Romantismo em Portugal

Romantismo em Portugal

1. Datas

  • 1825: publicação do poema narrativo Camões, de Almeida Garrett - início do Romantismo em Portugal.
  • 1865: "Questão Coimbrã" - polêmica entre os românticos tradicionais e os jovens realistas - início do Realismo em Portugal.

2. Contexto histórico

Na Europa, o fim do século XVII e o início do século XIX assistem a grandes mudanças, entre as quais a crise das monarquias nacionais absolutistas e a Revolução Francesa, que teve como consequências:

  • a disseminação dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade;
  • a ascensão da burguesia ao poder;
  • o surgimento do Liberalismo em política, moral, economia e arte;
  • uma nova escala de valores, com o predomínio do interesse pelo enriquecimento;
  • transformações históricas, sociais e culturais.

Portugal vive um período de turbulências e instabilidade: a primeira metade do século XIX é marcada por vários acontecimentos conflitantes:

  • 1808 -1821: vinda da família real para o Brasil;
  • 1820: revolta do exército - início do período conhecido com "Vintismo";
  • 1822: Nova Constituição, com o regresso de D. João VI;

Independência do Brasil - piora da situação política portuguesa;

  • 1822 a 1833: disputas pelo poder entre irmãos - clima de desordem;
  • 1847: início do governo da Regeneração, apoiado pela burguesia - maior estabilidade;
  • quadro social desolador:
    • economia agrícola;
    • 80% da população analfabeta;
    • exílio voluntário de vários intelectuais, como Almeida Garrett e Alexandre Herculano.

3. Origens do Romantismo

As origens do Romantismo encontram-se na Alemanha, no movimento "Sturm und Drang" (Tempestade e Ímpeto), que envolveu artistas como Goethe, Herder, Schiller, os irmãos Schlegel no combate ao racionalismo clássico, e no culto da subjetividade. Na Inglaterra,Edward Young, Walter Scott e Lord Byron também pregavam o domínio da emoção e da subjetividade, o romance histórico, com a exaltação do passado nacional.

Mas foi a França o centro do movimento e o polo divulgador do Romantismo na Europa: artistas como Chateaubriand, Lamartine, Musset e Victor Hugo abraçaram as características do movimento e pregaram a liberdade de expressão ("sem regras, nem modelos").

4. Características gerais do Romantismo

A subjetividade, visão de mundo filtrada pela vivência pessoal do artista e derivada de suas emoções e sentimentos, é a grande característica do romantismo, da qual derivam outras como:

  • individualismo, egocentrismo, narcisismo;
  • predomínio da emoção e do sentimento sobre a razão - "derramamento de emoções" ou "descabelamento romântico";
  • excesso de sentimentalismo e carência de razão - desequilíbrio, anarquia, ilogismo;
  • prevalência da imaginação e do idealismo sobre o plano do real e do concreto;
  • fuga à realidade, evasão, escapismo - a fantasia como única saída para o desespero - o artista cria mundos em que o "eu" possa encontrar consolo;
  • retorno ao medievalismo, ao passado remoto - referências a terras exóticas, a lugares distantes;
  • busca, na Natureza, de remédios para os males para os males do coração - a natureza, para os românticos, é dinâmica e expressiva, refletindo as emoções do artista, ao contrário da natureza árcade, que é sempre perfeita, estática e convencional;
  • instabilidade emotiva, tipicamente adolescente - "estética de adolescentes";
  • nacionalismo, exaltação da pátria, ufanismo;
  • distanciamento dos padrões preestabelecidos de Arte, em contraposição às regras do Arcadismo;
  • no plano formal, a liberdade de expressão - a língua como veículo das emoções do "eu":
  • no apogeu do Romantismo, conhecido como Ultra-Romantismo, a deserção total, através da morte: os ultra-românticos sentem tédio, morbidez e pessimismo diante da vida, atitude conhecida como "Mal-do-Século",
  • preferência pela paisagem noturna, principalmente no Ultra-Romantismo, por ser ela mais propícia ao sonho, à imaginação, à fantasia.

Os Três Momentos do Romantismo

O primeiro momento do Romantismo português ainda apresenta reminiscências neoclássicas, como o uso de modelos preestabelecidos e o comedimento da expressão; na realidade, o romantismo dessa fase está nos ideais, no espírito libertário e no nacionalismo. Pertencem a este período os autores Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Antônio Feliciano de Castilho.

O segundo momento, do qual fazem parte Camilo Castelo Branco e Soares de Passos, corresponde ao "ultra-romantismo", em que há o exagero e o reinado da emoção, a sensação de tédio, melancolia, desespero, morbidez em relação à vida e ao mundo.

O terceiro momento, que corresponde ao crepúsculo do Romantismo e às antecipações do realismo, é o de maior equilíbrio e está representado pela obra de Júlio Dinis e João de Deus.

Almeida Garrett

João Batista Leitão de Almeida Garrett, o iniciador do Romantismo português, nasceu no Porto (1799) e morreu em Lisboa, em 1854. A denúncias das contradições ideológicas entre o pensamento conservador e a defesa das ideias liberais o levaram a ser exilado duas vezes de Portugal. Dedicou-se à vida pública, após a vitória liberal em Portugal, sendo diplomata, deputado, jornalista.

Sua vida amorosa foi agitada: casamento, divórcio, diversas paixões e escândalos, mas deixou obra vasta e variada: poesia, prosa, teatro, oratória parlamentar, pensamento doutrinário, jornalismo. Entre todas elas, as principais são: Flores sem fruto, Folhas caídas (poesia), Viagens na minha terra (prosa de ficção) e Frei Luís de Souza (teatro)

Sua poesia evoluiu em duas fases: a primeira, marcada por forte influência da poesia neoclássica, apresenta contenção emotiva e equilíbrio. A segunda, romântica, é a fase mais significativa de sua obra poética, embora ainda se note o comedimento clássico, com o controle da emoção, o que só seria quebrado em sua obra lírica maior, Folhas caídas. A linguagem de Garrett nos poemas é popular, o ritmo coloquial, e há o uso frequente de redondilhas.

Além das citadas, deixou, em poesia as seguintes obras: Camões, D. Branca, Romanceiro e Cancioneiro geral.

Viagens na minha terra é uma obra misto de jornalismo, diário íntimo e prosa de ficção; o estilo é rico, maleável, com grande plasticidade nas descrições e a abordagem de temas variados: do amor à política. Há, no livro, um certo autobiografismo, pois refere-se a uma viagem realmente feita por Garrett entre Lisboa e Santarém.

Frei Luís de Souza, peça teatral composta de três atos em prosa, é considerada a obra-prima da dramaturgia portuguesa; sua classificação situa-se entre a tragédia e o teatro romântico; foi inspirada no drama vivido, no século XVI, por Manuel de Souza Coutinho - o Frei Luís de Souza - e D. Madalena de Vilhena - viúva de D. João de Portugal, desaparecido com D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir.

Texto escolhido:

Jorge (cortando a conversação)
Bom velho, dissestes trazer um recado a esta dama: dai-lho já, que havereis mister de ir descansar...
Romeiro (sorrindo amargamente)
Quereis lembrar-me que estou abusando da paciência com que me tem ouvido? Fizeste bem, padre; eu ia-me esquecendo... talvez me esquecesse de toda a mensagem a que vim... estou tão velho e mudado do que fui!
Madalena
Deixai, deixai, não importa; eu folgo de vos ouvir; dir-me-eis vosso recado quando quiserdes... logo, amanhã...
Romeiro
Hoje há de ser. Há três dias que não durmo nem descanso, nem pousei esta cabeça, nem pararam estes pés dia nem noite, para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado... e morrer depois... ainda que morresse depois; porque jurei... faz hoje um ano... quando me libertaram, dei juramento sobre a pedra do Sepulcro de Cristo...
Madalena
Pois éreis cativo em Jerusalém?
Romeiro
Era: não vos disse que vivi lá vinte anos?
Madalena
Sim, mas...
Romeiro
Mas o juramento que dei foi que, antes de um ano cumprido, estaria diante de vós e vos diria da parte de quem me mandou...
Frei Luís de Souza

Sumário

- Romantismo em Portugal
i. Datas
ii. Contexto histórico
iii. Origens do Romantismo
iv. Características gerais do Romantismo
- Os Três Momentos do Romantismo
- Almeida Garrett
- Alexandre Herculano
- Camilo Castelo Branco
- Os outros autores
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