Revoluções na França

No início do século XIX, após a vitória das forças europeias sobre Napoleão Bonaparte, iniciou-se uma fase reacionária, aristocrático-conservadora, restaurando-se na França a monarquia sob a dinastia Bourbon. Todavia, o avanço do liberalismo na Europa era irreversível e o período restaurador foi sacudido por intensas ondas revolucionárias. Estas se manifestaram nos dois lados do Atlântico, promovendo movimentos de cunho liberal-nacionalista, que resultaram na independência das colônias ibéricas na América e na unificação da Alemanha e da Itália. Além disso, consolidou-se o capitalismo-burguês em quase todo o continente europeu.

A REVOLUÇÃO DE 1830 NA FRANÇA

Em 1815, com a derrota de Napoleão Bonaparte em Waterloo, a monarquia foi restaurada na França. Isso foi uma das determinações do Congresso de Viena. Sob Luís XVIII, da dinastia Bourbon, restabeleceu-se um governo elitista, de tendência absolutista, com pequenas doses de liberalismo –respeito à Constituição, a divisão dos poderes e a garantia da propriedade privada e das liberdades individuais –, mas que procurava sempre excluir a massa da população da vida política.


Moedas de ouro com Luís XVIII

A forte agitação política dos períodos anteriores, porém, não foi contida pelo novo monarca. Na Assembleia Legislativa, os debates eram acalorados entre os grupos nela representados:

  • ultrarrealistas: a aristocracia, que desejava o retorno completo do absolutismo;
  • bonapartistas: a burguesia, que havia sido beneficiada durante o período napoleônico e que desejava o retorno do antigo imperador;
  • radicais: grupos populares – revolucionários liberais que defendiam os ideais de 1789.

Assim, durante alguns anos, Luís XVIII conseguiu governar a França mesclando doses de absolutismo – objetivadas pela aristocracia – e de liberalismo – desejado pela burguesia. Em 1824, porém, sua morte fez com que subisse ao trono da França, Carlos X, irmão do finado rei e de explícita tendência ultrarrealista. Sob o reinado de Carlos X, fortaleceu-se o reacionarismo iniciado em 1815: o rei propôs inclusive a restauração dos antigos privilégios da nobreza e do clero.

Diante do absolutismo de Carlos X, vários grupos manifestaram seu descontentamento, que culminou com uma revolução que depôs o rei, em 1830. A Revolução de 1830, na França, teve um caráter liberal, apesar da intensa participação das classes subalternas de Paris, que ergueram barricadas nas ruas para enfrentar a autoridade real. As Jornadas Gloriosas – como ficou conhecida a resistência popular em 1830 – foram estimuladas e lideradas pela alta burguesia francesa.

A Revolução depôs o rei Carlos X, que fugiu da França. Por meio dela, além de encerrado o governo da dinastia Bourbon, foram sepultadas definitivamente as tendências restauradoras do Congresso de Viena, consolidando-se o liberalismo burguês. Em lugar de Carlos X, assumiu o trono francês, Luís Filipe de Orléans, o “rei burguês”.

A REVOLUÇÃO DE 1848

Com a fuga de Carlos X, chegou ao fim o governo da dinastia Bourbon e suas pretensões absolutistas na França. Ascendeu ao trono, Luís Filipe de Orléans, que foi apelidado de “o rei burguês”. A tomada do poder por Luís Filipe significou um avanço liberal, que se expandiu por todo o continente europeu, assumindo, inclusive, um caráter nacionalista em determinadas regiões. O novo rei reformulou a Constituição e consagrou a monarquia parlamentar censitária, ou seja, manteve a exclusão das massas proletárias da vida política francesa.

Todavia, os segmentos excluídos da vida política na França haviam participado ativamente da deposição de Carlos X e se achavam no direito de se expressar politicamente. Assim, aos grupos subalternos da população - operários socialistas, em sua maioria - uniram-se os bonapartistas e os republicanos (pequena burguesia), formando uma frente de oposição ao rei Luís Filipe. Exigiam, basicamente, reformas políticas que lhes garantissem participação na cena política francesa.

Para manifestar suas reivindicações, a oposição ao rei organizou a Política dos Banquetes – reuniões, ocorriam durante as refeições, em que as críticas ao rei eram apresentadas. Ocorreram cerca de sessenta reuniões. Em 1848, o ministro François Guizot decidiu proibi-las. A proibição fez com que as forças populares entrassem em conflito com as forças do rei. Alguns dos soldados do rei aderiram ao movimento popular, enfraquecendo a resistência de Luís Filipe e obrigando-o a fugir para a Inglaterra.

Esses episódios ficaram conhecidos como a Revolução de 1848, que pôs fim à monarquia francesa com a proclamação da República.

A SEGUNDA REPÚBLICA FRANCESA (1848-1852)

Com a Proclamação da República, em 1848, e a deposição de Luís Filipe, organizou-se, na França, um governo provisório que convocou uma Assembleia Constituinte. Além disso, o novo governo adotou as seguintes medidas:

  • fim da pena de morte
  • sufrágio universal
  • criação de oficinas nacionais, como havia proposto o socialista Louis Blanc.

Percebe-se o grande peso das reivindicações populares (radicais) nas decisões do governo provisório, revelando a importância política dos segmentos subalternos da sociedade francesa no movimento de 1848. Os burgueses que se opuseram a Luís Filipe, porém, não almejavam reformas profundas, e sim, algumas poucas transformações de cunho exclusivamente político. Assim, os burgueses se organizaram e conseguiram eleger a maioria na Constituinte, tendo como objetivo imprimir um caráter liberal, mas moderado, às novas determinações constitucionais. A repressão aos radicais não tardou e esse grupo acabou sendo neutralizado.

A Constituição, aprovada em 1848, instituía um Poder Legislativo eleito por sufrágio universal, com mandato de três anos, e um Poder Executivo, também eleito por sufrágio universal, para um mandato de quatro anos. Em dezembro de 1848, os franceses elegeram seu presidente - Luís Bonaparte, sobrinho do imperador Napoleão I –, sonhando poder reviver a glória do passado bonapartista.

Durante seu governo, Luís Bonaparte procurou garantir a unidade e a pacificação nacional, enfatizando o ideal de progresso e de poderio nacional. O presidente, porém, conforme decisão da Constituinte, não poderia ser reeleito. Desejando permanecer à frente do governo francês e contando, para isso, com o apoio de significativa parcela da população, fechou a Assembleia Nacional e instituiu a ditadura. O golpe desfechado pelo presidente ficou conhecido como o 18 Brumário de Luís Bonaparte, devido às semelhanças com o golpe dado por Napoleão em 1799. Em seguida, por meio de um plebiscito, Bonaparte adquiriu poderes para elaborar uma nova Constituição, que o transformou em cônsul (como havia ocorrido com o tio), dando-lhe poderes ditatoriais por um período de 10 anos.

Em 1852, Luís Bonaparte conclamou outro plebiscito, que decidiu que a França adotaria novamente o Império. Luís Bonaparte foi coroado imperador da França com o título de Napoleão III.

O SEGUNDO IMPÉRIO (1852-1870)

Em 1852, legitimado por um plebiscito, Luís Bonaparte instituiu o Império na França, sendo coroado com o título de Napoleão III. Com o golpe, o novo imperador instituiu uma ditadura pessoal, marginalizando da vida política francesa o Poder Legislativo e as forças de oposição. O imperador investiu na modernização e no desenvolvimento econômico, beneficiando a burguesia industrial.

Ao adotar uma política de pacificação interna, buscou a estabilidade política – garantia de prosperidade econômica. Ao mesmo tempo, procurou fazer de Paris a mais imponente capital europeia, contratando o engenheiro Georges-Eugène Haussman para reurbanizar a cidade: as pequenas vielas deram lugar a largas avenidas, parques foram criados e grandes palacetes foram construídos. A reurbanização de Paris visava também a controlar mais eficientemente a população mais pobre da cidade e segregá-la, mantendo-a afastada do centro.

A partir de 1860, porém, tendo sido conquistada a estabilidade política, setores moderados da sociedade passaram a exigir a liberalização do regime, já que a ameaça radical parecia afastada. Reivindicavam a liberdade de expressão e de imprensa e a restauração dos poderes do Legislativo. Tais pressões internas contribuíram para enfraquecer a ditadura do Imperador.

No âmbito da política externa, Napoleão III procurou expandir as fronteiras da França, tal como havia feito seu tio. Contudo, o expansionismo de Luís Bonaparte foi desastroso para a França.

Em 1854, a França se envolveu em um conflito com o czar russo, Nicolau I. Tal conflito é denominado de Guerra da Crimeia. Os russos avançavam sobre os Bálcãs – região pertencente ao império turco-otomano. Para contê-los, franceses e ingleses se aliaram e lutaram contra a Rússia. Impediram a expansão russa sobre a área, garantindo a sobrevivência do império turco-otomano na Europa.

Napoleão III se envolveu em diversos conflitos na Europa. Em alguns casos, apoiava movimentos nacionalistas - como o de Piemonte, pela unificação da Itália – em que se indispôs com a Áustria. Em outros, se opunha a eles – como no caso da Prússia. Além disso, entre 1862 e 1867, enviou tropas para o México, envolvendo-se em uma guerra que se revelou desastrosa para as finanças francesas.

O imperador francês também se envolveu em um conflito com a Prússia (1870-1871), que lutava pela unificação política e que era liderada pelo primeiro-ministro Otto von Bismarck. As forças prussianas venceram com relativa facilidade o exército francês. A derrota foi uma grande humilhação para a França. O Tratado de Frankfurt, assinado logo após o fim dos combates, determinou que a França deveria pagar uma pesada indenização à Prússia – agora denominada Alemanha – que havia sido unificada graças ao conflito contra os franceses. A França também foi obrigada a entregar à Alemanha os ricos territórios da Alsácia e da Lorena. Para completar a humilhação, o novo monarca alemão, Guilherme I, fez-se coroar na sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes.

A derrota e humilhação imposta à França enfraqueceu os poderes de Napoleão III, ocasionando a substituição do Império pela República ainda em 1871.

Diante das dificuldades econômicas e políticas decorrentes da derrota da França na Guerra Franco-Prussiana, o povo de Paris tomou de assalto o governo e instalou, inspirado em ideias socialistas, a Comuna de Paris.

A experiência da Comuna durou pouco. As tropas que lutaram contra a Prússia retornaram à sede do governo. Os prussianos colaboraram com o exército francês na repressão aos rebeldes. As forças do governo invadiram Paris e encontraram uma desesperada resistência popular. Em maio de 1871, a Comuna havia sido vencida: cerca de 20 mil rebeldes haviam sido mortos durante os combates ou executados e 70 mil haviam sido exilados ou deportados.

Sumário

- A Revolução de 1830 na França
- A Revolução de 1848
- A Segunda República Francesa (1848-1852)
- O Segundo Império (1852-1870)
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