Governo de Wenceslau Brás

Já em 1912 despontavam os eventuais sucessores de Hermes da Fonseca; Nilo Peçanha, Pinheiro Machado e Rodrigues Alves eram os mais cotados. Em fevereiro de 1913, Pinheiro Machado era lançado publicamente e tentava articular uma convenção do Partido Republicano Conservador para ratificar sua candidatura. Entretanto, muitos estados não aprovaram; Minas Gerais e São Paulo vetaram sua indicação e esvaziaram definitivamente a candidatura de Pinheiro Machado. Posteriormente, Campos Sales foi apontado como candidato de conciliação. Sua candidatura era uma tentativa de harmonização dos interesses dos grandes estados e dos líderes do Partido Republicano Conservador. Porém, várias correntes estaduais recusaram-se a apoiá-lo, levando-o a retirar sua candidatura.

Em consequência, impuseram-se as candidaturas do mineiro Wenceslau Brás para presidente e do maranhense Urbano dos Santos para vice-presidente, que obtiveram o apoio absoluto de  Minas Gerais e São Paulo e não encontraram oposição em outros estados. Havia um único obstáculo a essas candidaturas: Rui Barbosa pretendia continuar a campanha civilista, como repercussão do relançamento de seu nome nos grandes estados forçou-o, juntamente com Alfredo Elio, seu companheiro de chapa, a retirar oficialmente sua candidatura através do Manifesto de 31 de dezembro de 1913. Candidatos únicos, Wenceslau Brás e Urbano dos Santos venceram as eleições de 1º de março de 1914.

A posse de Wenceslau Brás Pereira Gomes, a 15 de novembro de 1914, significou inicialmente um verdadeiro alívio para o país em tensão. Hermes da Fonseca, com as salvações nacionais, prisões arbitrárias e crises econômicas, conhecera um desgaste  inaudito, o anti-hermismo era o sentimento mais difundido entre os brasileiros. Na constituição de seu ministério, entretanto, Wenceslau Brás foi obrigado a assumir compromissos e a aceitar os conselhos de Pinheiro Machado, figura dominante no governo de Hermes da Fonseca. A primeira composição foi quase inteiramente vetada pelo líder gaúcho. Finalmente, após algumas concessões, Wenceslau Brás nomeou o seguinte ministério: general Caetano de Farias (Guerra), Sabino Barroso (Fazenda), Carlos Maximiliano Pereira dos Santos (Justiça e Negócios Interiores), Lauro Muller (Exterior), almirante Alexandre de Alencar (Marinha), Augusto Tavares de Lyra (Viação) e João Pandiá Calógeras (Agricultura).

O declínio de Pinheiro Machado começou com a agitada sucessão do governo do estado do Rio de Janeiro. Em janeiro de 1914, eram apontados como candidatos à sucessão estadual o tenente Feliciano Sodré, apadrinhado por Pinheiro Machado e, como seu oponente, Nilo Peçanha. As eleições, realizadas calmamente a 12 de julho de 1914, logo gerariam conflitos. Os deputados governistas, ligados ao antigo governador Oliveira Botelho, outro protegido de Pinheiro Machado, procuraram interditar a entrada dos partidários de Nilo Peçanha no prédio das Assembleias Legislativas, cada qual proclamando seu candidato eleito.

Pinheiro Machado reclamou, inutilmente, a intervenção federal; Nilo Peçanha foi considerado eleito pela Comissão de Verificação de Poderes. O Supremo Tribunal Federal concedeu habeas corpus a Nilo Peçanha, garantindo seu legítimo direito de posse. Wenceslau Brás, após tentar um entendimento entre as facções, determinou que a ordem judiciária fosse cumprida com o apoio de tropas federais. A liderança do caudilho enfraqueceu-se ainda mais com a renovação do Senado. Pinheiro Machado apoiava Rosa e Silva, cuja vitória eleitoral foi recebida sob protestos de estudantes no Recife e no Rio. Wenceslau afastou Sabino Barroso do Ministério da Fazenda e substituiu-o por Pandiá Calógeras, em seguida, entregou a Pasta da Agricultura a José Bezerra. Pinheiro Machado passou a ser o homem mais hostilizado politicamente no Brasil. Um deputado de Pernambuco chegou a propor um curioso projeto na Câmara Estadual: "Elimine-se Pinheiro Machado".   A animosidade que se manifestava contra o caudilho nas ruas, nos jornais e nas conversas de salão, onde ele era considerado o responsável por todas as desgraças nacionais, chegou ao fim a 08 de setembro de 1915, quando Pinheiro Machado estava no vestíbulo no Hotel dos Estrangeiros, hoje demolido, na praça José de Alencar. Era uma visita política. Um homem paranoico - Manso de Paiva - atravessa célere o pequeno grupo e crava o punhal nas costas do antigo guerrilheiro dos Pampas, atravessando-lhe o coração. Atingido, a mão direita mergulha rápida no colete para sacar o punhal - preferia a  arma branca. Mas, a hemorragia interna roubou-lhe as forças. Transportaram-no a uma farmácia próxima inutilmente.

O quadriênio de Wenceslau Brás iniciou-se enquanto a Primeira Guerra Mundial ensanguentava a Europa. O Exército, apesar de ter o apoio da alta burguesia paulista, procurou afastar-se da política e preparar-se para uma total remodelação administrativa e militar. Esse reaparelhamento começara no período em que Hermes da Fonseca fora Ministro da Guerra. De início, a influência alemã dominou a filosofia militar brasileira. Novas práticas e teorias foram impostas ao Exército, provocando grande reação dos velhos oficiais, acostumados à antiga rotina. Entre os reformistas estavam Estevão Leite de Carvalho e Bertoldo Klinger, que divulgavam seus conceitos militares através das publicações Revista dos Militares e a Defesa Militar. Essa reforma só assumiu caráter oficial na gestão Wenceslau.

A renovação dos tradicionais esquemas militares iniciou-se efetivamente com o Decreto de 1915, que determinava a reorganização completa das unidades. A implantação da reforma foi possível graças à ação do Ministro da Guerra, general José Caetano de Faria e da pressão exercida pelos jovens turcos, ou seja, os jovens oficiais sob influência alemã que pretendiam a renovação das práticas militares. O governo de Wenceslau Brás caracterizou-se também pelas primeiras manifestações políticas da baixa oficialidade. Curiosamente, a alta oficialidade, que, até então fora ativa na participação política, suspendeu seus pronunciamentos políticos no mesmo momento em que os escalões inferiores procuravam desenvolver uma ação política decisiva. O marco inicial desse processo, que atingira o clímax com o fenômeno do tenentismo, foram as revoltas de 1915, que assumiram, a princípio , aspectos reivindicatórios, pois os soldados exigiam o recebimento de salários atrasados e a concessão de direitos políticos a eles. Um dos levantes de maiores proporções foi do 16º Grupo de Artilharia, da cidade do Rio Grande: cinquenta soldados saíram dos quartéis, exigindo o pagamento dos soldos atrasados. O outro, de maior gravidade, foi a revolta dos sargentos.

A rebelião se iniciou em janeiro de 1915; Maurício Lacerda, deputado da oposição, recebeu um abaixo-assinado de membros dos escalões inferiores do Exército, que exigia eliminação das diferenças entre as classes dos sargentos. O Exército brasileiro possuía as classes de sargentos-ajudantes, primeiro, segundo e terceiro sargentos. Os signatários do documento pediam a unificação das classes de sargentos sob a designação de suboficiais, que lhes proporcionaria paridade de vencimentos. O não atendimento dessa exigência e a reprovação do Ministério da Guerra levaram os sargentos a tomar várias atitudes, consideradas demonstrações de falta de disciplina , lealdade e  dedicação para com os superiores. Realizou-se então sob a inspiração de elementos inferiores do Exército, uma reunião na Vila Militar, presenciada por espiões, que avisaram o governo sobre a necessidade de tomar medidas de repressão e salvaguarda.

Em agosto de 1915, falava-se em conspiração declarada, da qual participavam homens, cujo objetivo era acabar com o atual sistema de governo, sendo estabelecida a República Parlamentar, eliminar Pinheiro Machado e Hermes da Fonseca e confiscar os bens dos políticos que se têm enriquecido à custa do regime. O plano se concretizaria a 18 de dezembro, os conspiradores militares e civis prenderiam o Presidente da República. A articulação abrangia líderes políticos, como Maurício Lacerda, oficiais do Exército, da Brigada Policial e do Corpo de Bombeiros. O governo, entretanto, antecipou-se à iniciativa: 256 sargentos foram condenados, eliminados do Exército e remetidos para pontos extremos do Brasil. Contra os deputados, o governo nada pôde fazer: a Câmara não concedeu licença para serem processados Maurício de Lacerda e seus companheiros. Foram feitas várias tentativas de rearticulação do movimento dos sargentos, as principais em fevereiro e março de 1916, ambas novamente encabeçadas por Maurício de Lacerda. Embora esses levantes pouco ou nada conseguissem de imediato, revelavam um desejo de mudança que seria cristalizado na ideologia tenentista.

A morte de Pinheiro  Machado ( e do Partido Republicano Conservador) facilitou a ação do governo federal na resolução dos problemas ligados às sucessões estaduais. As unidades da federação passaram a ser dominadas pelos grupos mais chegados ao governo federal.

No Espírito Santo, o governo da União apoiou a candidatura de Pinheiro Júnior ao governo do estado, para impedir as pretensões de continuidade do oligarca local Jerônimo Monteiro. Mas, as eleições de 25 de março de 1916 deram a vitória à oligarquia. Na noite de 24 de maio de 1916, a oposição, com o auxílio de tropas federais, tentou o golpe armado. As forças estaduais reagiram e Pinheiro Júnior foi obrigado a formar um governo paralelo em Colatina. Wenceslau Brás procurava conseguir a aprovação, no congresso Federal, de um pedido de intervenção no Espírito Santo. Entretanto, Antônio Carlos, líder do governo na Câmara Federal, ambicionava o cargo de Governador de Minas Gerais. Para obter o apoio da oligarquia mineira, um dos sustentáculos políticos de Jerônimo Monteiro, Antônio Carlos, provocou a derrota do pedido de intervenção. A passividade forçada da União facilitou a tomada de Colatina pelas forças de Jerônimo Monteiro.

Em Mato Grosso, o governo federal foi obrigado a decretar a intervenção para resolver os conflitos militares entre a situação, o Partido Republicano Conservador, e a oposição, o Partido Republicano Mato-grossense. O conflito se iniciou com a eleição do general Caetano Manoel Faria e Albuquerque ao governo do estado. Embora eleito pelo partido situacionista, o novo governador rebelou-se contra a orientação partidária, nomeando políticos da oposição para os mais diversos cargos.

Em consequência, o Partido Republicano Conservador rompeu com o governo estadual e esse se aproximou da oposição. Em agosto de 1916, tropas federais, sob o comando do general Carlos de Campos, chegaram a Cuiabá para policiar a capital; travaram-se combates em todo o estado. Apesar da presença das forças federais, as lutas continuaram em Poconé, Arica, Itaici e outras regiões. Como de hábito, os deputados oposicionistas reuniram-se em Corumbá e criaram uma assembleia paralela à estadual. Essa pediu habeas corpus para impedir a continuidade do governador. Apesar das derrotas militares, o habeas corpus foi concedido à assembleia oposicionista e o coronel Escolástico Virgílio assumiu o governo do estado. O impasse foi resolvido por uma série de entendimentos entre as duas facções, que aceitaram a intervenção federal, a renúncia dos mandatários municipais e estaduais, a nomeação de Camilo Soares de Moura Filho como interventor e a convocação de eleições livres para a escolha de novo governador.

A sucessão do governador Eneias Martins, em 1917, deu início a uma insurreição no estado do Pará. O governador indicara como candidato Silva Rosado, e a oposição, Lauro Sodré, que já fora governador de 1892 a 1898. As eleições realizaram-se normalmente, mas a 28 de dezembro de 1916, partidários de Sodré assaltaram o palácio do governo e dominaram Belém até 1º de fevereiro de 1917, quando a vitória de Sodré foi finalmente reconhecida. Antonio Lemos, líder oligárquico local que apoiava Eneias Martins, pediu intervenção federal, em vão, Lauro Sodré consolidou-se no poder. Também Piauí, Amazonas e Alagoas estavam conturbados; no Amazonas, o governador foi deposto e depois reempossado, em Alagoas, houve a posse simultânea de dois governadores e no Piauí ocorreu uma crise política, provocada pela renúncia do Félix Pacheco do cargo de deputado federal.

O Brasil manteve-se neutro em relação ao conflito europeu até 1917 e, após o afundamento do navio mercante brasileiro "Paraná",  rompeu relações diplomáticas com o Império de Guilherme II. Eram notórias as simpatias das elites brasileiras pela causa aliada, enquanto o prosseguimento da atividade submarina alemã contra a frota brasileira levou o presidente Wenceslau Brás a pedir ao Congresso Nacional a declaração de guerra, formalizada a 26 de outubro de 1917. Para enfrentar a emergência, o governo federal decretou estado de sítio até o término das hostilidades europeias. A participação militar do Brasil consistiu, fundamentalmente, em operações de patrulhamento das águas africanas por uma divisão naval brasileira. Também foi enviada à Europa uma missão médica do Brasil e muitos oficiais do Exército nacional integraram as forças aliadas que lutavam no Continente Europeu. O Brasil forneceu aos aliados ( e os transportou por mar) gêneros de primeira necessidade, essenciais ao prosseguimento das operações contra a Alemanha. Além disso, outros acontecimentos marcaram esse quatriênio. A 1ª de janeiro de 1917, foi promulgado o Código Civil Brasileiro. No término da gestão Wenceslau Brás, o Brasil foi vitimado, a exemplo de outros países, por uma das consequências do morticínio europeu: a epidemia da gripe espanhola, que provocou 15.000 mortes em nosso país.

Devido à guerra e à acentuada queda do câmbio, era impossível importar produtos manufaturados dos países que os forneciam habitualmente ao Brasil. Esses fatores provocaram no Brasil um surto industrial que, embora não planificado, desencadearia substancial mudança na estrutura econômica do país, até então fundamentalmente agrícola. A história do industrialismo brasileiro, no período final do Império e durante a República Velha, apresenta as seguintes fases:

  • surto industrializante de 1880/1890.
  • surto industrializante de 1890/1900.
  • surto industrializante iniciado em 1901 e encerrado com a crise econômica de 1914.
  • avanço industrial de 1914 a 1929.
  • o incremento da imigração, que trouxe a exigência de melhor nível de vida e grande contribuição técnica.
  • expansão da cultura cafeeira, cujos lucros, cada vez maiores, permitiram o surgimento do mercado interno, graças ao aumento da riqueza, da população e de uma reserva de poupança significativa.
  • medidas protecionistas, raramente decretadas em benefício da indústria nacional, ditada pelas necessidades fiscais do Tesouro Público.
  • surgimento de mão de obra barata e flutuante - numa economia agrária escravista como a nossa, a grande massa dos homens livres fica à margem. é o que se verifica, efetivamente, os sintomas disto são a desocupação e a vadiagem, que representaram sempre um estado normal de uma grande parte da população da Colônia. Aí a indústria nascente encontrará um amplo abastecimento de mão de obra.
  • surgimento da indústria algodoeira, graças à grande produção de algodão em várias regiões do país.

Esse surto resultou na multiplicação dos estabelecimentos industriais de pouco mais de duzentos em 1881, para 626 no fim da década, considera do sintomático o total de 12% na importação de ferro e aço, somente em 1886. Na década seguinte, outros fatores impulsionaram o industrialismo brasileiro:

  • barateamento da energia elétrica, com a construção de grandes usinas hidrelétricas no Rio e em São Paulo.
  • aperfeiçoamento tecnológico, com o auxílio de alemães e americanos.
  • melhoria dos meios de comunicação.
  • crise do café, que liberou um grande contingente de mão de obra.
  • inflação, que tornou proibitivos os preços das manufaturas estrangeiras.

A industrialização, apesar de sucessivas interrupções, ocorreu de maneira linear. O surto verificado (a partir da proclamação da República) é contínuo, apesar de uma série de fatores desfavoráveis e da irrupção de crises mais ou menos prolongadas. é assim que, de 626 estabelecimentos em 1889, registra-se, em 1907, a existência de 3.120, com 149.018 operários. Em 1914, os estabelecimentos são 7.430, com 153.163 operários. Em 1910, 13.336 estabelecimentos e 2.036.000 operários. Esses dados comprovam o salto quantitativo do processo de industrialização do Brasil a partir da Primeira Guerra Mundial. A fase industrializante iniciada em 1914, quando o Brasil foi obrigado a aumentar sua produção para atender à demanda interna, pode ser subdividida em dois momentos-limite: o primeiro até 1920 e o segundo até 1930. O Brasil, impedido de comerciar normalmente com os países beligerantes, viu-se forçado a criar condições para diversificar até certo ponto a produção e suprir as necessidades dos  países em conflito, embora preponderassem as indústrias alimentícias. Pela primeira vez, os produtos industriais tornaram-se uma fração importante no volume das exportações brasileiras.

É essa uma indústria de substituição, que alivia as importações, mas passa a ter um papel indispensável no conjunto da economia brasileira. Não apresenta progresso técnico expressivo, não disputa mercados, não revela alterações qualitativas. Em 1920, evidenciar-se-ia sua debilidade: a reorganização da produção mundial e a normalização do comércio; após o fim da Grande Guerra, afastaram do mercado internacional os produtos brasileiros. A produção nacional, dispendiosa e inferior do ponto de vista técnico, não tinha condições de enfrentar o produto estrangeiro. Além desses, outros fatores contribuíram para debilitar a indústria brasileira:

  • carência de capitais - a maioria dos recursos empregados na industrialização eram sobras da agricultura; além disso, o processo de capitalização é lento e muito débil. Não se chegará a formar no Brasil nada que se parecesse com um mercado de capitais semelhante ao de todos os países industriais da atualidade. Para isso, seria necessário o concurso de camadas apreciáveis da população que tivessem atingido um certo nível de prosperidade financeira. Isso não era possível nas condições econômicas e sociais predominantes no país. A débil acumulação  popular mal dará para os empréstimos públicos. O Estado, sempre grandemente necessitado de recursos, e oferecendo uma aplicação de capital muito mais certa e segura que indústrias, absorverá todas as disponibilidades das modestas poupanças acumuladas.
  • as dificuldades de crédito.
  • individualidade das firmas manufatureiras - assim, os fundos necessários para a indústria dependerão unicamente do concurso individual de seus indicadores. Mesmo as sociedades anônimas são quase que sempre muito mais de nome do que de fato; o seu capital pertence efetivamente, no mais das vezes, a simples indivíduos, famílias ou pequeníssimos grupos, a que se associam, quando  necessário, alguns sócios fictícios para completar o número de sete que a  lei exige como mínimo das sociedades anônimas.
  • A acumulação capitalista, no Brasil, ainda é essencialmente um fato individual restrito. Apesar desses fatores adversos, a indústria nacional começara a se firmar, como o demonstrava sobejamente o aumento do capital empregado em estabelecimentos manufatureiros.

Fator básico para o processo de industrialização, a indústria siderúrgica, durante a República Velha, apesar de sua expansão ascendente, apresentava produção extremamente diminuta. Muitas dificuldades técnicas entravavam o desenvolvimento da metalúrgica brasileira, principalmente a localização das jazidas em regiões afastadas dos núcleos populacionais, de difícil acesso, e a pobreza do carvão de pedra brasileira. Em 1905, o governo procurava favorecer a instalação da metalúrgica de ferro no Brasil, concedendo isenções de direitos alfandegários, reduções fiscais e outras facilidades a quem se propusesse instalar usinas siderúrgicas no país.

Entretanto, somente durante a Primeira Guerra Mundial, a metalúrgica começaria a despontar no Brasil. Em 1917, durante a gestão Wenceslau Brás, fundou-se a Companhia Siderúrgica Mineira, que sobreviveria à crise de 1920 e se reergueria com capitais franco-belgo-luxemburgueses, passando a denominar-se Companhia Belgo-Mineira, que implantou sua primeira usina dotada de alto forno em Sabará, no Estado de Minas Gerais. Várias pequenas empresas foram também fundadas, com pouca capacidade de produção, empregando, como combustível, carvão, lenha e coque importados. O Brasil começou a lutar contra o grande obstáculo à criação de sua indústria metalúrgica: o controle, por grupos internacionais, das principais jazidas brasileiras. Esses grupos impediram, por meio do controle de nossas reservas, que grupos concorrentes tivessem acesso a elas. Entre os grupos controlados estavam E. Sassel, Bering Bros. e a Itabira Iron Ore Co., ligados aos Rothschilds.

Os surtos de industrialização concentraram-se na região Centro-Sul do Brasil devido a vários motivos:

  • maior densidade de consumo, proporcionada pelo desenvolvimento da lavoura cafeeira.
  • melhores sistemas de transportes.
  • abundância de energia elétrica, graças à instalação de usinas construídas com capitais canadenses e americanos (a primeira usina elétrica paulista iniciou seu funcionamento em 1901).
  • a imigração, que proporcionou à indústria nacional a habilitação técnica superior do trabalhador europeu.
  • São Paulo, de início menos industrializado do que o Distrito Federal, tornou-se a região chave do industrialismo.

A supremacia dessa concentração industrial seria confirmada pelo censo de 1920. No Centro-Sul, localizavam-se 79,8% dos estabelecimentos industriais; 85,2% do capital, 84,8% do valor da produção e 79,2% do número de trabalhadores.

O setor mais sólido da indústria brasileira, desenvolvida a partir da guerra de 1914/18, era constituído pelas empresas subsidiárias das grandes firmas internacionais. Passaram a ser montadas no Brasil indústrias que eram verdadeiros prolongamentos das estrangeiras. A tarefa produtiva foi dividida em duas partes: a primeira era executada na matriz  e a segunda na filial brasileira. Embora as primeiras indústrias subsidiárias tenham-se instalado no Brasil antes da Primeira Guerra Mundial, como a Pullman Standard Car Export Corporation, destinada à montagem de material ferroviário, depois do conflito haveria um grande afluxo de indústrias  acessórias ao Brasil. Só as norte-americanas somavam dezesseis, todas de grande vulto, estabelecidas entre 1919 e 1932. Os ramos principais da sua produção eram: veículos motores, produtos farmacêuticos e químicos, aparelhamento elétrico, alimentação (farinha, conservas, etc.).

 Wenceslau Brás, o "pescador de Itajubá", herdou os encargos e as dívidas dos governos anteriores. Em 1915, o desemprego aumentou sensivelmente, a exportação de café declinou e a Primeira Guerra Mundial provocou a diminuição das importações e a consequente queda na arrecadação. O Brasil, impossibilitado de contrair empréstimos desde o funding-loan, possuía um tesouro sem recursos e uma massa enorme de dívidas. A União recorreu às emissões para proteger a lavoura, o comércio e a indústria. Pelo Decreto de 28 de agosto de 1915, chamado de Lei de Emergência, o governo ficava autorizado a realizar operações de crédito mediante a emissão, na quantia que fosse necessária, de títulos, de papel ou ouro, aos juros de 5% pagáveis no país, e de papel-moeda até o máximo de 350 mil contos de réis, destinados a liquidar compromissos e fomentar a produção. Consequentemente, após um alívio temporário, a continuidade de emissão duplicou o total em circulação e ocasionou a baixa do câmbio. Em 1917, complicou-se a situação financeira: o Brasil foi obrigado a evitar grandes quantidades de ouro ao exterior para compromissos vencidos.

O governo Wenceslau Brás enfrentou o conflito causado pelas disputas de terras entre Santa Catarina e o Paraná, que ficou conhecido como a Questão do Contestado. Desde o século XVIII havia nessa região uma tensão entre duas frentes pastoris: uma descendo para o sul - a paranaense - e a outra subindo a partir da metrópole santa-catarinense de Lages. Daí ter surgido uma questão fronteiriça, que o poder federal manipulava politicamente em vez de resolver.

Essa situação conflitante acentuou-se por causa do desenvolvimento da cultura de erva-mate, ao nível dos produtores, porque se realizava sem regras fixas e com um espírito de concorrência dominada simplesmente pela lei do mais forte. Ao nível dos intermediários - os comerciantes - pela luta feroz entre os dois Estados para impor um monopólio absoluto da exportação do produto. A essas tensões, que mantinham um clima permanente de violência, acrescentava-se a rigorosa estratificação, dominada pelos coronéis e capitães, isto é, os fazendeiros com grande poder político. Essa situação tornou-se explosiva quando a Companhia Brasileira Railway penetrou nesta região, desapropriando e apropriando-se das melhores terras de um lado e, de outro, introduzindo a exploração industrial de madeira.

Em meio a esse clima de tensão, surgiu um movimento, mistura explosiva de fanatismo messiânico e miséria campesina, liderado pelo monge João Maria e seu sucessor Zé Maria, que procuravam defender o povo simples do interior esmagado pelo conflito interestadual, pela estratificação oligárquica e pelas empresas  estrangeiras. Os revoltosos catarinenses, isolando-se de um mundo que não entendiam, organizaram uma vida comunitária bastante original, de caráter religioso, em seus redutos santos. Reinava neles uma alegria mística e os sertanejos, que pensavam estar no paraíso, alienaram-se da realidade.  Não procuravam dominar a sociedade, nem atacar o exército latifundiário, mas sim reorganizar sua vida tradicional, interrompida pelas mudanças estruturais que se processavam no Brasil naquele momento. Na Questão do Contestado, o messianismo surgiu como a única resposta possível, no nível de consciência do sertanejo, aos dilemas e aos paradoxos que o desenvolvimento rápido e desordenado ocasionara. Apesar de seu isolamento, os revoltosos foram esmagados, em 1915, por tropas federais comandadas pelo general Fernando Setembrio de Carvalho.

Após a gestão  Wenceslau Brás, durante a qual a Primeira Guerra Mundial e suas consequências econômicas foram fatores decisivos, a sucessão favoreceu a retomada do controle político para Minas Gerais e São Paulo. Como de hábito, os nomes para a sucessão eram apontados muito antes da época em que normalmente se deveria escolher os candidatos. Os líderes políticos mais cotados à sucessão presidencial eram Dantas Barreto, Rodrigues Alves e Lauro Muller. Este último, devido à sua origem germânica, não teria boas probabilidades. Dantas Barreto, cuja base política era Pernambuco, não tinha possibilidades nos grandes estados. Em março de 1917, Wenceslau Brás insiste com o seu líder na Câmara, Antônio Carlos, que adie para o mês de maio as primeiras demarches sucessórias, pois a antecipação do problema desprestigia seu governo.

A chapa Rodrigues Alves - Delfim Moreira obteve, ainda em março, o apoio dos estados do Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Amazonas e Pernambuco. Em junho de 1917 foi homologada a chapa Rodrigues Alves - Delfim Moreira por uma convenção de senadores, reunidos no edifício do Senado. Rui Barbosa protestou: "principal força política do país é a opinião pública, e esta não me consta haja manifestado de modo inequívoco, apoio a tal consideração, considerando que nunca reconheci nem o país reconheceu aos deputados e senadores competência para esta função exorbitante dos termos do seu  mandato regulado pela Constituição Nacional".

As eleições de 1º de março de 1918, apesar dos protestos de Rui, consagraram a tranquila vitória de Rodrigues Alves e Delfim Moreira. O novo período presidencial inauguraria uma nova fase no quadro político brasileiro: o surgimento de uma nova classe, o operariado, que demonstraria sua força nas greves de 1918. A indústria se implantara definitivamente. O declínio das oligarquias era patente, a estrutura econômica em progresso não encontrava mais correspondência nas formas políticas obsoletas. O momento em que se iniciou esse quatriênio, verdadeiro prenúncio da crise, pode ser chamado de período das contestações. Pululavam os fatores internos de inquietações, anunciando a Revolução de 1930.