Economia Cafeeira

Economia Cafeeira

A estrutura econômica do Brasil não mudou durante o Primeiro Reinado e o Período Regencial. As crises econômicas que atingiram o país durante as duas décadas após a sua independência geraram divisões mesmo entre a classe dominante. As camadas populares, que viviam em condições miseráveis, realizavam movimentos sociais e questionavam o escravismo. Entretanto, a partir de 1840, a economia cafeeira no Brasil facilitou a consolidação do Estado monárquico, controlado pela aristocracia rural e escravista.

A produção do café teve origem entre os árabes. O café foi difundido pela Europa por comerciantes de Veneza durante o século XVII. Os europeus passaram a consumir café e, no século seguinte, este passou a ser produzido nas Antilhas. No século XIX, o café passou a ser cultivado no Brasil.


Planta do café

Com o estabelecimento da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808, o café passou a ser cultivado em Angra dos Reis e Mangaratiba. Em 1830, a produção de café se alastrou pelo vale do rio Paraíba e passou a ser de grande lavoura voltada para a exportação. Na década de 1820, o café representava aproximadamente 18% das exportações brasileiras. Na década de 1830, esse número já aproximava 43%. O principal exportador do café brasileiro eram os Estados Unidos.

Na primeira metade do século XIX, o café passou a ser plantado em outras províncias além do Rio de Janeiro. Em 1836, a província de São Paulo produzia 25% do café brasileiro. Por volta de 1850, o café passou a ser plantado no Oeste paulista que, graças à sua terra roxa, era ideal para o seu cultivo.

O café também chegou às Minas Gerais, ao sul e à Zona da Mata. Porém, apesar de Minas Gerais possuir um grande número de trabalhadores escravos, a produção cafeeira mineira não se comparava à fluminense. De fato, a província do Rio de Janeiro continuou sendo a principal produtora de café brasileiro: em 1865, os cafezais fluminenses representavam mais de 75% de todo o café brasileiro que era exportado.

A produção cafeeira

 

Nos primeiros tempos de lavoura cafeeira, o café era transportado por tropas de burro do interior até a cidade do Rio de Janeiro. Quando o produto chegava à capital, ele era adquirido pelo comissário de café e subsequentemente vendido ao exportador.

Havia escassez de mão de obra para trabalhar nas fazendas de café no vale do Paraíba e em Minas Gerais. Inicialmente, foram empregados escravos das antigas áreas de mineração e das lavouras da região. Mas os cafezais se multiplicaram e, portanto, aumentou a necessidade de trabalhadores a tal ponto que nem mesmo o deslocamento de escravos das grandes propriedades nordestinas estagnadas foi suficiente.


Comboio de café

Uma solução seria trazer mais escravos para o país, mas o Brasil dependia economicamente da Inglaterra e os ingleses exigiam a abolição do tráfico negreiro. Em 1807, a Inglaterra proibiu o tráfico de escravos em suas colônias nas Antilhas e, em 1833, aboliu definitivamente o trabalho escravo em suas possessões territoriais.

Devido ao custo do trabalho assalariado, os produtos das Antilhas inglesas tinham grande dificuldade em competir com os produtos similares de outros países que ainda utilizavam trabalho escravo. Os proprietários de terra das Antilhas passaram a pressionar o Parlamento inglês a liderar uma campanha internacional contra a escravidão. A burguesia inglesa também apoiava essa campanha antiescravista, pois, esperava-se que com o aumento de pessoas assalariadas nos países agrícolas, os mercados para seus produtos industrializados seriam muito ampliados.

O Brasil continuava adiando a extinção do tráfico de escravos. Em 1810, o país firmou com a Inglaterra um tratado de Aliança e Amizade, concordando em extinguir o tráfico lentamente. Mas o Brasil não cumpriu o acordo. Em 1827, o Brasil assinou um novo tratado, se comprometendo a extinguir o tráfico até 1830. Mais uma vez, o acordo não foi cumprido. O imperador renunciou em abril de 1831; em 7 de novembro, o governo regencial assinou uma lei proibindo a entrada de escravos africanos no Brasil. Mas essa lei não valeu para nada, pois a cada ano aumentava o ingresso de escravos no Brasil devido à expansão cafeeira no Sudeste e ao receio que o tráfico de escravos seria realmente abolido.


Escravos no porão

Os ingleses se descontentaram com o Brasil, pois a promessa de extinguir o tráfico de escravos foi repetidamente quebrada pelos brasileiros. Além disso, o Brasil havia criado a tarifa Alves Branco (1844), que elevou as taxas alfandegárias no país. Em represália às promessas não cumpridas e à tarifa Alves Branco, os ingleses instituíram o Bill Aberdeen - um decreto através do qual a Inglaterra se reservava o direito de aprisionar qualquer navio que transportasse escravos. A Inglaterra também se outorgava o direito de julgar traficantes de escravos.

Apesar dos protestos brasileiros, a Coroa inglesa manteve o Bill Aberdeen. A Marinha inglesa chegou até mesmo a invadir águas territoriais brasileiras para reprimir o tráfico de escravos. Entre 1849 e 1851, cerca de 90 embarcações suspeitas de traficarem escravos foram detidas e destruídas pela Marinha inglesa. Os ingleses ameaçaram até bloquear os portos brasileiros.

A pressão inglesa finalmente levou o governo brasileiro, na época liderado pelo Partido Conservador, a defender, no Congresso, o fim do tráfico negreiro. Em 1850, o Brasil promulgou a Lei Eusébio de Queirós, extinguindo o tráfico de escravos. Diferentemente de outras leis similares que haviam sido criadas no passado, a Lei Eusébio de Queirós foi eficaz e resultou numa queda brutal de escravos trazidos para o Brasil. Os importantes traficantes de escravos passaram a ser tratados como piratas.

Mas surge a pergunta: por que a Inglaterra tinha tanto interesse em banir o tráfico de escravos? A principal causa foi a Revolução Industrial. Durante a Revolução Industrial, a produção chegou a níveis que eram anteriormente considerados impossíveis. A instalação de grandes fábricas gerou muitos empregos e resultou numa expansão urbana, dando origem a uma sociedade urbano-industrial. Trabalhadores passaram a vender a sua força de trabalho aos empresários. Ao mesmo tempo, ideias liberais passaram a ser mais disseminadas na Europa: pregava-se a livre produção e comércio. Mas para assegurar esse novo modelo econômico capitalista, era necessário combater os monopólios, o protecionismo, o intervencionismo e o tráfico e trabalho escravo.

A pressão inglesa para abolir o tráfico de escravos para o Brasil foi efetiva. O governo brasileiro, contando com o apoio do Congresso, aprovou o fim do tráfico negreiro. O governo apresentou dois importantes argumentos para justificar essa sua decisão: a defesa da soberania nacional e da ordem interna.

O governo brasileiro sabia que teria que ceder às pressões da Inglaterra. Melhor seria ele mesmo tomar a iniciativa de reprimir o tráfico internacional. Dessa forma, preservaria a imagem do Brasil como país independente e não como uma marionete da Inglaterra.

O governo também alegou que a medida tinha o objetivo de preservar a ordem interna e proteger a sociedade: o fim do tráfico seria uma forma de evitar futuras insurreições de escravos que vinham ocorrendo pelas várias regiões do Brasil. O governo alertava que o país estava perdendo o controle da situação, seja em razão das pressões externas, seja pela resistência dos escravos. O fim do tráfico significaria uma reafirmação da ordem nacional.

O trabalho imigrante nas lavouras cafeeiras

A partir da promulgação da Lei Eusébio de Queirós, a lavoura cafeeira passou a depender do trabalho de imigrantes. Tornou-se necessário incentivar imigrações em massa para o Brasil.

Entre 1846 e 1875, houve a maior migração de povos já ocorrida na história. Acima de 9 milhões de pessoas deixaram a Europa. Os europeus emigravam de seus países principalmente por razões econômicas. Na época, havia escassez de empregos na Europa e havia enormes dificuldades para se adquirir terra.

Colônias de imigrantes europeus foram estabelecidas em território brasileiro desde os tempos de D. João VI. Em 1818, na província do Rio de Janeiro, foi fundada a colônia suíça de Nova Friburgo. Foi na região sul do país que a política de colonização ganhou mais impulso. Em 1824, foi fundada a colônia de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Lá, um tipo de colonização baseada no trabalho familiar e na policultura foi fundado por imigrantes alemães. Já a colonização italiana ganhou impulso na região de Campos dos Bugres - o que deu origem à importante cidade gaúcha de Caxias do Sul.

O principal objetivo do estabelecimento de colônias em terras gaúchas e catarinenses era o de promover a ocupação de regiões pouco povoadas e consideradas estratégicas para manter a união e segurança do território brasileiro.

No Sudeste cafeeiro, porém, a colonização imigrante teve dificuldades em se estabelecer. Os governos provinciais - Rio de Janeiro e Minas Gerais - tinham interesse em encorajar a imigração. Porém, o grande número de escravos africanos nessas províncias dava conta das necessidades da lavoura.

O trabalho imigrante foi mais valorizado em São Paulo, especialmente em áreas onde havia uma grave falta de mão de obra. Mas mesmo em São Paulo não foi fácil a substituição do trabalhador escravo pelo imigrante. Além disso, o fracasso da experiência do sistema de parcerias desmoralizou os esforços dos defensores das colônias de imigrantes. O que foi esse sistema de parcerias?

O sistema de parcerias, adotado no final da década de 1840, tinha como objetivo encorajar a vinda de imigrantes para o Brasil. Esses primeiros esforços partiram do senador Nicolau Pereira Campos Vergueiro, que incentivou a vinda de 80 famílias de alemães para a sua fazenda de Ibicaba, em São Paulo. Esses imigrantes alemães foram contratados através de um sistema de parceria. A firma Vergueiro & Cia. financiava a vinda dos imigrantes que já chegavam ao Brasil endividados pelos custos da viagem, da compra de ferramentas e de sua manutenção até a época da colheita. Essas dívidas eram pagas com empréstimos a juros de 6% a 12% ao mês. Os colonos eram também obrigados a comprar mantimentos nos armazéns das fazendas que praticavam preços mais altos que o normal.

Em pouco tempo, os imigrantes, devido às suas dívidas, se tornaram semiescravos. Em 1857, os colonos de Ibicaba se revoltaram. Sua revolta foi noticiada na Alemanha e fez com que o governo alemão proibisse a imigração de seus cidadãos para o Brasil.

O sistema de parceria, que resultara numa semiescravidão de imigrantes, fracassou. Na década de 1870, a situação se modificou. O governo provincial de São Paulo passou a subsidiar a imigração ao pagar os custos da mão de obra imigrante. Até mesmo hospedarias foram criadas para receber imigrantes. A partir daí, a imigração ao País começou a crescer rapidamente pelo fato de melhores condições de trabalho estarem sendo oferecidas aos imigrantes. Os fazendeiros brasileiros também passaram a pagar um preço fixo por alqueire trabalhado ou uma remuneração fixa mensal. Foi, portanto, introduzido o trabalho assalariado no Brasil.

O investimento necessário para financiar a implantação da lavoura cafeeira veio de diferentes fontes. Durante o século XVIII e início do século XIX, houve uma acumulação de recursos no vale do Paraíba. As lavouras de produção de alimentos cresceram e seus produtores acumularam capital ao vender seus produtos para a região mineradora e para o Rio de Janeiro. No início do século XIX, a região possuía animais de transporte e escravos - dois elementos necessários para o início da lavoura cafeeira que permitiram a organização e expansão das fazendas de café, apesar da crise econômica pela qual atravessava o país.

Em São Paulo, a produção açucareira no final do século XVIII acumulou capital que foi posteriormente investido na cafeicultura. A montagem de uma fazenda de café era muito mais simples que a de um engenho de açúcar. Com suficiente investimento e mão de obra, o café provou ser de fundamental importância para a economia brasileira.

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