Civilização Grega

Civilização Grega

Chamamos de civilização grega, ou civilização helênica aquela que se desenvolveu a partir do extremo sul da Península Balcânica (a Grécia atual) e se difundiu pelas ilhas do Mar Egeu, costa ocidental da Ásia Menor, litoral do Mar Negro e por certos pontos africanos e europeus do Mediterrâneo.

As origens da civilização helênica são encontradas nos primitivos povos que habitavam a Península Balcânica, os pelasgos, na civilização egeia e nos povos indo-europeus (aqueus, jônios, eólios e dórios) que, desde mais ou menos 2.000 a.C. começaram a penetrar nos Bálcãs.

A CIVILIZAÇÃO EGEIA

A civilização egeia desenvolveu-se, originalmente, nos muitos arquipélagos do Mar Egeu e teve como principal centro a ilha de Creta, daí também ser conhecida por civilização cretense. Os egeus chegaram a ocupar também as costas ocidentais da Ásia Menor e a parte meridional dos Bálcãs.

A exiguidade das terras aráveis e das reservas minerais e a facilidade para a navegação (muitas enseadas naturais e ilhas próximas umas das outras) fizeram com que os egeus se notabilizassem como um povo de navegadores.

O comércio marítimo foi a base de sua economia. Consequentemente, a civilização egeia caracterizou-se por um notável desenvolvimento urbano, sendo que dentre suas cidades a mais importante foi Cnossos, cujos reis recebiam o título de Minos.

Cada cidade tinha, provavelmente, o estatuto de uma cidade-estado, ou seja, tinha sua autonomia e soberania política. É provável que essas muitas cidades-estados tenham formado uma espécie de federação, sob a liderança efetiva de Cnossos. Parece-nos fora de dúvida que os Minos (reis de Cnossos) exerciam uma efetiva hegemonia sobre os povos egeus. Alguns historiadores chegam a designar essa civilização como civilização minoica.

As relações das cidades-estados do Egeu eram pacíficas, já que não existiam resquícios arqueológicos de fortificações em nenhuma delas. Já nas cidades egeias do sul da Península Balcânica encontramos fortificações, o que demonstra a preocupação defensiva gerada pelas sucessivas ondas de povos indo-europeus que lá foram chegando.

Nossos conhecimentos acerca da civilização egeia são limitados pelo fato de que seus sistemas de escrita ainda não foram plenamente decifrados e, consequentemente, temos de contentar-nos com suposições feitas a partir de achados arqueológicos e de documentos escritos que já puderam ser decifrados.

Entretanto, algumas afirmações podem ser feitas com relativa segurança: sua religião estava diretamente ligada à natureza e sua principal divindade era representada por uma figura de mulher (a Grande deusa), que era tida como mãe de todos os outros deuses e dos homens.

A arte egeia era viva e brilhante, plena de humanismo e individualidade, ou seja, ela se distingue plenamente das artes anteriores e contemporâneas, mesmo porque ela não estava a serviço nem do Estado nem da religião.

Embora não tenhamos muitos elementos para conhecer a cultura egeia, é certo que ela exerceu profunda influência junto aos povos mediterrâneos, especialmente através dos gregos, que foram seus principais depositários.

Por volta de 1.600 a.C., Cnossos foi destruída por uma aliança de cidades-estados egeias do sul da Grécia, lideradas por Micenas.

A CIVILIZAÇÃO MICÊNICA

O nome de civilização micênica é dado ao conjunto dos povos "gregos" (aqueus, jônios e eólios) que assimilaram a cultura egeia e conquistaram boa parte dos domínios egeus, inclusive Cnossos. A designação micênica é devida ao fato de que a cidade de Micenas e seus reis exerciam uma efetiva hegemonia sobre os demais povos "gregos". Essa hegemonia não foi estabelecida de forma pacífica. As guerras entre as diversas cidades-estados micênicas foram constantes, sendo que, dentre essas guerras, as mais importantes foram entre Micenas e Tebas e entre Micenas e Troia (esta imortalizada pela Ilíada).

Os micênicos, a exemplo dos egeus, tiveram no comércio sua atividade econômica dominante, sendo o comércio o principal difusor da cultura e da civilização micênica pelo Mediterrâneo.

A Ilíada e a Odisseia, poemas épicos atribuídos a Homero, e achados arqueológicos, constituem-se as principais fontes históricas para o conhecimento da História micênica, bem como para os primeiros tempos da civilização helênica.

A decadência e consequente desaparecimento da civilização micênica ocorreram, fundamentalmente, devidos à invasão dos dórios, um povo também indo-europeu, altamente belicoso e que chegou à Península Balcânica por volta do século XII a.C.

Como povo tipicamente agrário, os dórios instalaram-se nas melhores e mais férteis terras balcânicas. Tal fato provocou um grande fluxo migratório, bastante desordenado, através do qual os povos micênicos povoaram as terras menos férteis da Grécia, as ilhas do Egeu, partes do litoral ocidental da Ásia Menor e certas regiões em torno do Mar Negro. Esse movimento migratório ficou conhecido como Diáspora Grega.

O território da Grécia Antiga (Grécia Continental, Peloponeso ou Grécia Peninsular e Grécia Insular) possui um relevo montanhoso que isola, umas das outras, as poucas planícies mais ou menos férteis lá existentes.

Tal situação de relevo, somada ao fato de o litoral ser altamente propício ao desenvolvimento da navegação (multiplicidade de enseadas naturais propícias ao aproveitamento como portos), ajuda a explicar a vocação mercantil da Grécia.

O caráter com o qual ocorreu a Diáspora Grega e o tipo de realidade geográfica dos territórios ocupados pelos migrantes nos ajudam a entender certos aspectos econômicos e políticos das comunidades gregas.

Cada planície foi ocupada por um clã cujo chefe, normalmente o mais velho dos homens, exercia uma autoridade quase que absoluta.

Inicialmente, a terra era de todos, mas com o crescimento demográfico, a exploração comunal foi passando a ser insuficiente para a população. É o início da propriedade privada, sendo que as terras eram distribuídas por um critério de parentesco em relação ao chefe do clã. As melhores terras eram dadas aos parentes mais próximos, e assim por diante, até que os parentes mais distantes nem sequer recebiam uma propriedade agrária.

Em outros termos, podemos afirmar que, com o advento da propriedade privada, configurou-se uma estratificação social, em cujo topo havia uma aristocracia (proprietários das melhores terras). Em situação intermediária, tínhamos os pequenos proprietários (em posse de terras não tão férteis). Na base, havia uma massa de trabalhadores agrários. É importante notar que os descendentes desses primeiros gregos (os participantes da Diáspora) eram sempre homens livres. Só mais tarde viria aparecer a instituição da escravidão por dívidas.

A GRÉCIA ARCAICA (Séculos VIII a VI a.C.)

Já que a economia das diversas comunidades gregas era tipicamente agrária, podemos entender que a propriedade da terra era o elemento fundamental na determinação da condição socioeconômica do indivíduo, bem como de sua participação política na comunidade. Dentro desses parâmetros, é fácil justificar o fato de que, na maioria das cidades-estados gregas, verificamos uma progressiva concentração de poder nas mãos da aristocracia (classe social dos grandes proprietários de terra). Por meio dessas informações pode-se afirmar que houve na Grécia uma evolução política de monarquias para oligarquias. Só que o domínio político e econômico da aristocracia não perdurou indefinidamente sem contestação.

A concentração da propriedade fundiária nas mãos da aristocracia, o regime de transmissão da herança apenas para o primogênito e o próprio crescimento vegetativo da população foram responsáveis por uma crescente tensão social que ameaçava desestabilizar o domínio da aristocracia.

Nesse contexto podemos entender o desencadeamento do sistema de colonização grega no Mediterrâneo, processo que consistiu na ocupação de terras não gregas por povos gregos. A invasão dessas terras se concretizava com a instalação de famílias nessas áreas, esses grupos originavam novas cidades-estados.

Os gregos, no movimento colonizatório, ocuparam diversos pontos da Ásia Menor (costa da Anatólia); a região dos estreitos (Mar de Mármora e Mar Negro), onde fundaram Bizâncio; Sicília (onde fundaram, entre outras, as cidades-estados de Siracusa e Agrigento) e no sul da Itália (Tarento, Síbaris, Crotona e Nápoles). As colônias gregas do sul da Itália e Sicília são conhecidas genericamente pelo nome de Magna Grécia.

As colônias mantinham estreitas ligações com as terras de origem dos colonos, ou seja, com as cidades-estados na própria Grécia.

A colonização grega no Mediterrâneo trouxe consigo diversas consequências, dentre as quais merecem destaque:

  • a helenização cultural de diversos pontos do Mediterrâneo.
  • um intenso desenvolvimento comercial entre as colônias e as cidades-estados da Grécia.

As colônias ficavam em regiões de solo fértil, portanto, tinham uma produção agrária diversificada e abundante, cujos excedentes eram exportados para a Grécia.

A crescente penetração, na Grécia, de produtos agrícolas coloniais determinou a decadência do sistema agrário tradicional. Inicialmente, os pequenos proprietários viram-se arruinados pela concorrência colonial; depois, a própria aristocracia teve seu poderio econômico abalado. As terras em mãos da aristocracia foram sendo progressivamente aproveitadas para o plantio da vinha e da oliva. Paralelamente, desenvolveu-se a produção do vinho e do azeite. Configurou-se, dessa forma, uma reciprocidade comercial: as colônias forneciam alimentos, a Grécia fornecia vinho e azeite.

O trato da vinha e da oliva exigia grandes contingentes de mão de obra, fato este que contribuiu para o crescimento da escravidão. Na Grécia, além do escravo obtido por conquista ou compra, havia o escravo por dívidas (o devedor que não podia pagar aquilo que devia era escravizado pelo credor como forma de pagamento). A escravidão por dívidas atingia, fundamentalmente, os pequenos proprietários de terra que, depois de perderem suas propriedades, acabavam perdendo a liberdade.

Verificamos que a colonização trouxe consigo um notável desenvolvimento comercial que serviu de estímulo para o incremento da vida urbana e, consequentemente, das atividades artesanais. A camada social constituída por indivíduos ligados a atividades urbanas (comércio, artesanato e funções liberais) viu-se fortalecida e multiplicou-se.

Resumindo: as necessidades da sociedade aristocrática grega levaram à ocorrência de uma colonização no Mediterrâneo; tal colonização desencadeou um desenvolvimento mercantil e uma crise agrária na Grécia; essa crise significou um enfraquecimento econômico e político da aristocracia; o desenvolvimento mercantil gerou um fortalecimento econômico e político das camadas sociais urbanas.

Na Grécia, nesse período (séculos VIII a VI a.C.) o poder econômico concentrava-se cada vez mais nas mãos das camadas urbanas, enquanto o poder político continuava monopolizado pela aristocracia fundiária. Tal contradição, somada às crescentes tensões sociais, serviu de vetor para uma série de transformações políticas que ocorreram nas cidades-estados gregas. Essas transformações políticas aconteceram sempre no sentido da evolução de uma oligarquia (governo de poucos) para uma democracia (governo de todos os cidadãos).

Os principais agentes dessa evolução política foram os legisladores e os tiranos. Os legisladores eram indivíduos nomeados pela aristocracia para realizarem reformas capazes de aliviar a tensão social e a contestação política. Os tiranos eram líderes que tomavam o poder pela força, geralmente com apoio popular; uma vez no poder, os tiranos realizavam reformas políticas e sociais mais ou menos profundas.

No Período Arcaico da história da Grécia (séculos VIII a VI a.C.), verificamos uma crescente urbanização econômica e, consequentemente, um deslocamento do poder político das mãos da aristocracia fundiária para as mãos das camadas urbanas. Só que tais processos não ocorreram da mesma forma e nem simultaneamente nas diversas cidades-estados gregas.

Cada cidade-estado (polis é o termo grego) da Grécia conheceu seu próprio processo evolutivo; duas delas, Esparta e Atenas, foram as mais notáveis e importantes poleis do Período Arcaico.

ESPARTA

Esparta conheceu um desenvolvimento e uma organização absolutamente singulares em relação às demais "polis" gregas. Essa cidade estava localizada no centro da planície da Lacônia, no fértil vale do rio Eurotas. Nos tempos pré-gregos, aí se desenvolvera a civilização mecênica que, por volta de 1200 a.C., fora conquistada pelos dórios.

A partir da ocupação da Lacônia, os dórios, que deram origem aos espartanos, através de uma série de guerras, foram conquistando os territórios vizinhos, dentre os quais o mais importante foi a planície da Messênia. O imperialismo continental foi uma das características dominantes da história de Esparta. Essa cidade quase não participou do movimento colonizatório grego no Mediterrâneo por ocupar uma região fértil. Seu expansionismo limitou-se ao território da própria Grécia. Essa é uma singularidade de Esparta.

Segundo a tradição, a organização sociopolítica e econômica de Esparta deve-se a uma "constituição", que teria sido elaborada por um personagem semilendário chamado Licurgo.

Na verdade, a organização espartana não é devida à obra de um único indivíduo e nem foi estabelecida de uma só vez. Ela é resultado de reformas que foram realizadas desde a origem da polis até, mais ou menos, o século VI a.C., quando adquiriu sua feição definitiva.

Em seus moldes finais, a sociedade espartana estava estratificada da seguinte maneira:

Espartanos ou Espartíatas. Camada que agregava todos os indivíduos que possuíam direitos políticos; provavelmente, os espartíatas eram os descendentes dos dórios que haviam conquistado a Lacônia e dado origem à polis de Esparta.

Hilotas

Camada constituída de escravos do Estado que descendiam, provavelmente, dos primitivos habitantes da Lacônia (aqueles que a ocupavam quando houve a invasão dos dórios).

Periecos

Camada composta de indivíduos livres que viviam sob a dominação política dos espartíatas e se dedicavam ao artesanato e à exploração de pequenas propriedades agrárias. Os periecos eram, provavelmente, descendentes dos povos que foram sendo vencidos por Esparta através de suas guerras.

Os espartíatas, além de serem os únicos a possuir direitos políticos, eram submetidos a um regime especial de vida: o homem espartíata era fundamentalmente um soldado e sua mulher era mãe de outros espartíatas. Para que pudessem ser soldados, os espartíatas tinham sua manutenção, bem como a de suas famílias, assegurada pelo Estado. Cada espartíata, ao completar sua educação militar, recebia do Estado um lote de terra e uma ou mais famílias de hilotas que trabalhavam na terra e produziam o suficiente para a manutenção do espartíata, de sua mulher (também uma espartíata) e de seus filhos.

É interessante notar que a sociedade espartíata era absolutamente democrática (todos tinham exatamente os mesmos direitos), os meios de produção pertenciam ao Estado, ou seja, não havia propriedade privada dos meios de produção entre os espartíatas.

Os hilotas, como já dissemos, pertenciam ao Estado e eram cedidos aos espartíatas para serem utilizados exclusivamente pelos cidadãos, sendo que seu trabalho era basicamente aproveitado no trato da terra.

Os periecos, como homens livres, podiam possuir suas próprias terras ou seus próprios meios de trabalho e sobrevivência. Eram obrigados a pagar tributos para o Estado e a prestar serviço militar, quando convocados.

A organização política de Esparta também era singular, em relação às demais existentes na Grécia.

O poder político espartano era exercido nos seguintes termos:

  • A Diarquia era constituída por dois reis que representavam as duas famílias mais importantes de Esparta (os Europôntidas e os Agíadas) e que exerciam funções religiosas e militares.
  • A Gerúsia era uma assembleia formada por vinte e oito anciões, recrutados dentre as famílias mais tradicionais, e mais os dois reis; a Gerúsia funcionava como um tribunal julgando os infratores da lei.
  • A Apella era a assembleia de todos os cidadãos; suas funções eram praticamente ilimitadas; era o órgão que tomava todas as decisões em última instância.
  • O Eforado, ou Conselho dos Cinco Éforos, principal órgão executivo do governo, era formado por cinco cidadãos, eleitos anualmente pela Apella, que deviam fiscalizar a observação da Constituição e das leis.

Nos parâmetros dessa organização política, o que verificamos de fato é que os cinco éforos eram os reais detentores do poder e, exatamente por isso, eram trocados todos os anos para que não houvesse a possibilidade de um indivíduo ou um grupo de indivíduos monopolizar o poder em caráter permanente.

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Sumário

- A Civilização Egeia
- A Civilização Micênica
- A Grécia Arcaica
- Esparta
- Atenas
- Cultura Grega
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