Realismo e Naturalismo no Brasil

O Realismo e Naturalismo no Brasil se iniciou em 1881, com a publicação de Memória Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908), e de O Mulato, de Aluísio Azevedo (1857-1913).

1. Datas

  • 1881: Memórias Póstumas de Brás Cubas - início do Realismo no Brasil.
  • O Mulato, de Aluísio Azevedo - início do Naturalismo no Brasil.
  • 1893: Missal e Broquéis - início do Simbolismo no Brasil.

2. Contexto histórico

  • O Brasil vive um período de mudanças econômicas, políticas e sociais, entre as quais se destacam:
  • o enfraquecimento do governo de D. Pedro II - intensificação dos ideais republicanos;
  • o crescimento da campanha abolicionista;
  • uma economia agrária - concentração da renda nas mãos dos fazendeiros do açúcar e do café;
  • na década de 80 - comícios e passeatas de intelectuais e estudantes em prol das campanhas abolicionista e republicana;
  • em 1888, a Abolição da Escravatura;
  • em 1889, a Proclamação da República;

  • o início do processo de modernização da sociedade brasileira - dinamização da vida social e cultural, principalmente no Rio de Janeiro, sede do governo:
  • aumento da atividade comercial;
  • aumento do funcionalismo público;
  • melhoria no transporte urbano;
  • surgimento da iluminação elétrica e do cinema;
  • aumento do número de estradas de ferro;
  • chegada de outras religiões, além do Catolicismo - vinda dos anglicanos, metodistas e presbiterianos - fundação das primeiras escolas protestantes, a partir de 1870;
  • maior desenvolvimento da cultura - matemáticos, economistas, médicos, historiadores, além dos escritores;
  • clima propício à absorção, pelas artes, das novas ideias vindas da Europa e lá já consolidadas - o liberalismo, o socialismo e as teorias cientificistas.

Machado de Assis

Joaquim MariaMachado de Assis nasceu no Rio de Janeiro (1839) e lá morreu em 1908. Teve infância pobre: mulato, filho de uma pintor de paredes e de uma lavadeira, ficou órfão muito cedo e cresceu aos cuidados da madrasta, uma portuguesa doceira.

Frequentou a escola por pouco tempo, pois teve de trabalhar para ajudar no sustento seu e da família. Recebeu aulas de Francês e Latim de um padre amigo; autodidata, construiu uma vasta cultura literária, através da leitura de autores como Swift e Sterne.

Aos dezoito anos, publicou seus primeiros versos na revista A Marmota. Aos trinta, o casamento com Carolina Xavier de Novais marcaria o início da estabilidade e tranquilidade necessárias para dedicar-se à atividade literária.

À saúde frágil se atribui, normalmente, sua reserva e timidez, em oposição à sua inteligência brilhante e ao talento indiscutível, que lhe asseguraram o convívio no meio cultural da época. Foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

Em 1904, sofre a morte de Carolina, a quem pouco sobreviveria: quatro anos mais tarde, morre, cercado de prestígio e reconhecimento.

Polígrafo, escreveu romance, conto, poesia, teatro, crônica, crítica, cartas, com destaque para os romances e contos, considerados os melhores da nossa literatura e entre os quais se encontram suas principais obras:

  • romances: Memórias Póstuma de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Aires
  • contos: Papéis avulsos, Histórias sem data, Várias histórias, Relíquias da casa velha
  • poesia: Ocidentais

Sua obra acha-se dividida em duas fases:

1a. FASE - impropriamente chamada “romântica”:

  • fase de iniciação literária - influências do Romantismo, mas já apresentando certas características de seus romances realistas:
  • considerações sobre as atitudes e comportamentos das personagens;
  • personagens já não tão lineares quanto as românticas;
  • questionamento dos jogos de interesse e da hipocrisia social;
  • obras:
      - contos: Contos Fluminenses
        Histórias da Meia-Noite
      - romances: Ressurreição
        Helena
        A Mão e a Luva
        Iaiá Garcia

2a. FASE - realista:

  • fase da maturidade e das obras-primas;
  • auge de sua produção, tanto do ponto de vista do estilo, quanto da investigação da alma humana;
  • investigação do comportamento humano - Homem = ambiguidade insolúvel entre o SER e o PARECER ;
  • caráter universal - busca da essência humana - grandes temas filosóficos - privilégio da reflexão e da análise psicológica em detrimento da fixação na cor local ;
  • antecipações psicanalíticas, aproveitamento de arquétipos dos textos bíblicos e da tradição clássica;
  • pessimismo - visão desencantada da vida e do homem, ceticismo em relação aos valores do seu tempo;
  • ironia, fino senso de humor (“humour”):
  • estilo conciso, enxuto, sóbrio, elegante, marcado pela correção gramatical e pelo equilíbrio;
  • gosto pelas frases sentenciais - verdades morais;
  • lentidão na narrativa - privilégio da abordagem psicológica, para a caracterização da personagem, em detrimento da ação e do enredo - fixação pelo pormenor - microrrealismo;
  • antecipações do Modernismo:
               * organização metalinguística do discurso narrativo;
               * interrupções na narrativa - digressões, diálogos com o leitor;
               * estrutura fragmentária, não linear da narração - impressionismo associativo;
               * capítulos curtos;
               * “final aberto” - várias interpretações por parte do leitor;
  • obras:
     * romances: 
    Memórias Póstuma de Brás Cubas  Quincas Borba

    Dom Casmurro
    Esaú e Jacó
    Memorial de Aires

     * contos:
    Papéis Avulsos
    Histórias sem Data
    Várias Histórias
    Relíquias da Casa Velha

Textos escolhidos

Texto I
O DESATINO CAPÍTULO CXLVII

“Mandei logo para a imprensa uma notícia discreta, dizendo que provavelmente começaria a publicação de um jornal oposicionista, daí a algumas semanas, redigido pelo Dr. Brás Cubas. Quincas Borba, a quem li a notícia, pegou da pena, e acrescentou ao meu nome, com uma fraternidade verdadeiramente humanística, esta frase: ‘um dos mais gloriosos membros da passada Câmara’.
No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado, mas dissimulava, afetando sossego e até alegria. Vira a notícia do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me de semelhante ideia. Era um erro, um erro fatal. Mostrou-me que eu ia colocar-me numa situação difícil, e de certa maneira trancar as portas do Parlamento. O ministério, não só lhe parecia excelente, o que aliás podia não ser a minha opinião, mas com certeza viveria muito; e que podia eu ganhar com indispô-lo contra mim? Sabia que alguns dos ministros me eram afeiçoados; não era impossível uma vaga, e ... Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditara muito o passo que ia dar, e não podia recuar uma linha. Cheguei a propor-lhe a leitura do programa, mas ele recusou energicamente, dizendo que não queria ter a mínima parte no meu desatino.
É um verdadeiro desatino — repetiu ele —; pense ainda alguns dias, e verá que é um desatino.
A mesma coisa disse Sabina, à noite, no teatro. Deixou a filha no camarote, com o Cotrim, e trouxe-me ao corredor.
— Mano Brás, que é que você vai fazer? — perguntou-me aflita. Que ideia é essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia...
Expliquei-lhe que não me convinha mendigar uma cadeira no Parlamento; que a minha ideia era derribar o ministério, por não me parecer adequado à situação — e a certa fórmula filosófica; afiancei que empregaria sempre uma linguagem cortês, embora enérgica. A violência não era especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos, abanou a cabeça, e tornou ao assunto com ar de súplica e ameaça, alternadamente; eu disse-lhe que não, e que não. Desenganada, lançou-me em rosto preferir os conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos dela e do marido.
— Pois siga o que lhe parecer — concluiu—; nós cumprimos a nossa obrigação. — Deu-me as costas e voltou ao camarote.”

Memórias póstumas de Brás Cubas

Texto II

“Em casa, tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltara e estava mudando de roupa.
‘A missa das oito já há de ter acabado... Bentinho devia estar de volta... Teria acontecido alguma coisa, mano Cosme?... Mandem ver...’ Assim falava ela. de minuto a minuto, mas eu entrei e, comigo, a tranquilidade.
Era o dia das boas sensações. Escobar foi visitar-me e saber da saúde de minha mãe. Nunca me visitara até ali, nem as nossas relações estavam já tão estreitas, como vieram a ser depois; mas sabendo a razão da minha saída, três dias antes, aproveitou o domingo para ir ter comigo e perguntar se continuava o perigo ou não. Quando lhe disse que não, respirou.
— Tive receio, disse ele.
— Os outros souberam?
— Parece que sim; alguns souberam.
Tio Cosme e José Dias gostaram do moço; o agregado disse-lhe que vira uma vez o pai no Rio de Janeiro. Escobar era muito polido; e, conquanto falasse mais do que veio a falar depois, ainda assim não era tanto como os rapazes da nossa idade; naquele dia, achei-o um pouco mais expansivo que de costume. Tio Cosme quis que jantasse conosco. Escobar refletiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pai esperava por ele. Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel, repeti-as:
— Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui, e irá depois.
— Tanto incômodo!
— Incômodo nenhum, interveio tio Cosme.
Escobar aceitou, e jantou. Notei que os movimentos rápidos que tinha e dominava na aula também os dominava agora, na sala como na mesa. A hora que passou comigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros que possuía. Gostou muito do retrato de meu pai; depois de alguns instantes de contemplação, virou-se e disse-me:
— Vê-se que era um coração puro!
Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram dulcíssimos; assim os definiu José Dias, depois que ele saiu, e mantenho esta palavra, apesar dos quarenta anos que traz em cima de si. Nisto não houve exageração do agregado. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa, vindo a risca do cabelo quase em cima da sobrancelha esquerda; mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas. Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz curvo e delgado. Tinha o sestro de sacudir o ombro direito, de quando em quando, e veio a perdê-lo, desde que um de nós lho notou um dia no seminário; primeiro exemplo que vi de que um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos miúdos.”

Dom Casmurro

Texto III

“Entende-se bem que dona Tonica observasse a contemplação dos dois. Desde que Rubião ali chegou, não cuidou ela mais que de atraí-lo. Os seus pobres olhos de trinta e nove anos, olhos sem parceiro na terra, indo já a resvalar do cansaço na desesperança, acharam em si algumas fagulhas. Volvê-los uma e muitas vezes, requebrando-os, era o longo ofício dela. Não lhe custou nada armá-los contra o capitalista.
O coração, meio desenganado, agitou-se outra vez. Alguma coisa lhe dizia que esse mineiro rico era destinado pelo céu a resolver o problema do matrimônio. Rico era ainda mais do que ela pedia; não pedia riquezas, pedia um esposo. Todas as suas campanhas fizeram-se sem a consideração pecuniária; nos últimos tempos, ia baixando, baixando, baixando; a última foi contra um estudantinho pobre... Mas quem sabe se o céu não lhe destinava justamente um homem rico? Dona Tonica tinha fé em sua madrinha, Nossa Senhora da Conceição, e investiu a fortaleza com muita arte e valor.
— Todas as outras são casadas, pensou ela.
Não tardou em perceber que os olhos de Rubião e os de Sofia caminhavam uns para os outros; notou, porém, que os de Sofia eram menos frequentes e menos demorados, fenômeno que lhe pareceu explicável, pelas cautelas naturais da situação. Podia ser que se amassem... Esta suspeita afligiu-a; mas o desejo e a esperança mostraram-lhe que um homem, depois de um ou mais amores, podia muito bem vir a casar. A questão era captá-lo; a perspectiva de casar e ter família podia ser que acabasse de matar qualquer outra inclinação de parte dele, se alguma houvesse.
Ei-la que redobra esforços. Todas as suas graças foram chamadas a postos, e obedeceram, ainda que murchas. Gestos de ventarola, apertos de lábios, olhos oblíquos, marchas, contramarchas para mostrar bem a elegância do corpo e a cintura fina que tinha, tudo foi empregado. Era o velho formulário em ação; nada lhe rendera até ali, mas a loteria é assim mesmo: lá vem um bilhete que resgata os perdidos.
Agora, porém, à noite, por ocasião do canto ao piano, é que dona Tonica deu com eles embebidos um no outro. Não teve mais dúvida; não eram olhares aparentemente fortuitos, breves, como até ali, era uma contemplação que eliminava o resto da sala. Dona Tonica sentiu o grasnar do velho corvo da desesperança.Quoth the raven: NEVER MORE.
Ainda assim continuou a luta; chegou a conseguir que Rubião viesse sentar-se ao pé dela, por alguns minutos, e tratou de dizer coisas bonitas, frases que lhe ficaram de romances, outras que a própria melancolia da situação lhe ia inspirando. Rubião ouvia e respondia, mas inquieto, quando Sofia deixava a sala, e não menos quando voltava a ela. Uma das vezes a distração foi excessiva. Dona Tonica confessava-lhe que tinha muita vontade de ver Minas, principalmente Barbacena. Que tais eram os ares?
— Os ares, repetiu maquinalmente o outro.
Olhava para Sofia que estava então em pé, de costas para ele, falando a duas senhoras sentadas. Rubião admirou-lhe ainda uma vez a figura, o busto bem talhado, estreito embaixo, largo em cima, emergindo das cadeiras amplas, como uma grande braçada de folhas sai de dentro de um vaso. A cabeça podia então dizer-se que era como uma magnólia única, direita, espetada no centro do ramo. Era isso que Rubião mirava, quando dona Tonica lhe perguntou pelos ares de Barbacena, e ele repetiu a palavra dela, sem lhe dar sequer a mesma forma interrogativa."

Quincas Borba

Sumário

- Realismo e Naturalismo no Brasil
i. Datas
ii. Contexto histórico
- Machado de Assis
- Aluísio Azevedo
- Raul Pompeia
- Outros autores do Realismo-Naturalismo
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