulher.

Sábado, um nadinha embriagado, dirige-se à casa do compadre André, que se mostra arredio e nega-lhe o adeus.

Sem descer do cavalo, bateu palmas, a vizinha surgiu à janela:

- Que você quer?      

- Fazer as pazes. A senhora me rogou praga.

- O diabo que o carregue.

Só não morreu porque gritou. André acudiu de espingarda na mão. A dona bradando praga e nome feio. João agarrou-a pelo braço. Ela gritava e oferecia o rosto para que João batesse. Queria bem à vizinha, não foi bobo de bater.

- Na lua cheia o cachorro late, abro a janela. Esse bandido roubando milho. Última vez levou três galinhas.

- O vizinho quer ver?

João abriu a camisa, retirou a correntinha de cobre, exibiu o crucifixo:

- Juro por este crucificado. Se não for intriga, minha alma é do diabo!

Pigarreou, cuspiu e apontou para a dona:

- Agora é a vez dela jurar.

A vizinha não jurou, eis que um tiro atingiu o cavalo no pescoço. Corcoveou o tordilho, João levou o maior susto. Presto sacou da pistola, deu no gatilho para assustar o outro. Apontou a esmo, não é que a comadre gemeu:

- Ai minha perna. Acuda, estou cega.

Segunda vez explodiu a espingarda. Com um grito João perdeu-se a galope em nuvem de pó."

TREVISAN. Dalton, O pássaro de cinco asas. 2a. ed. Revista. Civilização Brasileira. 1975.

É de se notar que o texto dado envolve um só episódio, circunscrito a seu espaço, sem dar espaço a desdobramentos. A célula trágica basta-se a si mesma. E o contista reúne toda a dramaticidade da fábula em umas poucas linhas. Um belo exemplo de conto, muito bem inserido no que preceitua o professor Massaud Moisés em sua apreciada obra A Criação Literária - Prosa, quando oferece um proveitoso gráfico sobre a estrutura do conto:

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