Memórias de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida

Memórias de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida

Contexto histórico

  • 1806 - Decretação do “Bloqueio Continental” à Inglaterra por Napoleão.
  • 1807 - Após dúbio jogo diplomático, Portugal adere ao bloqueio, porém desagrada a Napoleão, que assina acordo com o governo de Madri e ordena a invasão de Lisboa por tropas franco-espanholas. A família real foge para o Brasil.
  • 1808 - Desembarque da família real no Brasil (Bahia - janeiro; Rio de Janeiro - março), acompanhada da nobreza, membros do clero, altos funcionários e forças militares.
  • D. João VI adota uma série de medidas políticas, econômicas, socioculturais altamente favoráveis ao Brasil.
  • 1820 - Volta de D. João a Portugal. Permanece no Rio, na qualidade de regente, o jovem príncipe D. Pedro, alertado pelo pai sobre os perigos de possíveis tentativas revolucionárias e libertárias. Essas agitações confirmam-se, acirrando conflitos entre a metrópole e a Colônia.
  • 1822 (9 de janeiro) - “Dia do Fico” (ou da “Ficada”).
  • 1822 (7 de setembro) - Proclamação da Independência do Brasil. D. Pedro enfrenta rebeliões regionais até o completo reconhecimento da Independência.
  • 1824 - Constituição outorgada pelo imperador Pedro I.
  • 1826 - Morte de D. João VI em Portugal. Pede-se a presença de D. Pedro. Optando por permanecer no Brasil, D. Pedro enfrenta novas guerras internas e de fronteiras.
  • 1828 - D. Miguel, irmão de D. Pedro, apodera-se do poder e proclama-se rei absoluto de Portugal, em detrimento da princesa Maria da Glória.
  • 1831 - D. Pedro parte para Portugal, onde, após guerra civil, retoma o poder. Deixa no Brasil o futuro Pedro II, aos cuidados de José Bonifácio de Andrade e Silva. Inicia-se o período regencial.
  • 1840 - “Golpe” da maioridade de D. Pedro II. O Brasil agita-se em novas crises políticas, econômicas e sociais (Questões Cisplatinas, Guerra do Paraguai, extinção do tráfico negreiro, abolição da escravatura em 1888).
  • 1860 (década)  - Exportações de café, açúcar e algodão levam o Brasil a saldos positivos na balança comercial.
  • 1836/1881 - Introdução, apogeu e decadência do Movimento Romântico.

Caracterização estética do Romantismo

Origens

Inglaterra e Alemanha (Walter Scott; Schiller; Goethe). Sistematização e divulgação via França (Chateaubriand; Victor Hugo). 1836 - Publicação da Revista Niterói e do livro Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, dando início ao Romantismo brasileiro.

Características da literatura romântica:

  • Nacionalismo (Lusofobia, decorrente do processo de Independência): a pátria surge como o desdobramento do próprio “eu” do artista.
  • Recuperação das lendas, do folclore, das tradições regionais, o que confere ao Romantismo um caráter popular.
  • Valorização do passado histórico, que corresponde ao Medievalismo na arte europeia. Além do romance histórico, aparece no Brasil o indianismo (culto ao mito do índio visto como herói, numa perspectiva ufanista de “herói medieval”).>
  • Idealização da natureza, vista como exótica, pitoresca, rica e sedutora; por outro lado, mãe, amiga, confidente, projeção dos estados emocionais do autor romântico.
  • Religiosidade e Misticismo atraem o artista para o culto do inefável, do mistério, do cristianismo.
  • Valorização do individualismo (egocentrismo), da intuição, dos sentimentos, da fantasia e da imaginação.
  • Mal do século: estado de espírito depressivo, que leva o artista romântico a sentir-se “de fossa”, desajustado, solitário e melancólico, incompreendido pela sociedade.
  • Escapismo: fuga do romântico a esse estado de depressão, através da volta ao passado (infância), ao sonho, ao sobrenatural, à vida religiosa, à natureza, ao cinismo, ao pessimismo, à boêmia, ao suicídio ou morte.
  • Profunda idealização da mulher e do amor (primeira e segunda gerações).
  • Intenção de divertir ou moralizar: a obra romântica tem um compromisso com os valores da burguesia, público consumidor preocupado com entretenimento e emoção (catarse), e que pretenda ser retratada na arte em geral.
  • Tentativa de transformar a sociedade: arte engajada a favor da abolição e da república (geração condoreira, década de 70).

Apresentação do autor e da obra: Manuel Antônio de Almeida

  • 1831 - nasce no Rio de Janeiro, filho de pais portugueses humildes.
  • 1841 - fica órfão de pai.
  • Estudou Belas Artes e Medicina, apesar das sérias dificuldades econômicas.
  • Trabalha como jornalista, chegando a diretor da Tipografia Nacional, onde emprega e orienta um garoto pobre e mestiço, chamado Machado de Assis.
  • Entre os anos de 1852 e 1853 publica em folhetins no suplemento humorístico “A Pacotilha” (do Correio Mercantil), seu único romance - Memórias de Um Sargento de Milícias - sob o pseudônimo de “Um Brasileiro”.
  • Apenas nos anos seguintes (1854-55) esses capítulos esparsos serão reunidos em livros, publicados em dois volumes.
  • Em 1861 candidata-se à Assembleia Provincial do R. Janeiro.
  • Nesse mesmo ano, morre no naufrágio do vapor Hermes da Fonseca, no R.J.
  • Em 1863 sai a terceira edição de sua obra, publicada agora com o verdadeiro nome do autor.

Memórias de Um Sargento de Milícias

  • Trata-se de uma novela (1ª parte da obra) de tom humorístico, que se propõe a fazer uma “crônica de costumes do Rio-colônia, à época de D. João VI”.
  • Foi publicado esparsamente, em folhetins, prática comum no século XIX - como são hoje as novelas de televisão.
  • Reconstitui, na década de 1850, os costumes, divertimentos, fofocas, intrigas, superstições, festas de rua e de família, relações humanas da sociedade em suas camadas populares do início do século (1810 a 1820), ignorando todavia os grandes acontecimentos políticos que marcaram a época.
  • Não tendo vivido nesse tempo, M. A. de Almeida teria recolhido tais informações de um jornalista português seu amigo, radicado na época no Brasil, Antônio César Ramos. Segundo se acredita, esse senhor havia exercido o cargo de sargento de milícias e frequentemente deliciava seu atento ouvinte com histórias saborosas e interessantes, evocadas através de sua memória.
  • É uma obra de difícil classificação: já foi catalogada como romance de costumes, romance picaresco, romance realista, entre outras. Trataremos desse assunto na análise crítica. Vamos agora ao resumo, capítulo por capítulo.

Resumo do enredo

Cap. I - Origem, nascimento e batizado

A história começa como as antigas lendas e fábulas: “Era no tempo do rei”. Fala da cidade do Rio de Janeiro e dos costumes, importância e atividades dos meirinhos (oficiais de justiça), temidos e temíveis àquela época. Destaca o meirinho Leonardo Pataca (pataca = 320 réis), agora velho e moleirão, mas que fora algibebe (alfaiate) em Lisboa na mocidade. Narra sua vinda ao Brasil, o encontro no navio com “uma certa Maria-da-Hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa”, o namoro de ambos entre pisadelas e beliscões, a união e a convivência até o nascimento e o batizado do filho Leonardo, o “herói desta história” - festa que começa em “minueto” e termina em “fado à moda da terra” e modinhas.

Cap. II - Primeiros infortúnios

O narrador propõe a seu leitor um lapso de tempo de sete anos para apresentar sucintamente a infância e as primeiras desventuras de Leonardo: traquinas, teimoso, guloso, frequentemente espancado nas regiões glúteas pelos pais. Aparecem as suspeitas de Leonardo Pataca em relação à fidelidade de Maria. O flagrante; as brigas e a separação do casal: Maria foge com o capitão do navio (fora matar as saudades da terra). Leonardo abandona o filho Leonardo, que será criado pelo padrinho - o barbeiro.

Cap. III - Despedidas às travessuras

O padrinho “apaixona-se” cegamente pelo menino e acha graça em suas travessuras (faz caretas aos fregueses, esconde navalhas, atormenta a vizinhança). Planeja-lhe um futuro brilhante como clérigo (padre) e consegue-lhe uma escola. Avisado pelo padrinho, Leonardo entrega-se às traquinagens e foge durante a procissão da via-sacra, acompanhado de dois ciganinhos.

Cap. IV - Fortuna

Este capítulo narra o envolvimento de Leonardo Pataca com uma cigana pouco fiel e sua participação em um ritual de feitiçaria para conseguir o amor da moça. Na casa do Caboclo do Mangue estão várias pessoas nuas, entregues ao sinistro cerimonial, quando a casa é invadida pelo Major Vidigal e seus granadeiros.

Cap. V - O Vidigal

Apesar do aspecto de mansidão (“homem alto, não muito gordo, com ares de moleirão, olhar baixo, movimentos lentos, voz adocicada e pausada”-  p. 25), O major Vidigal era “o rei absoluto, o árbitro supremo... , o juiz que julgava e distribuía a pena, o guarda que dava caça aos criminosos; (...) a sua “justiça era infalível”... Surpreendidos em flagrante delito de negromancia, são obrigados a prosseguir na dança ridícula até à exaustão; surrados, são levados e presos na “casa do guarda”, expostos publicamente à vistoria dos curiosos. Toda a corporação dos meirinhos fofoca sobre o contratempo de Leonardo Pataca.

Cap. VI - Primeira noite fora de casa

Volta-se às aflições do barbeiro com o sumiço do afilhado, e suas diligências no sentido de encontrá-lo (incluindo-se uma discussão com a vizinha, que insiste em afirmar “que aquela criança tem maus bofes”).

O narrador faz um convite ao leitor para descobrirem o paradeiro do menino, que fugira com os garotos e fora refugiar-se num acampamento cigano. Faz uma digressão para criticar as origens e os costumes dessas verdadeiras tribos urbanas especialistas em vadiagens, negócios escusos e festas constantes. Descreve a dança do fado, em “solo”, casais ou rodas coletivas ao longo das madrugadas.

Cap. VII - A Comadre

Retoma-se o primeiro capítulo, para explicar as origens, costumes e personalidade da comadre (função metalinguística) e chamar a atenção para sua importância no decorrer da história: “uma mulher baixa, excessivamente gorda, bonachona, ingênua ou tola até certo ponto, e finória até outro; vivia do ofício de parteira (...) e benzia de quebranto; era beata e papa-missas”(p. 30). Descrevem-se seus trajes e suas atitudes e linguagem de forma irônica e saborosa. Ao saber da fuga de Maria, reaparece para inteirar-se das fofocas e saber do afilhado. Sugere ao barbeiro que encaminhe o menino à Conceição, para aprender um ofício. Tal sugestão desagrada ao padrinho, que começava a alfabetizar o menino, com dificuldades (“empacava” toda hora).

Cap. VII - O pátio dos bichos

Descreve-se uma sala do palácio do rei, onde ficavam “os oficiais superiores”, velhos, inúteis e alvos de zombarias constantes. Um deles é um velho tenente-coronel que servia o rei e é procurado pela “mulher de mantilha”(a comadre), que lhe pede para interceder junto ao rei pela libertação de Leonardo Pataca.

Cap. IX - O - arranjei-me - do compadre

Este capítulo explica a prosperidade do barbeiro: fora uma criança enjeitada, criada por um barbeiro que lhe ensinara o ofício a troco de seus serviços. Revoltado, fugira de casa, engajando-se em um navio negreiro como “médico de bordo”, onde a sorte lhe granjeou fama e respeito. Amigo do capitão, não conseguiu salvá-lo da morte; além disso, apossou-se de seus bens, ao invés de entregá-los à filha do morto. “Arranjou-se”, pois, como tantos...

Cap. X - Explicações

O velho tenente-coronel, atendendo ao pedido da parteira, procura uma amizade influente (um nobre decadente) e consegue libertar Leonardo Pataca (alvo de risadas). Seu empenho justifica-se por um problema de consciência em relação à honra de Maria-das-Hortaliças, envolvida com seu filho, um cadete desordeiro, jogador e insubordinado. Procurado pela mãe da moça para proceder ao casamento dos filhos, conseguiu resolver o problema oferecendo um “dote” a eles, porém, “sendo homem de honra”, sua consciência não ficara satisfeita. No Brasil, conhecendo o paradeiro de Maria, coloca-se como “protetor” da moça e dos que a cercam....

Cap. XI - Progresso e atraso

“Voltando ao nosso memorando”, o narrador retoma o processo de alfabetização do Leonardo, que avança e “empaca”, desesperando o padrinho com sua aversão por estudos, rezas e missas. O barbeiro, de boa índole, acaba brigando com a vizinhança ranzinza, na defesa do afilhado, cujas diabruras o divertem.

O velho tenente-coronel interessa-se pelo menino e oferece-se para criá-lo. O barbeiro não aceita. Ligando esses dois capítulos pode-se até desconfiar das verdadeiras origens de Leonardo: não seria ele filho do cadete desordeiro e não de Leonardo Pataca? Fica a dúvida a ser desvendada.

Cap. XII - Entrada para a escola

Matriculado na escola do velho professor com pretensões de latinista e especializado em “dar bolos nos discípulos por dá cá aquela palha”, já no primeiro dia de aula o menino é punido várias vezes e decide não voltar mais.

Cap. XIII - Mudança de vida

“Convencido pelo padrinho, conseguiu frequentar a escola por dois anos, irregularmente: vende objetos, faz gazetas, esconde-se na igreja da Sé, onde trava amizade com o pequeno sacristão, endiabrado como ele. Consegue sair da escola e vai trabalhar como sacristão na Sé, onde continua com suas diabruras e vinga-se da vizinhança rabugenta, ajudado pelo novo amigo. Ambos são castigados pelo mestre de cerimônias (padre) e juram vingança.

Cap. XIV - Nova vingança e seu resultado

O mestre de cerimônias era um padre de meia idade, de público moralista, mas cuja vida privada - segundo o narrador - forneceria assunto “para um poema inteiro de Bocage”. Na verdade, dividia com Leonardo Pataca os amores da cigana. Os meninos humilhados resolvem pregar-lhe uma peça: estando o padre com a moça, Leonardo vai informá-lo de que começariam às 10 horas as solenidades de aberturas das festas anuais da Igreja, e não às 9 h, como de costume. O mestre de cerimônias, que passava o ano todo preparando o sermão que lhe angariava prestígio, atrasa-se. Ao chegar, “briga” com um padre capuchinho que tentava substituí-lo e, desmascarado diante do povo pelo menino, que apela em público pelo testemunho da “moça com quem o padre estava”, dispensa-o. Leonardo perde o emprego, para desespero do padrinho e prazer da vizinhança.

Cap. XV - Estralada

Leonardo Pataca tenta reaproximar-se da cigana, para “afastá-la do pecado”. Rejeitado, promete pregar-lhe uma estralada. Contrata o malandro Chico-Juca para armar briga na festa do aniversário da mulher e avisa o Vidigal. Todos acabam na casa da guarda, inclusive o mestre de cerimônias, flagrado em trajes menores no quarto da aniversariante.