Brás, Bexiga e Barra Funda - Antônio Alcântara Machado

Brás, Bexiga e Barra Funda - Antônio Alcântara Machado

ANTÔNIO ALCÂNTARA MACHADO

Vida e Obra:

1901 - São Paulo. Família tradicional. Cursou a Faculdade de Direito de São Paulo. Trabalhou como jornalista em revistas e jornais da época.

1932 - Vai para o Rio de Janeiro.

1933 - Deputado Federal por São Paulo.

1935 - Morre (apendicite).

Obras:

  • Pathé Baley (1926);
  • Laranja da China (1928);
  • Comemoração de Brasílio Machado (1929);
  • Mana Maria (póstuma)
  • Cavaquinho e Saxofone.

Participou da primeira geração modernista - a fase heroica; mas superou-a, buscou a penetração psicológica e uma linguagem mais clara, segura e equilibrada, incursionando por vários gêneros.

Brás, Bexiga e Barra Funda ("notícias de São Paulo")

Livro = "jornal"; seus onze contos - crônicas, chama-os de "notícias". Integra vocábulos e estruturas frasais da língua italiana ao português coloquial das personagens. Baseia-se no diálogo (discurso direto, fala das personagens).

"Gaetaninho"

Gaetaninho vivia jogando bola e "banzando" na rua. A mãe, tentando pô-lo para dentro, chinelo na mão. Driblando a mãe, o garoto sempre escapa.

Gaetaninho, dormindo ou acordado, pensa na realização do seu grande sonho: andar na boleia de um carro, como o Beppino no dia do enterro da tia. Até sonha com o enterro da tia Filomena...

Uma tarde, durante o jogo, Gaetaninho não domina uma bola e corre para buscá-la, "atropelando" o bonde ("Gaetaninho amassou o bonde").

No dia seguinte, sai o enterro para o Araçá. Gaetaninho vai no caixãozinho, vestido de marinheiro, sem a palheta. Quem vai na boleia do carro é Beppino...

"Carmela"

Carmela, acompanhada da amiga Bianca, deixa a oficina de costura e retoca a pintura.

São seguidas por um motorista de Buick, o "caixa d’óculos" Ângelo Cuoco (namorado), entregador da Casa Clark, espera por Carmela e tem uma crise de ciúme.

O motorista aborda Bianca e marca encontro para o dia seguinte.

Em casa, Carmela lê um romance romântico e irrita o pai.

Bianca e Carmela saem para passear no Buick (Bianca atrás).

No domingo seguinte, Carmela e o moço saem sozinhos.

Bianca, ressentida, critica as atitudes de Carmela para uma amiga, que se espanta: "O Ângelo é prá casar".

"Tiro-de-guerra nº 35"

Aristodemo Guggiani estudava no Grupo Escolar da Barra Funda (cantava hinos, roubava no jogo, fumava cigarros Bentevi, vaiava o professor).

Trabalhava na oficina do cunhado, namorava, jogava em um clube até ser expulso. Aos vinte anos, brigou com o cunhado e foi trabalhar como cobrador na Cia. Autoviação Gabrielle d’Annunzio.

No tiro-de-guerra, torna-se cada vem mais nacionalista, ganha o posto de ajudante-de-ordens e é encarregado de ensaiar o hino nacional, o que lhe rende uma briga com o "alemão", um dia de suspensão e um elogio do sargento.

Aristodemo troca de emprego: vai ser cobrador na Sociedade de Transportes Rui Barbosa, Ltda. Na mesma linha.

"Amor e Sangue"

Nicolino trabalha em uma barbearia, onde ouve comentários sobre um crime passional e uma possível absolvição do assassino, sob alegação de "privação de sentidos".

O moço anda brigado com Grazia, por ciúme de outra mulher.

Nicolino procura reatar o namoro. Rejeitado, mata-a com uma punhalada. Ao ser preso, justifica-se: "Eu matei ela porque estava louco, seu Delegado!"

Essa desculpa aparece nos jornais e vira estribilho numa paródia de música popular: "Assassinato por amor".

"A Sociedade"

A esposa do Conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda proíbe a filha, Teresa Rita, de namorar Adriano Melli - o filho do carcamano, ex-vendedor de cebolas e batatas, Cav. Ifficiali Salvatore Melli.

Adriano passa com seu Lancia na frente da casa da moça, na Rua da Liberdade. Encontram-se na vesperal do Clube Paulistano, onde dançam e conversam sobre um provável encontro entre os pais.

O "carcamano" visita o conselheiro e propõe-lhe sociedade em negócio lucrativo para ambos. Adriano seria o gerente.

Após consultar a mulher, Bonifácio aceita o negócio. Seis meses depois, no chá do noivado dos filhos, o italiano lembra à futura sogra do filho o tempo em que lhe vendia mantimentos, fiado.

"Lisetta"

Lisetta sobe ao bonde com a mãe e logo percebe um urso de brinquedo no colo de outra menina, com pulseira de ouro e meias de seda, ao lado de uma mãe "elegantíssima".

Percebendo os esforços vãos de Lisetta para tocar o ursinho, a menina rica provoca-a, exibindo-se até descer do bonde.

D. Mariana admoesta e belisca a filha, que não se consola e acaba apanhando, até chegarem a casa.

O irmão de Lisetta constrói um urso de lata, feio e pequeno e presenteia a irmã. Imediatamente esta tranca-se no quarto com o brinquedo, para ninguém tocar nele...

"Corinthians (2) vs. Palestra (1)"

Durante o jogo de futebol, Miquelina torce para o Palestra, onde joga o atual namorado Rocco. No Corinthians joga Biagio, o ex-namorado, frequentador da sociedade Beneficente e Recreativa do Bexiga.

No intervalo, Miquelina manda recado ao Rocco para quebrar o Biagio, "o perigo do Corinthians".

Final de jogo. A torcida briga, grita. Rocco faz pênalti em Biagio. Miquelina nem olha. Biagio faz o gol da vitória corintiana.

No bonde, a moça ouve críticas ao namorado.

À noite, arruma-se e pede que Iolanda e o irmão a levem à Sociedade do Bexiga...

"Notas biográficas do novo deputado"

O coronel Juca e sua esposa, Dona Nequinha, recebem a notícia da morte do compadre italiano e têm de resolver o destino do afilhado órfão, Gennarinho.

Mandam-no vir da fazenda para São Paulo. O garoto chega à casa chique, no bairro chique, falando palavrão, cuspindo e berrando pelas escadas. Mas faz gentilezas aos padrinhos, que acabam encantados com ele, colocam-no em um colégio de padres da elite, onde é apresentado ao reitor como Januário Peixoto de Faria.

"O coronel seguiu para o São Paulo Clube pensando em fazer testamento. "

"O monstro de rodas"

Este conto apresenta "flashes" do velório e do enterro da filhinha de Dona Nunzia. Os homens discutem se o almofadinha que atropelou a menina ficará impune, como acontece sempre com os ricos.

No caminho para o cemitério do Araçá, as pessoas distraem-se com conversas; as moças exibem-se; os transeuntes cumprimentam.

Terminado o enterro, todos voltam à rotina.

O pai da menina sai atrás de um advogado.

"Armazém Progresso de São Paulo"

O conto começa com o célebre anúncio do armazém do Natale, no bairro do Bexiga.

O filho do doutor da esquina compra cigarros às escondidas e conta com a cumplicidade do Natale.

O armazém crescera (4 portas), possui jogo de "bocce" nos fundos. Natale e Dona Bianca trabalham muito, sempre atentos a informações, comentários e a oportunidades de ganhar dinheiro.

Um funcionário da Comissão de abastecimento comenta que o preço da cebola subiria logo. Dona Bianca avisa o marido, que corre para o armazém do português (no outro lado da rua), de quem arremata uma partida de cebolas "encalhadas" por um preço barato, visando lucro certo.

Dona Bianca põe o filho para dormir, quando Natale entra no quarto com um vinho italiano - que logo troca por meia cerveja - para comemorar o bom negócio.

Ao deitar-se, D. Bianca imagina-se "no palacete mais caro da Avenida Paulista".

"Nacionalidade"

O barbeiro Tranquillo Zampinetti mora na Rua do Gasômetro e cultiva um apego muito forte à Itália. Seu único desgosto: os filhos Lorenzo e Bruno recusam-se a falar e a entender o italiano, e apanham por causa disso.

Convencido por um conterrâneo, o barbeiro começa a votar com "caderneta" falsa e cabalar votos.

À medida que os filhos crescem, aumenta seu patrimônio e diminui seu fervor patriótico. Dedica-se à política, tem amigos influentes, não se preocupa mais com a guerra europeia.

O filho mais velho se casa e lhe dá um neto brasileiro. O mais novo forma-se em Direito. Tranquillo chora na formatura. Primeiro trabalho do novo bacharel: requerer a naturalização do pai.