PUC-PR 2012 Inverno - Redação - o Público e o Privado

REDAÇÃO

PROPOSTA 01:

Leia a coletânea a seguir e selecione o que julgar pertinente para a realização da proposta. Articule os elementos selecionados com sua experiência de leitura e reflexão. O uso da coletânea é motivador. Não será(ão) aceita(s) cópia(s) integral(is) que caracterize(m) seu texto como mera reprodução dos fragmentos da coletânea.

ATENÇÃO – sua redação será anulada se você reproduzir a coletânea ou fugir ao recorte temático ou não atender ao tipo de texto da proposta.

TEXTO A:
Poucos conceitos se prestam à tamanha confusão quanto o de “homem cordial”, central no livro Raízes do Brasil, do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982). Muitas pessoas, ao citar inadvertidamente a obra, emprestam à noção do autor uma conotação positiva, ligada à polidez, afeto ou boa educação, que, desde a origem, lhe é estranha. Em resposta, o historiador explicou ter usado a palavra em seu verdadeiro sentido, inclusive etimológico, que remete a coração. Opunha, assim, emoção à razão. O didatismo foi incluído numa nota na segunda edição, de 1947, bastante modificada, e que seria a definitiva.
Apesar do zelo do autor, no entanto, o equívoco persistiu. Afinal, o que haveria de errado na cordialidade brasileira, nesse sentido de afetuosidade típica de um povo? Não haveria nada condenável se a afabilidade se desse em ambiente privado, em relações entre familiares e amigos. O problema surge quando a cordialidade se manifesta na esfera pública. Isso porque o tipo cordial é individualista, avesso à hierarquia, arredio à disciplina, desobediente a regras sociais e afeito ao paternalismo e ao compadrio, ou seja, não se trata de um perfil adequado para a vida civilizada numa sociedade democrática.
A questão é lançada logo na abertura do capítulo que aborda o homem cordial. “O Estado não é uma ampliação do círculo familiar”, afirma o ensaísta. “Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição.” Para o homem cordial, personificação do “jeitinho brasileiro”, há, no entanto, uma extensão natural entre os dois planos.
Fragmento retirado de: www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/o_jeitinho_ do_homem_cordial.html. Acessado em 09/06/2012.

TEXTO B:
Em Leite Derramado, último romance de Chico Buarque, o autor deixa transparecer alguns traços evidentes da crítica social de seu pai, o historiador Sergio Buarque de Holanda. Eulálio Assumpção, o protagonista, vem de uma nobre estirpe de funcionários do Estado. Seu trisavô aportou com a família real em 1808, seu bisavô foi barão, o avô político influente e comensal de D. Pedro II, seu pai senador da República Velha; ele, por sua vez, nada construiu. Ao longo da narrativa essas origens são constantemente rememoradas, e o que marca essa volta ao passado é um profundo ressentimento.
A caracterização da personagem lembra em muito as análises de Sérgio Buarque em Raízes do Brasil, pois esse afã de "títulos honoríficos" e "prosperidade sem custo", bem como uma forte repulsa ao trabalho, são traços presentes desde nossos colonizadores – marcas do “homem cordial”. Na psicologia de Eulálio Assumpção podem-se identificar fortes traços do que Sérgio Buarque definiu como "cordialidade": a hipertrofia das relações privadas e familiares sobre o bem público, a confusão entre as relações patriarcais e o Estado democrático.
O que a obra de Chico produz é uma profunda sensação de inadequação. Eulálio é uma metáfora da incapacidade de compreender o Brasil à nossa volta. Chico desenha, desse modo, a intensificação do esvaziamento da dimensão política e social na contemporaneidade. Assim, de certa forma, o filho romancista desenvolve o aparato crítico pensado pelo pai historiador e produz um novo diagnóstico sobre a realidade brasileira, tão lúcido que se torna desolador.
Thiago Lima Nicodemo
Fonte: O Estado de S. Paulo - 28/03/09.

TEXTO C:


Proposta de Redação

Dada a coletânea, elabore seu texto dissertativo a partir do seguinte recorte temático:

Os limites entre o Público e o Privado no contexto atual “cordialidade” brasileira: implicações éticas, políticas e sociais.

SOBRE A REDAÇÃO:

1- Discuta os principais problemas acarretados pela perpetuação do “jeitinho brasileiro” na contemporaneidade:

a) Implicações éticas: o esvaziamento do conceito de “cidadania”, o descaso com a “coisa pública”;
b) Implicações políticas: nepotismo, compadrios, eleições e decisões judiciais suspeitas e/ou fraudulentas;
c) Implicações sociais: crônicos problemas estruturais (saúde, educação, moradia, alimentação, segurança etc.).

2- Trabalhe seus argumentos a fim de explicitar a(s) relação(ões) entre os pontos a), b) e c), que são complementares.

3- Explore os argumentos de modo a justificar seu ponto de vista.

4- Seu texto deverá ter entre 20 e 25 linhas.

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