A Crise de 1929

A Crise de 1929

As democracias mais importantes do mundo - Estados Unidos, Grã-Bretanha e França - enfrentaram grandes desafios após a Primeira Guerra Mundial. Apesar das dificuldades econômicas, essas nações não adotaram políticas extremistas e administraram seus problemas sem modificar a forma de governar.

Os Estados Unidos

Após a Primeira Guerra Mundial, o povo dos Estados Unidos não apoiou o plano de paz do Presidente Wilson. O Senado não ratificou o Tratado de Versalhes, e o país não ingressou na Liga das Nações. Os norte-americanos queriam desfrutar de sua prosperidade e evitar se envolver em assuntos europeus.

Em 1920, a economia norte-americana prosperava, em parte devido às novas invenções e métodos de produção desenvolvidos nos Estados Unidos. Pouco antes da Guerra, Henry Ford implantou a linha de montagem permitindo que a indústria automobilística construísse carros com maior rapidez e economia. Entre 1919 e 1929, o número de carros norte-americanos produzidos quase quadruplicou.


Henry Ford

As linhas de montagem eram usadas para fabricar uma grande variedade e quantidade de bens de consumo. Aspiradores de pó, telefones, geladeiras, máquinas de lavar e rádios tornaram-se comuns nos lares norte-americanos. Os lucros do comércio cresceram, e o padrão de vida melhorou para muitas pessoas.

Contudo, nem todos os cidadãos compartilhavam da riqueza do país. Os fazendeiros sofriam com a queda de preços das safras e os trabalhadores de indústrias recebiam baixos salários. Outra fragilidade na economia da década de 1920 decorreu do aumento do uso de crédito pela população. A propaganda atraía os consumidores a "comprar agora e pagar depois", já que podiam financiar as compras pagando uma parte no momento da compra e o restante posteriormente, em pequenas parcelas. O crédito permitiu que os norte-americanos adquirissem uma variedade de bens de consumo, inclusive carros e utensílios domésticos relativamente caros. Com o passar do tempo, muitas pessoas deviam milhares de dólares. Quando não podiam mais pagar suas dívidas, pararam de comprar. As fábricas tiveram que diminuir a produção e o desemprego cresceu.

Muitas pessoas também compravam ações na bolsa de valores. A bolsa continuava a subir e, portanto, os norte-americanos adquiriam ações e esperavam o preço subir ainda mais, para poder vendê-las e realizar lucros. A promessa de lucro rápido e fácil atraiu pessoas de quase todos os segmentos econômicos ao mercado de ações.

O valor das ações na bolsa continuava a subir. Porém, em outubro de 1929, os preços começaram a cair. Os investidores entraram em pânico e venderam suas ações enquanto elas ainda valiam algo. O "crack" (uma queda brusca) ocorreu no dia 29 de outubro de 1929, e os preços das ações despencaram. Em meados de novembro, estavam sendo vendidas pela metade - ou menos - do que custavam em setembro. Milhares de pessoas viram seus investimentos desmoronarem.

A Grande Depressão 

O colapso do mercado de ações resultou numa reação em cadeia que devastou a economia norte-americana. Os investidores que haviam perdido seu dinheiro no mercado de ações não podiam mais comprar novos produtos. As fábricas, que já produziam excedentes, cortaram a produção e despediram funcionários. Os desempregados perderam suas poupanças, suas casas e até mesmo sua confiança no futuro do país.

Os bancos também foram afetados pela crise da década de 1920. Em tempos de entusiasmo econômico, não tomaram o devido cuidado e fizeram investimentos arriscados. Quando a crise se instalou, os bancos passaram a exigir que as pessoas pagassem seus empréstimos. Mas por causa da grave crise, poucas tinham dinheiro suficiente para pagar suas dívidas e quase nenhum banco conseguiu cobrar o dinheiro que havia emprestado. Além disso, houve uma "corrida" aos bancos: temendo a sua falência dos bancos, os norte-americanos correram para retirar seu dinheiro. Devido a empréstimos que ainda não tinham sido pagos, os bancos não tinham dinheiro suficiente em caixa. Em 1933, quase um terço dos bancos do país haviam fechado suas portas, pelos menos temporariamente. A economia dos Estados Unidos caiu na pior crise de sua história, uma época conhecida como a Grande Depressão.

Em 1932, Franklin D. Roosevelt, que havia prometido uma nova política econômica para o povo norte-americano, foi eleito Presidente dos Estados Unidos com uma vitória esmagadora. Ele sabia que precisava tomar decisões drásticas, pois mais de 13 milhões de norte-americanos - 25% do proletariado - estava desempregado. Muitas pessoas passavam fome e estavam desabrigadas, com a nação em desespero. Quando Roosevelt assumiu o cargo em 1933, iniciou um programa vigoroso de reformas econômicas denominado de "Novo Acordo" (New Deal).


Franklin D. Roosevelt

Com o New Deal, o governo federal passou a exercer maior controle da economia. Para restaurar a confiança pública na comunidade financeira, o governo criou novas leis visando proteger a poupança e a prevenir futuras quebras nos bancos e no mercado de ações. Para combater o desemprego, Roosevelt estabeleceu programas específicos para a criação de empregos. O governo também incentivou os fazendeiros a reduzir a produção de alimentos para que os preços de suas safras aumentassem. Leis foram feitas para proteger os direitos dos sindicatos. A Previdência Social foi criada para assegurar uma fonte de renda a idosos e desempregados.

Impacto na Europa Ocidental

A Grande Depressão afetou toda a economia mundial. Como necessitavam de muito dinheiro, empresários norte-americanos retiraram o capital que haviam investido na Europa. Como resultado, muitos bancos e empresas europeias faliram. Para proteger suas empresas, vários países aumentaram as tarifas de bens importados, mas isso apenas serviu para prejudicar o comércio mundial e as indústrias que dependiam dele. Havia um forte desemprego ao redor do mundo, especialmente nas nações industrializadas.

A Grã-Bretanha

Mesmo antes do início da Grande Depressão, a economia britânica estava com problemas. A Grã-Bretanha dependia do comércio marítimo, mas muitos de seus navios mercantes haviam sido afundados durante a Primeira Guerra Mundial. O país estava perdendo mercados para outras nações. À medida que as exportações entravam em declínio, o mesmo ocorria com a indústria, a mineração e a fabricação de navios. Como consequência, o desemprego aumentou demasiadamente.

Os problemas econômicos da Grã-Bretanha se agravaram durante a Grande Depressão, mas o governo, ao contrário dos Estados Unidos, não iniciou um amplo programa econômico como o New Deal. O governo britânico deu auxílio aos pobres, mas fez pouco para reativar a indústria e diminuir o desemprego no país.

Durante as décadas de 1920 e 1930, o governo britânico foi obrigado a se decidir sobre os territórios que faziam parte de seu império. Na Primeira Guerra Mundial, diversas colônias britânicas haviam se tornado domínios que faziam parte do Império, contando com seu próprio exército, sistema de impostos e moeda corrente.

Em 1931, o Parlamento aprovou o Estatuto de Westminster, que estabeleceu uma relação de iguais entre a Grã-Bretanha e seus domínios. Canadá, Terra Nova (Newfoundland), Austrália, Nova Zelândia e África do Sul uniram-se à Grã-Bretanha em uma Commonwealth - Comunidade de Nações - ou seja, uma associação de territórios autônomos. Essas nações membros ainda viam a monarquia britânica como seu líder simbólico, mas agora eram países completamente independentes.

Irlanda

Outro membro da nova Commonwealth foi o Estado Livre da Irlanda, ou Eire. Assim como estudamos anteriormente, o plano de conceder autogoverno ao sul da Irlanda foi posto de lado quando a Primeira Guerra Mundial irrompeu. Frustrados com esse adiamento, os nacionalistas irlandeses se rebelaram em Dublin na segunda-feira de Páscoa (24 de abril), em 1916. As tropas britânicas esmagaram a Revolta da Páscoa, e executaram seus líderes. Tanto o ódio como a violência entre britânicos e irlandeses continuaram.

Em 1921, a Grã-Bretanha tentou resolver os conflitos que dividiam a Irlanda. A Irlanda do Norte, ou Ulster, permaneceu como parte da Grã-Bretanha e era representada no Parlamento. O resto do país tornou-se um domínio britânico chamado de Estado Livre Irlandês. Contudo, muitos nacionalistas irlandeses, liderados por Éamon de Valera continuaram a buscar a independência total.


Éamon De Valera

França

A Primeira Guerra Mundial custou muito caro para a França. Assim como outras nações, sofreu a perda de muitas vidas. O país teve que lidar com a devastação causada por quatro anos de guerrilhas travadas em seu solo. Minas, fábricas e ferrovias foram arruinadas e vilas, fazendas, florestas e pomares destruídos.

A França contava com o pagamento de reparações de guerra da Alemanha para a reconstrução do país. O governo de Weimar, enfrentando suas próprias crises econômicas, anunciou em 1922 que não mais efetuaria pagamentos à França. Em resposta, os franceses tomaram as minas de carvão e usinas de aço alemãs ao longo do Rio Ruhr, mas os alemães se recusaram a trabalhar sob o controle francês. Finalmente, em 1924, uma comissão internacional firmou o acordo conhecido como Plano Dawes: a Alemanha concordou em realizar pagamentos à França com base na sua condição financeira.

Em parte, devido a problemas econômicos, a França sofria de instabilidade política desde que a Terceira República foi formada no início da década de 1870. As disputas entre os grandes partidos franceses impediram a recuperação econômica da nação após a Grande Guerra. Descontentes com o governo, muitos eleitores passaram a apoiar o partido comunista e o fascista.

O medo do fascismo fez com que diversos partidos esquerdistas formassem uma aliança temporária conhecida como Frente Popular. Essa coligação prometia defender a república francesa contra os nobres, os militares e o clero. Em 1936, a Frente Popular, liderada pelo socialista Léon Blum conquistou a maioria na Assembleia Nacional.


Léon Blum

O governo de Blum lançou mão e implementou diversas ideias do New Deal norte-americano. Para encerrar uma onda de greves que atrasava a produção industrial, o governo concordou com algumas exigências dos trabalhadores. Foi-lhes concedido jornada de trabalho semanal de 40 horas, feriados pagos e o direito de formar sindicatos. Blum também nacionalizou o Banco da França e tomou medidas para que o governo obtivesse controle parcial das indústrias bélicas do país.

Apesar dessas mudanças, a Frente Popular fracassou ao tentar revitalizar a economia francesa, e Blum permaneceu no poder por pouco tempo. Os franceses continuavam amargamente divididos em relação às reformas internas e à guerra civil na vizinha Espanha. No final da década de 1930, a França foi ameaçada tanto por problemas domésticos como pelo crescimento do poder da Itália e Alemanha.