NAZISMO

Depois de um século de conflitos e fracassos, a ideia de democracia conseguira finalmente moldar a Constituição e as instituições alemãs. Mas, a verdadeira posição da República de Weimar foi determinada pela derrota militar do Império Alemão e pela rigorosa restrição de poder que lhe fora imposta pelo Tratado de Versalhes. Desde o início, e às custas da nova ordem democrática, voltara a prevalecer a ideia que antes da guerra dominava os espíritos: a de um poderoso Estado alemão. Todas as tentativas em favor de uma política de cooperação pacífica, afetadas pela desconfiança das potências ocidentais, pela fraqueza da Liga das Nações e pelo isolamento dos Estados Unidos com relação à Europa, sofriam forte pressão por parte do revisionismo nacionalista, especialmente após as depressões econômicas de 1922/23 e 1929/30.

Uma maioria favorável à democracia, composta pelos social-democratas, pelo Partido do Centro e pelos liberais que representavam o cerne da República de Weimar, em breve cedeu lugar a fracas coalizões de conteúdo variável. Desde 1929, uma coalizão entre os nazistas e os nacionalistas contra o regime de Weimar, bem como a ascensão dos comunistas, reduziu ainda mais a possibilidade de um governo parlamentar.

O fracasso de Weimar foi resultado das muitas fraquezas inerentes a essa primeira experiência alemã com a democracia. Ela se baseava na pseudo-revolução originária de uma greve geral para terminar com a guerra, e não de um esforço consciente em favor de mudanças fundamentais. O radicalismo da esquerda e da direita limitava as tentativas de reformar o Estado e a sociedade diante da derrota militar e do colapso econômico. A própria estrutura da Constituição de Weimar, que buscava uma perfeição técnica, mas que nunca foi popular entre a população amargurada e as elites desapontadas, demonstrou-se incapaz de unificar a nação e assegurar a transição para uma sociedade democrática. Ao contrário, como resultado dos compromissos instáveis entre as velhas e novas forças, a estrutura constitucional de Weimar preservava elementos importantes do Estado Autoritário.

A formação e o funcionamento dos governos de coalizão tornaram-se cada vez mais difíceis. A primeira eleição para o Reichstag, em 1920, resultou em derrota para a coalizão dos partidos centristas e da esquerda moderada. O sistema partidário cindiu-se em numerosos grupos políticos violentamente opostos uns aos outros, expressando, dessa maneira, a falta de consenso numa sociedade política destroçada por clivagens econômicas, sociais, religiosas e ideológicas.

Governos de minoria tiveram que enfrentar crises internas e externas. O público acostumou-se a gabinetes frágeis e ao governo semiditatorial praticado por meio de medidas de emergência do presidente. Essa tendência no sentido de governos presidenciais não -partidários foi ainda mais incentivada pelos enormes poderes que a Constituição atribuía à presidência. Tendo sido concebida para contrabalançar o sistema parlamentar, a presidência acabou servindo como uma espécie de substituto para a monarquia autoritária perdida.

A oposição antiparlamentar radical da esquerda e da direita, embora provocasse uma crise permanente no governo, bloqueava ao mesmo tempo a rotatividade constitucional do governo e da oposição no sistema democrático. Essa principal força de oposição ao regime republicano tinha apoio nas forças militaristas, tanto revolucionárias quanto reacionárias, cujas numerosas unidades estavam em estado de guerra civil permanente, lutando umas contra as outras, e contra a República.

O Exército, dizimado pelo Tratado de Versalhes e declarando-se "apolítico", opunha-se, de fato, à República. Como, desde 1918, os governos houvessem seguidamente recorrido ao Exército para preservar o Estado, o Exército sentia-se como o salvador da Alemanha.

Tais condições eram agravadas à medida que favoreciam o surgimento de ideologia antidemocráticas. Essas apresentavam-se como versões simplistas de nacionalismo e de racismo, bem como de filosofias políticas que glorificavam a nação acima do pensamento, a guerra acima da paz, a ordem acima da liberdade. A baixa classe média, especialmente ameaçada pela crise econômica e pela perda de prestígio social, era facilmente enganada por doutrinas que prometiam a salvação frente às ameaças de luta econômica e luta de classes, bem como frente às complexidades de uma sociedade moderna pluralista.

A propaganda em favor de soluções "claramente autoritárias" para os perturbadores problemas do comunismo e do capitalismo, da desordem social e do fracasso internacional, abriu caminho para a destruição da República.

A liderança nacional-socialista, depois de aceita pelos bem-reputados nacionalistas alemães, teve pouca dificuldade em minar os fundamentos da República. Essa "oposição nacional" não era, entretanto, uma aliança muito forte. Foi somente devido à abstenção dos partidos democráticos e à miséria causada pela crise econômica que se tornou possível utilizar Hindenburg e seus poderes de emergência para o golpe de 1933. Além disso, como o mais radical partidário da revisão total, Hitler foi extraordinariamente hábil no uso e abuso dos modernos meios de comunicação, persuasão e manipulação de massas, com o objetivo de mobilizar e canalizar para um Estado totalitário todas as insatisfações e todos os ressentimentos. Isso foi feito não apenas através do terror, mas, acima de tudo, pela hábil manipulação pseudo-democrática da opinião pública, feita em nome da unificação nacional e da ordem social.

A Revolução Legal

Essa tática de reivindicar legalidade para objetivos revolucionários foi algo mais do que um truque de propaganda. Na era da democracia constitucional, representa um novo tipo de tomada do poder, que se mostrou altamente sedutor, tornando toda oposição legal, política e intelectual bem mais difícil. Hitler aprendera essa lição dez anos antes. O fracassado "Putsch de 1923" fizera-o compreender que um ataque direto às instituições estava fadado ao fracasso. As forças do "status quo" no governo e no Exército, nos partidos e nos sindicatos, juntamente com a crença da classe média na autoridade, constituíam-se em obstáculos para qualquer golpe não disfarçado.

Embora largamente contrária à democracia, a burguesia alemã estava acostumada a uma concepção de Estado que defendia a legalidade, a ordem e a segurança - quando não a liberdade - como os mais altos valores. Por essa razão, a Revolução de 1918, bem como os golpes de 1920 - o "Putsch Knapp" -  e de 1923 falharam. Após 1925, Hitler seguiu sistematicamente um "processo legal", mesmo frente à impaciência dos nazistas revolucionários.

Em lugar de uma revolução declarada, essa estratégia visava uma ditadura constitucional, instalada com a utilização dos poderes de emergência da presidência. A Constituição de Weimar não podia impedir que tais poderes fossem utilizados para destruí-la.

Mesmo antes da tomada do poder, já em seu zênite, o Partido Nazista não conseguia obter maioria parlamentar, contando com apenas 37% dos votos. As eleições de novembro de 1932 chegaram a mostrar nítida queda - para 33% - causando crises no interior do partido. Dois meses mais tarde, porém, o dilema proposto pela política de legalidade foi superado com a formação de um gabinete encabeçado por Hitler, que podia governar através de decretos de emergência. O artigo 48 da Constituição de Weimar, originalmente concebido para salvaguardar a República nas crises do pós-guerra, teve o efeito oposto durante a presidência de Hindenburg. Governando com decretos extra e antiparlamentares, os gabinetes Bruning (1930), Papen e Schleicher (1932) abriram caminho para uma situação na qual o Parlamento e os partidos podiam ser paralisados, com a ditadura legal aparecendo como a única forma de superar a crise política e econômica.

Foi exatamente o que ocorreu. Durante os anos de 1932 e 1933, Hitler exigiu persistentemente poderes para governar por meio de decretos de emergência. Ao mesmo tempo que enfatizava a "legalidade", abria o caminho para o poder, não como líder de uma coalizão parlamentar, mas como chefe de um governo minoritário, explorando o que havia de inadequado na Constituição de Weimar. A política de legalidade alcançou seu clímax com o juramento constitucional de Hitler como chanceler, em 30 de janeiro de 1933. A tomada do poder começara: Hitler revelou sua verdadeira opinião sobre a Constituição, destruindo-a.  As táticas de legalidade, combinadas com a estratégia da revolução levada a cabo através de um rápido processo de "Gleichschaltung" (coordenação) totalitária eliminariam em pouco tempo todas as oposições políticas, sociais e intelectuais. No curso desse processo, uma segunda expressão mágica auxiliou a confundir os opositores e a iludir os Aliados. A palavra de ordem por uma revolução nacional dominou as semanas cruciais em que Hitler dirigiu o regime presidencial, até que a aprovação do Ato de Autorização de 23 de março de 1933 liberou os nazistas da exigência de decretos presidenciais (e, portanto, da boa vontade de Hindenburg em assinar tais decretos). Desde a campanha contra o Plano Young (1929) e a formação da Frente Harzburg (1931), a tática de Hitler em "anticapitalistas" do programa nazista fora buscar apoio entre os industriais, o Exército e os grupos agrários, formando uma aliança "nacional" de facções de extrema direita. Dessa vez, porém, os conservadores não iriam controlá-lo, e utilizá-lo como haviam feito em 1923.

Agora Hitler é que controlava a aliança, uma vez que conquistara respeitabilidade e dinheiro junto aos conservadores. Isso conduziu a vários conflitos durante os anos de 1931 e 1932, especialmente quando concorreu para a presidência contra Hindenburg e o candidato dos Capacetes de Aço (Dusterberg). Mas no fim deste último ano, a aliança foi renovada com auxílio do ambicioso ex-Chanceler Von Papen.

O Partido Nacionalista de Hindenburg e seus patrocinadores industriais - banqueiros e agricultores - estavam dispostos, agora, a apoiar Hitler, com a condição de que a maioria dos ministros fosse conservadora e sem ligação com os nazistas.

Tal constelação assemelha-se muito à tomada do poder por Mussolini, dez anos antes. Tanto os fascistas quanto os nazistas entraram no governo como minoria. O Fascismo, porém, precisou de 6 anos de Gleichschaltung para superar a oposição e estabelecer uma ditadura unipartidária e, mesmo então, Mussolini, como Duce, não chegou a possuir poder absoluto no sentido em que Hitler o obteve. A fachada de revolução nacional, com apenas 3 líderes nazistas num gabinete de conservadores, provou ser um excelente disfarce para as exigências de Hitler por poder total. O vice-chanceler Von Papen, confiando em suas relações íntimas com Hindernburg, acreditava que Hitler poderia ser facilmente controlado pela maioria conservadora que integrava o gabinete, o Exército e o funcionalismo público, de cujo apoio Hitler e seu inexperiente partido dependiam.

A Alemanha de Hitler

A 30 de janeiro de 1933, Hitler assumiu o poder, não como ditador da Alemanha, mas como o chefe de um governo de coalizão, no qual os nazistas só detinham três dos onze cargos ministeriais. Até então, sua carreira apresentara um paradoxo: a combinação de um movimento correspondendo a um apelo por transformações brutais, com a insistência em chegar ao poder por meios constitucionais. Mas, uma vez no poder, Hitler não tinha qualquer intenção de se limitar às regras do jogo político convencional. Logo revelou que a impostura residia na fachada de legalidade e não no caráter subversivo do movimento nazista.


Adolf Hitler

Seu primeiro passo foi o decreto suspendendo todas as garantias de liberdade individual, sob o pretexto de que o incêndio do Reichstag, a 27 de fevereiro de 1933, era o final de uma sublevação comunista. Goering, responsável pelo controle da política prussiana, recrutou 40.000 elementos dos violentos grupos nazistas - as SA e as SS -, como auxiliares da polícia. Isso proporcionou-lhes uma imunidade legal, que utilizaram plenamente para prender, espancar opositores políticos e judeus. A eleição de 05 de março não resultou na maioria por que ansiavam os nazistas, mas, ao eliminar os deputados comunistas (a maioria dos quais já se encontrava em campos de concentração) e ao pressionar os demais partidos, garantiu uma votação favorável para o chamado Ato de Autorização (23 de março de 1933), que colocou a constituição de lado, dando ao chanceler (Hitler) o poder de decretar leis sem aprovação parlamentar por quatro anos.

Nos meses que se seguiram, os nazistas agiram de forma a "assenhorar-se" politicamente da Alemanha, processo que apelidaram de Gleichschaltung  -  "coordenação". Não só deixaram de solicitar a aprovação de seus sócios políticos, como também passaram a ignorá-los e a varrê-los do caminho. Os partidos políticos desses grupos, assim como todos os demais e os sindicato, foram abolidos.

Era a revolução nazista, desenvolvida em três frentes. Na primeira, os nazistas fizeram uso da autoridade legal para gerir os recursos do Estado e sua máquina administrativa, o que lhes garantiu o controle da polícia, a neutralidade das Forças Armadas, e o poder, que exerciam sem escrúpulos, para demitir todos os oficiais suspeitos de oposição ou até de indiferença para com o regime. A segunda era a do terrorismo. Não se tratava da transgressão à lei ou a quebra da ordem, mas de algo mais grave: a supressão deliberada da legalidade. Aos elementos das tropas de assalto nazistas foi dada a liberdade de se apossar de pessoas ou propriedades e neles fazer o que bem entendessem. O efeito desse terrorismo se estendeu muito além das vítimas que morreram, foram feridas ou perderam as propriedades: criou uma atmosfera de ameaça, de medo permanente de violência, que inibia qualquer pensamento de oposição. Ao poder compulsivo do terrorismo, combinava-se uma atraente propaganda - martelada pelo rádio, imprensa e cinema - proclamando o renascimento nacional da Alemanha. Essa era a terceira frente. Produzida em grande escala e dirigida pelo talento consumado de Goebbles, essa propaganda constituía algo novo em política e teve um impacto considerável sobre um povo que havia sofrido, durante quinze anos, de um profundo sentimento de humilhação nacional. O mais importante de tudo era a impressão de sucesso que ele criava: o vagão do nazismo estava de partida e todos aqueles que ansiavam por poder, posição e emprego (a nação contava com 6 milhões de desempregados) apressavam-se em apanhá-lo a tempo.

Em cada uma de suas ações, os nazistas demonstravam a força de um movimento político que não admitia quaisquer limites, que não procurava evitar, mas, ao contrário, tudo fazia para explorar a surpresa e o impacto, e que, ao invés de repudiar a violência nas ruas, empregava sua ameaça para esmagar a oposição. O resultado foi um profundo abalo na estabilidade de uma nação já enfraquecida por experiências sucessivas de derrotas, inflação, depressão econômica e desemprego em massa. Porém, se os métodos nazistas repugnavam a muitos, também exerciam atração sobre amplos setores, especialmente de jovens de classe média, que experimentavam um sabor de liberdade à simples promessa de ação. O ano de 1933 suscitou a esperança de que o futuro encerrava grandes possibilidades.

No verão de 1933, Hitler teve que responder à seguinte questão "até onde estava preparado para conduzir o processo revolucionário? Poderia estender-se às instituições econômicas e políticas do país?" Se, de início, um forte caráter anticapitalista permeara o radicalismo nazista, agora, exigia-se sua objetivação prática por meio da reforma econômica drástica. Hitler compreendeu, entretanto, que transformações econômicas radicais destruiriam qualquer possibilidade de cooperação por parte das indústrias e do comércio, no sentido de acabar com a depressão, reduzir a cifra de desempregados e dar início ao rearmamento da Alemanha.

Em julho, ele comunicava a uma reunião dos governadores provinciais nazistas: "A revolução não é um estado permanente de coisas e não se deve permitir que ela se torne tal (...). As ideias do programa não nos obrigam a agir como tolos e a transtornar tudo (...). As revoluções que tiveram êxito de início são muita mais honrosas do que aquelas que, depois de bem-sucedidas, souberam ser interrompidas e paralisadas no momento certo." Ao fim do verão, Hitler deixara claro que preferia uma aliança íntima com os grandes negócios aos entusiastas nazistas que apregoavam "o desenvolvimento corporativo da economia nacional" e que, agora, haviam sido renegados e relegados a posições obscuras.

No entanto, o desejo de Hitler de deter a revolução, pelo menos por enquanto, encontrou oposição dentro do próprio movimento nazista, particularmente por parte das SA de camisas pardas. As SA, verdadeiro movimento de massas com fortes tendências radicais e anticapitalistas, atraíram para si todos os elementos insatisfeitos do Partido, que se sentiam abandonados, e que não desejavam o fim da revolução antes de serem atendidos. E não lhes faltava um líder. Seu chefe de pessoal, Ernest Röhm, era o mais independente líder nazista: iniciara Hitler em sua carreira política, em Munique, e não temia revelar suas ideias.

Essa disputa sobre a assim chamada "Segunda Revolução" foi a questão dominante da política alemã entre o verão de 1933 e o de 1934, e ameaçava cindir o movimento nazista. Em particular, Röhm e a liderança das SA (contando com muitos elementos que haviam cursado a escola de Freikorps, e que desprezavam o conservantismo do oficialato alemão) exasperavam-se por não conseguir tomar o poder e remodelar o Exército alemão conforme uma linha revolucionária.

Como o demonstrou seu comportamento subsequente, Hitler também desconfiava dos generais do Exército e menosprezava seu conservantismo tanto quanto Röhm, mas, em 1933 e 1934, ainda precisava do seu apoio para reconstruir o poderio militar alemão e, mais imediatamente, para garantir a eventual sucessão de Hindenburg como chefe de Estado e do governo. Por outro lado, os generais estavam decididos a resistir a qualquer tentativa de Röhm de incorporar as SA ao Exército para dessa maneira dominá-lo.

A crise atingiu seu clímax no fim de junho de 1934, quando, subitamente, Hitler ordenou a liquidação total da liderança SA sob o pretexto de que essa tramava um golpe. O expurgo, contudo, expandiu-se para muito além das SA. Entre os que foram sumariamente executados, além de Röhm - sem sequer a simulação de um julgamento -, contavam-se o General Von Schleicher, antecessor de Hitler no cargo de chanceler, e Gregor Strasse, que uma vez fora rival de Hitler na contenda pela liderança do Partido Nazista. Hitler não apenas consentia no assassinato, como ordenava ainda sua execução (a noite dos longos punhais).

Os generais, entretanto, ficaram satisfeitos com o afastamento da ameaça das SA e, quando o Presidente Hindenburg faleceu no dia 02 de agosto não houve demora em anunciar a posse de Hitler como chefe de Estado, com o novo título de Führer ("líder") e chanceler de Reich. No mesmo dia, os oficiais e soldados do Exército alemão prestaram juramento ao seu novo comandante-chefe, jurando lealdade não a Constituição ou à pátria, mas a Hitler, pessoalmente.

O mês de junho de 1934 significou uma crise importante: crise do regime e árduo teste de liderança para Hitler. Nas semanas que antecederam ao expurgo (por exemplo, durante sua visita a Mussolini, em Veneza), Hitler dava a impressão de ansiedade e insegurança. Eram as hesitações e ponderações que tão frequentemente precediam uma de suas grandes decisões e, da mesma forma, sempre que tomava uma decisão, surpreendia a todos por sua ousadia e brutalidade.

Hitler repudiou a chamada "Segunda revolução", mas fê-lo de maneira radical, de forma a não dar qualquer esperança a todos aqueles que queriam ver restaurado o domínio da lei e um retorno às tradições conservadoras do Estado alemão.

A Nazificação

Em contraste com os dias tumultuosos de 1932 de 1933 e com a atmosfera de crise do verão de 1934, os três anos e meio que se seguiram (de 1934 a 1937) testemunharam paz política na Alemanha: sem eleições e sem expurgos. Dessa forma, os nazistas prosseguiram com a "remodelação" da sociedade alemã. O nazismo não desejava deixar desorganizado nenhum setor da vida alemã, nem permitir que algum grupo ou indivíduo se abstivesse. Os cidadãos alemães seriam considerados tanto em função de suas ideias e sentimento, quanto de suas ações, e não se permitiria a manifestação da consciência individual contraposta às exigências do partido e do Estado.

A prática, é claro - como em todas as formas de sociedade, totalitárias ou democráticas -, nunca era tão consistente quanto a teoria. Primeiramente, é necessário distinguir entre a amplitude dentro da qual os nazistas executaram seu estilo de governo durante a década de 30, em época de paz, e a década de 40, em condições de guerra. É a esse último período, por exemplo, que pertencem essencialmente os campos de extermínio, o trabalho escravo e a "solução final" do chamado problema judeu. Desde o início do período nazista, houve campos de concentração na Alemanha, mas o número total de prisioneiros no início da guerra girava em torno de 25.000, enquanto alguns anos mais tarde esse número havia duplicado.

Até a eclosão da guerra, a Alemanha ainda estava aberta a visitantes e correspondentes estrangeiros, e os nazistas mostravam-se bastante sensíveis a comentários hostis do exterior, por exemplo, em suas relações com as igrejas. Nessa questão Hitler interveio pessoalmente, por várias vezes, para amainar o zelo dos elementos do partido que desejavam estender sua hostilidade à Igreja às últimas consequências. Na verdade, a prática nazista com relação ao problema religioso era confuso e inconsistente, marcada por uma hostilidade fundamental e por inúmeras pequenas perseguições locais (como a expulsão de monges e freiras, o fechamento de igrejas, a prisão de pastores e padres), mas sem concretizar as medidas avassaladoras que teriam agradado a alguns líderes do partido.

Mesmo deixando de lado a questão da diligência, foi mais difícil do que habitualmente se reconhece transpor o controle totalitário para a prática. Passou-se algum tempo antes que Himmler e Heydrich criassem as SS, que provariam ser o instrumento mais eficaz para os propósitos de Hitler. Uma razão importante dessa dificuldade foi o choque entre as autoridades rivais, que desde o início caracterizou a Alemanha nazista. Sua organização nada teve de monolítica. Se, após o verão de 1934, a autoridade de Hitler nos altos escalões era inconteste, abaixo deles havia uma luta feroz pelo poder. E Hitler, além de não possuir talento algum para a administração, desconfiava instintivamente da criação de processos administrativos que pudessem limitar seu poder de decisão.

As dificuldades seriam contornadas por ações de emergência pela criação de organismos especiais, método que conduzia, quase invariavelmente, à superposição e ao conflito de autoridade entre ministérios, entre partido e Estado, entre diferentes organizações partidárias. Cada ministro e cada líder partidário lutava por conta própria, o que fortaleceu a mediação do Führer contra os seus rivais, mas reduziu indubitavelmente a eficiência de operação e de controle.

Não obstante tudo isso, entre 1933 e 1939, os nazistas percorreram um longo caminho em direção à remodelação da vida alemã, estendendo o padrão totalitário para além da esfera política. A chave de sua estratégia repousava na geração mais jovem. Num discurso, a 06 de novembro de 1933, Hitler declarou: "Quando um opositor diz: - Não passarei para o seu lado, calmamente replico: - O seu filho já nos pertence (...) você morrerá. Os seus descendentes, no entanto, desde já estão no novo campo. Em pouco tempo não conhecerão nada mais a não ser esta nova comunidade."

Como garantia, iniciou-se a nazificação das escolas e universidades. Todos os professores, do jardim da infância à universidade, foram compelidos a se filiarem à Liga Nacional Socialista de Professores e a ensinar o que lhes era ordenado. As universidades alemãs, outrora famosas por sua pesquisa científica, tornaram-se centros de ciência racista. Fora das escolas, organizações de juventude independentes (incluindo as das igrejas) foram banidas e todos os jovens alemães, desde a idade de 6 anos, foram induzidos a se filiarem à Juventude Hitleriana. Aos 18 anos, os rapazes eram conscritos a servir (ou trabalhando ou no Exército) e as moças chamadas para serviços domésticos e para as fazendas. Durante esses anos de formação, os jovens ficavam sujeitos a uma contínua doutrinação na fé nazista.

Para duplicar a eficácia de sua propaganda, e não permitir que fosse ouvida nenhuma voz independente, Goebbels tornou-se ministro da Cultura e da Propaganda, o que lhe outorgou o controle sobre as artes, a literatura, o cinema e a imprensa. Nada podia ser publicado sem o consentimento do Ministério da Propaganda.

O Antissemitismo

Tudo ou todos que fossem judeus eram um alvo de ataque. Conforme os ensinamentos nazistas, o judeu era a fonte de toda a corrupção e a Alemanha precisava purificar-se desse veneno racial se não pelo extermínio físico, pelo menos por meio da exclusão completa dos judeus da vida alemã. Definidos como todas as pessoas que tivessem até mesmo uma única ascendência judaica, os judeus foram excluídos de todos os cargos públicos (o que significava a perda de direitos de pensão), das profissões - inclusive do magistério, da medicina e do direito dos esportes e das artes. Estâncias de férias, restaurante e hotéis foram cobertos com advertências: "Não queremos judeus aqui", e qualquer nazista podia espancar, expulsar ou roubar um judeu impunemente.

As leis de Nuremberg de 1935 proibiam o casamento e todas as formas de relacionamento sexual entre judeus e alemães. Aqueles que tentavam fugir para o exterior só podiam sair depois de privados de seus bens e propriedades. E, finalmente depois que um judeu polonês, desequilibrado pela perseguição a seu povo, assassinou o secretário da legação alemã em Paris, Ernest Van Rath, na noite de 09 para 10 de novembro de 1938, organizou-se um ataque deliberado - apresentado como uma explosão "espontânea" da ira alemã -  contra sinagogas e estabelecimentos judeus em todo o país. Os responsáveis pelo ataque saíram ilesos, enquanto os judeus foram multados em 1 bilhão e um quarto de marcos e viram os seguros a que tinham direito confiscados pelo Estado. A essa chamada "Noite de Cristal" seguiram-se a venda forçada de estabelecimentos comerciais e propriedades pertencentes a judeus, a expulsão de suas casas, prisões em massa e conscrição par trabalhos forçados.

Nenhum judeu podia esperar proteção das cortes. Do mesmo modo, não havia maiores esperanças para um alemão suspeito de concepções independentes ou envolvido numa disputa com oficiais do partido ou do Estado. Não contentes com a Gleichschaltung do Judiciário e com as cortes ordinárias, os nazistas organizaram cortes especiais para julgar ofensas contra o Estado, categoria que poderia ser ampliada arbitrariamente. De qualquer modo, as ordens e ações da Gestapo (Geheine Staats-polizei - Polícia Secreta do Estado) não estavam sujeitas à lei. "Custódia protetora" era o termo cinicamente empregado para os que eram presos e enviados para campos de concentração. Uma data significativa da História da Alemanha nazista foi o 17 de junho de 1936 quando Himmler pôde fundir o controle dos dois impérios que construíra, a polícia e a SS. Criou-se, então, o que os historiadores alemães chamam de "Executivo ilegal", uma agência por meio da qual Hitler, responsável apenas perante si mesmo e mais ninguém, podia remover qualquer limitação ao seu poder, dentro ou fora da lei.

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Sumário

- A Revolução Legal
- A Alemanha de Hitler
- A Nazificação
- O Antissemitismo
- A Ascensão da Alemanha Nazista
- A Preparação para a Guerra
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