Sistema Imunitário

Nosso corpo, assim como o de muitos animais, é revestido por uma epiderme "inteligente", pois suas células superficiais vão morrendo e descamando, enquanto outras se multiplicam por baixo e as substituem. Assim, os micróbios que chegam são descartados com as células mortas, a não ser que um ferimento lhes permita ultrapassar a epiderme.

Nossos tecidos são amplamente molhados pelo líquido intersticial, formado por água e substâncias dissolvidas. O excedente do líquido intersticial é recolhido pela minuciosa rede de capilares linfáticos, que se juntam para formar vasos linfáticos. Estes convergem e terminam por lançar seu conteúdo, a linfa, nas veias cavas. A circulação linfática reforça a circulação venosa e reencaminha os leucócitos ao seu quartel-general, o sangue.

Os leucócitos (glóbulos brancos) fagocitários atacam qualquer micróbio ou substância estranha que encontrem, mas, em geral, a infecção é produzida por milhões de exemplares de uma única espécie de micróbio. Compreende-se, portanto, que, ao longo da evolução, tenha surgido o sistema imunitário, que combate, de cada vez, apenas a espécie invasora.

O sistema imunitário atua por meio de três mecanismos:

  • Imunidade humoral - aquela em que participam proteínas especiais presentes no plasma sanguíneo, os anticorpos, produzidos pelos linfócitos B. O anticorpo, ao se ligar ao antígeno, inativa-o e favorece sua destruição pelas células fagocitárias.
  • Imunidade celular - nesse processo atuam os glóbulos brancos chamados linfócitos T citotóxicos ou matadores, apresentando, na membrana plasmática, proteínas que reconhecem e se ligam a células anormais ou infectadas por vírus, lançando sobre elas uma substância chamada perfurina, que destrói a membrana plasmática.
  • Interleucinas - proteínas ativadoras de células de defesa.

O sistema retículo-endotelial

Os fagócitos da medula óssea e dos nódulos linfáticos, juntamente com aqueles aderidos aos sinusoides do fígado e do baço e os macrófagos dos outros tecidos, são chamados coletivamente de sistema retículo-endotelial.

Em diversos pontos da rede linfática existem gânglios linfáticos, que são pequenos órgãos perfurados por canais e que funcionam como estruturas de defesa do organismo humano. Quando este é invadido por microrganismos, por exemplo, os glóbulos brancos dos gânglios linfáticos próximos ao local da invasão começam a se multiplicar ativamente, para dar combate aos invasores. Com isso os gânglios incham e ficam doloridos, formando as ínguas, que servem, inclusive, para detecção de um processo infeccioso. Podemos apalpá-los no pescoço, debaixo dos braços ou na virilha. Os nódulos linfáticos representam uma linha de defesa que impede a disseminação, pelo resto do corpo, dos micróbios trazidos da ferida pelos vasos linfáticos.

As tonsilas e o baço são órgãos que também pertencem ao sistema linfático, pois produzem linfócitos e participam dos mecanismos de imunidade do organismo.

O baço participa também do processo de destruição de hemácias velhas e armazena o ferro da hemoglobina para reutilização na produção de novas hemácias. É um órgão de cor vermelho-escura, localizado acima do rim esquerdo.

Os fagócitos dos sinusoides hepáticos são chamados células de Küpffer. As células retículo-endoteliais ingerem partículas coloidais e destroem glóbulos vermelhos e brancos envelhecidos.

Glóbulos brancos

Num homem, existe, normalmente, 4.000 a 11.000 glóbulos brancos por ml de sangue. Destes, os granulócitos (neutrófilos, eosinófilos, basófilos) ou polimorfonucleares leucócitos são os mais numerosos. Os neutrófilos jovens possuem o núcleo em forma de ferradura. A maioria delas contém granulações neutrófilas (neutrófilos), mas um pequeno número contém grânulos que se coram com corantes ácidos (eosinófilos) e, alguns contêm grânulos basófilos (basófilos). Os outros dois tipos de células encontradas normalmente no sangue periférico, são os linfócitos, células com núcleo grande e arredondadas e pouco citoplasma; e os monócitos, células com citoplasma agranulado abundante, e núcleo com forma de rim.

Todos os granulócitos contêm histamina e a enzima peroxidase. Nos neutrófilos e eosinófilos, alguns grânulos são lisossomos, com papel na digestão do material introduzido nas células pela fagocitose. Os basófilos contêm heparina (anticoagulante). Os eosinófilos aparentemente, fagocitam complexos antígeno-anticorpos e o número de eosinófilos circulantes é francamente elevado nos pacientes com doenças alérgicas.

Os monócitos, assim como os leucócitos neutrófilos, são ativamente fagocitários, invadindo as áreas de inflamação logo após os neutrófilos e, por fagocitose ativa, ajudam na remoção de bactérias e detritos celulares. São os monócitos que dão origem aos macrófagos, células especializadas em fagocitar microrganismos invasores, resíduos e células mortas. No tecido ósseo, diversos monócitos se fundem e dão origem aos osteoclastos, células especializadas em destruir tecido ósseo.

As células senis, são, presume-se, fagocitadas pelas células do sistema retículo-endotelial. Quando as bactérias invadem o corpo, a medula óssea é estimulada para produzir e liberar um grande número de neutrófilos. Os produtos da bactéria combinam-se com os fatores plasmáticos de forma a atrair as células fagocitárias para a área infectada e as células, se insinuam através das paredes dos capilares para atingir a área afetada (diapedese). Outros fatores plasmáticos agem sobre a bactéria para torná-la "melhor alvo" à fagocitose (opsonização). Os neutrófilos, então, ingerem a bactéria (fagocitose) e as vesículas fagocíticas assim formadas, fundem com os lisossomos (desgranulação). As vesículas fagocíticas geram peróxido de hidrogênio (H2O2), matando a bactéria. A primeira linha de defesa contra a invasão da bactéria é a fagocitose efetuada pelos neutrófilos.

A área infectada é, também, invadida por monócitos que são fagocitárias; eles seguem os neutrófilos, para a área infectada, constituindo-se numa linha de defesa secundária. Quando ocorre a infecção o número de granulócitos aumenta rapidamente.

O aumento na permeabilidade é maior nas vênulas, embora os capilares também estejam envolvidos. A área se torna quente, avermelhada e entumescida. As fendas existentes ao nível das junções entre as células endoteliais se alargam, e os polimorfonucleados abandonam a corrente sanguínea insinuando-se através dessas fendas (diapedese). Eles se acumulam nessa área e, juntamente com outros fagócitos e bactérias mortas, formam o fluido conhecido como pus.


Diapedese

Alguns linfócitos são formados na medula óssea, mas a maior parte deles é formada nos tecidos linfoides - nódulos linfáticos, timo e baço - a partir de células que, originalmente provêm da medula óssea (linfoblastos). Os linfócitos entram na corrente circulatória, na sua grande maioria, através dos vasos linfáticos. Os linfócitos T auxiliares são as células de "memória imunológica" (deixam registrados os antígenos com os quais já tiveram contato) que estimularão os linfócitos B para a produção de anticorpos. Os linfócitos T citotóxicos (ou assassinos ) produzem proteínas especiais (perfurinas) que fazem o combate "corpo a corpo" mudando a permeabilidade e provocando a morte de células cancerosas ou as infectadas por vírus. Os linfócitos T supressores determinarão o momento de parar a produção dos anticorpos.


Origem das células do sistema imunitário

Na parte externa de qualquer micróbio existem moléculas complexas, típicas de cada espécie, que não existem em nosso corpo. Qualquer molécula complexa que não possuíamos e que entra em nosso organismo é um "corpo estranho" ou antígeno. Os linfócitos T auxiliares têm na membrana plasmática moléculas especiais, os receptores de membrana, que "reconhecem" os antígenos, ligando-se a eles (modelo chave-fechadura). Admite-se que temos cerca de um milhão de tipos de linfócitos, cada um com um receptor de membrana diferente. Assim, a cada antígeno que penetrar no organismo corresponderá um linfócito com um receptor de membrana específico e ao qual esse antígeno se ligará. A partir daí, esse linfócito se multiplica, se diferencia e pode produzir novas populações de linfócitos T com várias funções, inclusive a de destruir células já parasitadas pelos vírus. O processo, no conjunto, é chamado imunidade celular.


Respostas imunológicas

O antígeno induz nosso sistema imunitário a fabricar um anticorpo capaz de combinar-se com o antígeno e neutralizar seus efeitos. Em geral, cada anticorpo só neutraliza o antígeno que induziu sua formação. Cada linfócito B tem, na membrana, apenas um receptor de antígeno, portanto, só é capaz de se ligar a um único antígeno. Os linfócitos B só conseguem produzir anticorpos depois de terem tido contato com linfócitos T auxiliares; e é preciso, além disso, que o linfócito T auxiliar tenha interagido com um macrófago que fagocitou o mesmo antígeno. Só depois desta ativação mediada por macrófagos e linfócitos T auxiliares, o linfócito B forma o clone que produz o anticorpo específico contra o antígeno. O processo, no conjunto, é chamado imunidade humoral.

Em conjunto, os linfócitos T e B são os principais responsáveis pela imunidade, isto é, pela capacidade que tem nosso organismo de se defender e se tornar imune ou resistente às doenças infecciosas. Durante a resposta imunitária, todos os tipos de linfócitos se multiplicam, em resposta a dois mecanismos que atuam em sequência:

a) o reconhecimento das substâncias estranhas ao corpo.

b) a estimulação dos linfócitos que realizaram esse reconhecimento por proteínas especiais, as interleucinas, produzidas por macrófagos e por linfócitos T auxiliares.

Após receber um antígeno, o organismo, após alguns dias, passa a liberar no plasma sanguíneo uma taxa crescente do anticorpo específico. Essa é a chamada resposta imunitária primária. Uma segunda exposição ao mesmo antígeno eleva mais rapidamente, e a nível ainda mais alto, a taxa do mesmo anticorpo no sangue. É a resposta imunitária secundária.

O antígeno se liga aos poucos aos linfócitos B que tenham o receptor específico, provocando enorme reação imunológica. Primeiro, esses linfócitos crescem e se multiplicam aceleradamente, formando plasmócitos, que são clones de células que produzem o anticorpo específico contra o antígeno invasor. O anticorpo secretado pelas células do clone liga-se ao antígeno do vírus ou da bactéria e o destrói. Assim, a pessoa fica curada e pode permanecer permanentemente imunizada, se o clone formado continuar presente ao longo da vida. Isso ocorre em algumas infecções (caxumba, rubéola), enquanto em outras, o clone desaparece com o tempo e a doença pode surgir de novo (gripe).

As vacinas se baseiam nesta extraordinária propriedade dos linfócitos B. Elas são feitas com o micróbio que foi morto ou inativado e, portanto, não produz a doença. Entretanto, o antígeno do micróbio provoca a formação do clone que produz o anticorpo correspondente. Assim, a pessoa que recebeu a vacina fica imunizada.

Algumas vacinas, tomadas com doses de reforço, dão uma boa proteção contra doenças infecciosas, pois garantem por mais tempo os altos níveis plasmáticos de anticorpos. Existe, então, no organismo, a chamada memória imunológica, pois determinadas células que já produziram um anticorpo podem reter essa informação e voltar a fabricá-lo mais rapidamente uma vez detectado o mesmo agente infeccioso (antígeno).

Há antígenos como os venenos de serpentes ou de aracnídeos que podem agir muito rapidamente no nosso organismo, causando danos fisiológicos com risco de serem fatais. Para essas situações são indicadas as aplicações de soros específicos, os quais já apresentarão os anticorpos prontos.

Os soros são desenvolvidos da seguinte forma: pequenas doses de veneno (antígenos) são injetadas num animal (cavalo, por exemplo), sem lhe causar dano. Lentamente o animal fica imunizado contra esse tipo específico de veneno, apresentando certa concentração dos anticorpos respectivos na sua corrente sanguínea. Do sangue desse animal é separado o soro (porção líquida), onde estarão os anticorpos. Este soro apresentará a propriedade de curar uma pessoa "picada" que tenha recebido o respectivo veneno. A esse processo chamamos de imunização passiva.

É importante reconhecer que a mãe grávida (através da circulação placentária), além da alimentação e oxigenação passa ao bebê parte dos anticorpos que ela possui. Isso confere imunidade nos primeiros meses após o nascimento. O mesmo processo ocorre através do leite durante o importantíssimo período de amamentação. 

Rejeição a transplantes

As principais substâncias utilizadas pelo sistema imunitário no reconhecimento de células estranhas são proteínas do complexo maior da histocompatibilidade ou MHC (do inglês, major histocompatibility complex). Estima-se que, na espécie humana, existam pelo menos vinte tipos básicos dessas proteínas, cada qual com mais de cinquenta variantes.

As proteínas do MHC são as principais responsáveis pelas complicações ocorridas em enxertos e transplantes de órgãos entre pessoas. Os linfócitos T citotóxicos ou matadores reconhecem as proteínas do MHC das células do doador como antígenos e passam a atacar e "rejeitar" o enxerto ou órgão transplantado. A reação de rejeição é geralmente resultado do ataque movido pelos linfócitos T citotóxicos do receptor às células transplantadas.

Os médicos procuram atenuar os problemas de rejeição realizando transplantes entre pessoas com o maior grau de semelhança possível com relação às proteínas do MHC, mas uma identidade perfeita só existe mesmo, entre gêmeos idênticos. Após o transplante o paciente é tratado com drogas que deprimem o sistema imunitário, o que tem a desvantagem de tornar o organismo mais susceptível a infecções.

Um antibiótico extraído de um fungo, a ciclosporina A, vem sendo largamente empregado no tratamento de pessoas que receberam transplantes de órgãos. A ciclosporina tem a vantagem de suprimir apenas a imunidade celular, sem afetar a imunidade humoral, ou seja, o organismo continua produzindo anticorpos.