O império de Carlos Magno

O império de Carlos Magno

O Império de Carlos Magno, também denominado Império Carolíngio, constitui o ápice do Reino Franco, que ocupava a região central da Europa. Carlos Magno, ou Carlos I, o Grande, foi um imperador e conquistador medieval. Grande defensor dos dogmas católicos, ele foi coroado Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, em 800 pelo Papa Leão III. O Império de Carlos Magno é considerado a primeira fase da história do Sacro Império Romano-Germânico, que durou até 1806.

Os francos

Dos reinos bárbaros que se estabeleceram na Europa Ocidental e Central, o dos Francos foi o que atingiu maior força política.

Os francos sálios e os francos ripuários estabeleceram-se na Gália, na condição de aliados do Império Romano do Ocidente, sob a chefia de Meroveu.

Clóvis, que era neto de Meroveu, foi o responsável pela unificação dos francos, dando origem, desta forma, ao Reino Franco. Clóvis também foi o responsável pela expansão dos domínios dos francos:  em 496, venceu os alamanos na Batalha de Tolbiac, oportunidade na qual se converteu ao Cristianismo, tendo sido batizado na Catedral de Reims. Sua mulher, Clotilde, exerceu profunda influência na sua conversão. Segundo o costume dos francos, a religião do chefe era a religião dos chefiados, logo, a conversão de Clóvis significou a cristianização de todo o povo franco.

Reino de Clóvis

Os francos, comandados por Clóvis, conquistaram também o Reino Borgúndio e algumas terras dos visigodos e desta forma, estenderam seus domínios até os Pireneus.

Após sua conversão, Clóvis estreitou o seu relacionamento com a Igreja e, inclusive, transformou os bispados em unidades administrativas do seu Reino, sendo que cada unidade era entregue à administração de um conde (a palavra conde vem de "comes" e quer dizer guerreiro).

Com o tempo, as unidades administrativas do Reino Franco passaram a ser chamadas de condados.

Segundo o costume franco, quando da morte de seu chefe, os domínios deste eram partilhados entres seus filhos. Face a esse costume, com a morte de Clóvis, o Reino foi dividido entre seus filhos:

  • Thierry ficou com a região leste, com capital em Reims.
  • Childeberto ficou com a região Oeste, com capital em Paris.
  • Clodomiro ficou com a região Central, com capital em Orleans.
  • Clotário ficou com a região Norte, com capital em Soissons.

Durante o reinado dos filhos de Clóvis, os domínios francos foram alargados através da conquista da Baviera, da Turíngia e de Westfália, sendo que esses territórios ficavam na Germânia.

Clotário, que ficara com o Reino sediado em Soissons, foi o responsável pela reunificação do Reino Franco, mas após sua morte, uma nova divisão aconteceu formando o Reino da Austrásia, com capital em Reims, o Reino da Neustria, com capital em Paris e o Reino da Borgonha, com capital em Orleans.

Apoiado nos proprietários de terras, Clotário II conseguiu reunificar o Reino Franco, vencendo as resistências da Neustria e da Borgonha.

Para obter o apoio da nobreza fundiária, Clotário II promulgou o édito de Clotário, em 614, segundo o qual os condes passariam a ser escolhidos entre os proprietários de terras do condado. Verifique-se que o édito de Clotário significa um fortalecimento político da nobreza.

A nobreza passou a ter, junto ao Rei, um representante que recebia o título de majordomus, cuja importância cresceu incessantemente. Podemos mesmo afirmar que, após o reinado de Dagoberto (629-639), os reais detentores do poder no Reino Franco eram os majordomus, que esvaziaram as funções dos reis, levando-os a viver ociosamente, por isso os últimos reis da Dinastia Merovíngia eram chamados de "reis indolentes".

A reunificação do Reino Franco não significara a extinção dos três reinos que subsistiam e apenas reconheciam a autoridade superior de um Rei dos francos. Nessa medida, podemos entender que, em cada um dos três reinos, os majordomus constituíram verdadeiras dinastias.

Em 679, Pepino de Heristal, majordomus do Reino da Austrásia, submeteu os majordomus da Neustria e da Borgonha, estabelecendo uma efetiva unificação do Reino Franco. Embora a Aquitânia, a Baviera e a Turíngia preservassem uma relativa independência, essa só foi cassada por Carlos Martel, filho de Pepino Heristal, portanto, majordomus, devido ao seu grande prestígio após ter vencido os muçulmanos na Batalha de Poitiers, em 732.

Antes de morrer, Carlos Martel dividiu seus domínios entre seus dois filhos, Carlomano e Pepino, o Breve. Como Carlomano foi viver num mosteiro, Pepino, o Breve, acabou sendo o único herdeiro de Carlos Martel.

Em 743, Childerico III, o último rei merovíngio, foi coroado rei dos francos. Pepino, o Breve, apoiado pelo Papa Zacarias, internou Childerico III em um mosteiro e tornou-se rei dos francos, em 751. Iniciava-se, dessa forma, a Dinastia Carolíngia, que governaria o Reino Franco de 751 a 987.

Entre 754 e 756, Pepino, o Breve, desenvolveu uma campanha militar na Itália, a pedido do Papa Estevão II, contra os lombardos que ameaçavam Roma. Pepino tomou parte das terras dos lombardos e doou-as à Igreja, com o nome de Patrimônio de São Pedro, que após o recebimento deste, passou a ter uma fonte efetiva de poder temporal.

Inicialmente, o reino de Pepino, o Breve, foi dividido entre seus dois filhos: Carlomano e Carlos Magno, mas com a morte do primeiro, em 771, Carlos Magno passou a governar sozinho.

Carlos Magno desenvolveu uma política imperialista, tendo conquistado o Reino Lombardo (o que restara dele após as guerras de Pepino, o Breve), os domínios saxões na Germânia, a Baviera e os domínios ávaros (um povo germânico), também na Germânia. No Ocidente, Carlos Magno envolveu-se em uma luta com os bascos, na qual morreu seu sobrinho Rolando e os francos foram derrotados. Ainda na Península Ibérica, Carlos Magno enfrentou os muçulmanos e fixou, ao sul dos Pireneus, as "marcas" (fronteiras) da Espanha após haver anexado Barcelona e as ilhas Baleares.


Império de Carlos Magno

Em função dessas conquistas, Carlos Magno tornou-se, de longe, o mais poderoso dentre os soberanos europeus. Tal realidade fez com que o Papa Leão III, em nome da Igreja Cristã de Roma, procurasse a proteção do monarca franco para a Igreja. Esta proteção foi obtida, no ano de 800, através da coroação de Carlos Magno como Imperador do Ocidente. Era o restabelecimento do Império Romano do Ocidente. Em 812, Miguel I, Imperador Bizantino, reconheceu o restabelecimento do Império Romano do Ocidente, mediante o recebimento das regiões de Ístria e Dalmácia, que passaram a fazer parte do Império Bizantino.

Carlos Magno deu uma notável estrutura administrativa a seu Império, que foi dividido em cerca de duzentas unidades administrativas, cada uma confiada ao governo de um conde, que era auxiliado por um bispo. O Imperador reservou para si vastos domínios, a partir dos quais auferia as principais rendas do Estado (não havia distinção entre os bens pessoais do Imperador e os bens do Estado).

Todos os condes e homens livres do Império eram obrigados a prestar um Juramento de Fidelidade ao Imperador e deviam obedecer às Capitulares (nome dado às leis feitas por Carlos Magno). Os Missi Dominici, enviados especiais do Imperador, vagavam pelas terras do Império, fiscalizando a ação dos condes e a obediência das Capitulares. Carlos Magno era também chefe da Igreja no Império; era prerrogativa exclusiva sua a nomeação dos bispos e abades.

A partir de Carlos Magno, estabeleceu-se uma situação de segurança militar interna e externa no Império; tal fato possibilitou um relativo desenvolvimento comercial, através do aparecimento de numerosas feiras e mercados, mas o primordial da economia continuou sendo a exploração agrária, a unidade de produção básica continuou sendo a "villa".  O comércio que se desenvolveu tendeu a se concentrar no norte da Europa, uma vez que as relações comerciais mediterrâneas estavam bloqueadas pela presença muçulmana.

Durante o governo de Carlos Magno, verificamos um verdadeiro renascimento cultural que ficou conhecido pelo nome de Renascimento Carolíngio. Um dos aspectos básicos desse renascimento cultural foi a política da fundação de escolas determinadas pelo Imperador. Praticamente ao lado de cada mosteiro, foi estabelecida uma escola, que tinha por modelo a Escola Palatina, que funcionava agregada ao palácio imperial e na qual se ensinava gramática, retórica, dialética, aritmética, geometria e música. Todos os filhos de nobres eram obrigados a frequentar as escolas.

A grande importância do Renascimento Carolíngio está no fato de que foi um dos principais responsáveis pela transmissão da cultura greco-romana para os tempos futuros e, nesta medida, exerceu grande influência no desenvolvimento do Renascimento Cultural dos séculos XV e XVI.

Carlos Magno também estimulou bastante as artes, notadamente a arquitetura (foram construídas inúmeras igrejas em estilo bizantino), cuja principal realização foi a Igreja de São Vital em Ravena. A ourivesaria e a ilustração de manuscritos e breviários também conheceram uma significativa produção.

Com a morte de Carlos Magno, em 814, a coroa imperial passou para Luiz, o Piedoso, o qual era seu único herdeiro, governando até 840.

Luiz, o Piedoso, teve três filhos e por isso a sucessão tornou-se um assunto delicado. À medida que os domínios francos se constituíam em um Império, não deveria acontecer a partilha entre os herdeiros; logo, Lotário, o filho mais velho de Luiz, o Piedoso, deveria ser o novo imperador e senhor de todos os domínios francos. Entretanto, um costume germânico determinava que os domínios fossem divididos entre os filhos do soberano falecido; nesse costume apoiavam-se Carlos, o Calvo, e Luiz o Germânico que pleiteavam participar da sucessão. Essa disputa acabou por se transformar em uma verdadeira guerra: Carlos, o Calvo, e Luiz o Germânico, através do Juramento de Strasburgo, de 842, uniram-se contra Lotário.

A paz foi restabelecida com o Tratado de Verdun de 843; o Império foi dividido em três reinos: o da França Ocidental, que ficou para Carlos, o Calvo; o da França Oriental, que ficou para Luiz, o Germânico, e o da França Central, que ficou para Lotário, que também conservou o título de Imperador (título que doravante seria meramente honorífico).

Com a extinção da descendência de Lotário, em 870, a França Central foi dividida entre Carlos e Luiz, com exceção dos domínios italianos, que ficaram para os duques italianos.

Com Carlos, o Calvo, em 843, começa a história da França propriamente dita. Em 877, pela Capitular de Quirzy-sur-Oise, Carlos, o Calvo, estabeleceu a hereditariedade dos condados franceses, fato que contribuiu decisivamente para a descentralização do poder político na França e, consequentemente, corroborou o processo de formação do Feudalismo no território francês.

Na França Oriental, os herdeiros de Luiz, o Germânico, tiveram de se defrontar com as invasões normandas que devastaram o país, enfraquecendo o poder central e contribuindo, dessa forma, para a localização do poder político nas grandes propriedades agrárias. Esse processo também serviu para a formação do Feudalismo nos territórios a oeste do Reno. A pressão representada pela invasão dos normandos atingiu tal proporção que, em 911, Carlos, o Simples, rei carolíngio da França, cedeu aos normandos a região que viria a se constituir no Ducado da Normandia. Além dos normandos, as razzias muçulmanas e as invasões dos húngaros (também chamados de magiares) e dos eslavos comprometiam a segurança e a estabilidade dos reinos remanescentes do Império Carolíngio.

Com a extinção da Dinastia Carolíngia na França, após a morte de Luiz V, em 987, Roberto, o Forte, e alguns outros nobres franceses elegeram Hugo Capeto, conde de Paris, para Rei da França. Era o início da Dinastia dos Capetíngios.

Com a extinção da Dinastia Carolíngia na França Oriental, após a morte de Luiz, o Infante, que não deixou herdeiros, em 911, a nobreza (cujos principais representantes eram os duques da Saxônia, da Francônia, da Baviera e da Suábia) fundou uma monarquia eletiva chamada Reino Germânico, sendo que nessa monarquia os quatro duques acima mencionados eram os Grandes Eleitores, ou seja, eram os responsáveis pela eleição dos reis.