O FASCISMO ITALIANO

Causas da Revolução Fascista

a. Nacionalismo Frustrado

O sentimento nacionalista italiano vinha sendo contrariado havia muitos anos. Repetidas vezes, suas aspirações de poder e de império tinham-se chocado com rudes decepções. Em 1881, as esperanças de apossar-se da Tunísia foram subitamente desfeitas com a anexação desse país pela França. A tentativa de conquistar a Abissínia na década de 1890 terminara numa esmagadora derrota imposta por nativos bárbaros, na batalha de Ádua. O efeito de tais reveses foi despertar um sentimento de humilhação e vergonha, particularmente no espírito da geração mais jovem, e favorecer uma atitude de desprezo para com o regime político vigente. A culpa dos fracassos da Itália era atribuída menos às nações estrangeiras do que à própria classe governante do país. Os membros dessa classe eram apontados ao escárnio popular como velhos degenerados, cínicos, vacilantes, derrotistas e corruptos. Muito antes da Primeira Guerra Mundial já se falava em Revolução, da necessidade de uma depuração drástica que livrasse o país dos governantes incompetentes.

b. Os Efeitos Desmoralizadores e Humilhantes da Guerra

A instalação da ditadura fascista na Itália, porém, jamais teria sido exequível com os efeitos desmoralizadores e humilhantes da Primeira Guerra Mundial. A função principal dos exércitos italianos fora impedir que os austríacos se tornassem senhores da frente meridional, enquanto os ingleses, franceses e americanos tratavam de dominar a Alemanha nas linhas de batalha de Flandres. Para esse fim, teve a Itália de mobilizar mais de cinco milhões e meio de homens, dos quais perto de 700.000 foram mortos. O custo financeiro direto de sua participação na luta ultrapassou 15 bilhões de dólares. Tais sacrifícios, por certo, não foram maiores do que os dos ingleses e franceses, mas a Itália era um país pobre. Além disso, quando chegou a hora de dividir os despojos, depois de finda a luta, os italianos receberam menos do que esperavam.

Se bem que a Itália tivesse efetivamente recebido a maior parte dos territórios austríacos que lhe foram prometidos pelos tratados secretos, sustentavam não ser essa uma recompensa proporcional aos seus sacrifícios e à sua valiosa contribuição para a vitória da Entente. A princípio, os nacionalistas voltaram a sua ira contra Wilson, devido à "humilhação de Versalhes", mas ao cabo de pouco tempo retornaram ao antigo hábito de exprobrar os governantes da Itália. Esse renovamento do desprezo para com a velha geração governante, cujos componentes eram acusados como "imundos parasitas do melhor sangue da nação", muito contribuiu para desenvolver o espírito revolucionário.

c. A Oposição ao Bolchevismo

A mais grave consequência da guerra talvez tenha sido, pelo menos em relação à classe superior e à media, o desenvolvimento do radicalismo econômico. À medida que cresciam as privações e o caos, os socialistas abraçaram uma filosofia análoga ao bolchevismo. Em 1918, o partido decidiu ingressar na Internacional de Moscou. Nas eleições de novembro de 1919, conquistou cerca de um terço das cadeiras da Câmara de Deputados. No inverno seguinte, os operários socialistas assumiram o controle de cerca de cem fábricas e tentaram administrá-las em benefício do proletariado. O radicalismo alastrou-se também pelas zonas rurais, onde se organizaram as chamadas "ligas vermelhas" para dividir as grandes propriedades e forçar o proprietário agrário a reduzir as rendas. Em 1921, porém, tinha praticamente passado o perigo da bolchevização da Itália. O radicalismo revolucionário acalmou-se após a volta de uma delegação que fora à Rússia estudar as condições in loco e após o fracasso das tentativas dos operários para administrar as fábricas. Não obstante, as classes proprietárias tinham passado por um grande susto e estavam por isso dispostas a apoiar o desenvolvimento do fascismo, na esperança de salvar da confiscação pelo menos uma parte dos seus bens.

d. O Colapso do Regime Parlamentar

A causa imediata da revolução fascista foi o colapso do regime parlamentar. A paralisação dos negócios e a condição de quase anarquia que reinava em muitas partes do país tornavam praticamente impossível a arrecadação de uma receita adequada. Daí avultarem cada vez mais os déficits orçamentários. A essa dificuldade, juntava-se um impasse parlamentar. Nas eleições de 1921, quatro partidos diferentes obtiveram forte representação na Câmara dos Deputados, mas nenhum deles tinha maioria. Os dois maiores, o Partido Socialista e o Partido Popular (católico), andavam constantemente em rixa; nenhum dos dois queria apoiar um gabinete chefiado por um membro do outro. Em resultado disso, tornava-se quase impossível o funcionamento do governo. Raras vezes conseguia um ministério permanecer no poder o tempo suficiente para deixar algo realizado. Estava praticamente paralisada a máquina legislativa. Com o correr do tempo, foi aumentado o descontentamento causado pelas intermináveis contendas entre os partidos. Pelas alturas do outono de 1922, o parlamento já não tinha, por assim dizer, um único amigo em todo o país. Os jornais denunciavam não só a insanável situação parlamentar, mas todo o sistema de governo das maiorias. Isso não era novidade para a Itália, pois muita gente, nos anos anteriores à guerra, havia considerado o regime parlamentar como importação estrangeira. Não obstante, a propagação intensiva da ideia muito contribuiu para encorajar os adeptos militantes do governo de um só homem.

O Surgimento do Fascismo

A palavra fascismo tem origem dupla. Deriva em parte do latim fasces, o machado rodeado de um feixe de varas que simbolizava a autoridade do Estado romano; liga-se também à palavra italiana fascio, que significa grupo ou bando. Os fasci foram organizados desde outubro de 1914 como unidades de agitação, que visavam a impedir a Itália a dar sua adesão à causa da Entente. Eram compostos de idealistas jovens, futuristas, nacionalistas fanáticos, empregados da classe média entediados e de inadaptados de todos os tipos.


Benito Mussolini

Mussolini tornou-se o chefe do fascio de Milão. Depois que a Itália entrou na guerra, os grupos fascistas dedicaram-se a combater o derrotismo. Veio então o período do "esquerdismo", de 1918 a 1921. As atividades esquadristas compreendiam uma campanha de terrorismo contra todos os que fossem considerados inimigos do povo.

Os métodos consistiam em táticas brutais, como a de espancar a vítima até a inconsciência, a de arrancar-lhe os dentes ou administrar-lhe doses maciças de óleo de rícino. Também se praticavam o rapto e o assassínio. A maior parte das agressões foram perpetradas contra radicais, mas em alguns casos as vítimas eram aproveitadores ou proprietários rurais que se negavam a reduzir as rendas. Em Florença, alguns lojistas teimosos apanharam e tiveram suas lojas fechadas a cadeado, com este aviso na porta: "Fechado por motivo de roubo reiterado".  O próprio Mussolini declarou certa ocasião que "seria um bom exemplo pendurar nos lampiões alguns atravessadores".

Mas essas tentativas para atrair as classes mais pobres não tiveram acolhida muito entusiástica por parte do proletariado, pois em muitas regiões da Itália os filhos de ricos industrialistas e de proprietários rurais eram demasiado conhecidos como discípulos de Mussolini.

A plataforma original do movimento fascista foi preparada por Mussolini em 1919. Era um documento surpreendentemente radical que, entre outras coisas, exigia o Sufrágio Universal, a abolição do senado, a instituição legal da jornada de oito horas, um pesado imposto sobre o capital, o confisco de 85% dos lucros de guerra, a aceitação da Liga das Nações, a "oposição a todos os imperialismos" e a anexação de Fiúme e da Dalmácia. Essa plataforma foi mais ou menos aceita oficialmente até maio de 1920, quando foi suplantada por outra de caráter muito mais conservador. Com efeito, o novo programa omitia todas as referências à reforma econômica e consistia unicamente na condenação do "socialismo dos políticos" e em algumas vagas afirmações sobre a "reivindicação" dos princípios em torno dos quais se tinha travado a guerra. Nem com a primeira, nem com a segunda plataforma conseguiram os fascistas grande sucesso político. Mesmo depois das eleições de 1921, tinham somente 35 representantes na Câmara dos Deputados.

Os fascistas compensavam o seu reduzido número com uma agressividade disciplinada e uma enérgica resolução. Quando o antigo regime se tornou tão decrépito que abdicou praticamente de todas as suas funções, prepararam-se para tomar posse do governo. Em setembro de 1922, Mussolini começou a falar abertamente em Revolução e lançou o grito " A Roma ".

Em outubro, apresentou ao governo um ultimato em que exigia novas eleições, uma política externa vigorosa e cinco pastas no gabinete para si e para os seus partidários. Como o primeiro-ministro e o parlamento não tomassem conhecimento dessas exigências, iniciou-se a marcha sobre Roma. Em 28 de outubro, um exército de cerca de 50.000 milicianos fascistas ocupou a capital. O primeiro-ministro renunciou e no dia seguinte Vitor Manuel III convidou Mussolini para organizar um gabinete. Assim, sem disparar um só tiro, as legiões de camisas-negras haviam assumido o controle do governo italiano. A explicação de tal fato deve ser procurada não na força do fascismo, mas no caos criado pela guerra e na falta de uma dedicação firme do povo italiano ao regime constitucional.

A Revolução Fascista

Em julho de 1923, Mussolini forçou a aprovação, pelo parlamento, de uma nova lei eleitoral, segundo a qual o partido que conquistasse a maioria de votos numa eleição nacional receberia automaticamente dois terços das cadeiras da Câmara dos Deputados. Na primeira eleição realizada dentro da vigência dessa lei os fascistas alcançaram não só mais sufrágios do que qualquer outro partido, mas dois terços da votação total. Quando o novo Parlamento se reuniu, em maio de 1924, o líder socialista Matteotti acusou os políticos fascistas de desonestidade e de violência nas eleições. Em 10 de junho, Matteotti foi raptado e assassinado por bandidos camisas-negras, de acordo com ordens emanadas do gabinete. O crime provocou violenta reação acompanhada de clamores insistentes para que os fascistas abandonassem o poder. Mas por fim a tempestade amainou e Mussolini pôde dedicar-se a tarefa de introduzir alterações radicais no sistema político. Em 1925, cassou as licenças de todos os advogados antifascistas e aboliu a autonomia das cidades e vilas. No ano seguinte, atingiu o clímax ao declarar ilegais todos os partidos políticos, exceto aquele que chefiava, e ao abolir oficialmente o sistema de gabinete. Daí por diante, o primeiro-ministro seria responsável unicamente perante o rei, ao mesmo tempo que as funções do Parlamento se restringiam à ratificação de decretos.

O sistema político e econômico da Itália fascista era oficialmente conhecido como Estado Corporativo. Significava isso, em primeiro lugar, que o governo se apoiava em bases econômicas. O povo era representado no governo, não como cidadãos que habitavam determinados distritos, mas na sua qualidade de produtores. O estado corporativo, porém, encarnava igualmente a ideia de que os interesses individuais e de classe deviam subordinar-se aos interesses do Estado. Não devia haver luta de classe entre o capital e o trabalho; eram rigorosamente proibidas as greves e os "lockouts".  Em caso de conflito entre empregados e empregadores, cabia ao Estado a autoridade última para intervir e impor um acordo. O princípio corporativo compreendia também o repúdio completo do "laissez-faire".  Embora se mantivesse em grande parte a propriedade privada e os capitalistas fossem reconhecidos como "classe socialmente produtiva", os veneráveis princípios da economia clássica foram jogados aos ventos. Toda atividade econômica do cidadão era submetida à regulamentação e qualquer empresa industrial ou comercial podia ser encampada se assim o exigissem os interesses nacionais.

Observação

Segundo um relatório do "Instituto de Reconstrução Industrial", em 1939, o Estado controlava 25% da indústria italiana. (New York Times, 05 de maio de 1939)

Sumário

- O Fascismo Italiano
i. Causas da Revolução Fascista
ii. O Surgimento do Fascismo
iii. A Revolução Fascista
- A Filosofia do Fascismo
i. Totalitarismo
ii. Nacionalismo
iii. Idealismo
iv. Romantismo
v. Autoritarismo
vi. Militarismo
- Realizações do Regime Fascista
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