Tenentismo

Após a Primeira Guerra Mundial, as oligarquias brasileiras não conseguiam mais manter o controle político sobre a nação. A Constituição de 1891 havia estabelecido que a República deveria ser democrática e representativa, mas durante quase 3 décadas, ela havia servido exclusivamente aos interesses políticos e econômicos das oligarquias rurais. O sistema político da república havia sido totalmente manipulado por elites regionais, que controlavam os partidos políticos e os juízes. Elas fizeram uso de fraude e até mesmo de violência para alcançar suas ambições.

Porém, nem mesmo esta poderosa estrutura política conseguia impedir as mudanças que ocorriam durante a década de 1920, e que ameaçariam a política do café com leite.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o Brasil vivenciou um crescimento industrial, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Isto resultou em um crescimento da população urbana, que demonstrou oposição às políticas da oligarquia da República Velha.

Entretanto, o principal motivo que serviu para derrubar a República Velha foi a divisão das oligarquias: o longo domínio da oligarquia paulista e da oligarquia mineira começou a ser ameaçado por outros estados, como o Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro.

As campanhas políticas se intensificaram e os setores urbanos passaram a exigir uma maior participação política. A revolução de 1930 foi resultado da aliança momentânea entre estes setores urbanos.

Com a industrialização, o número de operários aumentou na década de 1920. Eles passaram a exigir melhores condições de vida e trabalho. Muitas greves ocorreram entre os anos de 1917 a 1920. As lideranças da maioria dos movimentos operários da época eram anarquistas, que defendiam a eliminação do Estado e de todas as formas de dominação política. Em 1922, foi fundado o Partido Comunista Brasileiro (PCB) com o objetivo de realizar uma revolução socialista no Brasil. Porém, meses depois, o PCB foi considerado ilegal.

De fato, o Estado republicano oligárquico estava em declínio. A criação do PCB, na verdade, não era uma alternativa política, mas serviu como motivo de preocupação para a oligarquia rural e para os empresários industriais. Durante este período, contudo, o acontecimento mais significante foi a explosão do movimento tenentista que, através de inúmeras rebeliões, resultou na queda da República Velha.

O governo de Artur Bernardes (1922-1926)

No início do ano de 1921, São Paulo e Minas Gerais lançaram Artur Bernardes, ex-governador mineiro, como candidato à sucessão de Epitácio Pessoa como Presidente do Brasil. Em oposição a ele, os estados de Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul formaram a Reação Republicana, com Nilo Peçanha como seu candidato. Na campanha presidencial de 1922, Artur Bernardes foi acusado pelos militares de publicar na imprensa artigos que depreciavam a imagem do presidente do Clube Militar, o ex-presidente Hermes da Fonseca. Apesar desse episódio, Artur Bernardes derrotou seu adversário, o fluminense Nilo Peçanha.

Os quatro anos de mandato de Artur Bernardes foram marcados por um estado de sítio permanente. As pessoas perderam seus direitos individuais e suas liberdades, e, consequentemente ocorreram movimentos revolucionários: em 1922 no Rio de Janeiro, em 1923 no Rio Grande do Sul e, em 1924, em São Paulo.

Artur Bernardes queria vingar-se dos ataques que sofrera durante sua campanha presidencial. Ele tomou medidas contra os governadores estaduais que se opuseram a ele, censurou a imprensa e restringiu os direitos individuais dos cidadãos. Isto serviu apenas para fomentar as conspirações civis e militares contra o presidente, que se espalhavam por todo o País. Neste período, o tenentismo intensificou-se em reação às oligarquias; a oposição uniu-se na Aliança Libertadora para lutar contra o governo.

Existia o grande risco do Rio Grande do Sul ser novamente palco de uma guerra civil. Desde a Revolução Federalista, o Partido Republicano Gaúcho havia assumido o poder, liderado por Borges de Medeiros. A Constituição gaúcha permitia que governadores fossem reeleitos sem limite de termos. Em vista que a Câmara dos Deputados era manipulada pelo governador, isto fez com que o Rio Grande do Sul se tornasse uma verdadeira ditadura.

O fundador do Partido Liberal, Assis Brasil, liderou a oposição gaúcha. Ele havia sido impedido de chegar ao poder devido à quinta reeleição de Borges de Medeiros. Assis Brasil incentivou os libertadores a se armarem e, através da força, impedir o candidato eleito de assumir o poder.

O general Setembrino de Carvalho, Ministro da Guerra, foi enviado em missão de paz para acalmar a situação. Após meses de combate, republicanos e libertadores alcançaram um acordo que foi selado pelo pacto de Pedras Altas, em 1923. A Constituição Gaúcha foi reformada e a reeleição de governadores foi proibida.

O Movimento Tenentista


Rebelião Tenentista - 1922 – Forte de Copacabana

A primeira rebelião tenentista ocorreu em 1922, durante o governo de Epitácio Pessoa. Uma força de oposição, composta por capitães e tenentes do exército e da marinha, rebelou-se contra o governo de Epitácio Pessoa. O conflito eclodiu devido ao fechamento do Clube Militar e à prisão de seu presidente, Hermes da Fonseca, que havia sido acusado por interferir de forma imprópria na política de Pernambuco.

No dia 5 de julho, durante a madrugada, alguns oficiais liderados pelo Capitão Euclides da Fonseca, filho de Hermes, tomou o Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. Eles então atacaram o quartel-general do Exército, enquanto outras unidades se rebelavam nas vilas militares do Rio de Janeiro, de Niterói e do estado de Mato Grosso.

O Congresso, em vista disso, aprovou que fosse decretado um estado de sítio. Dispostos a morrer pela causa que defendiam, 17 oficiais e 1 civil, Otávio Correia, deixaram o forte e marcharam em direção ao confronto com as tropas do governo. Dos 18 homens que deixaram o forte, apenas 2 sobreviveram: os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes. A revolta dos Dezoito do Forte, embora fracassada, encorajou outras rebeliões. Os tenentes mudaram o centro de suas operações para São Paulo, cidade menos policiada e com acesso ferroviário para o interior. Ali, os rebeldes tinham o apoio da poderosa Força Policial e do movimento operário.

O binômio ‘representação e justiça’ - bandeira do movimento - fez com que a classe média se identificasse com os tenentistas, já que também desejava uma maior participação política.

Em 5 de julho de 1924, houve outro levante tenentista. Ocorrido em São Paulo, este levante foi liderado pelo general Isidoro Dias Lopes e pelo comandante da força pública do estado de São Paulo, o major Miguel Costa. Durante o levante, diversas unidades militares se rebelaram; os rebeldes em São Paulo criticavam o presidente Artur Bernardes e exigiam que ele resignasse. Eles também pediram por um governo provisório, a eleição de uma Assembleia Constituinte e que o Brasil adotasse o voto secreto.

Os militares ocuparam a Estação da Luz e o Palácio do Governo. O governador de São Paulo, Carlos de Campos, fugiu e a capital paulista ficou nas mãos da população, que saqueou armazéns e depósitos.

De São Paulo, os tenentes planejavam estender a rebelião aos estados vizinhos. Mas a cidade estava cercada por forças do governo, que começaram a bombardear os bairros operários. A derrota iminente fez com que os oficiais rebeldes abandonassem a capital paulistana no dia 27 de julho de 1924. Eles recuaram para o interior e, próximos à Foz do Iguaçu, os paulistas uniram-se a outro grupo de rebeldes do Rio Grande do Sul, que eram liderados pelo capitão Luís Carlos Prestes.

Com ambos os grupos unidos sob o comando do general Miguel Costa e do capitão Luís Carlos Prestes, uma grande guerrilha foi iniciada. De abril de 1925 a fevereiro de 1927, os rebeldes viajaram 24 mil quilômetros e incentivaram os povos dos locais por onde passavam a se erguerem contra o governo.

Inicialmente, a Coluna Prestes dirigiu-se a Mato Grosso. De lá, rumou para Goiás, Minas Gerais e para os estados do Nordeste, sempre combatida pelas forças do governo.


Alto Comando da Coluna Prestes

Formando um contingente de 800 a 1500 pessoas e incluindo civis e militares, esse movimento tornou-se conhecido como a Coluna Prestes. A Coluna Prestes não perdeu nenhum dos 53 confrontos que teve contra as tropas do governo. Mas em fins de 1926, os membros da Coluna Prestes chegaram à conclusão de que não conseguiriam derrubar o governo oligárquico. O grupo passou a se dispersar: alguns se exilaram no Paraguai. Prestes e centenas de seus homens refugiaram-se na Bolívia.

A aventura da Coluna Prestes havia durado dois anos. Luís Carlos Prestes havia recebido o título de Cavaleiro da Esperança, pois esse era o sentimento que ele inspirava nos membros das camadas médias urbanas do Brasil.

Apesar do tenentismo nunca ter apresentado um programa político genuíno, em 1924, havia duas facções no movimento: uma mais radical, liderada por Luís Carlos Prestes, que exigia uma grande reforma social e econômica no país, e a facção moderada que se preocupava com reformas políticas liberais. Esta última facção foi se aproximando gradualmente das oligarquias divergentes e formaram uma aliança em 1930.