A Querela das Investiduras

A Querela das Investiduras foi um acontecimento de grande importância ocorrido durante a Idade Média: um movimento no qual a Igreja protestava contra a nomeação de bispos e papas pelo imperador. A investidura era a ação de nomear clérigos para cargos importantes. A partir do século X, iniciaram-se movimentos de reforma dentro da esfera eclesiástica que exigiam mais autonomia política à Igreja. Essas exigências se chocaram com os interesses do Sacro Império Romano-Germânico, ocasionando o movimento denominado Querela das Investiduras.

Como já vimos anteriormente, com a extinção da Dinastia Carolíngia na França Oriental, os duques da Francônia, Saxônia, Suábia e Baviera fundaram o Reino Germânico, que era uma monarquia eletiva, cujo rei era um dos quatro duques eleitos pelos demais. Interessa-nos destacar o governo de Oto I, iniciado em 936. O fato de haver vencido os húngaros, detendo o seu avanço sobre o Reino Germânico, deu-lhe um imenso prestígio, não só ao nível de seu reino, mas também ao nível de todo o Ocidente, tanto que o Papa João XII, em 962, em Augsburgo, sagrou-o Imperador do Ocidente. Mais uma vez, restabelecia-se o Império Romano do Ocidente, desta vez com o nome de   Sacro Império Romano-Germânico.

A partir de sua investidura imperial, Oto I iniciou um processo de crescente intervenção nos assuntos da Igreja, já que esse era o caminho mais viável para que ele pudesse controlar os duques germânicos. À medida que a Igreja lhe era um instrumento útil, Oto I procurou fortalecê-la através da ampliação dos domínios territoriais controlados pelo clero, sendo que os titulares desses domínios, ou seja, os bispos e os abades, recebiam do Imperador o poder religioso e o poder temporal, sendo que essa transmissão de poder, da forma pela qual era realizada, recebia o nome de Investidura Leiga.

Em função de seu fortalecimento através do apoio da Igreja, Oto I acabou por fazer com que o poder imperial, que deveria ser eleito, passasse a ser na prática hereditário.

Devido à intervenção do poder leigo na vida religiosa, esta tendeu a se secularizar. Cada vez mais o clero alemão envolvia-se com a vida mundana e relegava a prática religiosa a segundo plano. Esse desregramento do clero recebeu o nome de Nicolaísmo.

Outra disfunção que surgiu no seio da Igreja foi a prática da Simonia, que consistia na venda de objetos sagrados, de bens da Igreja e mesmo de cargos eclesiásticos.

A partir do século XI, o Movimento de Cluny, com suas propostas reformistas, já havia ultrapassado os limites do clero regular e voltava-se para o clero secular. No Sacro Império, os adeptos de Cluny lutavam basicamente contra o Nicolaísmo, a Simonia e, consequentemente, contra a Investidura Leiga, uma vez que esta era a principal responsável por aqueles fenômenos.

A partir da configuração dessa problemática, que recebeu a designação de Querela das Investiduras, formaram-se duas facções distintas: o partido imperial, que apoiava o "status quo", e o partido reformista, cujos membros eram adeptos do Movimento de Cluny.

O partido reformista encontrava adeptos em toda a Europa e se fortalecia a cada vitória das ideias de Cluny. Foi assim com a instituição da Trégua de Deus, deliberação da Igreja segundo a qual apenas durante noventa dias por ano poderiam ser realizadas lutas e guerras. O objetivo dessa medida era conter o alto nível de belicosidade que grassava na Europa e atingia, inclusive, amplos setores do clero.

O passo decisivo para a colocação em prática das reformas propostas pelo Movimento de Cluny foi a eleição do monge Hildebrando, da Ordem de Cluny, para a função pontífice, em 1073.

Hildebrando adotou o nome papal de Gregório VII e de imediato determinou a realização de diversas reformas na Igreja: instituiu o celibato clerical e, proibiu a Investidura Leiga.

Essas medidas de Gregório VII atingiam frontalmente as estruturas do Sacro Império e por isso o Imperador Henrique IV reagiu energicamente.

Henrique IV pretendeu depor o Papa que, por sua vez, considerou o Imperador deposto, excomungou-o e proibiu todos os vassalos de prestarem serviços ao Imperador, sob pena de excomunhão.

A reação de Gregório VII, bem como o apoio que ele recebeu, colocou em xeque a situação do Imperador, que por isso tentou reconciliar-se com o Papa. Para tanto, peregrinou até o Castelo de Canossa, onde estava o Papa, pediu perdão e foi perdoado; estávamos no ano de 1077.

Simultaneamente a esses acontecimentos, os opositores de Henrique IV elegiam no Sacro Império um novo Imperador, Rodolfo, o Duque da Suábia. Para retomar a integridade de seus poderes, Henrique IV teve de lutar até 1080, ano em que Rodolfo morreu. Sentindo-se fortalecido, Henrique IV invadiu a Itália e foi excomungado novamente por Gregório VII. O Papa enfrentou os exércitos imperiais com o apoio normando que, entretanto, aproveitaram-se da situação e saquearam Roma, obrigando o Papa a fugir para Salerno, onde morreu depois.

Henrique IV indicou o Bispo de Ravena para o cargo pontifício e este, uma vez investido no trono da Santa Sé, adotou o nome de Clemente III.  Ao mesmo tempo, no exílio, era eleito um Papa como sucessor de Gregório VII. Este foi um primeiro Cisma na Igreja do Ocidente: havia simultaneamente dois Papas.

Essa situação só foi resolvida pela Concordata de Worms, assinada em 1122, pelo Papa Calixto III e o Imperador Henrique V, estabelecendo que seria competência papal a investidura espiritual dos bispos e abades e seria competência imperial a investidura temporal dos mesmos.


Henrique V

Com a decisão da Concordata de Worms, fugia aos imperadores o controle do clero e, consequentemente, da Igreja, sendo que sem esse controle o Imperador deixava de possuir mecanismo para sujeitar os duques. Por outro lado, significativa parcela das terras do Sacro Império passava para as mãos da Igreja. Diante desse fato, teve início o período de supremacia política do papado sobre os poderes leigos europeus.

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