Unificação da Itália e da Alemanha

Unificação da Itália e da Alemanha

A UNIFICAÇÃO ITALIANA

A Itália, como o Congresso de Viena a definiu, nada mais era do que uma “expressão geográfica”. Ficara dividida em sete estados principais:

  • o reino da Sardenha e Piemonte, ao norte.
  • o reino das Duas Sicílias, ao sul.
  • os Estados da Igreja.
  • o reino Lombardo-Veneziano.
  • o ducado de Toscana.
  • o ducado de Módena.

O reino Lombardo-Veneziano pertencia à Áustria, ao passo que os Três Ducados da Itália Central, Parma, Módena e Toscana, eram governados por dependentes do Habsburgos. No período de ocupação napoleônica, a burguesia italiana do Norte prosperou; surgiram na região centros industriais ativos, onde as classes liberais, policiadas pelo sistema absolutista e intervencionista de Metternich, passaram a se agrupar em sociedades secretas.

À medida que o fervor revolucionário de 1848 se alastrava pela Península, os governantes, um após outro, concederam reformas democráticas. Logo se evidenciou, porém, que os italianos estavam mais interessados em nacionalismo do que democracia. Havia alguns anos que os patriotas românticos vinham sonhando com o Risorgimento, a ressurreição do espírito italiano que restauraria a nação gloriosa na posição de domínio que havia desfrutado na Antiguidade e na Renascença. Para consegui-lo, admitia-se universalmente que toda a Itália devia fundir-se num Estado só.

Os moderados monarquistas, partidários de uma unificação sob a forma de monarquia parlamentar, tendo por defensor Carlos Alberto, do reino Sardo-Piemontês, afirmando, também, que se a Itália desejava realmente uma independência nacional, só a conseguiria com a exclusão da Áustria dessa Liga. Os principais líderes dessa corrente eram César Balbo, D´Azeglio e Camillo di Cavour, primeiro-ministro do reino Sardo-Piemontês.

A Itália terá que “fazer-se por si” (“L´Itália fará da se” — palavras de Carlos Alberto); para isso, era necessário que predominasse um só pensamento numa só ação. O único rei partidário de uma guerra contra a Áustria era Carlos Alberto; o rei das Duas Sicílias procurava atrasar a partida das tropas que prometera. O duque de Toscana, de origem austríaca, desconfiava da política ambiciosa de Carlos Alberto. O Papa Pio XI hesitava entre o amor à pátria e a preocupação com a universidade católica; como austríacos também eram católicos, não enviou seu contingente.

Todo o peso da guerra cabia, assim, aos piemonteses, que derrotados nas batalhas de Custozza (1848) e Novara (1849), viram restaurada a autoridade austríaca. O último a depor as armas foi Giuseppe Garibaldi. Derrotado, Carlos Alberto abdicou em favor de seu filho Vítor Emanuel II.

O movimento revolucionário de 1848/49 mostrara que a Itália ainda estava fraca militarmente; demonstrara também ser absurda a pessoa do Papa como líder do movimento unificador. Caíram os partidários de Gioberti.

Vítor Emanuel II escolheu para chefe de seu ministério Massimo D´Azeglio, símbolo do patriotismo na Itália, o qual cuidou da reorganização interna do reino, em moldes liberais. O general La Marmora, à frente do Ministério da Guerra, procurava reorganizar o exército do ponto de vista da disciplina, instrução e armamentos, para fazê-lo reencontrar o prestígio perdido em Custozza e Novara. À frente do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, estava o diretor do jornal “Risorgimento”, Camillo di Cavour.

A situação era difícil para o Piemonte (esse reino tinha apenas 5 milhões de habitantes contra 37 milhões da Áustria), que possuía agora dois inimigos: a Áustria e os Estados Pontifícios; as demais potências eram indiferentes à questão. Entretanto, o panorama internacional mudou quando a França e a Inglaterra iniciaram contra a Rússia a Guerra da Crimeia. Para atrair a Inglaterra e a França à causa da unidade italiana, Cavour ofereceu-lhes ajuda do Piemonte, sem procurar obter promessas de vantagens (1855). Finda a guerra, Cavour compareceu ao Congresso de Paris (1856) como representante do Estado mais fraco, tomou atitudes reservadas nas questões que não lhe interessavam, mas procurou atrair a atenção de seus colegas franceses e ingleses para a causa italiana. Chamando a atenção das potências europeias para Piemonte, esse reino passou a ser oficialmente o protetor dos italianos oprimidos. O governo austríaco protestou contra as pretensões do Piemonte de falar em nome de toda a Itália; mas esta, de um modo geral, acolheu bem a ideia da proteção que lhes oferecia Cavour.

Procurando o apoio dos patriotas, entre os quais Garibaldi, Cavour conseguiu fundar a Sociedade Nacional, que tinha por missão proteger na Península todos os que desejassem se unir ao Piemonte para realizar a obra de libertação da Itália. Foram chegando então ao Piemonte numerosos emigrados que passavam a ocupar não apenas cadeiras nas Universidades, como também lugares no Parlamento. Preparava-se assim, na cosmopolita Turim, capital do Piemonte, a unidade italiana.

O Piemonte, numa calma aparente, armava-se cada vez mais; suas forças, porém, não eram suficientes para enfrentar a Áustria. De seu lado, Napoleão III, à frente do Governo Francês, desejava, como protetor das nacionalidades, auxiliar o Piemonte; entretanto, adiava sempre o momento, a fim de não descontentar os católicos de seu país, já que as terras do Papa seriam forçosamente anexadas à Itália unificada.

Deu-se então, o encontro do Plombières (1858) entre Cavour e Napoleão III, que não passou de mero acordo verbal, embora lançasse as bases de uma futura aliança entre a França e o Piemonte, a fim de afastar a Áustria da Itália. No ano seguinte, uma aliança política redigiu de forma concreta os acordos estabelecidos verbalmente em Plombières: ficava estabelecido que o Piemonte teria o auxílio francês, mas só no caso de um ato agressivo da Áustria.

Cavour iria então provocar essa agressão, aumentando o efetivo do Piemonte; a Áustria protestou e exigiu o desarmamento do Piemonte, que recebeu o ultimato como uma declaração de guerra.

Apesar de estar-se saindo vitorioso, a situação política não permitiu que Napoleão III continuasse a guerra. É que havia, externamente, o perigo da Prússia, que se armava para conseguir a unificação da Alemanha em seu proveito e, internamente, o descontentamento dos católicos franceses que não apoiavam a causa italiana.

Assim, foram suspensas as hostilidades, para que os franceses e austríacos fixassem as preliminares de paz em Villafranca (julho de 1859) que foram as seguintes: a Áustria cedia a Lombardia ao Piemonte, os Estados italianos passariam a constituir uma Confederação presidida pelo Papa, a Venécia, embora fizesse parte dessa Confederação, continuaria a pertencer à Áustria. A desilusão provocada na Itália por essas preliminares de paz foi imensa.

Assim sendo, em março de 1860, um plebiscito anexava os Estados centrais aos domínios do Piemonte; por sua vez, Cavour entregava à França a Saboia, berço da casa reinante do Piemonte, e Nice, terra de Garibaldi, que, por esse motivo, atacou violentamente o Primeiro-Ministro do Parlamento. A partir daí, a unificação italiana passaria a ser feita por etapas, através de anexações.

Em outubro de 1860, a Expedição dos Mil, sob o comando de Garibaldi, atacava e conquistava o Reino das Duas Sicílias, que desde o ano anterior sofria ante o Absolutismo de Francisco II, filho e sucessor de Fernando II. Daí, partia Garibaldi para atacar as terras do Papa Pio XI; em novembro de 1860, o território pontifício ficava restrito unicamente ao Lácio, onde estava Roma.

A 08 de fevereiro de 1861, Vítor Emanuel II era proclamado rei da Itália, embora restasse ainda resolver as questões do Lácio e da Venécia. A fim de preparar-lhe o caminho, Cavour enviou, em princípios de 1861, o general Afonso La Marmora para felicitar Guilherme I por sua ascensão ao trono da Prússia; o general italiano levava instruções para transmitir aos prussianos que, “por analogias existentes entre as tendências históricas da Prússia e as do Piemonte, os italianos tinham por hábito considerar a Prússia como um aliado natural”. Com isso, aproveitando-se da guerra austro-prussiana, o Piemonte aliou-se à Prússia; vencidos em Sadowa, os austríacos entregaram pelo Tratado de Praga (1866) a Venécia à Itália.

Cavour, que morrera a 06 de junho de 1861, não pôde assistir à anexação da Venécia; essa vitória, porém lhe cabia, pois foi dele a ideia de aproximar o Piemonte da Prússia, através da missão La Marmora. Não conseguiu também ver o final da Questão Romana que ele próprio encaminhara. Os discursos que fez alguns meses antes de morrer levou o Parlamento italiano a reivindicar a união de Roma à Itália, como capital aclamada pela opinião nacional. Entretanto, a ocupação de Roma deixava de ser apenas italiana, pois ela era antes de tudo a capital da Igreja Católica, com adeptos em todos os países.

O Papa Pio XI, que se recusava a reconhecer a anexação de seus territórios ao Piemonte, havia excomungado Vítor Emanuel II e seus ministros. Por sua vez, Roma, desde 1849, encontrava-se garantida pela ocupação militar francesa, quando o Papa se viu cercado pelos revoltosos por haver-se negado a enviar tropas para lutarem contra a Áustria. Enquanto essa situação perdurasse, qualquer ataque a Roma provocaria um conflito armado com a França.

Reconhecendo oficialmente o Reino da Itália, Napoleão III obteve a promessa de Vítor Emanuel II de que não tentaria invadir Roma, que assim, no prazo de dois anos, seria evacuada; foi esse o objetivo da Convenção de Setembro (14 de setembro de 1864). Entretanto, só em agosto de 1870, diante do perigo da guerra franco-prussiana, é que as tropas francesas deixaram Roma. Com a queda do Segundo Império (04 de setembro de 1870), Vítor Emanuel II considerou-se desligado dos compromissos feitos ao Imperador na Convenção de Setembro; assim, Roma foi invadida quando um plebiscito posterior consagrava a anexação.

Roma tornava-se capital da Itália, enquanto Pio XI fechava-se no Palácio do Vaticano, considerando-se prisioneiro. Em 1871, o Parlamento italiano promulgou a Lei das Garantias Pontifícias, a qual se propunha definir a situação do Papa como soberano reinante. Era-lhe conferida plena autoridade sobre os edifícios e jardins do Vaticano e de Latrão, bem como o direito de nomear e receber embaixadores. Além disso, era-lhe dada a franquia dos correios, telégrafos e estradas de ferro da Itália e destinava-lhe, a título de indenização, uma pensão anual de aproximadamente 645.000 dólares. Pio XI imediatamente rejeitou essa lei sob a alegação de que os assuntos que diziam respeito ao Papa resolver-se-iam por um tratado internacional com a sua própria participação. Entretanto, fechou-se no Vaticano e recusou ter qualquer contato com “um governo que tratara tão vergonhosamente o vigário de Cristo na Terra”.

A solução para a Questão Romana só veio em 1929, com o Tratado de Latrão, assinado entre Pio XI e Benito Mussolini. Segundo ele, o papado permaneceria soberano da Cidade do Vaticano, que seria assim um Estado independente, bem como seus anexos, Latrão e Castel Gandolfo.

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