Orfismo

O Orfismo, que compreende o período entre 1915 e 1927, foi a primeira geração do Modernismo em Portugal. O nome Orfismo advém da revista Orfeu, publicada em março de 1915, em Lisboa.

Orfismo, ou Geração Orfeu, apresentou as seguintes características:

  • influências das vanguardas europeias: os “ismos”;
  • tendências futuristas;
  • antipassadismo, antitradicionalismo;
  • antiburguesismo, antiprovincianismo;
  • propósito de escandalizar o burguês;
  • agitações intelectuais;
  • irreverência, iconoclastia;
  • núcleo fundamental: Revista ORPHEU;
  • principais nomes: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.

Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa (1890) e morreu em Paris em 1916. Filho único de um engenheiro, faz os estudos secundários em Lisboa e segue para Paris, a fim de cursar Direito, em 1912, quando publica um livro de contos, Princípio.

Volta a Lisboa em 1914, em férias, e junta-se a Fernando Pessoa e outros intelectuais, com os quais lança, em 1915, a revista Orpheu; de volta a Paris, passa por sérios problemas financeiros, por causa da falência de seu pai, que lhe corta a mesada que então o mantinha. Mergulhado em profunda crise existencial, suicida-se com vinte e seis anos incompletos.

Entre suas principais obras, estão:

  • contos: Princípios    
    Céu em Fogo
  • narrativa: A Confissão de Lúcio
  • cartas: Cartas a Fernando Pessoa

“Poeta inclusive na prosa”, Mário de Sá-Carneiro fez de sua obra um registro vivo e pessoal de sua vida. Hipersensível, demonstrava estranheza diante da vida e procedeu à sondagem de sua alma, o que o levou à introspecção e ao isolamento.

O sentimento de depressão e derrotismo contribuiria para a desintegração da sua personalidade e para o desmoronamento do “eu”. Sua obra revela, ainda, um forte egocentrismo, narcisismo e megalomania.

Merecem destaque, entre outros, os poemas “Dispersão”, “Quase” e para os contos “O Fixador de Instantes” e “Mistério”, além da narrativa A Confissão de Lúcio.

Textos escolhidos:

Texto I
Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).
O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.
A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.
Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

(Poesias)

Texto II

Quase

Um pouco mais de sol — eu era brasa,
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim — quase a expansão...
Mas na minh’alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim...
— Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
....................................................................
....................................................................

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

(Poesias)

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa (1888) e lá morreu em 1935. Filho único, perde o pai aos cinco anos de idade; aos sete, sua mãe contrai segundas núpcias com o Cônsul português em Durban, África do Sul, e a família muda-se para lá. Faz o curso primário e secundário com excepcional brilho, recebendo, inclusive, um prêmio de redação em Inglês.

Em 1905, volta a Lisboa e matricula-se na Faculdade de Letras, onde cursa Filosofia por algum tempo; passa a viver como correspondente comercial em línguas estrangeiras, função que desempenharia até o fim da vida.

Em 1915, juntamente com Mário de Sá-Carneiro e outros intelectuais, lança a revista Orpheu, responsável pela introdução do Modernismo em Portugal; após a extinção da revista, recolhe-se a uma vida solitária e dedicada à produção de sua obra.

Publica alguns fragmentos de obra em órgãos como Centauro, Athena, Contemporânea e Presença; em 1934, candidata-se ao prêmio de poesia, do Secretariado de Propaganda Nacional de Lisboa, com Mensagem — único livro em português publicado em vida —, obtendo apenas o segundo lugar.

Corroído pelo álcool, morre, vitimado por uma cirrose hepática, aos quarenta e sete anos, a trinta de novembro de 1935.

Dotado de uma genialidade inata, Fernando pessoa definiu-se a si mesmo como “histeroneurastênico”. Sua obra, iniciadora do chamado “Ciclo Pessoano”, abriu novos horizontes poéticos e introduziu uma nova linguagem que combinava a reflexão das inquietações humanas do século e a assimilação do passado lírico português.

A sensação de relativismo das coisas e dos valores levou Fernando Pessoa à impressão de desintegração total e à ânsia pelo Absoluto, em busca da superação da inconstância relativa de tudo.

A possibilidade de que a soma de várias visões com verdades relativas pudesse proporcionar-lhe uma imagem aproximada do Universo como um Todo conduziu-o a um incontrolável desdobramento interior, ao fenômeno dos heterônimos.

Os heterônimos representam poetas que possuem identidade, vida e sentido autônomos dentro do poeta:

“ser um e vários ao mesmo tempo” — era sua aspiração pelo Universal, sua esperança de unidade. Fernando Pessoa tentou explicar — a si e aos outros — inúmeras vezes, o fenômeno dos heterônimos e o imenso vazio que sentia por concluir que ele, na verdade, não era — ou era como se não fosse —, ou era apenas um intervalo entre os outros “eus”:
“... suma de não eus sintetizados num eu postiço... “
ou:
“Se ao menos eu endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase, Este poder ser que...Isto.Um internado no manicômio é, ao menos, alguém,Eu estou internado num manicômio sem manicômio...”

Em outro texto, percebe-se a tentativa do poeta de atingir o absoluto, o todo, através da multiplicação de sua personalidade:

“Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.”

Em seus escritos relativos ao Livro do Desassossego e às Ficções do Interlúdio, Pessoa afirma:

“Nestes desdobramentos de personalidade ou, antes, invenções de personalidades diferentes, há dois graus ou tipos, que estarão revelados ao leitor, se os seguiu, por características distintas. No primeiro grau, a personalidade distingue-se por ideias e sentimentos próprios, distintos dos meus, assim como, em mais baixo nível desse grau, se distingue por ideias, postas em raciocínio ou argumento, que não são minhas, ou, se o são, o não conheço.” [...]
“... embora eu publique o Livro do Desassossego como sendo de um tal Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, o não incluí todavia nestas Ficções do Interlúdio.
É que Bernardo Soares, distinguindo-se de mim pelo estilo de expor. Dou a personalidade diferente através do estilo que me é natural, não havendo mais que a distinção do tom especial que a própria especialidade das emoções necessariamente projeta.
Nos autores das Ficções do Interlúdio não só as ideias e os sentimentos que se distinguem dos meus: a mesma técnica da composição, o mesmo estilo, diferente do meu. Aí cada personagem é criada integralmente diferente, e não apenas diferentemente pensada. Por isso nas Ficções do Interlúdio predomina o verso.
Em prosa é mais difícil de se outrar.”

Fernando Pessoa - Ele-Mesmo

A poesia feita por Fernando Pessoa como Ele-Mesmo é também chamada de poesia ortônima, pois corresponde ao que seria seu nome correto, verdadeiro. Nesta poesia, podem-se observar as seguintes características:

  • Inteligência - severidade indagadora e crítica;
  • “emoção pensada” - “O que em mim sente ’stá pensando”;
  • Poesia - expressão dos anseios da alma;
  • Nostalgia - "bem perdido que não se sabe qual foi” - versos “à beira - mágoa”;saudosismo da infância, da vida familiar, provinciana;
  • Versos marcados por expressão musical;
  • Reaproveitamento dos motivos da lírica portuguesa desde a Idade Média;
  • Nacionalismo místico - sebastianismo racional;
  • Autor de Mensagem - “nacionalismo, consciência da tradição histórica, senso do coletivo, desejo de participação”.

Textos escolhidos:

Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que ele escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
                Poesias de Fernando Pessoa

Texto II
Natal...na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
                Poesias de Fernando Pessoa

Texto III
Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
se ainda há vida, ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
a mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,
com que a chama do esforço se remoça,
e outra vez conquistemos a distância —
do mar ou outra, mas que seja nossa!
                Mensagem

Características do poemas (Fernando Pessoa Ele-Mesmo):

  • inteligência - severidade indagadora e crítica;
  • “emoção pensada” - “O que em mim sente ’stá pensando”;
  • poesia - expressão dos anseios da alma;
  • nostalgia - “bem perdido que não se sabe qual foi” - versos “à beira - mágoa”;
  • saudosismo da infância, da vida familiar, provinciana;
  • versos marcados por expressão musical;
  • reaproveitamento dos motivos da lírica portuguesa desde a Idade Média;
  • nacionalismo místico - sebastianismo racional;
  • Mensagem - “nacionalismo, consciência da tradição histórica, senso do coletivo, desejo de participação”.

Textos escolhidos:

Texto I
PALAVRAS DE PÓRTICO

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”.
Quero para mim o espírito dessa frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa raça.
                (Fernando Pessoa, nota solta, não assinada)

Texto II
“Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez, numa seleta, o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. (...) E fui lendo até o fim, confuso; depois rompi em lágrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar. Aquele movimento hierático (sagrado, majestoso) da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras em que os sons são cores ideais — tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. (...) Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.
                (Fernando Pessoa, em carta a João Gaspar Simões)

Texto III
Natal...na província neva.

Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
‘Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
                (Poesias de Fernando Pessoa)

Texto IV
Sol nulo dos dias vãos

Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!
Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!
Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!
                (Poesias de Fernando Pessoa)

Texto V
Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que ele escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
                (Poesias de Fernando Pessoa)

Texto VI
Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
se ainda há vida, ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
a mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,
com que a chama do esforço se remoça,
e outra vez conquistemos a distância —
do mar ou outra, mas que seja nossa!
                (Mensagem)

A Poesia Heterônima

Alguns textos do poeta relativamente ao fenômeno dos heterônimos:

Como escrevo eu em nome destes três? Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstrata, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterônimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterônimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afetividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de tênue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Ceiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer ‘eu próprio’ em vez de ‘eu mesmo’ etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. ...)
                (Fernando Pessoa em carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de janeiro de 1935)

***
“Se ao menos eu endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...
Isto.
Um internado no manicômio é, ao menos, alguém,
Eu estou internado num manicômio sem manicômio...”
                (Obra poética)

***
“Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
                (Obra poética)

***
“Nestes desdobramentos de personalidade ou, antes, invenções de personalidades diferentes, há dois graus ou tipos, que estarão revelados ao leitor, se os seguiu, por características distintas. No primeiro grau, a personalidade distingue-se por ideias e sentimentos próprios, distintos dos meus, assim como, em mais baixo nível desse grau, se distingue por ideias, postas em raciocínio ou argumento, que não são minhas, ou, se o são, o não conheço.”(...)
... embora eu publique o Livro do Desassossego como sendo de um tal Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, o não incluí todavia nestas Ficções do Interlúdio. É que Bernardo Soares, distinguindo-se de mim pelo estilo de expor. Dou a personalidade diferente através do estilo que me é natural, não havendo mais que a distinção do tom especial que a própria especialidade das emoções necessariamente projeta.
Nos autores das Ficções do Interlúdio não só as ideias e os sentimentos que se distinguem dos meus: a mesma técnica da composição, o mesmo estilo, diferente do meu. Aí cada personagem é criada integralmente diferente, e não apenas diferentemente pensada. Por isso nas Ficções do Interlúdio predomina o verso. Em prosa é mais difícil de se outrar.”
                (Escritos de Fernando Pessoa relativos ao Livro do Desassossego e às Ficções do Interlúdio)

***
“Quem sou, que assim me caminhei sem eu,
Quem são, que assim me deram aos bocados
À reunião em que acordo e não sou eu?”
                (Poesias de Fernando Pessoa)

Os heterônimos principais de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa - Alberto Caeiro

Alberto Caeiro, um dos principais heterônimos de Fernando Pessoa, teve sua "vida" dentro do poeta assim registrada:

  • Nasceu em Lisboa (1889) e morreu tuberculoso, em 1915; órfão de pai e mãe, só recebeu instrução primária;
  • Órfão de pai e mãe, só recebeu instrução primária;
  • Vive numa aldeia, com uma tia;
  • É um poeta de contato direto com a natureza, bucólico;
  • Faz o registro direto das sensações, sem a mediação do pensamento - rejeita a metafísica: "Há metafísica bastante em não pensar em nada";
  • É dotado de uma sabedoria natural e considerado mestre dos demais: Fernando Pessoa Ele-Mesmo e os outros heterônimos principais, Ricardo Reis e Álvaro de Campos;
  • É conciliado com o mundo e consigo mesmo; seu ideal de vida é simples -"Sei a verdade e sou feliz";
  • Só acredita o que pode apreender através dos seus sentidos: "o essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar";
  • Usa versos simples, diretos, naturais, em linguagem fácil, acessível, coloquial;
  • Obra:
    • Poemas;
    • Destaque para o poema "O Guardador de Rebanhos".

Textos escolhidos:

Texto I
 "Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.

Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada."
                (Poemas de Alberto Caeiro)

Texto II
O mistério das coisas, onde está ele?

Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que todos os sonhos de todos os poetas
E o pensamento de todos os filósofos,Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.
                (Poemas de Alberto Caeiro)

Texto III
Bendito seja o mesmo sol de outras terras

Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu.
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural -- mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral...
                (Poemas de Alberto Caeiro)

Fernando Pessoa - Ricardo Reis

Outro dos principais heterônimos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis teve sua "vida" dentro do poeta assim registrada:

  • Nasceu no Porto, em 1887; recebeu formação em escola de jesuítas e estudou Medicina;
  • Monarquista, exilou-se voluntariamente no Brasil, por discordar da Proclamação da República Portuguesa;
  • Profundo admirador da cultura clássica, estudou grego, latim e mitologia;
  • Sofreu forte influência do poeta latino Horácio, principalmente quanto à ideia do carpe diem (aproveite o dia), que assimilaria como um sentido de transitoriedade da vida e o levaria ao estoicismo, ao distanciamento e à impassibilidade em relação à vida;
  • Mentalidade clássica - racionalismo pagão, alusões à mitologia;
  • Forma humanística de ver o mundo;
  • Disciplina severa - estoicismo, controle dos instintos, da emoção;
  • Obra: Odes.

Textos escolhidos:

Texto I
"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos 
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses."
                Odes de Ricardo Reis

Texto II
Tão cedo passa tudo quanto passa!

Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.
                Odes de Ricardo Reis

Texto III
Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
                Odes de Ricardo Reis

Fernando Pessoa - Álvaro de Campos

Outro dos principais heterônimos de Fernando Pessoa, teve sua "vida" dentro do poeta assim registrada:

  • Nasceu em Tavira, extremo sul de Portugal, em 1890;
  • Estudou Engenharia Naval na Escócia, mas não exerceu a profissão porque não suportava o confinamento dos escritórios;
  • Poeta futurista, sofreu forte influência do Futurismo de Marinetti - sua poesia mostra a incorporação da velocidade, da eletricidade;
  • É considerado como um "poeta século XX", pelo amor à civilização e ao progresso e pela sensibilidade estética voltada para o presente e o futuro, pouco para o passado;
  • Moderno, radical, neurótico, sua poesia tem um tom de revolta, desespero; inconciliado com o mundo e consigo mesmo: "Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo".
  • Sensação de inconformismo em relação ao absurdo da vida e à inexorabilidade do tempo - "Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...";
  • Observação crítica do mundo e de si mesmo;
  • Inquietação metafísica: "Sempre o impossível tão estúpido como o real,...";
  • Autorretratação, sadomasoquismo: "Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,...";
  • Tom irreverente, ironia cáustica, muitas vezes amarga;
  • Prosa disposta em versos;
  • Versos desencadeados, assimétricos, com excesso de pontuação;
  • obra: Poesias;
    • Destaque para os poemas: "Lisbon Revisited" (1923), "Lisbon Revisited" (1926), "Tabacaria", "Aniversário", "Poema em Linha Reta", "Ode Triunfal", "Ode Marítima".

Textos escolhidos:

Texto I

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, 
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Sumário

- O Orfismo
- Mário de Sá-Carneiro
- Fernando Pessoa
i. Fernando Pessoa - Ele-Mesmo
ii. A Poesia Heterônima
- Os heterônimos principais de Fernando Pessoa
i. Fernando Pessoa - Alberto Caeiro
ii. Fernando Pessoa - Ricardo Reis
iii. Fernando Pessoa - Álvaro de Campos
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