Realismo e Naturalismo no Brasil

O Realismo e Naturalismo no Brasil se iniciou em 1881, com a publicação de Memória Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908), e de O Mulato, de Aluísio Azevedo (1857-1913).

1. Datas

  • 1881: Memórias Póstumas de Brás Cubas - início do Realismo no Brasil.
  • O Mulato, de Aluísio Azevedo - início do Naturalismo no Brasil.
  • 1893: Missal e Broquéis - início do Simbolismo no Brasil.

2. Contexto histórico

  • O Brasil vive um período de mudanças econômicas, políticas e sociais, entre as quais se destacam:
  • o enfraquecimento do governo de D. Pedro II - intensificação dos ideais republicanos;
  • o crescimento da campanha abolicionista;
  • uma economia agrária - concentração da renda nas mãos dos fazendeiros do açúcar e do café;
  • na década de 80 - comícios e passeatas de intelectuais e estudantes em prol das campanhas abolicionista e republicana;
  • em 1888, a Abolição da Escravatura;
  • em 1889, a Proclamação da República;
  • o início do processo de modernização da sociedade brasileira - dinamização da vida social e cultural, principalmente no Rio de Janeiro, sede do governo:
  • aumento da atividade comercial;
  • aumento do funcionalismo público;
  • melhoria no transporte urbano;
  • surgimento da iluminação elétrica e do cinema;
  • aumento do número de estradas de ferro;
  • chegada de outras religiões, além do Catolicismo - vinda dos anglicanos, metodistas e presbiterianos - fundação das primeiras escolas protestantes, a partir de 1870;
  • maior desenvolvimento da cultura - matemáticos, economistas, médicos, historiadores, além dos escritores;
  • clima propício à absorção, pelas artes, das novas ideias vindas da Europa e lá já consolidadas - o liberalismo, o socialismo e as teorias cientificistas.

Machado de Assis

Machado de Assis

Joaquim MariaMachado de Assis nasceu no Rio de Janeiro (1839) e lá morreu em 1908. Teve infância pobre: mulato, filho de uma pintor de paredes e de uma lavadeira, ficou órfão muito cedo e cresceu aos cuidados da madrasta, uma portuguesa doceira.

Frequentou a escola por pouco tempo, pois teve de trabalhar para ajudar no sustento seu e da família. Recebeu aulas de Francês e Latim de um padre amigo; autodidata, construiu uma vasta cultura literária, através da leitura de autores como Swift e Sterne.

Aos dezoito anos, publicou seus primeiros versos na revista A Marmota. Aos trinta, o casamento com Carolina Xavier de Novais marcaria o início da estabilidade e tranquilidade necessárias para dedicar-se à atividade literária.

À saúde frágil se atribui, normalmente, sua reserva e timidez, em oposição à sua inteligência brilhante e ao talento indiscutível, que lhe asseguraram o convívio no meio cultural da época. Foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

Em 1904, sofre a morte de Carolina, a quem pouco sobreviveria: quatro anos mais tarde, morre, cercado de prestígio e reconhecimento.

Polígrafo, escreveu romance, conto, poesia, teatro, crônica, crítica, cartas, com destaque para os romances e contos, considerados os melhores da nossa literatura e entre os quais se encontram suas principais obras:

  • romances: Memórias Póstuma de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Aires
  • contos: Papéis avulsos, Histórias sem data, Várias histórias, Relíquias da casa velha
  • poesia: Ocidentais

Sua obra acha-se dividida em duas fases:

1a. FASE - impropriamente chamada “romântica”:

  • fase de iniciação literária - influências do Romantismo, mas já apresentando certas características de seus romances realistas:
  • considerações sobre as atitudes e comportamentos das personagens;
  • personagens já não tão lineares quanto as românticas;
  • questionamento dos jogos de interesse e da hipocrisia social;
  • obras:
      - contos: Contos Fluminenses
        Histórias da Meia-Noite
      - romances: Ressurreição
        Helena
        A Mão e a Luva
        Iaiá Garcia

2a. FASE - realista:

  • fase da maturidade e das obras-primas;
  • auge de sua produção, tanto do ponto de vista do estilo, quanto da investigação da alma humana;
  • investigação do comportamento humano - Homem = ambiguidade insolúvel entre o SER e o PARECER ;
  • caráter universal - busca da essência humana - grandes temas filosóficos - privilégio da reflexão e da análise psicológica em detrimento da fixação na cor local ;
  • antecipações psicanalíticas, aproveitamento de arquétipos dos textos bíblicos e da tradição clássica;
  • pessimismo - visão desencantada da vida e do homem, ceticismo em relação aos valores do seu tempo;
  • ironia, fino senso de humor (“humour”):
  • estilo conciso, enxuto, sóbrio, elegante, marcado pela correção gramatical e pelo equilíbrio;
  • gosto pelas frases sentenciais - verdades morais;
  • lentidão na narrativa - privilégio da abordagem psicológica, para a caracterização da personagem, em detrimento da ação e do enredo - fixação pelo pormenor - microrrealismo;
  • antecipações do Modernismo:
               * organização metalinguística do discurso narrativo;
               * interrupções na narrativa - digressões, diálogos com o leitor;
               * estrutura fragmentária, não linear da narração - impressionismo associativo;
               * capítulos curtos;
               * “final aberto” - várias interpretações por parte do leitor;
  • obras:
     * romances: 
    Memórias Póstuma de Brás Cubas  Quincas Borba

    Dom Casmurro
    Esaú e Jacó
    Memorial de Aires

     * contos:
    Papéis Avulsos
    Histórias sem Data
    Várias Histórias
    Relíquias da Casa Velha

Textos escolhidos

Texto I
O DESATINO CAPÍTULO CXLVII

“Mandei logo para a imprensa uma notícia discreta, dizendo que provavelmente começaria a publicação de um jornal oposicionista, daí a algumas semanas, redigido pelo Dr. Brás Cubas. Quincas Borba, a quem li a notícia, pegou da pena, e acrescentou ao meu nome, com uma fraternidade verdadeiramente humanística, esta frase: ‘um dos mais gloriosos membros da passada Câmara’.
No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado, mas dissimulava, afetando sossego e até alegria. Vira a notícia do jornal, e achou que devia, como amigo e parente, dissuadir-me de semelhante ideia. Era um erro, um erro fatal. Mostrou-me que eu ia colocar-me numa situação difícil, e de certa maneira trancar as portas do Parlamento. O ministério, não só lhe parecia excelente, o que aliás podia não ser a minha opinião, mas com certeza viveria muito; e que podia eu ganhar com indispô-lo contra mim? Sabia que alguns dos ministros me eram afeiçoados; não era impossível uma vaga, e ... Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditara muito o passo que ia dar, e não podia recuar uma linha. Cheguei a propor-lhe a leitura do programa, mas ele recusou energicamente, dizendo que não queria ter a mínima parte no meu desatino.
É um verdadeiro desatino — repetiu ele —; pense ainda alguns dias, e verá que é um desatino.
A mesma coisa disse Sabina, à noite, no teatro. Deixou a filha no camarote, com o Cotrim, e trouxe-me ao corredor.
— Mano Brás, que é que você vai fazer? — perguntou-me aflita. Que ideia é essa de provocar o governo, sem necessidade, quando podia...
Expliquei-lhe que não me convinha mendigar uma cadeira no Parlamento; que a minha ideia era derribar o ministério, por não me parecer adequado à situação — e a certa fórmula filosófica; afiancei que empregaria sempre uma linguagem cortês, embora enérgica. A violência não era especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos, abanou a cabeça, e tornou ao assunto com ar de súplica e ameaça, alternadamente; eu disse-lhe que não, e que não. Desenganada, lançou-me em rosto preferir os conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos dela e do marido.
— Pois siga o que lhe parecer — concluiu—; nós cumprimos a nossa obrigação. — Deu-me as costas e voltou ao camarote.”

Memórias póstumas de Brás Cubas

Texto II

“Em casa, tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltara e estava mudando de roupa.
‘A missa das oito já há de ter acabado... Bentinho devia estar de volta... Teria acontecido alguma coisa, mano Cosme?... Mandem ver...’ Assim falava ela. de minuto a minuto, mas eu entrei e, comigo, a tranquilidade.
Era o dia das boas sensações. Escobar foi visitar-me e saber da saúde de minha mãe. Nunca me visitara até ali, nem as nossas relações estavam já tão estreitas, como vieram a ser depois; mas sabendo a razão da minha saída, três dias antes, aproveitou o domingo para ir ter comigo e perguntar se continuava o perigo ou não. Quando lhe disse que não, respirou.
— Tive receio, disse ele.
— Os outros souberam?
— Parece que sim; alguns souberam.
Tio Cosme e José Dias gostaram do moço; o agregado disse-lhe que vira uma vez o pai no Rio de Janeiro. Escobar era muito polido; e, conquanto falasse mais do que veio a falar depois, ainda assim não era tanto como os rapazes da nossa idade; naquele dia, achei-o um pouco mais expansivo que de costume. Tio Cosme quis que jantasse conosco. Escobar refletiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pai esperava por ele. Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel, repeti-as:
— Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui, e irá depois.
— Tanto incômodo!
— Incômodo nenhum, interveio tio Cosme.
Escobar aceitou, e jantou. Notei que os movimentos rápidos que tinha e dominava na aula também os dominava agora, na sala como na mesa. A hora que passou comigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros que possuía. Gostou muito do retrato de meu pai; depois de alguns instantes de contemplação, virou-se e disse-me:
— Vê-se que era um coração puro!
Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram dulcíssimos; assim os definiu José Dias, depois que ele saiu, e mantenho esta palavra, apesar dos quarenta anos que traz em cima de si. Nisto não houve exageração do agregado. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa, vindo a risca do cabelo quase em cima da sobrancelha esquerda; mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas. Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz curvo e delgado. Tinha o sestro de sacudir o ombro direito, de quando em quando, e veio a perdê-lo, desde que um de nós lho notou um dia no seminário; primeiro exemplo que vi de que um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos miúdos.”

Dom Casmurro

Texto III

“Entende-se bem que dona Tonica observasse a contemplação dos dois. Desde que Rubião ali chegou, não cuidou ela mais que de atraí-lo. Os seus pobres olhos de trinta e nove anos, olhos sem parceiro na terra, indo já a resvalar do cansaço na desesperança, acharam em si algumas fagulhas. Volvê-los uma e muitas vezes, requebrando-os, era o longo ofício dela. Não lhe custou nada armá-los contra o capitalista.
O coração, meio desenganado, agitou-se outra vez. Alguma coisa lhe dizia que esse mineiro rico era destinado pelo céu a resolver o problema do matrimônio. Rico era ainda mais do que ela pedia; não pedia riquezas, pedia um esposo. Todas as suas campanhas fizeram-se sem a consideração pecuniária; nos últimos tempos, ia baixando, baixando, baixando; a última foi contra um estudantinho pobre... Mas quem sabe se o céu não lhe destinava justamente um homem rico? Dona Tonica tinha fé em sua madrinha, Nossa Senhora da Conceição, e investiu a fortaleza com muita arte e valor.
— Todas as outras são casadas, pensou ela.
Não tardou em perceber que os olhos de Rubião e os de Sofia caminhavam uns para os outros; notou, porém, que os de Sofia eram menos frequentes e menos demorados, fenômeno que lhe pareceu explicável, pelas cautelas naturais da situação. Podia ser que se amassem... Esta suspeita afligiu-a; mas o desejo e a esperança mostraram-lhe que um homem, depois de um ou mais amores, podia muito bem vir a casar. A questão era captá-lo; a perspectiva de casar e ter família podia ser que acabasse de matar qualquer outra inclinação de parte dele, se alguma houvesse.
Ei-la que redobra esforços. Todas as suas graças foram chamadas a postos, e obedeceram, ainda que murchas. Gestos de ventarola, apertos de lábios, olhos oblíquos, marchas, contramarchas para mostrar bem a elegância do corpo e a cintura fina que tinha, tudo foi empregado. Era o velho formulário em ação; nada lhe rendera até ali, mas a loteria é assim mesmo: lá vem um bilhete que resgata os perdidos.
Agora, porém, à noite, por ocasião do canto ao piano, é que dona Tonica deu com eles embebidos um no outro. Não teve mais dúvida; não eram olhares aparentemente fortuitos, breves, como até ali, era uma contemplação que eliminava o resto da sala. Dona Tonica sentiu o grasnar do velho corvo da desesperança.Quoth the raven: NEVER MORE.
Ainda assim continuou a luta; chegou a conseguir que Rubião viesse sentar-se ao pé dela, por alguns minutos, e tratou de dizer coisas bonitas, frases que lhe ficaram de romances, outras que a própria melancolia da situação lhe ia inspirando. Rubião ouvia e respondia, mas inquieto, quando Sofia deixava a sala, e não menos quando voltava a ela. Uma das vezes a distração foi excessiva. Dona Tonica confessava-lhe que tinha muita vontade de ver Minas, principalmente Barbacena. Que tais eram os ares?
— Os ares, repetiu maquinalmente o outro.
Olhava para Sofia que estava então em pé, de costas para ele, falando a duas senhoras sentadas. Rubião admirou-lhe ainda uma vez a figura, o busto bem talhado, estreito embaixo, largo em cima, emergindo das cadeiras amplas, como uma grande braçada de folhas sai de dentro de um vaso. A cabeça podia então dizer-se que era como uma magnólia única, direita, espetada no centro do ramo. Era isso que Rubião mirava, quando dona Tonica lhe perguntou pelos ares de Barbacena, e ele repetiu a palavra dela, sem lhe dar sequer a mesma forma interrogativa."

Quincas Borba

Aluísio Azevedo

Aluísio Azevedo

Aluísio Azevedo nasceu em São Luís do Maranhão (1857) e morreu em Buenos Aires em 1913. Filho natural, sofreu na infância e na adolescência o preconceito da conservadora sociedade maranhense, pelo fato de seus pais viverem juntos sem serem legalmente casados. Recebeu aprimorada formação escolar no Liceu Maranhense, mas teve sua grande vocação para a pintura relegada a segundo plano.

Aos 19 anos, vem para o Rio de Janeiro morar com seu irmão Artur Azevedo — que já fazia sucesso com as peças teatrais que escrevia — e dedica-se ao desenho e à pintura, tornando-se caricaturista de alguns jornais da época. Com a morte do pai, volta a São Luís para cuidar da família e troca a caricatura pelo jornalismo anticlerical; publica o romance romântico Uma Lágrima de Mulher e depois O Mulato, que provoca grande escândalo e crítica por parte da sociedade local.

Volta ao Rio de Janeiro e tenta viver como “escritor profissional”, alternando as grandes obras naturalistas com romances românticos ao gosto do público leitor; desiludido com a profissão, abandona a atividade literária e ingressa na carreira diplomática, para “poder viver melhor”.

Suas principais obras são:

  • O Mulato
  • Casa de pensão
  • O Cortiço.

Introdutor do Naturalismo em nossa literatura em 1881 com O Mulato, escreveu romances naturalistas de grande vigor crítico, apoiado nas teorias cientificistas da época; na crítica social, combateu os preconceitos, as instituições, a hipocrisia social e os interesses clericais.

Sua obra mostra uma visão rigorosamente determinista da vida humana em sociedade, com o Homem condicionado à raça, ao meio e ao momento histórico. Ocorre a “zoomorfização das personagens”, geralmente degradadas, movidas pelo instinto, comparadas a animais, o que causa o superficialismo psicológico e a ausência de drama moral.

Observa-se a influência de sua formação como caricaturista na “técnica do tipo”, com a criação de personagens através da deformação pelo exagero dos traços. Isso lhe proporcionou facilidade para compor grupos de personagens e praticar o romance de coletividade, de espaço, em que há o entrelaçamento de experiências, com repercussões umas nas outras, como O Cortiço.

Textos escolhidos:

Texto I

“— Estou às suas ordens, mas o senhor tinha dito que iríamos no mês de agosto.
— É certo! Porém o tempo está seco e para a semana temos lua cheia. Podemos ir sábado. Convém-lhe?
— Como quiser... Estou pronto.
E, daí a pouco, Raimundo foi ao quarto verificar se os seus pertences de viagens, a borracha de aguardente, as botas de montar, as esporas e o chicote, achavam-se em bom estado de servir. Estranhou encontrar tudo isso mexido e remexido de muito fresco, como se alguém houvera se servido daqueles objetos. Já não era o primeiro reparo que fazia desse gênero; por outras vezes quis lhe parecer que alguém curioso de mau gosto se divertia a remexer-lhe os papéis e a roupa. ‘Talvez bisbilhotice do moleque!’
Mas, no dia seguinte, por ocasião de deitar-se, achou sobre o travesseiro um atracador de tartaruga preso a um laço de veludo preto. Reconheceu logo estes objetos: pertenciam a Ana Rosa. ‘Mas, como diabo vieram eles, imoralmente, parar ali, na sua cama?... Havia nisso, com certeza, um mistério ridículo, que convinha pôr a limpo!...’ Lembrou-se então de ter ficado uma vez muito intrigado por descobrir, na escova e no pente de seu uso, fios compridos de cabelo, cabelo de mulher, sem dúvida, e mulher branca.
Já maçado, resolveu passar busca minuciosa em todo o quarto e encontrou os seguintes corpos de delito: dois ganchos de pentear, um jasmim seco, um botão de vestido e três pétalas de rosa. ‘Ora, estes objetos lhe pertenciam tanto quanto o pentinho de tartaruga e o laço de veludo... Quem fazia a limpeza e arrumava o quarto era o Benedito; este também não usava laços nem ganchos na cabeça... Logo, como havia pensado, alguém se divertia em vir, na sua ausência, revistar o que era dele, e esse alguém só podia ser Ana Rosa!... Mas, que diabo vinha ela fazer ali?... Como adivinhar o fim daquelas visitas extravagantes?... Seria simples curiosidade ou andaria naquilo a base de alguma intriga maranhense, tramada contra o morador do quarto, ou, talvez, quem sabe, contra a pobre menina?... Fosse o que fosse, em todo o caso, era urgente pôr cobro a semelhante patacoada!”

O mulato

Texto II

“À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando ele, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum de bestas no coito.
E depois, fechado no quarto de dormir, indiferente e habituado às torpezas carnais da mulher, isento já dos primitivos sobressaltos que lhe faziam, a ele, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda a prosperidade do vizinho o que lhe obsedava o espírito, enegrecendo-lhe a alma com um feio ressentimento de despeito.
Tinha inveja do outro, daquele outro português que fizera fortuna, sem precisar roer nenhum chifre; daquele outro que, para ser mais rico três vezes do que ele, não teve de casar com a filha do patrão ou com a bastarda de algum fazendeiro freguês da casa!
Mas então ele, Miranda, que se supunha a última expressão da ladinagem e da esperteza; ele, que, logo depois de seu casamento, respondendo para Portugal a um ex-colega que o felicitava, dissera que o Brasil era uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas rédeas um homem fino empolgava facilmente; ele, que se tinha na conta de invencível matreiro, não passava afinal de um pedaço de asno comparado com o seu vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo de uma brasileira mal-educada e sem escrúpulos de virtude! Imaginara-se talhado para grandes conquistas, e não passava de uma vítima ridícula e sofredora!... Sim! No fim de contas qual fora a sua África?... Enriquecera um pouco, é verdade, mas como? A que preço? Hipotecando-se a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de réis, mas milhões de desgostos e vergonhas! Arranjara a vida, sim, mas teve de aturar eternamente uma mulher que ele odiava! E do que afinal lhe aproveitar tudo isso? Qual era afinal a sua grande existência? Do inferno da casa para o purgatório do trabalho e vice-versa! Invejável sorte, não havia dúvida!
Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua filha, o desgraçado nem sequer gozava o prazer de ser pai. Se ela, em vez de nascer de Estela, fora uma enjeitadinha escolhida por ele, é natural que a amasse e então a vida lhe correria de outro modo; mas naquelas condições, a pobre criança nada mais representava que o documento vivo do ludíbrio materno, e o Miranda estendia até à inocentezinha o ódio que sustentava contra a esposa.”

O cortiço

Raul Pompeia

Raul Pompeia

Raul Pompeia nasceu em Angra dos Reis (1863) e morreu no Rio de Janeiro, em 1895. De família abastada, passou anos interno no tradicional Colégio Abílio, de onde tiraria inspiração para sua obra-prima, O Ateneu.

Fez os estudos secundários no Colégio Pedro II e lá teve contato com as teorias cientificistas da época, com a obra de Flubert e Zola. Iniciou o curso de Direito em São Paulo, tendo convivido com a intelectualidade e militado nos movimentos abolicionistas e republicanos; também se dedica ao jornalismo e faz charges contra proprietários rurais.

Já consagrado como jornalista, transfere-se para a Faculdade de Direito do Recife, onde conclui o curso; de volta ao Rio, dedica-se à literatura, ao jornalismo, ao magistério e exerce vários cargos públicos.

Seu temperamento hipersensível, instável, de homem retraído, conflituoso levou-o a envolver-se em várias polêmicas (inclusive um desafio para duelo com Olavo Bilac, por causa de seu radicalismo) e provocou uma crise pessoal insuperável, com o suicídio aos 32 anos, na noite de Natal.

Suas principais obras são: O Ateneu, Uma Tragédia no Amazonas, As Joias da Coroa.

Sua obra-prima, O Ateneu, Crônica de Saudades, é obra de difícil classificação: mistura elementos impressionistas (predominantemente), expressionistas, realistas e naturalistas, com antecipações psicanalíticas. Tem sido considerado um "romance impressionista" pela presença do registro das impressões causadas pela realidade e filtradas pela ótica do narrador. A memória do personagem-narrador é o fio condutor da narrativa, marcada pela sucessão de episódios e estruturada através de "manchas de recordação".

O livro apresenta projeções autobiográficas: o Ateneu (colégio) é uma recriação artística do colégio interno onde o autor estudara, e também o microcosmo onde se projetam as mazelas da sociedade, do mundo exterior. Caracteriza a obra ainda um estilo ágil, nervoso, dinâmico, com grande carga passional, metáforas exageradas, frases de forte carga emocional.

O pessimismo e o caráter memorialista da obra aproximam-se do processo narrativo de Machado de Assis.

Texto escolhido:

"Na biblioteca, Bento Alves escolhia-me as obras: imaginava as que me podiam interessar; e propunha a compra, ou as comprava e oferecia ao Grêmio, para dispensar-se de mas dar diretamente. No recreio não andávamos juntos; mas eu via de longe o amigo, atento, seguindo-me o seu olhar como um cão de guarda.
Soube depois que ameaçava torcer o pescoço a quem pensasse apenas em me ofender; seu irmão adotivo! confirmava.
Eu, que desde muito assumira entre os colegas um belo ar de impávida altania, modificava-me com o amigo, e me sentia bem na submissão voluntária, como se fosse artificial a bravura, à maneira da conhecida petulância feminina.
A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo da represália do Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicência, digna deles.
Às vezes na biblioteca, enquanto eu lia, Alves olhava-me do outro lado da mesa central de pano verde, com a mão à fronte e os dedos mergulhados nos cabelos. Olhava-me e eu o sentia sem levantar a vista, compreendendo no mais fino refolho de ninada vaidade que aquela contemplação traduzia o horror do ridículo, proverbial em Bento Alves, manietando-lhe rijamente uma demonstração efusiva. Não fosse a crítica uma criatura do tempo, eu poderia achar cômica a situação dos personagens desta cena de platonismo. Não havendo a crítica para falsear a psicologia por desdobramento, limitava-me a ser sincero, como o pobre amigo. Às vezes vinha-lhe à pálpebra uma lágrima sem origem.
No movimento geral da existência do internato, desvelava-se caprichosamente; sabia ser de modo inexprimível, fraternal, paternal, quase digo amante, tanta era a minudência de seus cuidados. Não havia regalo, dessas mesquinhas coisas de preço enorme na carestia perpétua da prisão escolar, de que se não privasse o Alves, em meu proveito, desesperando-se, a fazer pena, se eu tentava recusar. À conversa, falava da família no Rio Grande do Sul; tinha duas irmãs; falava delas, do tempo passado que não as via, muito claras, de belos olhos, uma de quinze anos, outra de doze; ele tinha dezoito.[...]"

O Ateneu

Outros autores do Realismo-Naturalismo

Inglês de Souza:

  • O Missionário

Adolfo Caminha:

  • A Normalista
  • O Bom Crioulo

Domingos Olímpio:

  • Luzia-Homem

Júlio Ribeiro:

  • A Carne

Manuel de Oliveira Paiva:

  • D. Guidinha do Poço

Sumário

- Realismo e Naturalismo no Brasil
i. Datas
ii. Contexto histórico
- Machado de Assis
- Aluísio Azevedo
- Raul Pompeia
- Outros autores do Realismo-Naturalismo
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