A Economia Cafeeira

Economia Cafeeira

A Economia Cafeeira foi uma das principais características do Segundo Reinado. No século XVIII, a economia brasileira atravessava um período de dificuldades graças ao declínio da economia açucareira e da mineração. Foi a Economia Cafeeira que recuperou a economia brasileira e inseriu o Brasil no mercado mundial.

A cafeicultura e a industrialização

Em 1822, o Brasil conquistou sua independência política em relação a Portugal, o que, no entanto, não correspondeu à emancipação econômica do país. A economia do Brasil imperial manteve as características da época colonial: agroexportação baseada no trabalho escravo.

Durante o Primeiro Reinado e o Período Regencial, o país enfrentou dificuldades econômico-financeiras devido à inexistência de um produto de grande expressão comercial, o que acarretou divergências no interior da elite. Nenhum segmento da aristocracia latifundiária impôs o monopólio do poder político, favorecendo a eclosão de movimentos das camadas populares que, pressionadas pela pobreza e miséria, questionavam a dominação oligárquica.

A partir dos anos 1840, porém, desenvolveu-se a atividade cafeeira no país, propiciando um significativo desenvolvimento econômico que enriqueceu a elite e permitiu a consolidação do Estado monárquico, sustentado pela aristocracia rural e escravista, notadamente a do Nordeste e Vale do Paraíba.

A economia cafeeira

A partir do século XIX, difundiu-se na Europa o hábito de tomar café. Esse produto foi introduzido no Brasil já no século XVII. Contudo, o cultivo de café só começou a se destacar a partir da demanda externa. A região onde se desenvolveu a atividade cafeeira foi o litoral do Rio de Janeiro, alastrando-se, com a vinda da Corte portuguesa para o Brasil, pelo Vale do Paraíba fluminense e paulista.

Economia Cafeeira - planta do café
Planta do café

No vale, o café utilizou a estrutura anteriormente usada no cultivo do açúcar, sobretudo uma considerável mão de obra escrava. Todavia, o solo já se mostrava enfraquecido pelo uso exaustivo, e o café, em poucos anos, já não encontrava condições favoráveis ao seu plantio.

A partir de 1850, o café começou a apresentar grande desenvolvimento no oeste paulista, onde seu cultivo foi favorecido pela presença de terras virgens e férteis (terra roxa), ideais para a cultura do produto.

A ameaça de falta de mão de obra foi o principal problema vivenciado pela cultura do café em sua expansão pelas terras paulistas. A lavoura, por estar ocupando áreas cada vez mais vastas, exigia um crescente número de trabalhadores que o tráfico de escravos, agora ilegal, não conseguia oferecer.

Comboio de café 

Comboio de café

Os ingleses, interessados em ampliar seu mercado consumidor de gêneros industrializados, pressionavam, desde o início do século, o governo brasileiro a abolir o tráfico negreiro. Sintoma da intensificação dessas pressões foi a decretação da Bill Aberdeen, resultado das evasivas do imperador em extinguir o comércio de africanos e da abolição das tarifas alfandegárias protecionistas concedidas à Inglaterra depois da implantação da Tarifa Alves Branco. A lei Bill Aberdeen previa a apreensão, por parte das autoridades inglesas, de qualquer embarcação que transportasse negros africanos em direção ao Brasil, bem como o julgamento de seus tripulantes.

Tal medida, porém, não conseguiu diminuir o tráfico negreiro, mas ajudou a aumentar consideravelmente o preço dos cativos. Ou seja, dificultou o abastecimento regular de mão de obra, indispensável à ampliação das áreas de cultivo de café.

O tráfico interprovincial, que se intensificou no sentido Norte-Sul a partir da extinção, pela Lei Eusébio de Queiros (1850), do tráfico africano de escravos (que, no entanto, permaneceu existindo sob a forma de contrabando), também não se mostrava suficiente para manter em nível ideal o fornecimento de trabalhadores para a lavoura cafeeira.

A solução implementada na segunda metade do século XIX foi o incentivo à imigração europeia para o Brasil. A iniciativa partiu do senador Nicolau Campos Vergueiro, que patrocinou a vinda dos primeiros imigrantes para o país. O sistema adotado de trabalho, previsto em contrato, era o de parceria: o fazendeiro arcava com os custos de viagem da família imigrante até o Brasil e do local de desembarque até a fazenda, fornecia moradia gratuita aos trabalhadores e antecipava os gastos com a compra de ferramentas e utensílios necessários à produção, bem como as despesas com a manutenção da mão de obra até a colheita. Os juros do empréstimo inicial só seriam cobrados a partir do ano seguinte à chegada do trabalhador, tempo normalmente insuficiente para que este conseguisse obter algum rendimento. Além disso, o imigrante era obrigado a adquirir no armazém da fazenda, às vezes por um valor mais alto que o de mercado, gêneros alimentícios e ferramentas necessárias ao seu dia a dia. (Deve-se mencionar que os fazendeiros permitiam que o trabalhador cultivasse gêneros de subsistência em porções de terra da propriedade). O lucro da venda do café cultivado pela família imigrante era dividido igualmente entre o dono da fazenda e o trabalhador (meação), e a parcela da dívida amortizada anualmente não poderia ultrapassar um terço do rendimento líquido

O incentivo à imigração baseado no sistema de parceria, no entanto, esbarrava na dívida que comprometia quase todo o lucro do trabalhador, bem como na impossibilidade de saldá-la a curto prazo. Além disso, o imigrante não podia abandonar a fazenda antes de quitar seus débitos com o fazendeiro, o que gerava uma espécie de semiescravidão.

É importante mencionar ainda que os latifundiários, normalmente acostumados a maltratar os trabalhadores negros e a decidir seus destinos, acharam que podiam dispensar tratamento idêntico aos imigrantes que chegavam às suas fazendas, o que gerou insatisfação e, até mesmo, revoltas entre eles.

O problema da mão de obra para a lavoura cafeeira só foi solucionado com a adoção do regime assalariado nas fazendas.

As mudanças provocadas pelo café

A Expansão Cafeeira

A expansão e o desenvolvimento da produção cafeeira no Brasil ajudaram a resolver a crise econômico-financeira que se arrastava desde fins do século XVIII. Todavia, isso não acarretou nenhuma alteração na estrutura da plantation que caracterizava a agricultura brasileira desde os primórdios da colonização: permaneceu o cultivo de um único gênero de exportação em grandes propriedades de terra, cultivadas por mão de obra semisservil.

Todavia, como desdobramento da cafeicultura, podemos mencionar algumas transformações de caráter socioeconômico, político e cultural. Inicialmente, verifica-se uma ampliação do mercado consumidor interno, devido aos lucros propiciados pelo café, bem como em função da lenta e gradual introdução do trabalho assalariado.

Muitos fazendeiros de café, preocupados em maximizar seus lucros, diversificaram seus investimentos, aplicando grandes somas no sistema comercial, financeiro e, até mesmo, industrial. Tal postura empresarial levou-os a se mudarem para os centros urbanos, a fim de acompanhar mais de perto seus negócios e estar mais próximos do centro das decisões políticas. O crescimento urbano brasileiro, verificado a partir do final do século XIX, é uma consequência do desenvolvimento do café.

Vale ainda ressaltar que, para reduzir gastos e prejuízos e para poder se transferir para as cidades de onde gerenciavam seus negócios, os fazendeiros pressionaram o governo a implantar sistemas de transporte e comunicações mais eficientes. As ferrovias acompanharam o roteiro do café, viabilizando o ágil escoamento da produção de seus locais de cultivo até os portos de exportação, que foram modernizados para agilizar a exportação de grandes volumes do produto.

O grupo ligado à cafeicultura, sobretudo o do oeste paulista, constituiu-se em uma nova aristocracia, voltada para a produção de um gênero agrícola, mas que forjou uma mentalidade empresarial que modernizou a economia brasileira. Essa nova aristocracia, menos comprometida com o projeto político da monarquia, assumiu reivindicações modernizadoras da vida econômica e política do Brasil, aderindo, em sua maioria, ao projeto republicano.

Simultaneamente, o desenvolvimento das cidades exigia a instituição de uma rede de serviços que determinou o surgimento de grupos médios (empregados no comércio, nos bancos, profissionais liberais, entre outros) e do proletariado (operários das primeiras fábricas) que também se constituíram em grupos de pressão política sobre a arcaica estrutura imperial brasileira.

Assim, no Brasil, o regime monárquico foi substituído pelo republicano, devido à necessidade de adequação política às alterações vivenciadas pelo país com o crescimento da cafeicultura durante a segunda metade do século XIX.

O surto industrial

Desde o início da colonização, para impedir que os esforços dos colonos se dirigissem para outras atividades que não a agricultura exportadora, a Metrópole proibiu a produção manufatureira no Brasil.

A primeira oportunidade que o país teve para desenvolver sua indústria foi em meados do século XIX, graças à conjunção de alguns elementos favoráveis, dentre os quais destacamos:

  1. o fim do tráfico negreiro (1850), que liberou considerável soma de capitais sem chance imediata de investimento;
  2. a decretação da Tarifa Alves Branco (1844), que, ao abolir as tarifas protecionistas com relação aos produtos manufaturados ingleses, encareceu as importações, incentivando a produção nacional de artigos industrializados (substituição das importações);
  3. a política emissionista do governo central, que liberou créditos para a implantação de indústrias no país;
  4. a expansão da lavoura cafeeira, que gerou capitais a serem investidos, além de promover um processo de urbanização – gerador de crescente mercado consumidor de gêneros industrializados.

É importante notar que não houve, nesse momento da história brasileira, uma política de industrialização, e sim, um surto industrial: enquanto as condições eram favoráveis, a indústria se expandiu; mas, quando se tornaram desfavoráveis, o crescimento industrial do país reduziu significativamente seu ritmo.

As indústrias eram, em sua maioria, voltadas à produção de gêneros de consumo – têxtil e alimentícia. Os pequenos estabelecimentos empregavam pouca mão de obra. Os maiores volumes de operários eram empregados em grandes unidades fabris.

O maior expoente desse período de nossa história, cuja figura está intimamente associada aos primórdios da indústria no Brasil, foi o Barão de Mauá. Convencido de que a produção industrial era o único caminho para assegurar o desenvolvimento econômico e a soberania política do país, esse empreendedor investiu em diversos setores da economia brasileira, como a construção naval, ferrovias e serviço telegráfico (melhoria das condições de sistemas de transporte e comunicações, que favorecem o escoamento e controle da produção do café, assegurando maiores lucros para os produtores), além da instalação de infraestrutura urbana e fábricas que permitiram a aceleração do processo de urbanização brasileiro.

Barão de Mauá
Barão de Mauá

Todavia, apesar de todos os esforços empregados por Mauá, seus empreendimentos fracassaram. Isso porque a Inglaterra pressionou o governo brasileiro a rever as disposições da Tarifa Alves Branco. Em 1860, os ingleses recuperaram a proteção alfandegária para produtos de fundição.

Além disso, Mauá representava uma ameaça aos interesses estrangeiros de uma maneira geral e, por esse motivo, acabou sendo vítima de sabotagens (incêndios, atentados contra suas empresas, falta de crédito, etc.).

Finalmente, o próprio governo, carente de uma mentalidade empresarial industrial, não apoiou as iniciativas de Mauá, cujas empresas acabaram falindo e sendo apropriadas por grupos estrangeiros.

Sumário

- A cafeicultura e a industrialização
- A economia cafeeira
i. As mudanças provocadas pelo café
ii. O surto industrial
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