Civilização Grega

Civilização Grega

Chamamos de civilização grega, ou civilização helênica aquela que se desenvolveu a partir do extremo sul da Península Balcânica (a Grécia atual) e se difundiu pelas ilhas do Mar Egeu, costa ocidental da Ásia Menor, litoral do Mar Negro e por certos pontos africanos e europeus do Mediterrâneo.

As origens da civilização grega são encontradas nos primitivos povos que habitavam a Península Balcânica, os pelasgos, na civilização egeia e nos povos indo-europeus (aqueus, jônios, eólios e dórios) que, desde mais ou menos 2.000 a.C. começaram a penetrar nos Bálcãs.

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A CIVILIZAÇÃO EGEIA

A civilização egeia desenvolveu-se, originalmente, nos muitos arquipélagos do Mar Egeu e teve como principal centro a ilha de Creta, daí também ser conhecida por civilização cretense. Os egeus chegaram a ocupar também as costas ocidentais da Ásia Menor e a parte meridional dos Bálcãs.

A exiguidade das terras aráveis e das reservas minerais e a facilidade para a navegação (muitas enseadas naturais e ilhas próximas umas das outras) fizeram com que os egeus se notabilizassem como um povo de navegadores.

O comércio marítimo foi a base de sua economia. Consequentemente, a civilização egeia caracterizou-se por um notável desenvolvimento urbano, sendo que dentre suas cidades a mais importante foi Cnossos, cujos reis recebiam o título de Minos.

Cada cidade tinha, provavelmente, o estatuto de uma cidade-estado, ou seja, tinha sua autonomia e soberania política. É provável que essas muitas cidades-estados tenham formado uma espécie de federação, sob a liderança efetiva de Cnossos. Parece-nos fora de dúvida que os Minos (reis de Cnossos) exerciam uma efetiva hegemonia sobre os povos egeus. Alguns historiadores chegam a designar essa civilização como civilização minoica.

As relações das cidades-estados do Egeu eram pacíficas, já que não existiam resquícios arqueológicos de fortificações em nenhuma delas. Já nas cidades egeias do sul da Península Balcânica encontramos fortificações, o que demonstra a preocupação defensiva gerada pelas sucessivas ondas de povos indo-europeus que lá foram chegando.

Nossos conhecimentos acerca da civilização egeia são limitados pelo fato de que seus sistemas de escrita ainda não foram plenamente decifrados e, consequentemente, temos de contentar-nos com suposições feitas a partir de achados arqueológicos e de documentos escritos que já puderam ser decifrados.

Entretanto, algumas afirmações podem ser feitas com relativa segurança: sua religião estava diretamente ligada à natureza e sua principal divindade era representada por uma figura de mulher (a Grande deusa), que era tida como mãe de todos os outros deuses e dos homens.

A arte egeia era viva e brilhante, plena de humanismo e individualidade, ou seja, ela se distingue plenamente das artes anteriores e contemporâneas, mesmo porque ela não estava a serviço nem do Estado nem da religião.

Embora não tenhamos muitos elementos para conhecer a cultura egeia, é certo que ela exerceu profunda influência junto aos povos mediterrâneos, especialmente através dos gregos, que foram seus principais depositários.

Por volta de 1.600 a.C., Cnossos foi destruída por uma aliança de cidades-estados egeias do sul da Grécia, lideradas por Micenas.

A CIVILIZAÇÃO MICÊNICA

O nome de civilização micênica é dado ao conjunto dos povos "gregos" (aqueus, jônios e eólios) que assimilaram a cultura egeia e conquistaram boa parte dos domínios egeus, inclusive Cnossos. A designação micênica é devida ao fato de que a cidade de Micenas e seus reis exerciam uma efetiva hegemonia sobre os demais povos "gregos". Essa hegemonia não foi estabelecida de forma pacífica. As guerras entre as diversas cidades-estados micênicas foram constantes, sendo que, dentre essas guerras, as mais importantes foram entre Micenas e Tebas e entre Micenas e Troia (esta imortalizada pela Ilíada).

Os micênicos, a exemplo dos egeus, tiveram no comércio sua atividade econômica dominante, sendo o comércio o principal difusor da cultura e da civilização micênica pelo Mediterrâneo.

A Ilíada e a Odisseia, poemas épicos atribuídos a Homero, e achados arqueológicos, constituem-se as principais fontes históricas para o conhecimento da História micênica, bem como para os primeiros tempos da civilização helênica.

A decadência e consequente desaparecimento da civilização micênica ocorreram, fundamentalmente, devidos à invasão dos dórios, um povo também indo-europeu, altamente belicoso e que chegou à Península Balcânica por volta do século XII a.C.

Como povo tipicamente agrário, os dórios instalaram-se nas melhores e mais férteis terras balcânicas. Tal fato provocou um grande fluxo migratório, bastante desordenado, através do qual os povos micênicos povoaram as terras menos férteis da Grécia, as ilhas do Egeu, partes do litoral ocidental da Ásia Menor e certas regiões em torno do Mar Negro. Esse movimento migratório ficou conhecido como Diáspora Grega.

O território da Grécia Antiga (Grécia Continental, Peloponeso ou Grécia Peninsular e Grécia Insular) possui um relevo montanhoso que isola, umas das outras, as poucas planícies mais ou menos férteis lá existentes.

Tal situação de relevo, somada ao fato de o litoral ser altamente propício ao desenvolvimento da navegação (multiplicidade de enseadas naturais propícias ao aproveitamento como portos), ajuda a explicar a vocação mercantil da Grécia.

O caráter com o qual ocorreu a Diáspora Grega e o tipo de realidade geográfica dos territórios ocupados pelos migrantes nos ajudam a entender certos aspectos econômicos e políticos das comunidades gregas.

Cada planície foi ocupada por um clã cujo chefe, normalmente o mais velho dos homens, exercia uma autoridade quase que absoluta.

Inicialmente, a terra era de todos, mas com o crescimento demográfico, a exploração comunal foi passando a ser insuficiente para a população. É o início da propriedade privada, sendo que as terras eram distribuídas por um critério de parentesco em relação ao chefe do clã. As melhores terras eram dadas aos parentes mais próximos, e assim por diante, até que os parentes mais distantes nem sequer recebiam uma propriedade agrária.

Em outros termos, podemos afirmar que, com o advento da propriedade privada, configurou-se uma estratificação social, em cujo topo havia uma aristocracia (proprietários das melhores terras). Em situação intermediária, tínhamos os pequenos proprietários (em posse de terras não tão férteis). Na base, havia uma massa de trabalhadores agrários. É importante notar que os descendentes desses primeiros gregos (os participantes da Diáspora) eram sempre homens livres. Só mais tarde viria aparecer a instituição da escravidão por dívidas.

Grécia: das origens ao período arcaico

A GRÉCIA ARCAICA (Séculos VIII a VI a.C.)

A GRÉCIA ARCAICA

Já que a economia das diversas comunidades gregas era tipicamente agrária, podemos entender que a propriedade da terra era o elemento fundamental na determinação da condição socioeconômica do indivíduo, bem como de sua participação política na comunidade. Dentro desses parâmetros, é fácil justificar o fato de que, na maioria das cidades-estados gregas, verificamos uma progressiva concentração de poder nas mãos da aristocracia (classe social dos grandes proprietários de terra). Por meio dessas informações pode-se afirmar que houve na Grécia uma evolução política de monarquias para oligarquias. Só que o domínio político e econômico da aristocracia não perdurou indefinidamente sem contestação.

A concentração da propriedade fundiária nas mãos da aristocracia, o regime de transmissão da herança apenas para o primogênito e o próprio crescimento vegetativo da população foram responsáveis por uma crescente tensão social que ameaçava desestabilizar o domínio da aristocracia.

Nesse contexto podemos entender o desencadeamento do sistema de colonização grega no Mediterrâneo, processo que consistiu na ocupação de terras não gregas por povos gregos. A invasão dessas terras se concretizava com a instalação de famílias nessas áreas, esses grupos originavam novas cidades-estados.

Os gregos, no movimento colonizatório, ocuparam diversos pontos da Ásia Menor (costa da Anatólia); a região dos estreitos (Mar de Mármora e Mar Negro), onde fundaram Bizâncio; Sicília (onde fundaram, entre outras, as cidades-estados de Siracusa e Agrigento) e no sul da Itália (Tarento, Síbaris, Crotona e Nápoles). As colônias gregas do sul da Itália e Sicília são conhecidas genericamente pelo nome de Magna Grécia.

As colônias mantinham estreitas ligações com as terras de origem dos colonos, ou seja, com as cidades-estados na própria Grécia.

A colonização grega no Mediterrâneo trouxe consigo diversas consequências, dentre as quais merecem destaque:

  • a helenização cultural de diversos pontos do Mediterrâneo.
  • um intenso desenvolvimento comercial entre as colônias e as cidades-estados da Grécia.

As colônias ficavam em regiões de solo fértil, portanto, tinham uma produção agrária diversificada e abundante, cujos excedentes eram exportados para a Grécia.

A Expansão Grega

A crescente penetração, na Grécia, de produtos agrícolas coloniais determinou a decadência do sistema agrário tradicional. Inicialmente, os pequenos proprietários viram-se arruinados pela concorrência colonial; depois, a própria aristocracia teve seu poderio econômico abalado. As terras em mãos da aristocracia foram sendo progressivamente aproveitadas para o plantio da vinha e da oliva. Paralelamente, desenvolveu-se a produção do vinho e do azeite. Configurou-se, dessa forma, uma reciprocidade comercial: as colônias forneciam alimentos, a Grécia fornecia vinho e azeite.

O trato da vinha e da oliva exigia grandes contingentes de mão de obra, fato este que contribuiu para o crescimento da escravidão. Na Grécia, além do escravo obtido por conquista ou compra, havia o escravo por dívidas (o devedor que não podia pagar aquilo que devia era escravizado pelo credor como forma de pagamento). A escravidão por dívidas atingia, fundamentalmente, os pequenos proprietários de terra que, depois de perderem suas propriedades, acabavam perdendo a liberdade.

Verificamos que a colonização trouxe consigo um notável desenvolvimento comercial que serviu de estímulo para o incremento da vida urbana e, consequentemente, das atividades artesanais. A camada social constituída por indivíduos ligados a atividades urbanas (comércio, artesanato e funções liberais) viu-se fortalecida e multiplicou-se.

Resumindo: as necessidades da sociedade aristocrática grega levaram à ocorrência de uma colonização no Mediterrâneo; tal colonização desencadeou um desenvolvimento mercantil e uma crise agrária na Grécia; essa crise significou um enfraquecimento econômico e político da aristocracia; o desenvolvimento mercantil gerou um fortalecimento econômico e político das camadas sociais urbanas.

Na Grécia, nesse período (séculos VIII a VI a.C.) o poder econômico concentrava-se cada vez mais nas mãos das camadas urbanas, enquanto o poder político continuava monopolizado pela aristocracia fundiária. Tal contradição, somada às crescentes tensões sociais, serviu de vetor para uma série de transformações políticas que ocorreram nas cidades-estados gregas. Essas transformações políticas aconteceram sempre no sentido da evolução de uma oligarquia (governo de poucos) para uma democracia (governo de todos os cidadãos).

Os principais agentes dessa evolução política foram os legisladores e os tiranos. Os legisladores eram indivíduos nomeados pela aristocracia para realizarem reformas capazes de aliviar a tensão social e a contestação política. Os tiranos eram líderes que tomavam o poder pela força, geralmente com apoio popular; uma vez no poder, os tiranos realizavam reformas políticas e sociais mais ou menos profundas.

No Período Arcaico da história da Grécia (séculos VIII a VI a.C.), verificamos uma crescente urbanização econômica e, consequentemente, um deslocamento do poder político das mãos da aristocracia fundiária para as mãos das camadas urbanas. Só que tais processos não ocorreram da mesma forma e nem simultaneamente nas diversas cidades-estados gregas.

Cada cidade-estado (polis é o termo grego) da Grécia conheceu seu próprio processo evolutivo; duas delas, Esparta e Atenas, foram as mais notáveis e importantes poleis do Período Arcaico.

ESPARTA

Esparta conheceu um desenvolvimento e uma organização absolutamente singulares em relação às demais "polis" gregas. Essa cidade estava localizada no centro da planície da Lacônia, no fértil vale do rio Eurotas. Nos tempos pré-gregos, aí se desenvolvera a civilização mecênica que, por volta de 1200 a.C., fora conquistada pelos dórios.

A partir da ocupação da Lacônia, os dórios, que deram origem aos espartanos, através de uma série de guerras, foram conquistando os territórios vizinhos, dentre os quais o mais importante foi a planície da Messênia. O imperialismo continental foi uma das características dominantes da história de Esparta. Essa cidade quase não participou do movimento colonizatório grego no Mediterrâneo por ocupar uma região fértil. Seu expansionismo limitou-se ao território da própria Grécia. Essa é uma singularidade de Esparta.

Segundo a tradição, a organização sociopolítica e econômica de Esparta deve-se a uma "constituição", que teria sido elaborada por um personagem semilendário chamado Licurgo.

Na verdade, a organização espartana não é devida à obra de um único indivíduo e nem foi estabelecida de uma só vez. Ela é resultado de reformas que foram realizadas desde a origem da polis até, mais ou menos, o século VI a.C., quando adquiriu sua feição definitiva.

Em seus moldes finais, a sociedade espartana estava estratificada da seguinte maneira:

Espartanos ou Espartíatas. Camada que agregava todos os indivíduos que possuíam direitos políticos; provavelmente, os espartíatas eram os descendentes dos dórios que haviam conquistado a Lacônia e dado origem à polis de Esparta.

Hilotas

Camada constituída de escravos do Estado que descendiam, provavelmente, dos primitivos habitantes da Lacônia (aqueles que a ocupavam quando houve a invasão dos dórios).

Periecos

Camada composta de indivíduos livres que viviam sob a dominação política dos espartíatas e se dedicavam ao artesanato e à exploração de pequenas propriedades agrárias. Os periecos eram, provavelmente, descendentes dos povos que foram sendo vencidos por Esparta através de suas guerras.

Os espartíatas, além de serem os únicos a possuir direitos políticos, eram submetidos a um regime especial de vida: o homem espartíata era fundamentalmente um soldado e sua mulher era mãe de outros espartíatas. Para que pudessem ser soldados, os espartíatas tinham sua manutenção, bem como a de suas famílias, assegurada pelo Estado. Cada espartíata, ao completar sua educação militar, recebia do Estado um lote de terra e uma ou mais famílias de hilotas que trabalhavam na terra e produziam o suficiente para a manutenção do espartíata, de sua mulher (também uma espartíata) e de seus filhos.

É interessante notar que a sociedade espartíata era absolutamente democrática (todos tinham exatamente os mesmos direitos), os meios de produção pertenciam ao Estado, ou seja, não havia propriedade privada dos meios de produção entre os espartíatas.

Os hilotas, como já dissemos, pertenciam ao Estado e eram cedidos aos espartíatas para serem utilizados exclusivamente pelos cidadãos, sendo que seu trabalho era basicamente aproveitado no trato da terra.

Os periecos, como homens livres, podiam possuir suas próprias terras ou seus próprios meios de trabalho e sobrevivência. Eram obrigados a pagar tributos para o Estado e a prestar serviço militar, quando convocados.

A organização política de Esparta também era singular, em relação às demais existentes na Grécia.

O poder político espartano era exercido nos seguintes termos:

  • A Diarquia era constituída por dois reis que representavam as duas famílias mais importantes de Esparta (os Europôntidas e os Agíadas) e que exerciam funções religiosas e militares.
  • A Gerúsia era uma assembleia formada por vinte e oito anciões, recrutados dentre as famílias mais tradicionais, e mais os dois reis; a Gerúsia funcionava como um tribunal julgando os infratores da lei.
  • A Apella era a assembleia de todos os cidadãos; suas funções eram praticamente ilimitadas; era o órgão que tomava todas as decisões em última instância.
  • O Eforado, ou Conselho dos Cinco Éforos, principal órgão executivo do governo, era formado por cinco cidadãos, eleitos anualmente pela Apella, que deviam fiscalizar a observação da Constituição e das leis.

Nos parâmetros dessa organização política, o que verificamos de fato é que os cinco éforos eram os reais detentores do poder e, exatamente por isso, eram trocados todos os anos para que não houvesse a possibilidade de um indivíduo ou um grupo de indivíduos monopolizar o poder em caráter permanente.

ATENAS

ATENAS

Atenas desenvolveu-se como sendo o centro político e econômico da planície da Ática; esta região se comunica mais facilmente com o mar do que com o interior do continente, em função de seu relevo.

A Ática apresentava um solo relativamente fértil, uma boa reserva florestal que fornecia, abundantemente, madeira para a construção naval, grandes reservas de prata e chumbo, muita argila e grandes pedreiras de calcário e mármore. Dentre os recursos naturais disponíveis o ferro era o material mais escasso.

Primitivamente, desenvolveram-se diversas comunidades na planície da Ática, que foram progressivamente sendo unificadas em torno de um centro político instalado na Acrópole de Atenas. Tal processo foi gradual e pacífico e recebeu o nome de sinecismo; este levou à instalação de uma monarquia.

O fortalecimento da aristocracia, formada por grandes proprietários de terra, fez com que a monarquia se transformasse, progressivamente, numa oligarquia aristocrática. Tal evolução aconteceu pacificamente, através do esvaziamento das funções do Basileu, que aos poucos se tornou apenas um chefe religioso. Simultaneamente, foram surgindo outras magistraturas: o Polemarca, a quem competia a chefia militar; o Arconte, responsável pela administração e os seis Tesmotetas, que eram os juízes e guardiões da lei. Os magistrados eram eleitos anualmente pela Eclésia, assembleia de todos os cidadãos. Havia ainda o Areópago, conselho formado exclusivamente por elementos recrutados dentre a aristocracia, os componentes desse grupo cooperavam com os magistrados na direção da polis.

Com a configuração política da oligarquia, verificamos o surgimento de uma nova estratificação social que, ao invés de ser baseada em critérios de nascimento, sustentava-se por critérios determinados a partir das rendas e propriedades dos indivíduos. Essa estratificação ampliou o número de cidadãos e tornou possível aumentar os efetivos militares, e consequentemente, o poderio do Estado.

O crescimento demográfico, aliado a outros fatores já mencionados, fez com que Atenas empreendesse tenazmente uma ação colonizatória no Mediterrâneo. Tal feito impulsionou as atividades mercantis e fortaleceu as camadas urbanas; ao mesmo tempo, as atividades agrárias conheciam uma radical transformação: o desenvolvimento da vinicultura e das oliveiras.

Um fato relevante é que ao lado da aristocracia, até então hegemônica em termos políticos, passa a existir uma camada social ligada às atividades mercantis (comércio e artesanato), que conheceu um rápido processo de enriquecimento passando a reivindicar uma posição mais atuante no aparelho do Estado.

O processo de desenvolvimento mercantil foi acompanhado por uma crise agrária que atingiu, fundamentalmente, os pequenos proprietários que se viam empobrecidos e mesmo escravizados por dívidas. Em síntese, havia uma crescente insatisfação popular que pôde ser utilizada pelas camadas mercantis como instrumento de pressão para a realização de transformações políticas.

As primeiras manifestações para a transformação política ocorreram de forma pacífica. A própria estrutura oligárquica, pressionada pelos setores urbanos e populares, formou legisladores encarregados de reformas que aplacassem a tensão sociopolítica e permitissem a continuidade do domínio aristocrático. Dracon, o primeiro legislador, em 621 a.C., elaborou as primeiras leis escritas de Atenas; as leis draconianas caracterizaram-se por sua excessiva severidade. Essas regras não chegaram até os documentos escritos; sendo assim, tal legislação não teve seu caráter efetivamente demonstrado. Mais tarde, a simples existência de leis escritas coibiu a arbitrariedade com o qual os juízes (aristocratas) julgavam os não aristocratas.

Pouco após a elaboração das leis draconianas, um segundo legislado, foi constituído: Sólon. Em 594 a.C., Sólon elaborou profunda reformas nas leis de Dracon.

Os principais aspectos das reformas de Sólon foram:

  • amenização da severidade das leis draconianas;
  • fim da escravidão por dívidas;
  • devolução das terras que haviam sido tomadas pelos credores dos seus proprietários originais;
  • estabelecimento de um tamanho limite para as propriedades agrárias;
  • admissão dos tetas (trabalhadores livres não proprietários de terra) na Eclésia;
  • criação do Heliaea (tribunal de justiça do qual todos os cidadãos podiam participar);
  • as magistraturas passaram a ser exercidas por todos os cidadãos.

Vale a pena destacar o fato de que, em Atenas, eram cidadãos apenas os homens livres não estrangeiros; sendo assim, os estrangeiros e os escravos não possuíam direitos civis.

Sólon fez com que todos os cidadãos pudessem exercer as magistraturas; entretanto, na prática, só os indivíduos mais ricos se ocupavam das funções dos magistrados (Basileu, Polemarco, Arconte e Tesmotetas), pois estas exigiam dedicação exclusiva sem remuneração.

As reformas de Sólon ampliaram a faixa de participação dos cidadãos ligados às atividades mercantis, atenderam parcialmente os interesses das camadas populares e aboliram a escravidão por dívidas. Só que essa mudanças não foram bem aceitas nem pela aristocracia e nem pelas camadas populares desejosas de reformas mais profundas do que as efetuadas, grande parte da insatisfação do povo estava ligada à estrutura da propriedade fundiária. Apesar desse descontentamento proveniente de diversas camadas sociais, não há como negar que após as reformas de Sólon, Atenas conheceu um período de relativa paz social; fato este que permitiu o desenvolvimento de uma política imperialista, cuja primeira manifestação concreta foi o conjunto de lutas contra Mégara acerca da posse de Salamino. Nessas batalhas, Pisístrato, grande general, foi importantíssimo. Em 561 a.C., com ampla base de apoio popular, esse general tomou o poder em Atenas estabelecendo a Tirania, governo de um tirano. Na Grécia Antiga, tirano era o indivíduo que tomava o poder pela força das armas. Pisístrato exerceu a Tirania de 561 a 528 a.C., ou seja, da tomada do poder até sua morte. Com a instalação da Tirania, esse líder não extinguiu a estrutura político-administrativa estabelecida por Sólon, apenas superpôs uma nova e superior esfera de poder, ou seja, o tirano colocou-se acima da estrutura já existente.

Dentre as realizações de Pisístrato, estão:

  • o enfraquecimento da aristocracia, através do confisco de parte substantiva de suas terras, e a distribuição destas áreas para os cidadãos pobres;
  • a montagem de uma poderosa frota naval, objetivando o estabelecimento da hegemonia ateniense no Mediterrâneo Oriental.

Com a morte de Pisístrato, seus filhos Hiparco e Hípias o sucederam no poder. Pouco após essa sucessão, uma conspiração aristocrática assassinou Hiparco, provocando a adoção de uma política intensamente repressiva por parte de Hípias. Tal forma de liderança causou uma progressiva perda das bases políticas de Hípias, fato que acabou criando as condições necessárias para um movimento insurrecional que derrubou a Tirania. Com o fim dessa forma de governo, o poder foi concentrado nas mãos de um novo legislador, Clístenes, que realizou as reformas que conduziram Atenas à condição de uma Democracia. No início de seu governo, Clístenes sofreu uma intensa oposição da aristocracia, que se aliou a Esparta. Os espartanos chegaram a ocupar Atenas, mas logo foram expulsos; esse evento só contribuiu para o fortalecimento de Clístenes e de suas pretensões reformistas.

As reformas de Clístenes instalaram em Atenas uma nova sistemática política, cujas ideias fundamentais eram a igualdade política de todos os cidadãos e a participação direta dos mesmos na máquina governamental.

O principal aspecto de suas reformas foi a criação de uma nova estrutura de recrutamento para a participação política. Os cidadãos foram distribuídos em demos (unidades organizacionais de caráter local às quais todos os cidadãos eram obrigados a pertencer formalmente).

O conjunto dos demos foi distribuído em três grupos:

  • o primeiro reunia os demos da cidade de Atenas (nos quais predominavam os indivíduos ligados às atividades de comércio e artesanato, além dos trabalhadores urbanos);
  • o segundo reunia os demos do litoral (que agregavam os navegadores e pescadores);
  • o terceiro reunia os demos do interior (que agregavam os proprietários rurais grandes e pequenos).

Cada um desses grupos era dividido em dez tritias (cada qual formada por vários demos). Três tritias (uma de cada grupo) formavam uma Tribo.

Essas dez tribos formavam a base para o recrutamento político e militar necessário. É importante saber que em cada tribo havia participação indistinta dos diversos estratos sociais.

Cada tribo fornecia uma unidade militar sob o comando de um Estratego, eleito pela própria tribo.

A Boulê ou Conselho dos Quinhentos, formada por cinquenta elementos de cada tribo, passou a ser o principal órgão executivo do governo.

As funções legislativas foram integralmente concentradas nas mãos da Eclésia (assembleias de todos os cidadãos).

As funções judiciárias pertenciam ao Heliaea (tribunal formado por juízes eleitos anualmente, em número idêntico para cada tribo, pela Eclésia).

Com essas reformas, todos os cidadãos, independentemente de sua condição socioeconômica, passaram a participar diretamente do exercício do poder político. Com isso, Atenas atingiu seu esplendor democrático. Só que o conceito de cidadania era restrito aos homens livres nascidos em Atenas; consequentemente, mulheres, escravos e estrangeiros não tinham acesso ao poder político; logo, a democracia ateniense não era o governo de todos, e sim o governo de todos os cidadãos. Ainda assim, as reformas realizadas por Clístenes reduziram muito os níveis de tensão social e contestação política existentes.

Cultura Grega

As bases da cultura e da civilização grega devem ser buscadas entre os egeus; os povos indo-europeus que deram origem à nação grega assimilaram aquilo de mais significativo produzido por esse grupo.

Em função do desenvolvimento da colonização mediterrânea, particularmente no que diz respeito ao estabelecimento de colônias na Ásia Menor, a civilização grega entrou em contato com as civilizações orientais (egípcia e mesopotâmica principalmente), das quais recebeu fortes influências.

A partir desses dois fundamentos, os gregos desenvolveram uma cultura e uma civilização originais, que podem ser consideradas fatores fundamentais da unidade nacional grega.

Um segundo fator dessa unidade era a religião. Os gregos praticavam um politeísmo cujos deuses, além de serem representados com formas humanas (Antropomorfismo), eram efetivamente humanizados em seus comportamentos e histórias. Os deuses gregos, além de suas virtudes, possuíam defeitos humanos. A vida dos deuses era contada através de lendas (Mitologia) que, de uma certa forma, foram sistematizadas nos poemas homéricos.

O templo era considerado como a casa do deus e, por isso, merecia um cuidado arquitetônico distinto do dado as demais edificações gregas.

Cada polis tinha seu deus principal, ao qual era dedicado o mais imponente templo da cidade. Ainda assim, havia alguns templos que adquiriam uma importância que transcendia o âmbito restrito da polis. É o caso do Templo de Apolo, em Delfos, cujo oráculo era consultado indistintamente por todos os gregos; é também o caso do Templo de Zeus, em Olímpia, onde, de quatro em quatro anos, eram realizados os Jogos Olímpicos, atividades nas quais atletas de toda a Grécia tomavam parte.

Em termos de literatura, a poesia épica foi o primeiro ramo desenvolvido. No período arcaico, os poemas homéricos conheceram sua primeira edição; nessa época viveu Hesíodo, poeta de origem campesina, cujas principais obras são: A Teogonia, em que tentou organizar a genealogia dos deuses e Os Trabalhadores e os Dias, em que narra o cotidiano da vida rural grega de seu tempo. Ainda no período arcaico, nasceu a poesia lírica, cujos principais representantes, naquele momento, foram Alceu e a poetisa Safo.

Nas suas origens, a ciência e a filosofia se confundiram bastante. No período arcaico, a principal preocupação dos filósofos era a de encontrar o elemento primário da vida, a partir do qual o mundo e o homem teriam surgido. O primeiro dos nomes conhecidos é o de Tales de Mileto, cuja maior especulação dizia respeito à formação das leis que regiam o conhecimento da ciência abstrata. Além disso, Tales desenvolveu uma série de conhecimentos práticos, especialmente em Matemática, e formulou a teoria de que a substância primária era a água.

Dentre os discípulos de Tales de Mileto, merecem destaque: Anaxímenes que via no ar a substância primária, e Anaximandro, para quem os mundos eram infinitos em sua perpétua inter-relação. Dois outros filósofos merecem destaque: Xenófanes, que acreditava em um único deus que dirigia as forças do mundo e considerava o politeísmo e as lendas acerca da vida dos deuses como simples invenções da imaginação humana, e Pitágoras de Samo, para quem os segredos do universo estão na harmonia dos números.

A arquitetura grega manifestou sua máxima produtividade e esplendor na construção dos templos. Para essa arquitetura, as ideias de proporção e harmonia eram fundamentais, partindo delas formaram-se dois estilos básicos: o dórico (severo e funcional) e o jônico (luxuoso e elegante).

A escultura exercia um papel efetivamente independente da arquitetura, sendo que a estatuária, trabalhada fundamentalmente em mármore, preocupava-se com o rigor anatômico e com a precisão dos movimentos e detalhes.

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Sumário

- A Civilização Egeia
- A Civilização Micênica
- A Grécia Arcaica
- Esparta
- Atenas
- Cultura Grega

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