A igreja na Era Medieval

É costume dividir o período medieval em duas grandes fases: a Alta Idade Média, que se estende do século V ao século XI e a Baixa Idade Média, do século XII ao século XV. Se o nosso atual objetivo é estudar a Igreja na Alta Idade Média, pretendemos verificar sua história no período compreendido entre o século V e o XI.

Não é possível analisar a Igreja se nós não a considerarmos como uma instituição inserida em uma determinada realidade sociopolítico econômica. Por outras palavras, a realidade da Igreja é sempre condicionada à realidade do universo social do qual ela faz parte.

É importante que não façamos confusão entre o que entendemos por Igreja e o que chamamos de Religião. Uma religião é um corpo doutrinário voltado para o culto de um ou de alguns deuses. A Igreja é uma instituição social que tem como objetivo primordial a prática de uma religião, mas que como qualquer instituição social tem uma realidade material de existência.

Face ao raciocínio acima, podemos entender que na Alta Idade Média o eixo gravitacional da vida da Igreja estava no campo e não na cidade, uma vez que a Europa conhecia um efetivo processo de ruralização econômica e, consequentemente, era no campo que encontrávamos as maiores parcelas da população europeia.

A Igreja, que em suas origens atuava apenas na esfera espiritual, aos poucos foi passando a atuar também na esfera temporal. Ao longo da Alta Idade Média, a Igreja foi acumulando vastos domínios territoriais, até chegar ao ponto de ser a maior proprietária de terras da Europa (ela chegou a possui cerca de um terço do total das terras da Europa). Face aos domínios da Igreja, os bispos e abades eram vistos como alguns dos principais senhores feudais da Europa.

Era tamanho o nível de acumulação de riquezas nas mãos da Igreja, à qual, nas épocas de calamidade pública, os menos favorecidos recorriam em busca do provimento de suas necessidades mínimas.

Durante a Alta Idade Média, a Igreja tinha também um verdadeiro monopólio da cultura. Era junto ao clero que os grandes senhores europeus recrutavam seus notários, secretários e chanceleres, sendo que essa realidade fez com que a Igreja passasse a ter notável ascendência na administração geral e financeira dos estados medievais.

Nos primórdios da Igreja, a autoridade do Papa (Bispos de Roma) não era maior do que a dos Patriarcas (Bispos de Jerusalém, Antioquia, Alexandria e Constantinopla). Aliás, isso foi matéria definida pelo Concílio de Niceia, em 325. O que acontecia é que o Bispo de Roma gozava de maior prestígio que os demais, em função de ser considerado o sucessor de São Pedro, que fora incumbido por Jesus Cristo de edificar a Sua Igreja.

Foi durante o pontificado de Leão I (440 a 461) que se estabeleceu a primazia do Bispo de Roma. Em 455, o Imperador Valentiniano III promulgou o édito de Supremacia Papal, que confirmava o Papa como suprema autoridade da Igreja no Império Romano do Ocidente.

Gregório I, Papa de 590 a 604, foi o grande consolidador da supremacia papal. Aproveitando-se da falência do poder temporal na Itália, Gregório I assumiu o verdadeiro papel de soberano da cidade de Roma; além disso, unificou sob sua autoridade todos os bens da Igreja e fez com que cessasse a influência do Império Bizantino sobre a Igreja. Desenvolveu uma política de conversão dos povos germânicos do Ocidente (principalmente os visigodos, os suábios e os lombardos).

Gregório I encarregou o monge Agostinho de liderar um grupo de sacerdotes, cujo objetivo era a conversão dos jutos, anglos e saxões que viviam na Bretanha. Em 596, foi fundado o Bispado de Canterbury, o primeiro da ilha.

Gregório I escreveu diversas obras, dentre as quais a mais importante foi a "Regra Pastoral", cujo objetivo era a fixação de um código de conduta para os sacerdotes e que acabou exercendo forte influência sobre o clero durante toda a Idade Média. Ele também compôs hinos religiosos através dos quais introduziu o cantochão ou canto gregoriano na música sacra.

Os sucessores de Gregório I fixaram como sua atividade primordial a continuidade de ação de conversão dos povos bárbaros germânicos. Até o final do século VII, toda a Heptarquia Juto-anglo-saxônica já estava convertida. Na Germânia, São Bonifácio realizou a conversão final dos remanescentes pagãos e, além disso, reorganizou a Igreja dos francos, fazendo com que os seus bispos jurassem obediência ao Papa.

Em suma, verificamos que, em meados do século VIII, toda a Europa Ocidental e Central já estava cristianizada e obedecia à Igreja de Roma, personificada no Papa.

A partir do recebimento do Patrimônio de São Pedro, em 756, o poder temporal do papado cresceu muito, sendo que esse poder temporal era justificado pelos Papas através de um documento falso, o "Donatio Constantini",   segundo o qual o Imperador Constantino teria concedido ao papado não só a Itália, mas todo o Ocidente. Dessa forma, o Papa seria o suserano supremo de todas as terras que haviam pertencido ao Império Romano no Ocidente.

Na época de Carlos Magno, a autoridade temporal dos Papas foi eclipsada pelo fato de o Imperador se considerar como sacerdote e por isso interferir profundamente na vida da Igreja, mas após sua morte a situação foi invertida, ou seja, verificamos uma crescente influência do papado nos assuntos leigos das monarquias carolíngias.

A partir do século IX, o papado começou a influir decisivamente inclusive na escolha dos bispos, que, embora fossem eleitos pelo clero e pelo povo, deviam confirmar sua eleição junto ao Papa.

À medida que a comunidade cristã crescia, a estrutura organizacional da Igreja ia ficando cada vez mais complexa. É nesse contexto que foi criada a Cúria Romana, que funcionava como uma verdadeira secretaria geral da Igreja. A partir de 1059, os cardeais passaram a se reunir em um Conclave toda vez que era necessário escolher um novo Papa.

A complexidade administrativa gerou grandes despesas para a manutenção da Igreja e, nesse sentido, foi criado o Fisco Pontifical, que centraliza os recursos e as riquezas auferidas pela Igreja através de suas diversas fontes: os resultados da exploração dos domínios territoriais da Igreja; os impostos pagos pelos  Estados que se consideravam vassalos de Santa Sé; a "esmola de São Pedro" que era cobrada aos fiéis em alguns países; e, principalmente através das numerosas taxas que eram cobradas pela Igreja, devido aos serviços que prestava.

Durante a Alta Idade Média, verificamos um grande desenvolvimento do Clero Regular, cujos membros obedecem a uma mesma regra religiosa. Os sacerdotes do Clero Regular são os monges que, nas suas origens, viviam isolados em mosteiros ou conventos. O conjunto de monges que obedecem a uma mesma regra forma uma Ordem Religiosa.

Em suas origens, o monasticismo (cenobitismo ou vida monástica) era uma tentativa de preservar os elementos característicos do cristianismo primitivo diante da crescente secularização (inserção no "seculum", ou seja, na vida cotidiana laica) da vida eclesiástica.

Os primórdios do clero regular são encontrados no Egito e na Síria, sendo que o seu primeiro fato notável foi, por volta do ano 300, a retirada de Antonio para o deserto. E o primeiro mosteiro foi fundado por Pacônio, que viveu de 292 a 346. No século IV, a vida monástica já se tornara uma prática usual em todo o Oriente. A partir da tradução para o latim da obra A vida de Antonio, em 370, o monasticismo começou a se difundir pelo Ocidente.

Em 529, Bento de Núrsia (São Bento) fundou um mosteiro em Monte Cassino na Itália e organizou uma regra própria para os seus monges. Essa regra (a Regra de São Bento) estabelecia que os monges:

  • deveriam levar uma vida  comunitária no mosteiro.
  • deveriam viver de acordo com os "Três votos" (pobreza, castidade e obediência), a obediência seria devida ao Abade (chefe do mosteiro), que seria eleito pelos monges.
  • deveriam conciliar oração e trabalho para evitar um ascetismo exagerado.
  • tinham a obrigação de hospedar os peregrinos e os  viajantes no mosteiro.
  • deveriam ocupar-se com os pobres e com o ensino.

A regra de São Bento acabou servindo de modelo para a organização de todo clero regular do Ocidente. Dadas as características de vida dos mosteiros, especialmente o fato de em cada um existir uma escola, fez com que eles se tornassem os principais centros de cultura da Idade Média. As bibliotecas dos mosteiros praticamente reuniam a totalidade das grandes obras dos grandes autores da Antiguidade.

Era inevitável que cada mosteiro ficasse nos domínios de um grande senhor feudal. Por isso, o poder temporal logo começou a interferir na escolha dos abades e, em função dessa crescente intervenção, começaram a surgir os movimentos reformistas, dentre os quais o mais notável foi o que surgiu no Mosteiro de Cluny, que fora fundado em 910, pelo Abade Bernon com objetivo maior de afastar toda e qualquer forma de interferência do poder temporal na vida dos mosteiros.

O movimento do Cluny fez com que os mosteiros passassem para a jurisdição direta do Papa; a disciplina voltou a ser rigorosa e restabeleceu-se a plenitude da autoridade dos abades. Esse movimento chegou a agregar cerca de duzentos mosteiros que reconheciam a autoridade do Abade de Cluny.

Dentre as outras Ordens Religiosas surgidas no contexto desse movimento reformista, podemos destacar a dos Cartuxos, que surgiu em 1084 e foi fundada por Bruno de Colônia, e a Cister, fundada em 1098.

Um último aspecto da história da Igreja na Alta Idade Média é o da sua relação com o poder temporal. Essa relação teve início quando Teodósio transformou o cristianismo em religião do Império Romano.

A partir de então, o Estado conferia sua proteção e estímulo à Igreja, que em troca legitimava o poder do Estado à medida que sagrava o Imperador, cujo poder passava a ser considerado de origem divina. Dado esse relacionamento, era fundamental ao Império poder gerir, pelo menos parcialmente, os assuntos da Igreja. É nesse contexto que entendemos o surgimento do Cesaropapismo.

Com o esfacelamento do Império Romano do Ocidente, verificamos que a Igreja passou a buscar sua proteção junto ao Reino Franco, sendo que essa proteção acabou custando uma forte influência do poder temporal no seio do papado.

Apenas no final da Alta Idade Média a Igreja conseguiu começar a se libertar dessa influência política e iniciar um período de supremacia do poder espiritual sobre o poder temporal, sendo que essa nova realidade se estenderia por toda a Baixa Idade Média.

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