Orfismo

O primeiro momento do Modernismo português foi representado pelo Orfismo, ou Geração Orfeu, e apresentou as seguintes características:

  • influências das vanguardas europeias: os “ismos”;
  • tendências futuristas;
  • antipassadismo, antitradicionalismo;
  • antiburguesismo, antiprovincianismo;
  • propósito de escandalizar o burguês;
  • agitações intelectuais;
  • irreverência, iconoclastia;
  • núcleo fundamental: Revista ORPHEU;
  • principais nomes: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.

Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa (1890) e morreu em Paris em 1916. Filho único de um engenheiro, faz os estudos secundários em Lisboa e segue para Paris, a fim de cursar Direito, em 1912, quando publica um livro de contos, Princípio.

Volta a Lisboa em 1914, em férias, e junta-se a Fernando Pessoa e outros intelectuais, com os quais lança, em 1915, a revista Orpheu; de volta a Paris, passa por sérios problemas financeiros, por causa da falência de seu pai, que lhe corta a mesada que então o mantinha. Mergulhado em profunda crise existencial, suicida-se com vinte e seis anos incompletos.

Entre suas principais obras, estão:

  • contos: Princípios    
    Céu em Fogo
  • narrativa: A Confissão de Lúcio
  • cartas: Cartas a Fernando Pessoa

“Poeta inclusive na prosa”, Mário de Sá-Carneiro fez de sua obra um registro vivo e pessoal de sua vida. Hipersensível, demonstrava estranheza diante da vida e procedeu à sondagem de sua alma, o que o levou à introspecção e ao isolamento.

O sentimento de depressão e derrotismo contribuiria para a desintegração da sua personalidade e para o desmoronamento do “eu”. Sua obra revela, ainda, um forte egocentrismo, narcisismo e megalomania.

Merecem destaque, entre outros, os poemas “Dispersão”, “Quase” e para os contos “O Fixador de Instantes” e “Mistério”, além da narrativa A Confissão de Lúcio.

Textos escolhidos:

Texto I
Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).
O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.
A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.
Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

(Poesias)

Texto II

Quase

Um pouco mais de sol — eu era brasa,
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim — quase a expansão...
Mas na minh’alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim...
— Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
....................................................................
....................................................................

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

(Poesias)

Sumário

- O Orfismo
- Mário de Sá-Carneiro
- Fernando Pessoa
i. Fernando Pessoa - Ele-Mesmo
ii. A Poesia Heterônima
- Os heterônimos principais de Fernando Pessoa
i. Fernando Pessoa - Alberto Caeiro
ii. Fernando Pessoa - Ricardo Reis
iii. Fernando Pessoa - Álvaro de Campos
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