Escola de Frankfurt da Teoria Crítica

Escola de Frankfurt da Teoria Crítica

Fundada em 1924, a Escola de Frankfurt é o nome dado ao grupo de pensadores do Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt (Institut für Sozialforschung). O instituto era associado à Universidade de Frankfurt, na Alemanha. 

A Escola de Frankfurt foi um movimento filosófico social e político. Nele, pode-se ver uma das mais famosas tradições do marxismo. Uma das principais finalidades do instituto foi estudar a dinâmica das mudanças sociais. A Escola de Frankfurt criou o pensamento filosófico conhecido como a teoria crítica.

A Escola de Frankfurt acreditava que a teoria crítica social deveria ser abrangente e direcionada para a totalidade da sociedade. Ela devia melhorar nosso entendimento sobre a sociedade, ao integrar todos os principais estudos da Ciência Social, como a Geografia, a Economia, a História, a Ciência Política, a Antropologia e a Psicologia. Os membros da Escola de Frankfurt eram peritos em todas essas disciplinas.

A teoria crítica visa a criticar e mudar a sociedade como um todo, em contraste com a teoria tradicional que visa somente a entender e explicar a sociedade.

A teoria crítica é emancipatória. Ela busca criar uma sociedade racional e livre,  que atenda as necessidades de todos. É nesse sentido que a teoria crítica é crítica. Ela objetiva revelar como a sociedade contemporanea capitalista manipula e domina a Economia e a Cultura.

A teoria crítica procura entender as diversas formas por meio das quais vários grupos sociais são oprimidos. Ela examina as condições sociais a fim de revelar estruturas ocultas que auxiliam na opressão. A teoria crítica ensina que conhecimento é poder. Isso significa que entender as formas de opressão permite que providências sejam tomadas para mudá-las. O objetivo é promover mudanças positivas nas condições que afetam nossa vida.

A primeira geração da Escola de Frankfurt foi composta por pensadores como Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse. A maioria dos membros dessa geração era de origem judaica. Pelo fato de o instituto ser constituído por judeus e ser marxista, a primeira geração fugiu do nazismo e estabeleceu a Escola nos Estados Unidos. Após a Segunda Guerra Mundial, em 1951, o Instituto de Pesquisa Social se reestabeleceu em Frankfurt. Os membros mais conceituados da segunda geração foram Jürgen Habermas e Albrecht Wellmer. 

Adorno e Horkheimer

Theodor W. Adorno (1903-1969) foi um dos principais pensadores sociais do século XX. Ele trabalhou em diversas áreas: Música, Sociologia e Filosofia Política. Graças ao seu conhecimento de diversas disciplinas, Theodor Adorno abordou os estudos culturais de maneira mais interdisciplinar do que o fizeram seus colegas.

Adorno trabalhou em estreita colaboração e escreveu uma série de obras importantes com outro membro da Escola de Frankfurt, Max Horkheimer. Este foi diretor da Escola de Frankfurt por muitos anos. Foi ele quem introduziu o termo 'teoria crítica da sociedade", em 1937.

A respeito do Capitalismo

Theodore Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse acreditavam que o capitalismo avançado havia conseguido conter ou liquidar as forças que causariam seu colapso. Essa teoria foi inspirada pelo pensamento marxista.

Eles acreditavam que o momento revolucionário – a oportunidade de transformar o capitalismo em socialismo – havia passado. Eles diagnosticaram a ausência de uma consciência revolucionária no proletariado. Essa consciência teria sido absorvida pelo sistema capitalista.

Adorno e Horkheimer argumentaram que o capitalismo tinha causado a liquidação do individualismo. O individualismo era a base da consciência crítica. Assim, ocorrera a morte da razão crítica, que fora asfixiada pelo capitalismo. Esses pensadores se mantiveram pessimistas em relação a uma mudança dessa realidade.

A indústria cultural

Adorno e Horkheimer acreditavam que a indústria cultural era a arena onde as tendências críticas eram eliminadas. Esses pensadores são conhecidos por suas críticas à "indústria cultural" moderna, que manipula o público, criando a homogeneização dos comportamentos e o consumo dos meios de comunicação em massa, em vez de formar leitores críticos.

Eles argumentavam que a indústria cultural, que produz e circula commodities culturais pelos meios de comunicação, manipula a população. A cultura popular é a razão por que as pessoas se tornam passivas. Acesso a esses prazeres “fáceis” – os prazeres do consumo da cultura popular – tornou as pessoas dóceis e satisfeitas, independentemente de quanto terrível sejam suas circunstâncias econômicas. As diferenças entre bens culturais fazem com estes aparentam ser diferentes, mas, na realidade, são variações do mesmo tema. Adorno e Horkheimer acreditavam que “a mesma coisa é oferecida a todos pela produção padronizada de bens de consumo", mas essa realidade é ocultada pela "manipulação do gosto e da aparência individualista da cultura individual”.

Adorno também escreveu muito sobre o campo da estética. Ele criticava o estado da arte sob o capitalismo. Ele argumentava que a arte é usada de forma sutil para difundir propaganda sobre o sistema capitalista e para perpetuar a escravidão.

Crise da Razão

Horkheimer escreveu sobre a crise da razão. Em seu livro, a Eclipse da Razão, Horkheimer descreve as diferenças entre a razão objetiva, a razão subjetiva e a razão instrumental. A crise da razão, explorada por Horkheimer, aponta a mudança de uma razão objetiva para a razão instrumental, que se torna o critério nas questões da moralidade.

A razão objetiva é o conceito concreto da razão. Trata de verdades universais, isto é, fatos, que ditam se uma ação é certa ou errada. É a ordem e uma força no mundo que requer uma forma específica de comportamento. É focado no fim, não no meio.

A razão subjetiva é um conceito abstrato da razão. A razão não é absoluta, e sim, condicionada por outros fatores, como, por exemplo, fatores econômicos, sociais, políticos e materiais. A razão pode ser modificada e moldada. A razão subjetiva se preocupa principalmente com os meios; ela adequa os meios para atingir os fins. Segundo Horkheimer, é o “funcionamento abstrato do mecanismo de pensamento” por classificação, inferência ou dedução. A razão subjetiva é voltada à autopreservação. Nesse contexto, ser razoável significa ser adequado a um propósito em particular, ou seja, ser “bom para alguma coisa”.

A razão instrumental é ligada à razão subjetiva. A razão instrumental é o planejamento dos meios para se atingir determinado fim, que é o interesse próprio. Tanto a razão subjetiva como a razão instrumental são voltadas à autopreservação. O empenho para garantir a autopreservação é o único fim.

De acordo com a razão instrumental, o único critério da razão é a sua utilidade. Dessa forma, a ideia da verdade passa a depender meramente das preferencias subjetivas do indivíduo. Horkheimer afirma que “o homem comum afirmará que as coisas razoáveis são aquelas que são evidentemente úteis”. Mas o homem define como “útil” tudo que favorece sua autopreservação. A razão instrumental busca sempre a dominação sobre a natureza, sobre os seres humanos e sobre o próprio indivíduo. 

De acordo com Horkheimer, na sociedade burguesa há um crescente predomínio da razão instrumental. O indivíduo se torna conformista e permite que seus comportamentos sejam determinados unicamente pelos interesses econômicos, ideológicos e políticos de uma sociedade cega. Como a razão instrumental passa a ser o critério para as questões da moralidade, os ideais da sociedade – por exemplo o ideal da democracia – se tornam dependentes dos interesses das pessoas, em vez de dependerem da razão objetiva.

De acordo com Horkheimer, a razão instrumental contém dois elementos que se opõem. Por um lado, há o ego abstrato, que nada contém além da tentativa de tentar transformar tudo que existe em meios para a sua preservação. Por outro lado, há uma natureza vazia – que nada mais é além de mero material a ser dominado e que não possui nenhuma finalidade a não ser sua própria dominação.
Portanto, segundo Adorno e Horkheimer, graças à razão instrumental, o homem forja uma relação de instrumentalidade com a natureza. O homem usa e domina a natureza, colocando-a no patamar de “objeto”. 

Em Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimerabordam as consequências do Iluminismo do século 18. Eles criticam o Iluminismo, que estimulou o desenvolvimento dessa razão instrumental e controladora que predomina na sociedade contemporânea.  Eles mostram a ligação do Iluminismo com a razão instrumental e com o domínio sobre a natureza. Eles também associam o Iluminismo ao capitalismo, à autopreservação e à repressão que surge por meio dele.  

A Crise do Indivíduo

Quanto mais um indivíduo se preocupa em tentar controlar as coisas, mais elas o dominarão. Dessa forma, a pessoa perderá traços de sua individualidade. Horkheimer argumenta que a concepção burguesa da individualidade é claramente diferente de todas as outras concepções de individualidade. Ele afirma que concepção burguesa da individualidade significa que o indivíduo zela por seus próprios interesses em um mercado livre, que é repleto de interesses divergentes.

Dentro do âmbito de um mercado livre, o indivíduo age de forma racional ao buscar seus próprios interesses. Isso significa que a individualidade tem como objetivo nada mais que a busca do bem estar material.  Por meio da busca pelo seu próprio interesse econômico, o burguês se torna como todas as outras pessoas: sua individualidade se define pelo acúmulo de “coisas”.  Portanto, a individualidade é voltada exclusivamente ao interesse próprio e ao poder sobre as “coisas” e ignoram-se todos os outros aspectos que compõem um indivíduo – como seu intelecto.

Adorno argumenta que os seres humanos que fazem parte de uma sociedade moderna vivem uma vida pré-programada, tanto em relação ao trabalho como em relação ao lazer. Mesmo durante seus momentos de lazer, quando conseguem fugir da monotonia de seu trabalho, eles nada mais fazem que se transformam de produtores para consumidores. Não se tornam indivíduos livres, que contribuem para a sociedade, seja no trabalho ou em suas atividades recreativas.

Contra o Nazismo

Adorno criticou o idealismo alemão por este ter reivindicado o poder sobre o mundo. Ele argumentou que Auschwitz (o mais notório campo de extermínio nazista) é prova da falência da cultura ocidental.

O genocídio cometido pela Alemanha nazista – o Holocausto, em que foram exterminados seis milhões de judeus e a perseguição a outras minorias – demonstrou que a cultura ocidental é incapaz de humanizar o homem. A incapacidade de humanizar o homem implica no questionamento do próprio direito de existência do ser humano. Adorno escreveu sobre o antissemitismo e discutiu as diferentes formas como o desejo de uma pessoa de se conformar às demandas sociais pode resultar em um paradoxo e em contradições. As contradições originam do fato que indivíduos se assimilam ao sistema social dominante. 

Horkheimer, em Eclipse da Razão, discute como os nazistas foram capazes de apresentar sua ideologia como sendo "razoável".

Sobre a felicidade

Horkheimer acreditava que a filosofia social deveria estudar os diversos fenômenos associados à vida social humana e à luta pela felicidade. A filosofia social deveria objetivar o alívio do sofrimento humano.

Horkheimer escreve que é uma realidade natural que os seres humanos lutam pela felicidade. Os oprimidos são motivados não por uma concepção positiva da felicidade, mas sim, pela esperança de se libertar do sofrimento. A ideia de que os seres humanos possuem um desejo interno de superar o sofrimento advém das teorias de Freud. Esse desejo pela felicidade pode se manifestar como um sentimento de compaixão por outros: deseja-se a felicidade de outras pessoas. O desejo de superar seu próprio sofrimento, aliado ao sentimento de compaixão por outros, deveria motivar os oprimidos a se unirem e a trabalharem juntos em prol de uma mudança social positiva. A existência de um sofrimento compartilhado pode levar a uma mudança social revolucionária.

Sumário

- Adorno e Horkheimer
i. A respeito do Capitalismo
ii. A indústria cultural
iii. Crise da Razão
iv. A Crise do Indivíduo
v. Contra o Nazismo
vi. Sobre a felicidade
- Habermas
i. Racionalidade Comunicativa e o Debate Público
ii. Espera Pública
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