A Primeira Grande Guerra

FATORES 

Luta pelos Mercados

Não iremos aqui retomar o estudo referente à Revolução Industrial: já sabemos que a existência de um mercado consumidor de vulto justifica a transferência de parte dos lucros comerciais para a área de produção. Sabemos também que o mercado consumidor interno, devido à filosofia empresarial da época ("o lucro vem primordialmente devido aos baixos custos e, portanto, não é compensador remunerar-se melhor os empregados"), podia ser considerado quase fixo, tendo a massa proletária poder aquisitivo muito baixo.

  • Sobram os mercados externos, e é para eles que as nações produtoras vão dirigir-se vorazmente. Tais mercados externos podem ser divididos em dois grandes grupos:
  • das colônias, regiões dominadas política, econômica e  militarmente pela metrópole (país industrializado e em busca de mercado).
  • dos países que não podiam ser colonizados. Neste caso, o domínio se restringiria à área econômica e, através dela, à área política.

É esse o sistema de domínio conhecido como imperialismo. Certos países europeus eram colonialistas e/ou imperialistas (o melhor exemplo é a Inglaterra). Outros, todavia, em fase crescente de industrialização, buscavam por todas as formas impérios coloniais ou, pelo menos, zonas de influência econômica.

A Rivalidade Industrial entre a Alemanha e a Inglaterra

A Alemanha, após a fundação do Império em 1871, atravessou um período de grande desenvolvimento econômico. Em 1914, estava produzindo mais ferro e aço que a Inglaterra e a França juntas. Em produtos químicos, corantes de anilina e na manufatura de instrumentos científicos, achava-se à frente do mundo inteiro. Os produtos da sua indústria desalojavam os congêneres ingleses de quase todos os mercados da Europa Ocidental, bem como do Extremo Oriente e da própria Inglaterra.

Há indícios de que certos interesses britânicos começavam a alarmar-se seriamente com a ameaça da competição alemã. Conquanto essa opinião não fosse nem oficial, nem representativa do pensamento da nação como um todo, refletia a exasperação de alguns cidadãos influentes.

Depois de 1900, o ressentimento diminuiu por algum tempo, mas tornou a inflamar-se nos anos que precederam o deflagrar da guerra. Parecia reinar a forte convicção de que a Alemanha estava movendo à Inglaterra uma guerra econômica deliberada e implacável, visando tomar-lhe os mercados por meios fraudulentos e escorraçar os seus navios dos mares. Permitir que a Alemanha saísse vitoriosa dessa luta, significaria para a Inglaterra o fim de sua prosperidade e uma grave ameaça à sua existência nacional. Os cidadãos britânicos, que se preocupavam com tais assuntos, viam a sua pátria como vítima inocente da agressividade alemã e sentiam-se plenamente justificados em tomar quaisquer medidas que se fizessem necessárias para defender a sua posição.

O Nacionalismo

O MOVIMENTO PELA GRANDE SÉRVIA

Desde o começo do século XX, a Sérvia sonhava estender a sua jurisdição sobre todos os povos que passavam por ser da mesma raça e cultura que os seus próprios cidadãos. Tais povos habitavam as províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina e algumas províncias meridionais da Áustria-Hungria. Entretanto, em 1908, o Império Austro-Húngaro dá um golpe de morte nas pretensões sérvias, anexando a Bósnia e a Herzegovina. A partir daí, a Sérvia passará a instigar os nacionalistas eslavos da Áustria, ocorrendo uma série de conspirações contra a paz e a integridade da Monarquia Dual, e o clímax fatídico dessas conspirações será o assassínio do herdeiro do trono austríaco.

O PAN-ESLAVISMO

Baseava-se na teoria de que todos os eslavos da Europa Oriental constituíam uma grande família. Argumentava-se, por conseguinte que a Rússia, como o mais poderoso dos Estados eslavos, deveria ser guia e protetora das suas pequenas irmãs dos Bálcãs. O pan-eslavismo não era apenas o ideal interessado de alguns nacionalistas ardentes, mas fazia verdadeiramente parte da política oficial do governo russo.

O PANGERMANISMO

Baseado num papel pacificador do povo alemão e numa pretensa superioridade da raça ariana, esse movimento visava a incorporação de todos os povos teutônicos da Europa Central. Muitos além da simples união Alemanha e Áustria-Hungria, o pangermanismo desejava a anexação, ou pelo menos, tornar "zonas de influência" países como a Bulgária e a Turquia.

O "REVANCHISMO" FRANCÊS

Desde 1870, só se falava, na França, em vingança da derrota sofrida na guerra Franco-Prussiana. Desde Émile Zola, o famoso escritor, até o político Poincarè, era voz comum que a "revanche" não podia tardar, fato ainda agravado pela perda das ricas regiões em carvão e ferro da Alsácia e Lorena. Por volta de 1914, essa ideia era fortemente combatida pelos socialistas e por muitos líderes liberais.

O Sistema de Alianças

O sistema de alianças múltiplas remonta à década de 1870 e seu arquiteto inicial foi Bismarck. Os objetivos do Chanceler de Ferro eram pacíficos. A Prússia e os aliados alemães tinham saído vitoriosos da guerra com a França e o recém-criado Império Germânico era o Estado mais poderoso do continente. Almejava Bismarck, acima de tudo, preservar os frutos dessa vitória. Não obstante, perturbava-o o receio de que a França pudesse iniciar uma guerra de desforra. Era pouco provável que tentasse sozinha tal coisa, mas fazê-lo auxiliada por uma outra potência. Consequentemente, Bismarck resolveu isolar a França, ligando todos os seus possíveis amigos à Alemanha.

Assim, para enfrentar todas as possíveis reações francesas, Bismarck prosseguiu nos preparativos de ordem militar, cogitando estabelecer um sistema de alianças preventivas para garantir as aquisições  territoriais alemãs e as vantagens econômicas resultantes. Da Áustria, que a Prússia expulsou da Alemanha em 1866, era essencial obter o esquecimento do passado. Da Rússia, cujas ambições balcânicas deviam ser respeitadas, era essencial não despertar a atenção para reivindicações pró-germânicas dos barões das províncias balcânicas ocidentais. Era, pois, necessário à diplomacia alemã estar em condições de controle da política da Rússia e da Áustria-Hungria, para desanimar qualquer tentativa francesa de revanche.

Foi nessas condições que nasceu o plano diplomático, designado sob o nome de sistema de Bismarck, que consistiu em ligar as duas monarquias da Europa Central ao Império russo. Resultaram as negociações em um acordo germano-russo e em acordo austro-russo ao qual aderiu a Alemanha. A habilidade bismarckiana no caso era levar a Rússia e a Áustria, cuja rivalidade nas questões balcânicas era patente e inconciliável, a concluírem uma convenção que submetia todo e qualquer litígio a uma consulta pessoal entre os dois soberanos. Constituiu-se, desse modo, a Aliança dos Três Imperadores.

Essa situação diplomática, incontestável vitória de Bismarck, não se revelava nem sólida, nem estável. De fato, era de maior interesse para a Alemanha manter a seu lado a Áustria-Hungria do que a Rússia de Alexandre II. Por isso, quando os acontecimentos dos Bálcãs estremeceram as relações austro-russas em 1878, Bismarck não hesitou em aproveitar para concluir, em 1879, uma aliança defensiva com a Áustria, secretamente contra a Rússia. O Kaiser Guilherme tinha-se oposto à semelhante combinação contra o Czar, mas a ameaça de Bismarck de se demitir o levou a assinar o pacto.

Extinta a Liga dos Três Imperadores, Bismarck cimentou uma nova aliança, agora muito mais forte, com a Áustria. Em 1882, essa parceria expandiu-se na célebre Tríplice Aliança, com a adesão da Itália. O governo de Roma ofereceu sua aliança às potências centrais em decorrência do despeito ao fato de ter a França anexado à Tunísia (1881) um território que considerava como legitimamente seu. Sacrificavam os italianos os seus sentimentos nacionalistas, desistindo de suas esperanças de recuperar as populações italianas do Trentino austríaco. Em compensação, obtinham da dupla monarquia católica o compromisso de não despertar a questão romana em favor da Santa Sé.

Entre 1890 e 1907, a Europa passou por uma revolução diplomática, que aniquilou, praticamente, a obra de Bismarck. É verdade que a Alemanha ainda tinha a Áustria a seu lado, mas perdera a amizade tanto da Rússia quanto da Itália, ao mesmo tempo que a Inglaterra saíra de seu isolamento para entrar em ajustes com a Rússia e a França. Esse deslocamento do equilíbrio de poderes teve resultados fatídicos: convenceu os alemães de que estavam rodeados por um anel de inimigos e, portanto, tinham de fazer o que estivesse ao seu alcance para conservar a lealdade da Áustria, ainda mesmo que fosse preciso prestar apoio às temerárias aventuras dessa no estrangeiro.

Não é necessário procurar muito longe as causas dessa revolução diplomática. Em primeiro lugar, desavenças entre Bismarck e o novo Kaiser, Guilherme II, determinaram o afastamento do chanceler em 1890. Seu sucessor, o conde Caprivi, estava interessado principalmente numa tentativa de cultivar a amizade da Inglaterra e, por isso, deixou caducar o tratado com a Rússia. Em segundo lugar, o desenvolvimento do pan-eslavismo na Rússia colocou o império do Czar em conflito com a Áustria e a Rússia; a Alemanha muito naturalmente preferiu a primeira. Uma terceira causa do abandono do isolacionismo pela Inglaterra, mudança essa devida a várias razões: uma delas foi a preocupação pelo crescente poder econômico da Alemanha; outra, o fato de terem os ingleses e os franceses descoberto, por volta de 1900, uma base de cooperação para a partilha da África do Norte. Uma última causa da revolução diplomática foi a mudança de atitude da Itália em relação à Tríplice Aliança. Pelas alturas de 1900, estavam os republicanos franceses consolidados no poder, não tendo, pois, a Itália mais do que temer uma intervenção monárquico-clerical em favor do papa. Além disso, a maioria dos italianos tinha-se conformado com a perda da Tunísia e tratava apenas de reaver os territórios em poder da Áustria e de ganhar o apoio da França para a conquista de Trípoli. Por essas razões, a Itália perdeu o interesse em manter a lealdade à Tríplice Aliança.

O primeiro resultado importante da revolução diplomática foi a Tríplice "Entente". Chegou-se a ela por uma série de estágios. Em 1890, a Rússia e a França iniciaram uma aproximação política que aos poucos amadureceu numa aliança. Essa aliança dual entre a Rússia e a França foi seguida pela "Entente Cordiale" entre a França e a Inglaterra. Durante as duas últimas décadas do século XIX, ingleses e franceses haviam tido amiudadas e sérias alterações a respeito de colônias e comércio. As duas nações quase chegaram a vias de fato em 1898, em Fachoda, no Sudão Egípcio. Subitamente, porém, a França abandonou todas as suas pretensões na África e iniciou negociações para um entendimento amplo em relação a outras contendas.

Por essa política de aliança, vê-se que em 1907 a Europa estava dividida em dois grupos antagônicos: de um lado, o da "Tríplice Entente": França, Rússia e Inglaterra. Enquanto, porém, essa última ia em vias de desenvolvimento, a primeira foi muito enfraquecida pela defecção da Itália. Em 1900, o governo italiano firmou um acordo secreto com a França, estipulando que em troca da liberdade de ação em Trípoli a Itália se absteria de qualquer interferência nas ambições francesas no Marrocos. Em 1902, os dois países concluíram outro pacto, secreto, pelo qual cada um se comprometia a manter a neutralidade em caso de ataque por uma terceira potência. Assim, a obrigação italiana anterior, decorrente da Tríplice Aliança, de ajudar a Alemanha no caso de um ataque francês ficava praticamente anulada. O auge da deslealdade foi alcançado pela Itália no "Acordo de Racconigi" de 1909, com a Rússia. Por esse acordo, o governo de Roma prometia "encarar com benevolência" as pretensões russas ao controle dos estreitos e de Constantinopla, em troca do apoio diplomático à conquista de Trípoli.

Política da Paz Armada

Segundo a política bismarckiana, Guilherme II continuou a desenvolver as forças militares terrestres alemãs, dedicando somas enormes a material de guerra; anexou, ainda, a tudo isso, os armamentos marítimos que o governo anterior havia desprezado. O almirante Tirptz construiu em pouco tempo uma possante frota de guerra, a segunda do mundo, depois da inglesa.

De medíocre país agrícola que era antes de 1870, a Alemanha foi aos poucos tornando-se uma das grandes potências econômicas do mundo. Isso porque resolveu dedicar-se ao setor industrial, valendo-se da riqueza mineral do seu subsolo e da abundância de mão de obra. O comércio alemão se desenvolveu de tal forma que Hamburgo se tornou o primeiro porto do Continente Europeu. Para vencer a batalha comercial, aprimoraram seus métodos, fazendo com que seu efetivo da marinha mercante tivesse perfeito conhecimento de línguas estrangeiras, senso prático e paciência. Procuraram, por outro lado, aprimorar, cada vez mais, as mercadorias que vendiam.

Os progressos obtidos em todos os setores não bastaram à sempre crescente ambição alemã. A formação da Liga Pangermanista tornou-se uma ameaça mundial, daí a chamada política da paz armada seguida por vários países. Esses passaram à semelhança da Alemanha, a aumentar seus armamentos, tornando obrigatório o serviço militar, elaborando planos de mobilização geral etc. Por outro lado, a diplomacia secreta mantinha a atmosfera de suspeita entre as potências.

Nessa época, o czar Nicolau II empreendeu uma viagem por vários países da Europa: visitou a Áustria, a Alemanha, a Inglaterra e a França. Aos governos destes países, fez ver que seguiria uma política de paz, convidando-os então para uma conferência destinada a estudar a limitação de armamentos. Eis a origem da Conferência de Haia em 1899. A Alemanha e a Inglaterra recusaram-se a aceitar essa questão sobre os armamentos, dando, assim, continuidade à política da paz armada.

As Crises do Marrocos

A crise marroquina nasceu de um choque de interesses econômicos franceses e alemães. No começo do século XX, era o Marrocos um país independente, governado por um sultão. Seu território, porém, era relativamente rico em minerais e produtos agrícolas, que as nações europeias cobiçavam. O que despertava principalmente a cupidez dos franceses e alemães eram as jazidas de ferro e manganês e as excelentes oportunidades de comércio.

Em 1880, as principais potências do mundo haviam assinado a Convenção de Madrid, estabelecendo que os representantes de todas as nações teriam privilégios econômicos iguais no Marrocos.

Os franceses, contudo, não se satisfizeram por muito tempo com tal combinação. Em 1903, o seu comércio marroquino ultrapassava o de qualquer outro país e a França almejava nada menos que um monopólio. Além disso, cobiçavam o Marrocos como uma reserva de tropas e como um baluarte na defesa da Argélia. Por conseguinte, em 1904, a França entrou em acordo com a Inglaterra para estabelecer uma nova ordem no território do sultão. Segundo os artigos secretos do acordo, em época oportuna, o Marrocos seria desmembrado: uma pequena parte fronteira a Gibraltar seria dada à Espanha e o resto caberia à França. A Grã-Bretanha tinha como recompensa a liberdade de ação no Egito.

Foi esse acordo de 1904 que precipitou a encarniçada disputa entre a França e a Alemanha. Em 1905, os alemães resolveram obrigar a França a desistir de suas pretensões sobre Marrocos, ou então oferecer compensações. O Chanceler Bulow induziu o Kaiser a desembarcar no porto marroquino de Tânger e pronunciar ali um discurso, declarando que a Alemanha estava pronta para defender a independência do território. O resultado foi uma crise que levou a Europa a dois passos da guerra.

A fim de resolver a disputa, reuniu-se, em 1906, a Conferência Internacional de Algeciras; embora confirmasse a soberania do sultão, a conferência reconhecia ao mesmo tempo os interesses especiais da França nos domínios daquele: esse resultado convinha, admiravelmente, aos franceses, que podiam agora penetrar na terra dos mouros sob o manto da legalidade.

Em 1908, deu-se uma segunda crise e, em 1911, uma terceira, ambas resultantes de tentativas dos alemães para proteger o que consideravam seus legítimos direitos no Marrocos. A terceira crise foi de particular importância devido à atitude positiva assumida pelos ingleses. Em julho de 1911, David Lloyd George, no seu célebre discurso da prefeitura de Londres, virtualmente ameaçou de guerra a Alemanha se esta tentasse estabelecer uma base na costa marroquina.

A controvérsia em torno de Marrocos foi resolvida nos fins de 1911, quando a França concordou em ceder uma porção do Congo Francês à Alemanha. Nenhuma das partes, todavia, esqueceu os ressentimentos, nascidos da contenda. Os franceses afirmavam terem sido vítimas de uma chantagem pela qual lhes foi arrebatado um território valioso. Os alemães alegavam que a porção do Congo cedida pela França não era compensação suficiente para a perda dos privilégios econômicos em Marrocos.

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Sumário

- Fatores
i. Luta pelos Mercados
ii. A Rivalidade Industrial entre a Alemanha e a Inglaterra
iii. O Nacionalismo
iv. O Sistema de Alianças
v. Política da Paz Armada
vi. As Crises do Marrocos
- A Causa Imediata da Guerra
- O Conflito Armado
i. A Guerra do Movimento
ii. A Fase da Guerra das Trincheiras
iii. A Volta à Guerra de Movimento (1918)
- Os Tratados do Pós-Guerra
i. O Tratado de Versalhes
ii. Outros Tratados
- Consequências da I Guerra Mundial
i. Econômicas
ii. Políticas
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