Classicismo - Características

Em 1527, Sá de Miranda, poeta que participou do Cancioneiro Geral de Garcia Resende, introduz a "medida-nova" em Portugal. É o chamado "dolce stil nuovo" ( doce estilo novo) do Renascimento: versos decassílabos (dez sílabas métricas) e estruturas poéticas como o soneto, a écloga ( poema pastoril), a elegia ( poema de lamento) e a ode ( poema de celebração). Este formalismo literário dá novo impulso à literatura, possibilitando uma maior abordagem temática. Comparando-o com o Período Medieval (Trovadorismo e Humanismo), no qual a maioria dos versos é escrito em redondilha ("medida-velha"), a produção poética do Classicismo é mais racional e universal, destacando a personalidade do homem (antropocentrismo).

Veja o que diz o crítico literário Massaud Moisés:

"... para melhor compreensão da época clássica em Portugal, é preciso levar em conta que, em paralelo com a cultura europeia do tempo, o espírito medieval não foi totalmente abandonado. Em contrário, sua presença se faz sentir de modo patente, lado a lado com as novas ideias: o século XVI português constituiu uma época bifronte, justamente pela coexistência e não raro pela interinfluência das duas formas de cultura, a medieval, chamada "medida velha", e a clássica, chamada "medida nova". Tal bifrontismo é lugar-comum nos escritores quinhentistas portugueses, cujas aparentes contradições só podem ser entendidas quando se considera a ambivalência cultural da época."
Moisés, Maussad. A Literatura Portuguesa, 3ª ed. São Paulo, Cultrix, 1965. p. 56.

O Renascimento caracteriza-se por profundas transformações na vida e na visão de mundo do homem europeu. A classe social burguesa floresce, as cidades enriquecem e a economia europeia deixa de girar nas limitações feudais. Os horizontes geográficos alargam-se: Expansão Ultramarina, consequência da centralização política e do Mercantilismo.

Em paralelo, os dogmas da vida cristã enfraquecem e aos rigores da moral agostiniana ("ao cristão basta crer") já não se obedece com todo empenho. O Teocentrismo, que prevaleceu durante séculos na Idade Média, não mais orienta os homens; pois, agora, as pessoas relacionam-se de acordo com as novas coordenadas. Como consequência dessa postura, engendram-se transformações significativas no pensamento científico e filosófico.

A revalorização do homem (antropocentrismo) e da vida natural inclui obviamente o interesse pela natureza: o que era visto como mero local de tentações para a alma que aspirasse aos benefícios e recompensas do outro mundo, torna-se objeto de estudo científico. Tentativas experimentais da natureza são esboçadas.

Todas essas transformações não são admitidas sem conflitos profundos (principalmente se levarmos em conta que, no período, a Santa Inquisição assume um caráter autoritário e repressor das novas ideias), pois significam, de maneira diversa, a derrocada da ordem espiritual, social e econômica que há séculos constituía o padrão de vida europeia.

Panorama Histórico

Portugal é o grande desbravador dos mares e teve o seu apogeu nos séculos XV/XVI. Com a descoberta de novos mundos esse país trouxe para o povo europeu muitos costumes que até então eram desconhecidos. A língua portuguesa é uma das mais difundidas pelo mundo, consequência da colonização e da extensão das possessões coloniais.

Primeiro Reino a centralizar-se, Portugal foi uma das mais poderosas forças mercantis do século XVI. Controlou, quase que sem concorrentes, a maioria dos pontos estratégicos para o comércio mercantil. Em 1415, dá-se a tomada de Ceuta, parada obrigatória do comércio terrestre e marítimo; em 1510,é tomado o Porto de Goa (China).

O ponto culminante da expansão é a chegada às Índias de Vasco da Gama (precedido por Bartolomeu Dias que dobrou o Cabo da Boa Esperança, 1488) em 1498, possibilitando o controle das especiarias (cravo, canela, pimenta etc.) e tecidos indianos. Lisboa torna-se a "capital mundial da pimenta"; sua corte e Universidade são, nesse período, centros geradores e difusores de cultura.

Portugal constrói um grande império ultramarino, que se estende da América ao Oriente.

Em meio a essas descobertas, há a do Brasil, (1500), que inicialmente não desperta grande interesse nos portugueses. Não obstante, o espírito mercantil não deixa de atuar, e dá-se a exploração do pau-brasil com o estabelecimento de feitorias no litoral.

A expansão desmedida do domínio português fundamentava-se em objetivos claros: em primeiro lugar, no mercantilismo (acumulação de riquezas com o comércio de especiarias, fundação de colônias, monopólios de rotas etc.); numa outra instância, na ampliação da religião cristã, que estava sendo abalada pelo pensamento antropocêntrico do Renascimento e pela Reforma Religiosa.

Características do Classicismo

a) Antropocentrismo: o homem começa a atuar sobre o mundo que o rodeia e descobre suas potencialidades. Essa posição central do homem, orgulhoso de sua condição humana, é chamada antropocentrismo.

b) Racionalismo: (valorização da vida) ocorre uma valorização do uso da razão em detrimento do misticismo religioso vigente na Idade Média.

c) Universalismo: os valores universais e absolutos são destacados e uma cultura mais ampla é buscada (principalmente se for levado em conta que, na época, o homem descobre o "novo mundo" através da Expansão Ultramarina).

d) Cultura Greco-Latina: o Classicismo, como veículo literário do Renascimento, busca inspiração na cultura greco-latina, tentando, desta forma, recuperar o homem como centro e medida de todas as coisas (antropocentrismo). Há utilização abundante da mitologia greco-latina.

e) Formalismo Literário: o autor clássico se baseia nas grandes obras do passado (Ilíada e Odisseia, de Homero, Arte Poética, de Horácio, Eneida, de Virgílio; Rimas, de Petrarca; A Divina Comédia, de Dante, e outras) para expressar sua obra.

f) Em Portugal, há a coexistência da "medida nova" (novidades do Renascimento) e da "medida velha" (herança medieval), tanto nos temas como nas estruturas formais dos textos.

Luís Vaz de Camões

Luís Vaz de Camões, poeta.

Biografia

Camões, de ascendência paterna fidalga, porém de modesta fidalguia, nasceu provavelmente em Lisboa, por volta de 1525. Filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá, vai para Coimbra, receber formação escolar.

Nos anos de 1542-45 frequenta a corte (reinado de D. João III), colocando-se como poeta de talento notável. Aí teve vários amores, como a infanta Dona Maria e Caterina de Ataíde (conhecida pelo anagrama de Natércia). No entanto, incompatibilidades entre o irrequieto e sentimental Camões e o ambiente austero do Paço determinam o seu afastamento. Em 1527, estando em Ceuta para a prestação do serviço militar, como cavaleiro-fidalgo, perde o olho direito, em luta contra os mouros.

Em 1549, regressa a Lisboa, reiniciando sua carreira palaciana. É preso em 1552, por quase um ano, por ferir, numa rixa, Gonçalo Borges, oficial do Paço.

Parte para o Oriente (1553 até 1569), já com a carta de perdão, prestando serviços novamente ao Estado. Esteve em Goa, Malabar, Molucas e possivelmente em Macau (China - conforme a tradição, teria escrito grande parte de Os Lusíadas). No Oriente, vive aventuras, naufrágios, miséria, como tantos outros soldados do Império e da Fé. Em Goa, representa o Auto do Filodemo, em homenagem ao Governador Francisco Barreto.

Exerce o cargo de Provedor dos Bens de Defuntos e Ausentes. No rio Mecong, vítima de um naufrágio, salva-se a nado, juntamente com os originais de Os Lusíadas, mas perde a sua chinesa Tin-Nam-Mem, a "Dinamene".

Em estado de miséria, parte de Moçambique na companhia de Diogo Couto, em 1569. Publica Os Lusíadas em 1572.

D. Sebastião concede-lhe uma pensão de 15.000 mil réis anuais: modesta quantia. Morre em 10 de julho de 1580.

Camões escreveu poesia Lírica e Épica.

Poesia lírica

A obra lírica de Camões foi publicada, pela primeira vez, em 1595, por Fernão Rodrigues Soropita e recebeu o nome de Rhythmas. Apresentava cinco partes:

  1. sonetos.
  2. canções e odes.
  3. elegias e oitavas.
  4. éclogas.
  5. redondilhas.

Em 1598, Estevão Lopes editou Rimas de Luís de Camões; pelo fato de os poemas apresentarem manifestações do gênero lírico, recebem também o nome de Líricas.

O desconcerto do mundo, o amor carnal  —  feito de fato o amor platônico, os sofrimentos do amor, o infinito absoluto, o ideal da beleza perene e universal, a dualidade matéria e espírito, num "bifrontismo entre valores medievais e valores clássico-renascentistas" entre a "medida velha" e a "medida nova", são temas constantes na obra desse artista.

i. Medida Velha

Poesia em versos redondilhos, maiores ou menores, temas populares, estilo engenhoso com trocadilhos e jogos de palavras que lembram a estética barroca. A estrutura poética mais comum é o vilancete (mote e glosa).

ii. Medida Nova

Versos decassílabos, com temas que buscam o eterno e o absoluto, através de recursos literários: antíteses, hipérboles, anáforas. Caracteriza-se pelo universalismo dos temas, pelo idealismo amoroso com que trata a amada e pelo racionalismo que preside à elaboração poética, bem aos moldes de Petrarca.

Poesia épica - Os Lusíadas

O poema épico Os Lusíadas constitui-se de 10 cantos em 1102 estrofes (ou estâncias) em oitava-rima, com esquema rimático ab ab ab cc, num total de 8.816 versos decassílabos (medida nova) heroicos (acento na sexta e décima sílaba métrica) e sáficos (quarta, oitava e décima).

Quanto à estrutura, a obra está baseada na epopeia clássica de Virgílio: Eneida.

Divide-se em cinco partes:

  1. Proposição: revela o assunto a ser abordado (estrofes 1 a 3, canto I);
  2. Invocação: pede inspiração às ninfas do Tejo, as Tágides (estrofes 4 a 5, canto I);
  3. Dedicatória: oferece o poema ao rei D. Sebastião (estrofes 6 a 18, canto I);
  4. Narrativa: a parte principal e mais extensa da epopeia, na qual se desenvolvem os episódios da história lusitana (estrofe 19 do canto I à estrofe 144 do canto X);
  5. Epílogo: começa com pungente censura à decadência do país e termina com exortações a D. Sebastião para continuar a expansão ultramarina (estrofes 145 a 156 do canto X).

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Sumário

- Panorama Histórico
- Características do Classicismo
- Luís Vaz de Camões
i. Biografia
ii. Poesia lírica
iii. Poesia épica - Os Lusíadas
- Antologia
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