Renascimento Urbano e Comercial

O renascimento comercial e urbano foi consequência de mudanças que ocorreram na Europa durante a Baixa Idade Média. O renascimento comercial e urbano aconteceu na passagem da Alta Idade Média para a Baixa Idade Média. Esse processo resultou em grande crescimento comercial. As cidades cresceram e algumas delas passaram a ter um número significativo de habitantes. Além disso, a moeda passou a ser reutilizada e ocorreu a ampliação da produção agrícola e da circulação de mercadorias.

A Europa mudou muito após as Cruzadas. As cidades italianas foram as que mais se beneficiaram com a retomada dos contatos comerciais entre Ocidente e Oriente, através do mar Mediterrâneo, por onde trafegavam ideais, religiões e mercadorias. Graças às condições geográficas favoráveis e ao fortalecimento de suas ligações comerciais com o Oriente – devido à Quarta Cruzada –, as cidades italianas obtiveram a primazia na distribuição das mercadorias orientais por toda a Europa. Por meio da colleganaza (contratos individuais de associação) e da comandita (sociedades que possuíam barcos e financiavam expedições), os capitais dos comerciantes das cidades italianas se multiplicavam.

A intensificação das atividades comerciais no sul e no norte da Europa fomentou a ligação entre essas regiões, através de rotas terrestres e, especialmente, fluviais. Os mercadores navegavam por rios como o Danúbio, o Reno e o Ródano, e se reuniam em feiras – pontos de comércio temporário.


Feira livre - Era Medieval

Até o século XIV, as principais feiras ocorriam em Champagne – um condado francês localizado em um ponto central da Europa ocidental. Nas feiras, os comerciantes do norte ofereciam seus produtos e adquiriam mercadorias orientais. Consequentemente, a terra deixou de constituir a única fonte de riqueza. Surgia um novo grupo social: os mercadores.

O renascimento comercial tornou possível o retorno das transações financeiras. A moeda reapareceu, a atividade creditícia foi impulsionada e letras de câmbio entraram em circulação. Tudo isso fomentou as atividades bancárias. À medida que crescia o ritmo de circulação de riquezas, havia uma necessidade cada vez maior de moedas. Os reis buscavam colocar em circulação moedas de excelente liga, detendo o monopólio de emissão. Muitas moedas foram postas em circulação. Isso exigia um controle de seu valor real. Surgiram os especialistas e os financiadores de grandes empreendimentos – os bancos.

A partir do século XIV, o comércio das feiras de Champagne atravessou uma crise, graças a dois fatores: a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), entre Inglaterra e França, e a Peste Negra. O declínio de Champagne resultou na ascensão econômica de Flandres, na atual Bélgica, embora a rota de acesso a essa região era inconveniente, pois os mercadores eram obrigados a pagar taxas pelo direito de passagem pelas terras dos senhores feudais. Os italianos passaram a utilizar outra rota para chegar a Flandres: atravessavam o Mediterrâneo, em direção a Gibraltar, e, dali, navegavam pelo oceano Atlântico, rumo ao mar do Norte. A Península Ibérica, especialmente a região de Portugal, se tornou um ponto de escala, beneficiando-se com as atividades mercantis.

O norte da Europa também buscava novos mercados e procurava se organizar. A partir do século XII, foram estabelecidas as hansas ou ligas – poderosas associações de comerciantes que congregavam os interesses de diversas cidades, realizando o comércio em grande escala.

A Hansa Teutônica era especialmente influente. Constituía uma associação de mercadores alemães que comerciavam na região dos mares Báltico e Norte. Essa associação, que se transformou na Liga Hanseática, chegou a agregar mercadores de aproximadamente 80 cidades, sob a liderança de Lubeck, cidade alemã. A Liga Hanseática possuía representação em todos os grandes centros comerciais.

Às hansas se deve a dinamização das cidades. O renascimento das cidades ocorreu graças a seu papel de sítio de passagem e de negócios. As atividades das hansas, baseadas nos conceitos de lucro e capitalização, constituíram o prenúncio do desenvolvimento econômico capitalista, que marcou a Revolução Comercial dos séculos XV e XVI.

Renascimento Urbano


Florença Medieval

Graças à ascensão dos comerciantes, a sociedade estamental foi substituída por uma sociedade estruturada em classes. Assim, instalou-se, na Baixa Idade Média, o estilo de vida urbano.

As vilas e as cidades cresceram rapidamente. Por volta do século XIV, em algumas regiões, metade da população se dedicava a atividades comerciais e artesanais. Muitos centros urbanos cresceram e outros surgiram em locais bem situados. Algumas cidades se formaram na confluência de estradas. Outras se desenvolveram perto de abadias, junto a castelos fortificados ou em locais de feiras.

Essas cidades foram denominadas burgos, pois muitas delas eram fortificadas (em latim, burgu significa “fortaleza”). As muralhas que as circundavam serviam para proteger os habitantes – os burgueses. Muitas vezes, a população em torno do burgo aumentava demasiadamente, tornando necessária a edificação de uma nova muralha, caracterizando-se assim o forisburgo.

Apesar de desenvolverem livremente as atividades de comércio e artesanato, as cidades medievais se localizavam em áreas que pertenciam a feudos. Portanto, inicialmente, os burgos eram submetidos ao dono do solo, que impunha leis e impostos e exigia privilégios, como o de comprar a crédito. Entretanto, com o crescimento das atividades comerciais e a ascensão da burguesia, essas cidades passaram a buscar a independência. A luta pela autonomia urbana – gerada pela necessidade de poder circular livremente, de assegurar sua própria defesa sem ter de depender do senhor feudal, de estabelecer uma legislação e de adequar moedas, pesos e medidas – foi denominada movimento comunal e se estendeu de meados do século XI ao século XIII. Esse movimento buscou organizar as atividades individuais para uma ação coletiva.

Os habitantes dos burgos, especialmente os comerciantes, agiam, à princípio, de forma pacífica: pagavam uma indenização aos senhores feudais para comprar os direitos sobre a cidade, obtendo a Carta de Franquia. Contudo, se os senhores oferecessem resistência, os burgueses recorriam à luta armada, contratando mercenários ou constituindo uma milícia urbana para obter sua liberdade.

Por meio das cartas de franquia, as cidades que haviam se emancipado da tutela feudal procuravam assegurar suas conquistas: o direito de arrecadar impostos em proveito da própria cidade (liberando-se dos tributos dos senhores feudais), o direito de organizar sua própria milícia e autonomia judiciária e administrativa.

Conforme a região a que pertenciam, as cidades emancipadas recebiam denominações diferentes. Na Itália, eram chamadas de repúblicas; na Alemanha, de cidades-livres; na península Ibérica, de conselhos; e na França, de comunas.

Com a sedentarização do comércio e a formação de elites, as cidades puserem um fim à estrutura feudal. Isso resultou no fortalecimento da autoridade dos reis – em detrimento da nobreza –, pois os monarcas passaram a ter poder fiscal sobre um território mais vasto e de crédito amplo ao estender seu apoio aos ricos. A Europa se transformava: abraçava o capitalismo comercial e o Estado absolutista – formas de organização que caracterizaram a Idade Moderna.