O governo Médici

O governo Médici foi o período em que o Brasil registrou os maiores índices de desenvolvimento e crescimento em toda a sua história. Entre 1969 e 1973, a economia brasileira cresceu entre 7% e 13% ao ano. A indústria se expandiu e as exportações agrícolas aumentaram, gerando milhões de novos empregos. Contudo, uma das características marcantes do governo Médici foi a repressão aos movimentos que se opunham ao Regime Militar.

A escolha do sucessor de Costa e Silva provocou atritos no setor militar. A escolha do general Emílio Garrastazu Médici se viabilizou apenas com a neutralização de outro candidato, o general Albuquerque Lima – considerado um nacionalista fervoroso.

Antes de se tornar presidente, Médici havia sido Chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) e comandante do Terceiro Exército no Rio Grande do Sul.

Médici assumiu a presidência em um momento em que as manifestações públicas da oposição estudantil haviam sido contidas pela repressão policial. Ao mesmo temo, os políticos do MDB haviam sido silenciados pelo AI-5. A oposição ao regime militar não mais era tolerada – nem mesmo de forma moderada. Isso causou com que vários setores da esquerda optassem pelo caminho da luta armada. A Revolução Cubana, ocorrida em 1959, exerceu certa influência: os escritos de Ernesto “Che” Guevara e de um jovem marxista francês, Régis Debray, foram difundidos.

Surgiram então as primeiras organizações de guerrilha urbana: a ALN (Aliança Libertadora Nacional), liderada por Carlos Marighela, o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro – dia do falecimento de “Che” Guevara) e a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária), chefiada por Carlos Lamarca, ex-capitão do Exército. Essas novas lideranças, que atraíram centenas de jovens – a maioria deles, estudantes –, pregavam que havia apenas uma forma de derrubar a ditadura militar: a luta armada.

Em 1969, a ALN sequestrou o embaixador norte-americano, Charles Elbrick. Em troca da sua vida, os guerrilheiros exigiram a soltura de presos políticos. Os militares se surpreenderam com a agressividade dos grupos guerrilheiros. Estes lutavam contra o regime militar por meio de atos violentos e ousados: sequestros, assaltos a banco e até execuções.

Para lutar contra a guerrilha urbana, os órgãos de repressão receberam enormes recursos. Foi dado a eles a permissão para agir sem restrições. Consequentemente, os presos políticos passaram a ser tratados de forma extremamente severa. Qualquer oposição ao regime, mesmo moderada, passou a ser classificada como “terrorista” ou “comunista”.

Os militares empregaram violência para pôr fim à guerrilha urbana. Os principais chefes dos grupos guerrilheiros passaram a ser caçados e mortos. Carlos Marighela foi morto em 1969. No ano seguinte, seu sucessor, Joaquim Câmara Ferreira, o Velho, também foi morto. Em setembro de 1971, no sertão baiano, foi morto o último líder guerrilheiro de expressão nacional – Carlos Lamarca. Assim, a guerrilha urbana foi esmagada. A participação política estudantil também entrou em declínio. Em 1969, foi passado o decreto-lei 477, que proibia manifestações políticas por parte de estudantes, professores e funcionários.

O “Milagre Brasileiro”

Em 1970, o presidente Médici escolheu governadores de 21 estados. De fato, o poder militar e tecnocrático havia sido consolidado. Apesar de tal situação política – opor-se ao governo significava arriscar a vida –, a maioria da população estava satisfeita com o tal chamado “milagre brasileiro”. A prosperidade econômica encobria a falta de liberdade política e conferia grande prestígio aos membros do governo, principalmente ao Ministro da Fazenda, Delfim Netto.

A política de Delfim pode ser definida como produtivista. O “milagre brasileiro” significou o crescimento da produção de bens de consumo duráveis, o desenvolvimento de áreas como o setor de construção civil e o aumento do produto interno bruto (PIB). Por meio de uma política de incentivos fiscais e deduções de impostos, o governo atraiu investimentos para áreas como a Amazônia e o Brasil Central. Ao mesmo tempo, buscou recursos no exterior e estimulou o mercado de capitais. Por meio do controle de salários, conseguiu reduzir os custos de mão de obra. Contudo, a longo prazo, a política de Delfim provou-se ineficaz. Gerou endividamento, inflação, concentração de renda e aumento da dependência ao petróleo importado.

O clima de euforia nacional causado pelo “milagre brasileiro” foi reforçado pelo sucesso no futebol – a paixão nacional. Em 1970, na Copa do Mundo disputada no México, a seleção brasileira se consagrou tricampeã mundial. Essa conquista deixou os brasileiros em delírio. A marchinha “Prá Frente Brasil” – o hino da seleção de futebol – era tocada até a exaustão e o dia do retorno dos campeões mundiais foi declarado feriado.

Para utilizar o sucesso da seleção a seu favor, o governo lançou uma campanha publicitária ufanista: “Ninguém segura este país”, “Você constrói o Brasil” e “Brasil, conte comigo”. O êxito do governo contra os grupos guerrilheiros contribuiu para a criação de outro slogan: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Em resumo, os dois traços marcantes do governo Médici foram a repressão e o “milagre econômico”: a doutrina da segurança nacional aliada ao desenvolvimento econômico a qualquer preço.