Civilização Romana

A civilização romana foi uma das mais brilhante da Antiguidade e responsável por diversas características das nossas sociedades atuais no Ocidente. Além da língua e literatura latinas, que tanto influenciaram na formação dos atuais idiomas, o direito romano e a religião cristã ainda hoje estão presentes em nosso cotidiano.

A civilização romana é uma mescla de influências de várias culturas que se consolidou à medida que Roma se expandiu sobre a Península Itálica e os territórios vizinhos. Os romanos construíram um império que durou mil anos. A civilização romana passou por três fases: a Monarquia, a República e o Império.

Situação Geográfica

Situada na Península Itálica, Roma foi a sede do maior império da Antiguidade. A Itália é um país de relevo pouco acidentado e litoral pouco recortado. Os solos férteis localizam-se na parte norte, favorecendo as práticas agrícolas. A centralização do poder foi possível na Antiguidade devido à facilidade das comunicações terrestres. O comércio marítimo, no entanto, não se desenvolveu muito nesse período histórico devido à ausência de facilidades geográficas.

Evolução histórica

A história romana divide-se em três períodos:

  • Monarquia (séculos VIII-VI a.C.)
  • República (séculos VI-I a.C.)
  • Império (séculos I-V d.C.)
    • Alto Império (século I a.C. – século III d.C.)
    • Baixo Império (séculos III – V)

Os primeiros habitantes da Itália e a fundação de Roma

A Península Itálica começou a ser povoada há cerca de quatro mil anos por povos de origem indo-europeia que se deslocaram da Europa centro-ocidental para o sul do continente.

No Norte, concentraram-se os gauleses, enquanto o centro foi dividido entre etruscos e italiotas (latinos e sabinos). Já o sul da Itália foi ocupado por gregos durante a Segunda Diáspora (Magna Grécia).

A cidade de Roma surgiu por volta do ano 1000 a.C. Inicialmente, era apenas uma fortaleza militar de origem latina em território etrusco. Aos poucos, em torno do forte cresceu a cidade, que passou a concentrar população e atividades agrícolas e comerciais.

“Os romanos não produziram eles próprios qualquer literatura histórica antes de cerca de 200 a.C., altura em que um senador de família ilustre, Q. Fábio Pictor, escreveu a primeira história de Roma. Desta obra, escrita em grego, apenas chegaram até nós algumas citações. Fábio Pictor consultou provavelmente arquivos religiosos, os registros das principais famílias aristocráticas e relatos de historiadores gregos; estas fontes, assim como provas de uma tradição oral popular e inscrições arcaicas, monumentos e relíquias, devem ter formado a base do seu relato dos primeiros tempos da história de Roma. Fábio Pictor atribuiu a fundação da cidade a Rômulo. Segundo a história tradicional, Rômulo fora abandonado em criança nas margens do Tibre, com seu irmão gêmeo, Remo. Os dois bebês foram salvos por uma loba que os amamentou, tendo mais tarde sido recolhidos por pastores, junto de quem viveram os primeiros anos, nas colinas sobranceiras à margem esquerda do rio. Foi aqui que, mais tarde, Rômulo fundou a cidade que tomou o seu nome, após ter morto o irmão numa querela mesquinha.” (Grandes Impérios e Civilizações, Roma, vol.1, p.17)

A Monarquia

Após a morte de Rômulo, o trono foi ocupado alternadamente por reis de origem sabina e latina: Numa Pompílio (sabino), Túlio Hostílio (latino), Anco Márcio (sabino). A economia romana caracterizava-se pelas atividades agrário-pastoris (trigo, cevada, ervilha, feijão).

A sociedade era dividida em grupos: a elite agrária era formada pelos patrícios e clientes – os primeiros grandes proprietários de terras que permitiam aos clientes viverem sob sua proteção. Os patrícios controlavam a vida política na Roma monárquica. Abaixo dessa elite, havia a massa popular constituída por plebeus e escravos. A plebe era composta por pequenos lavradores independentes que não tinham acesso à vida política, enquanto os escravos, geralmente escravizados por dívidas, ocupavam-se de atividades domésticas, tendo pequena importância numérica e econômica nessa fase da história romana.

O poder político era exercido pela elite agrária constituída pelos patrícios. A principal instituição, por meio da qual o monopólio político dos patrícios se exercia, era o Senado. A ele competia elaborar as leis que seriam votadas pela Assembleia dos cidadãos, da qual também somente os patrícios participavam. A Assembleia também era responsável pela escolha dos senadores. Acima dessas instituições estava o Rei.

Os últimos reis de Roma eram de origem etrusca: Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio e Tarquínio, o Soberbo. Durante o domínio etrusco, os reis procuraram reduzir a influência política do Senado, atraindo, assim, a insatisfação da elite romana. Em 509 a.C., ocorreu uma revolução em Roma que pôs fim à Monarquia e instituiu a República.

A República

Pode-se dividir o período republicano em duas fases: a primeira, que se estende até o século III a.C., quando se inicia a expansão territorial romana, e a segunda, marcada pela crise republicana e pelo advento do Império.

Durante a primeira fase, a economia e a sociedade romanas permaneceram inalteradas, apresentando significativas modificações somente a partir do século III a.C.

O Senado tornou-se a principal instituição política romana. Composto exclusivamente por patrícios, tinha 300 membros, encarregados de elaborar as leis da cidade e nomear um ditador se houvesse necessidade. As assembleias populares, ou comícios, elegiam os magistrados e votavam as leis. Havia dois tipos de comícios: os centuriais e os tribais.

- Centuriais: os cidadãos eram divididos em cinco classes econômicas. As classes subdividiam-se em centúrias (unidades militares do exército). Os cidadãos mais pobres, por não possuírem armamento, eram agrupados em uma única centúria. Havia 193 centúrias: 98 eram controladas por patrícios, cada uma com direito a um voto.

Tribais: os cidadãos eram agrupados por tribo, cada uma com direito a um voto. Os ricos formavam 31 tribos e os pobres, apenas quatro.

Os magistrados eram eleitos pelos comícios e tinham mandado de um ano. Eram eles os responsáveis pelo governo da cidade. Os cônsules – eram dois – presidiam os comícios, o Senado e, em tempos de guerra, o exército. Os censores deveriam fazer o recenseamento da população e zelar pelos bons costumes. Os pretores eram os encarregados da aplicação da justiça, enquanto os questores assumiam os procedimentos tributários. Já os edis cuidavam dos espetáculos oficiais e da segurança pública.

No início do período republicano, a estabilidade na cidade de Roma esteve ameaçada pelas tensões existentes entre patrícios e plebeus. Os patrícios controlavam a vida econômica e social, marginalizando a plebe. Esta, insatisfeita com a situação secundária a que se achava relegada, revoltou-se inúmeras vezes, obrigando a elite a fazer concessões. A estratégia de luta da plebe consistia em abandonar a cidade, retirando-se para o Monte Sagrado. Só quando suas exigências eram atendidas ela retornava à Roma.

Dessa forma, conquistou a igualdade jurídica, civil e política, por meio do Tribuno da Plebe, da Lei das 12 Tábuas, do direito de casamento entre patrícios e plebeus, do direito de eleição de magistrados e da abolição da escravidão por dívidas.

Por volta do século III a.C., Roma iniciou sua expansão territorial, processo que ocasionou diversas transformações econômicas, sociais e políticas, desestabilizando o regime republicano.

A princípio, os romanos estenderam seu domínio sobre toda a Península Itálica. Mas foi a partir de sua vitória nas Guerras Púnicas (264 a.C. – 46 a.C.) que o expansionismo romano se intensificou, transformando Roma na sede do maior e mais poderoso império da Antiguidade.

As Guerras Púnicas foram um confronto militar entre Roma e Cartago. Antiga colônia fenícia do norte da África, Cartago controlava há séculos o comércio do Mediterrâneo ocidental. A expansão romana em direção ao Mediterrâneo, no entanto, ameaçava a hegemonia comercial cartaginesa na região e a guerra entre ambas foi inevitável.

Depois de sangrentas batalhas, Cartago acabou destruída e Roma ampliou seu território sobre o ocidente europeu e o norte da África. Observe a narrativa de um escritor romano sobre o conflito:

“É quando são feridos de morte que os animais dão mordeduras mais venenosas. Assim Cartago meio destruída causou mais tormentos do que quando estava de pé. Os romanos repeliram o inimigo na cidadela, bloquearam a estrada do porto. Os cartagineses cavaram algures uma outra desembocadura para o mar, e isso não com a esperança de escaparem mas para atacarem o adversário de surpresa, e a sua esquadra surgiu logo miraculosamente. Não se passava um dia ou uma noite em que não construíssem uma nova máquina de guerra, em que não inventassem uma astúcia inédita, em que não fizessem surgir das muralhas um punhado de homens decididos a morrer. Quando não houve mais nenhuma esperança, 40 mil homens renderam-se e, coisa incrível, o seu chefe Asdrúbal rendeu-se com eles... Mas sua mulher, arrastando seus dois filhos, atirou-se do alto da sua casa ao meio das chamas. Faltava tomar a cidadela, casa por casa, e essa carnificina e o incêndio duraram oito dias.” (Adaptado de Políbio. Histórias. In FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de História)

No século I a.C., Roma já havia conquistado boa parte dos territórios que circundavam o mar Mediterrâneo, convertendo-os em províncias a serem exploradas. Anualmente, cada província era obrigada a pagar impostos aos romanos que, dessa forma, conseguiam manter um vasto e poderoso império.

Todavia, a expansão romana promoveu alterações internas que desestabilizaram o regime republicano e originaram o império.

Foram elas:

  • afluxo de riquezas;
  • entrada constante de escravos, adquiridos por grandes proprietários de terras que os empregavam na agricultura;
  • ruína dos pequenos proprietários que, endividados ou incapazes de competir com as grandes propriedades escravistas, perderam suas terras;
  • concentração das propriedades agrícolas (latifúndios);
  • êxodo rural motivado pelas migrações de antigos lavradores expropriados de suas terras – processo que originou um numeroso e perigoso proletariado urbano;
  • fortalecimento dos militares e comerciantes, que originaram um grupo chamado “homens novos”.

As transformações socioeconômicas ocorridas a partir do expansionismo romano exigiam uma adequação política. Eram graves as tensões entre a aristocracia e os grupos populares, notadamente o proletariado urbano e os “homens novos”. O proletariado urbano almejava retornar ao campo como lavradores independentes. Já os “homens novos” buscavam uma maior participação no cenário político. O risco de uma guerra civil era iminente e, para evitá-la, algumas soluções foram apresentadas.

Os irmãos Graco, Tibério e Caio, eleitos tribunos da plebe, propuseram reformas de caráter popular. Tibério Graco aprovou a lei agrária que limitava as dimensões dos latifúndios romanos e autorizava a distribuição do excedente aos camponeses pobres. A ousadia da proposta determinou seu assassinato. Já Caio Graco propôs uma maior participação dos militares na administração do Estado romano. Também aprovou a chamada lei frumentária, que determinava a venda do trigo a preços baixos para os camponeses pobres. A lei feria os interesses dos grandes proprietários, que pressionaram o tribuno e levaram-no ao suicídio em 121 a.C.

A crise social em Roma acentuava-se a cada dia e, substituindo o reformismo dos Graco, nasceram as ditaduras de Mario e Sila. Mario era um general do exército romano que possuía grande penetração entre os “homens novos” e grupos populares. Sua atuação buscou favorecer esses dois setores da sociedade romana. Assim sendo, propôs a profissionalização do exército, cujos membros passariam a receber uma remuneração mensal (salário), e ampliou a participação dos cavaleiros nas decisões políticas. Após sua morte, Mario foi substituído por Sila, que se autoproclamou ditador perpétuo de Roma. Durante seu governo, desencadeou violenta repressão às propostas populares, reduzindo a importância dos cavaleiros na vida política e perseguindo líderes dos grupos populares.

A ação de Sila acentuou os descontentamentos e agravou a crise social do final da República romana. Apoiado pelo exército, que pretendia estabelecer a ordem nos domínios romanos, nasceu o Primeiro Triunvirato, constituído por Júlio César, líder da plebe, o general Pompeu e o aristocrata Crasso. A morte deste e os atritos entre Júlio César e Pompeu determinaram a concentração de poderes em mãos de Júlio César, que se tornou ditador vitalício de Roma. Implantou reformas em favor dos cavaleiros e das camadas populares, o que desagradou a aristocracia. Em 44 a.C., foi vítima de uma conspiração do Senado e acabou sendo assassinado sob a acusação de pretender substituir a República pelo Império.

 
O Imperador Caio Júlio César Otávio Augusto 27 a.C.-14 d.C 
(acervo do Museu Nacional de Roma)

Aliados de Júlio César, no entanto, conseguiram reverter a situação em favor do partido popular e fundaram o Segundo Triunvirato, composto por Lépido, Marco Antônio e Otávio. Disputas internas, entretanto, acabaram por afastar Lépido e Marco Antônio e Otávio acumulou poderes, tornando-se o primeiro imperador de Roma.

O Império Romano

Com Otávio nasceu o maior império da Antiguidade – o Império Romano. Caracterizado pela forte concentração de poderes em mãos do soberano, o império sobreviveu graças à exploração de seus vastos domínios, ao afluxo permanente de escravos que sustentavam a economia romana, à força do exército que conseguia reprimir revoltas e ao controle da população urbana, conquistada pela política do “pão e circo”. Os cavaleiros puderam interferir na vida política, dividindo com a nobreza poderes e prestígio.


Coliseu de Roma

Durante o Alto Império (séculos I a.C. – III d.C.), Roma viveu sua fase de apogeu. Estabilidade e prosperidade garantiram aos imperadores que sucederam a Otávio sucesso e poder. As dinastias que governaram Roma durante o Alto Império foram: Júlio-Cláudia, Flávia, Antonina e Severa.

Nesse período surgiu e se desenvolveu uma nova religião que acabou contribuindo para a queda do Império: o cristianismo. Muitos romanos acabaram se convertendo ao cristianismo, negando a religião politeísta dos imperadores romanos. Estes exigiam ser cultuados como semideuses e, por isso, iniciaram uma violenta perseguição aos cristãos. Além disso, a nova religião defendia que todos eram iguais diante de Deus, condenando a escravidão, e que a violência deveria ser descartada, criticando o militarismo romano. Milhares de cristãos foram assassinados, o que, no entanto, não reduziu seu número. Ao contrário: o cristianismo crescia e conquistava novos adeptos.

O Baixo Império Romano foi marcado pela crise imperial. As razões do declínio da civilização romana devem ser buscadas em seu interior e, entre elas, destacam-se:

  • a crise do escravismo: o fim da expansão reduziu a entrada anual de escravos (prisioneiros de guerra), comprometendo a produtividade das grandes propriedades rurais; os latifundiários, para garantir seu sustento, libertaram seus cativos, inaugurando o colonato, a fim de manter a produtividade de suas terras.
  • ruralismo da economia: as cidades deixaram de ser atraentes pelo grande volume de população desocupada, pela crise responsável pelo seu desabastecimento, pela inflação e pela insegurança. Os gastos com a manutenção e administração do império agravavam a crise econômica.
  • anarquia militar: o prestígio dos cavaleiros acabou desencadeando uma crise hierárquica, com desrespeito aos generais e aos próprios imperadores.
  • rebeliões nas províncias: cansadas da exploração de Roma e aproveitando-se do momento de fragilidade do império, as províncias rebelavam-se com maior frequência, exigindo sua independência.
  • ascensão do cristianismo e de suas propostas igualitaristas e pacifistas, que se chocavam com os pilares de sustentação do império (escravidão e militarismo)
  • pressão dos povos “bárbaros”: as tribos germânicas que, durante séculos, habitaram pacificamente as fronteiras do império, começaram a ser pressionadas por povos da Europa oriental e ameaçavam invadir o território romano.

A crise interna do império ameaçava sua estabilidade e manutenção. Para preservar sua integridade territorial, alguns imperadores procuraram implantar reformas. Nesse sentido, destacaram-se Diocleciano (dividiu o império em duas partes, Oriente e Ocidente, cada uma governada por dois imperadores – tetrarquia), Constantino (reunificou o império, mas transferiu sua capital para a antiga colônia grega de Bizâncio, denominada Constantinopla; interrompeu as perseguições aos cristãos, através do Edito de Milão, que assegurava liberdade religiosa) e Teodósio (dividiu o Império em duas partes, Oriente e Ocidente, e elevou o cristianismo à condição de religião oficial do Império).

Tais tentativas de reforma, porém, fracassaram e, diante das invasões germânicas do século V, o império romano desabou.

O escravismo que caracterizara as civilizações clássicas foi, então, substituído por uma nova modalidade de vida, típica da Europa medieval – o feudalismo.