O Estado Novo foi o regime político instaurado por Getúlio Vargas em 10 de novembro de 1937. O Estado Novo, que vigorou até o dia 31 de janeiro de 1946, foi um regime ditatorial e era caracterizado pela centralização do poder, nacionalismo, autoritarismo e anticomunismo.

O governo implantado pela Revolução de 1930 caracterizou-se simultaneamente pelo declínio político da aristocracia cafeeira e pela inexistência de quaisquer classes ou grupos aptos a assumir e a exercer sozinhos o poder: o movimento de 1930 criara um vazio político. Entre 1930 e 1937, o Brasil tornou-se um Estado de compromissos, hesitantes entre as postulações revolucionárias e os obstáculos criados pela existência de um grande número de tendências e interesses antagônicos. Os primeiros anos do getulismo, marcados pela Revolução Constitucionalista de 1932, pelo descrédito popular, pela frágil política do tenentismo, pelo surgimento e crescimento da Ação Integralista Brasileira e pelo movimento insurrecional de 35, foram uma fase preparatória, em cujos sucessivos episódios se verifica uma nova composição das forças em presença (N.W. Sodré). A instabilidade reinante, principalmente após a Intentona Comunista de 1935, favorecia os planos de continuísmo do governo Vargas que se justificariam pela necessidade de impedir a subversão e a guerra civil. Segundo Pedro Calmon, ainda em setembro de 1935, Getúlio Vargas consultara Flores da Cunha sobre as perspectivas e possibilidades de sua eventual permanência no cargo de Presidente da República.

O panorama internacional contribuía para o agravamento das contradições brasileiras; na Europa, surgia o Fascismo e intensificara-se a agitação comunista. A exemplo dos países europeus, o Brasil tornou-se palco de cada vez mais sangrentos conflitos entre esquerdistas e direitistas. A instabilidade reinante e a violência inaudita do levante comunista de 1935 facilitaram as pretensões de permanência no poder que Getúlio Vargas alimentava. Em contrapartida, opunham-se a seus sonhos continuístas:

Flores da Cunha: governador do Rio Grande do Sul que pretendia sucedê-lo e mantinha, em seu Estado, formações paramilitares, os provisórios, para garantir sua posse, se eventualmente fosse eleito.

Armando Salles de Oliveira: candidato paulista à presidência da República, que representava as esperanças de São Paulo de retomar o poder, desta vez legalmente, por meio de eleições, que deveriam realizar-se em fins de 1937.

A Legalidade Institucional, isto é, a existência de uma Constituição e de um Congresso.

Além de Armando Salles de Oliveira, apresentava-se como candidato à presidência da república José Américo de Almeida, ex-ministro da Viação e Obras Públicas, apoiado pelos comunistas, e Plínio Salgado, chefe da Ação Integralista brasileira, que se proclamou candidato a 24 de maio de 1937. Par Getúlio, restava apenas uma alternativa: evitar as eleições por meio de um golpe ou designar um candidato próprio. Embora preferisse a primeira, Getúlio, de início, dava à opinião pública a impressão de tomar as eleições a sério: chegou mesmo a lançar a candidatura de Macedo Soares, político paulista de enorme prestígio, para abalar as pretensões de Armando Salles de Oliveira. Como São Paulo rejeitasse essa candidatura, por perceber as intenções claras de divisionismo, lembrou-se Vargas de José Américo, antigo tenente paisano e escritor que se popularizara graças a um bom romance lançado pouco antes. (Leôncio Basbaum).

Getúlio, que em fins de 1936 encarregara o professor Francisco Campos de preparar a Nova constituição, necessitava criar um ambiente emocional de conspiração e golpes de Estado que permitisse e justificasse medidas de salvação nacional. Para criar essas condições, Vargas continuou com a providencial ajuda das tétricas revelações contidas no plano Cohen. Tratava-se de um suposto esquema de subversão comunista, descoberto em 1937, que incluía o assassinato de figuras importantes da política brasileira e visava à instalação de um regime esquerdista em nosso país. O documento, que recebeu esse nome devido ao fato de estar assinado pelo tal Cohen, causou estardalhaço na imprensa e pânico na população e na elite da política nacional. Surgiram várias dúvidas sobre a autenticidade do documento. O próprio general Góis Monteiro, figura de proa do governo, acusou Olímpio Mourão de forjar o plano; Olbiano de Melo, secretário-geral da Câmara dos Quarenta, o mais alto órgão político da Ação Integralista, também negou a autenticidade do plano: O documento divulgado não era nada mais nada menos que um decalque, uma adaptação do trabalho do capitão Mourão. De ofensivo, que era o dele (Mourão), o (plano) divulgado oficialmente apresentava-se com o caráter ofensivo, a ser desfechado logo pelos comunistas. (Olbiano de Melo in A Marcha da Revolução Social no Brasil, Edições O Cruzeiro, 1957, pág. 104).

Na verdade, o capitão Olímpio Mourão nada teve a ver com a falsificação de seu documento original, como foi provado, em 1956, por um Conselho de Justificação, requerido pelo próprio Mourão para apurar a verdade sobre o episódio Cohen. Autêntico ou não, o documento serviu a Getúlio: a imprensa e a população, principalmente as áreas conservadoras, temiam a agitação bolchevique. Faltava-lhe somente conquistar o apoio dos governadores a seu esquema continuísta. Como seu emissário direto, Vargas escolheu o deputado Francisco Negrão de Lima, que visitou todas as capitais obtendo o apoio da maioria dos governadores e prometendo-lhes a permanência geral do status quo. Alguns, por não merecerem confiança, não foram consultados: Flores da Cunha, do Rio Grande do Sul, Juracy Magalhães, da Bahia, e Carlos de Lima Cavalcanti, de Pernambuco. Juracy Magalhães e Carlos de Lima renunciaram. Tropas federais foram enviadas ao Rio Grande do Sul a pretexto das comemorações de 07 de setembro: Flores da Cunha, sentindo-se isolado de suas formações paramilitares, refugiou-se em Montevidéu. Com a concordância da maioria dos governadores estaduais, Getúlio tinha o caminho livre para o golpe. Somente um de seus ministros, o titular da Agricultura Odilon Braga, recusou-se a participar do esquema getulista e renunciou ao cargo.

A 09 de novembro, José Carlos de Macedo Soares, titular do Ministério da Justiça, foi substituído por Francisco Campos, por ordem de Vargas. Imediatamente, numa tentativa de resistência, foi lido na Câmara o Manifesto de Armando Salles de Oliveira às Forças Armadas, que constituía um apelo patético para que garantissem as instituições e o respectivo processo democrático; à noite, o ministro da Guerra foi informado que tal documento seria fartamente distribuído nos quartéis. Sem perda de um minuto, entendeu-se com o presidente; tomadas as medidas militares, que consistiam em fechar as casas do Parlamento e obstar a que elas fossem os que podiam abri-las, amanheceu o dia 10 com a revolução branca triunfante e incontestada. (Pedro Calmon). O apoio militar, confirmado pela colocação de tropas à frente do Congresso, o apoio dos governadores e o cansaço popular de anos de agitação política permitiram a Getúlio um golpe sem derramamento de sangue. Na manhã do dia 10 de novembro, alguns comandos militares foram substituídos, os governadores passaram à categoria de interventores federais e o “Diário Oficial “ publicou a constituição outorgada. Iniciava-se o Estado Novo também chamado de Ordem Nova, Democracia Autoritária, Estado Nacional e muitos outros nomes.

A Constituição de 1937, que visava à eliminação do Liberalismo, baseava-se na Constituição polonesa de Pilsudsky, daí ter recebido o nome popular de A Polaca. Caracterizava-se o novo documento constitucional pela centralização administrativa e pelas exageradas atribuições conferidas ao Poder Executivo. O presidente seria a autoridade suprema do Estado, que coordena os órgãos representativos de grau superior, dirige a política legislativa de interesse nacional e superintende a administração do país. (Trecho da Constituição de 1937).

A carta do Estado Novo eliminava o federalismo e as bandeiras estaduais e substituía os governadores por delegados do governo federal. Estabelecia, também em suas disposições Transitórias, que seria realizado um plebiscito, através do qual o povo aprovaria ou não a nova Constituição. Esse dispositivo jamais foi cumprido e sequer lembrado. A nova Constituição, que enfeixava nas mãos do Executivo os poderes Legislativo e Executivo, permitia ao governo demitir funcionários por motivos ideológicos e eliminava a independência e pluralidade sindicais. Foi completada pelo decreto de 02 de dezembro de 1937, que dissolvia todos os partidos políticos. A Constituição outorgada encerrou o golpe continuísta de Getúlio, que começara com a decretação de estado de guerra pelo Congresso, a 1º de outubro, para enfrentar a perturbação da ordem, e tivera seu clímax no golpe branco de 10 de novembro.