Islamismo

O Islã teve origem na Arábia, região localizada no sudoeste da Ásia. A península arábica - a maior do mundo - é um grande planalto cercado ao leste e ao sul por montanhas. Ocupa quase todo o Oriente Médio, prolongando-se no mar da Arábia (parte do Oceano Índico). Na costa oeste da península, o mar Vermelho separa a região da África. A península arábica abrange uma das maiores zonas de desertos arenosos do mundo; seu clima é extremamente quente e a terra, seca. A agricultura na área é praticamente inexistente e o cultivo é possível somente em pequena escala, em áreas chamadas de oásis*. Por isso, no decorrer dos milênios, grande parte da população que habitava a área dedicou-se quase que exclusivamente ao pastoreio.

*Oásis são pequenas áreas de terra férteis em meio a desertos, supridas de água por uma espécie de fonte ou poço.

Arábia pré-islâmica

Em seus primórdios, a maior parte do povo da Arábia era composta por beduínos: tribos nômades pastoris de origem semita. Em constante disputa por oásis e poços de água, estas tribos viviam dispersas e se deslocavam constantemente de um oásis para outro em busca de água e pasto para suas ovelhas, cabras e camelos.

Em linhas gerais, do início de seu povoamento até o fim do século VI, a Arábia não possuía um poder político centralizado; não haviam leis escritas e não existia sistema legal constituído. Tudo girava em volta da tribo. Laços de sangue uniam os membros de cada tribo que dependiam um dos outros para proteção. Se um deles era assassinado, toda a linhagem sofria. As dificuldades que enfrentavam para sobreviver no deserto fizeram com que os beduínos formassem uma cultura de valores baseados em lealdade, bravura em combate e honra. Na Arábia pré-islâmica, a maioria dos árabes que viviam no deserto cultuavam deuses tribais (politeísmo), que acreditavam viver nas pedras, na areia, no sol e nas estrelas. Não havia unidade religiosa; cada grupo possuía seus próprios deuses. Só nas cidades e centros comerciais que, aos poucos foram surgindo, acabou sendo introduzido o ensino do judaísmo e do cristianismo.

Em linhas gerais podemos dividir a Arábia pré-islâmica em:

Arábia desértica: nesta região, que corresponde à maioria do território árabe, viviam os beduínos, tribos nômades pastoris em constante disputa por oásis e fontes de água.

Arábia feliz: esta região era formada por tribos sedentárias, organizadas sob forma de clãs familiares, que, nas regiões litorâneas da Península Arábica, desenvolviam uma economia agrícola e mercantil. Nela surgiram as principais cidades árabes e centros comerciais como Meca e Yatreb (Medina). Nestas cidades surge uma aristocracia mercantil.

Meca: um centro comercial e religioso

A posição estratégica da cidade de Meca, entre as várias rotas de caravanas, fez com que a cidade adquirisse desde a antiguidade grande importância comercial, tornando-se posto de parada das caravanas que transitavam pela península Arábica e ligavam o Oriente ao norte da África. Em Meca a aristocracia mercantil – que negociava com o papel, desenvolvido pela tribo coraixita - dominava o comércio.

Meca, além de ser um importante centro comercial, era desde a antiguidade um centro religioso. A cidade foi citada pela primeira vez pelo geógrafo egípcio Ptolomeu, no século II d.C., com o nome de Makoraba.

Sabe-se, pois, que os árabes eram politeístas, cada tribo cultuando seus próprios ancestrais sob a forma de ídolos. Estes, segundo a tradição, estavam na Caaba (Pedra Negra), o templo de Meca. A Caaba continha mais de 360 deuses pertencentes às tribos do deserto. O deus principal era simbolizado por uma “pedra negra” que, segundo uma antiga tradição, era sagrada e havia sido enviada dos céus. A cada ano, Meca era visitada por milhares de peregrinos, oriundos de todas as regiões da Península Arábica, dinamizando o comércio e gerando uma riqueza considerável para os mercadores da cidade. Cabia aos comerciantes da Meca a guarda da Caaba.

Na época de Maomé, verificou-se que, em várias partes, a transição da sociedade beduína e nômade para uma sociedade urbana mais fixa foi, aos poucos, causando a extinção da religião tradicional e o crescimento da influência das duas grandes religiões monoteístas: o judaísmo e o cristianismo.

O islamismo: o Profeta Maomé

O homem responsável pela mudança da vida do mundo árabe foi o Profeta Maomé (570 - 632). Com ele surgiu uma nova religião, o islamismo, que garantiu à Arábia a unidade política. Informações sobre sua vida estão nos textos escritos, em árabe, por eruditos muçulmanos.

Maomé nasceu na cidade de Meca (cidade ainda existente na Arábia Saudita, hoje) por volta de 570, em uma família pobre da tribo coraixita. Órfão, muito cedo se tornou pastor, ocupação na qual permaneceu até os 20 anos. Empregou-se, então, na caravana de uma rica viúva chamada Khadija, com quem mais tarde veio a se casar e com quem teve uma filha, Fátima. Maomé era conhecido por sua honestidade e habilidade nos negócios.

Segundo a tradição, Maomé costumava se retirar para meditar em uma caverna, nas colinas fora de Meca. No ano de 610, ao completar 40 anos, teve uma experiência profética em uma caverna do monte Hira, nos arredores de Meca: o Arcanjo Gabriel, com um pergaminho, ordenou-lhe “pregar” (iqra) - “Recite em nome do teu Senhor”. Em árabe, a palavra “recitar” tem a mesma raiz que Curam, que significa “ler".

De Meca a Medina

Após um isolamento no deserto, Maomé voltou à Meca, onde começou a pregar tentando divulgar sua doutrina. Proclamou-se profeta ou mensageiro de Deus, enviado aos árabes para ensinar-lhes o caminho da salvação. Isto foi interpretado, desde o início, pelas poderosas famílias de Meca como uma tentativa de usurpar a autoridade política da cidade. Mas Maomé conseguiu muito adeptos, especialmente entre os beduínos do deserto.

Maomé condenava abertamente o politeísmo e defendia uma nova fé fundamentada na submissão a um único Deus, Alá. Os ensinamentos de Maomé, todavia, provocaram grande hostilidade entre os comerciantes da cidade e os guardiões do templo. Maomé entrava em choque com os interesses econômicos dos coraixitas que temiam que a nova religião diminuísse as peregrinações à Caaba, prejudicando assim seus negócios. Havia quem se opusesse a suas afirmações de que Alá era o único e verdadeiro Deus, por não querer abandonar os velhos deuses que seus antepassados adoravam, nem queriam perder sua influência junto à população pobre do deserto.

Maomé foi tão perseguido que, em 622 (início do calendário islâmico), para fugir de seus inimigos, dirigiu-se para Yatreb (mais tarde a cidade passou a ser chamada de Medina, “a cidade do profeta”). O episódio é conhecido como Hégira, que significa “rompimento” ou “partida”.

Os habitantes de Yatreb ou Medina receberam Maomé e seus seguidores, aderindo àquela que passou a ser a religião islâmica e divulgando-a entre os beduínos do deserto. Em Medina, Maomé deu prosseguimento à sua pregação e passou a organizar a comunidade. Maomé conseguiu impor uma única religião, elemento determinante para a unificação política da região. O profeta se tornou um líder religioso e político, rejeitou as leis tribais, determinando que a lei do islâmica passava a ser a autoridade suprema em todos os assuntos.

Para vencer seus inimigos – os ricos comerciantes de Meca – iniciou um jihad- batalha. Maomé queria obter o controle da cidade de Meca. Queria também difundir a nova religião. O islamismo devia difundir-se por meio de conquistas militares. O nome dado a estas lutas, jihad, é o mesmo que mais tarde é usado para designar a guerra santa. A luta para causa de Alá ganha precedência sobre todos os outros interesses, bem como sobre as tradições e os conceitos morais e religiosos herdados do passado.

Em pouco tempo, uma legião de adeptos se junta a Maomé e seus seguidores. Em 630 a cidade da Meca se rende, sem lutas. Maomé entra em Caaba e destrói os ídolos, símbolos da religião politeísta, conservando apenas a pedra negra. Tribos beduínas de toda a Arábia se converteram ao islamismo e aceitaram a autoridade de Maomé como profeta final. Até sua morte, em 632, Maomé tinha conseguido unir a Arábia, transformando-a num só domínio onde a religião se tornara mais importante que os antigos laços familiares ou tribais.

Após a morte do profeta Maomé, seu amigo Abu Bakr se tornara o líder absoluto do Islã, assumindo o posto de califa - chefe político e religioso de um estado muçulmano.

Os muçulmanos passaram a ser liderados por califas, cuja autoridade era uma escolha divina. O califa governava de acordo com as leis do Alcorão e assumia o papel de Defensor da Fé. Os três primeiros califas, após a morte de Maomé, eram parentes do profeta ou estavam entre os primeiros convertidos.

Maomé - líder religioso e político

Maomé, o Profeta, acreditava ser instrumento de Deus, enviado aos árabes para ensinar-lhes o caminho da salvação. Maomé atacou com veemência o politeísmo dos árabes, pois acreditava num só Deus, Criador e Juiz. Estava convencido que havia sido escolhido como profeta para trazer aos árabes uma nova religião, que passou a ser chamada de Islã ou islamismo. A palavra significa "submissão”, já que em árabe significa “render-se a Alá” (Alá é a palavra árabe para Deus). Os seguidores do islamismo eram chamados de muçulmanos, isto é, “aqueles que se submetiam a Deus”.

Entre os ensinamentos que o profeta transmitiu a seus seguidores está um rígido código moral e ético, que inclui alertas e proibições. Entre as principais proibições estão: a ganância e a desonestidade nos negócios, os jogos de azar, bebidas alcoólicas e o consumo de certos alimentos proibidos, assim como casamentos com não muçulmanos.

Maomé é o principal profeta do Islã e esta ideia está resumida em sua declaração de fé: “Não há Deus senão Alá, e Maomé é seu Profeta”. O Islã considera Moisés e todos os outros profetas hebreus, bem como Jesus, como “mensageiros da palavra Divina”. Mas afirma que Maomé foi o último e o maior de todos os profetas. Acredita que o islamismo é uma continuação dos ensinamentos judaicos e cristãos. Originalmente Maomé se considerava parte da comunidade judaico cristã, mas aos poucos se foi distanciando dessa ideia. Apesar de sua absoluta centralidade como profeta, em nenhuma circunstância o Islã cultua a figura de Maomé.

Corão ou Alcorão

O Alcorão é o livro sagrado do Islã e a palavra quer dizer "recitação".

"Qur'an" – manuscrito árabe sobre papel, meados do séc. XIX, Irã.

Segundo a tradição muçulmana, o Alcorão é a Palavra de Deus: uma série de revelações de Alá (Deus) a Maomé, seu Profeta. Portanto, é o centro da vida religiosa islâmica, comparável à Torá dos judeus ou ao Novo Testamento cristão. Ainda segundo a tradição islâmica, são Revelações Divinas que não devem ser questionadas nem modificadas, sendo proibida até mesmo a sua tradução.

Os muçulmanos têm cinco obrigações religiosas básicas chamadas de “os cinco pilares do Islã”: são cinco obrigações (arkan) que constroem a fé e cuja realização é dever de todo muçulmano.

  1. Credo (chahada) - Aceitar e repetir todos os dias: "Não há outro Deus a não ser Deus e Maomé é o seu profeta”.
  2. Oração (salat) - Realizar cinco orações diárias, em horários predeterminados, com o rosto voltado para Meca.
  3. Caridade (zacat) - Os muçulmanos devem ser generosos com os mais necessitados.
  4. Jejum (saum) - Durante os 40 dias do mês do Ramadan, o nono mês do calendário islâmico, é obrigado jejuar do nascer do sol até o pôr do sol.
  5. Peregrinação a Meca (haj) - Ao menos uma vez na vida, todo muçulmano adulto que dispõe de meios de realizar uma peregrinação a Meca, deve fazê-lo.

    Curiosidade: O ritual é bastante rigoroso, marcado pela prática de dar sete voltas em torno da Caaba (mesquita situada em Meca). A peregrinação só pode ser feita uma vez por ano e em datas específicas. Atualmente, cerca de dois milhões de muçulmanos fazem o Haj. Muitos ainda o fazem a pé ou de navio, outros milhares de avião, vindos de todas as partes do mundo. O acesso à região de peregrinação só é permitido aos muçulmanos, que devem alcançar um estado de pureza ritual antes de chegar a Meca.

Após a morte do profeta foi organizada a sunna, a lei oral do Islã, que estabelece as bases da tradição e jurisprudência da nova sociedade islâmica.

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Sumário

- Arábia pré-islâmica
- Meca
- O islamismo: o Profeta Maomé
- Corão ou Alcorão
- O crescimento do Islã
- Xiitas e sunitas
- A expansão islâmica
- Cultura Islâmica
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