Revolução Russa de 1917

A Revolução Russa de 1917 foi um dos principais eventos do século XX. A Revolução Russa foi constituída por uma série de eventos que derrubou a monarquia que comandava o Império Russo e criou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Inegavelmente, a Revolução Russa de 1917 impactou não apenas a história da Rússia, mas de todo o restante do mundo durante o século XX.

ANTECEDENTES

Já em 1905, os camponeses, os trabalhadores urbanos, os profissionais liberais e até mesmo parte da nobreza, em duvidosa aliança, haviam abalado a autocracia, compelindo-a a conceder o estabelecimento de um Parlamento Nacional, a Duma. O objetivo de sua fundação era o de propiciar um fórum, onde o governo pudesse manobrar os segmentos mais influentes da sociedade russa e, através deles, pôr em prática as reformas que, durante a Revolução de 1905, se verificou serem necessárias.

Porém, enquanto a Revolução se diluía no passado, enfraquecia o senso de urgência da tarefa e os velhos hábitos de autocracia se reafirmavam, reforçados pelo temor de uma violência social, pela lembrança das barricadas em Moscou, dos incêndios nos campos, dos linchamentos e dos assassínios. Na ala direita da Duma e na Câmara Alta, o Conselho de Estado, surgiram fortes grupos, dos quais o governo veio a depender cada vez mais para obter maioria; eram grupos preocupados em castrar, ou retardar indefinidamente as reformas que, temiam eles, poderiam abrir as comportas da Revolução. Entre os intelectuais e na ala esquerdista da Duma, esse processo gerava crescente desilusão e amargura com a ação política.

É nesse cenário de estagnação política e de desengano que se deve observar o aparecimento de uma figura que, para muitos historiadores, exemplifica a decadência final do czarismo. Grigory Rasputin era um camponês da aldeia de Pokrovskoye, na Sibéria Ocidental. Ao surgir, pela primeira vez em São Petersburgo, em 1903, sua figura robusta e mal vestida, e suas maneiras e ensinamentos independentes conquistaram-lhe as graças da czarina e uma legião de adeptos na corte (onde tradicionalmente as religiões místicas eram buscadas como panaceia para males sociais insolúveis).

Havia razões especiais pelas quais Rasputin viria a atrair a atenção do casal imperial. O herdeiro tão esperado, o Czarevitch Alexey, herdara a hemofilia familiar, e a forte e tranquilizadora personalidade de Rasputin mostrara-se capaz de minorar a dolorosa e perigosa hemorragia interna, características dessa moléstia. Dessa maneira, ele conquistou a devoção da imperatriz, cuja preocupação pelo filho a transformara numa mulher histérica e solitária.

Nos anos de desilusão, particularmente a partir de 1911, que se seguiram ao fracasso da tentativa de um trabalho conjunto do governo e da Duma, tanto o imperador quanto a imperatriz passaram a ver em Rasputin um representante dos camponeses simples da Rússia, dos quais, acreditavam, com pesar, a Duma e a burocracia os haviam separado. Rasputin cuidava de preservar essa imagem de camponês, chegando até a participar de banquetes na corte sem se lavar e mergulhando as mãos imundas na terrina de sopa. Ou, então, conversava com o casal imperial sobre os sofrimentos dos camponeses e as medidas que poderiam ser tomadas para aliviá-los.

Rasputin representava, assim, não apenas um sintoma do alheamento do casal imperial, diante da política em transformação na Rússia contemporânea, mas um fator de agravamento desse sintoma. Os políticos liberais desabafavam sua frustração por meio de venenosas insinuações, que eram estendidas até mesmo à família imperial, e assim contribuíram para a atmosfera de inimizade e de suspeita em que se apoiavam e desenvolviam as atividades políticas nos últimos anos do império.

O irromper da guerra restabeleceu uma unidade temporária e um sentimento de objetivos comuns. A Duma aceitou docilmente uma prorrogação indefinida e os partidos de oposição deram sua total solidariedade ao esforço de guerra. Algumas medidas foram tomadas para aumentar a efetiva cooperação entre o Exército, o governo e a sociedade, no terreno da produção industrial e dos suprimentos.

Por conseguinte, a partir de agosto de 1915, Nicolau II passou a exercer cada vez mais seu domínio pessoal. A situação, todavia, era complexa demais para uma solução tão simples e drástica por parte do Czar. O único resultado que obteve foi se ver mais isolado, perdendo o contato com os homens sérios que tinham senso de responsabilidade e da realidade, dirigindo a nação sob a exclusiva dependência de sua querida e infeliz esposa, de seu "salvador", Rasputin, e dos bajuladores sempre dispostos a alimentar suas ilusões comuns.


Nicolau II
Nicolau II

Os partidos na Duma e as organizações sociais estavam impotentes. Por um lado, sentiam que a política monárquica só conduzia à derrota militar certa e, provavelmente, à revolução; por outro lado, temiam levantar as mãos contra o monarca, no receio de precipitar uma revolução das massas, que acreditavam não poder controlar. De novo a política russa se transformava num mundo sombrio de suspeita e conspiração, ainda complicado pela dupla ameaça de derrota nacional e da revolução social.

O príncipe Yusupov, jovem nobre abastado, deu início à trama que resultaria no assassínio de Rasputin. Yusupov contou com dois cúmplices principais: o Grão-Duque Dmitry Pavlovich e Purishkeivich. Com o auxílio desses dois homens, Yusupov convidou Rasputin a visitá-lo, na noite de 29 para 30 de dezembro de 1916, e assassinou-o.

Esse crime representou um melodrama inútil e macabro. Na realidade, com ele, Yusupov e seus cúmplices não conseguiram evitar a queda do regime czarista. Além de não terem resolvido nenhum dos problemas reais com que a Rússia se defrontava, ainda aumentaram a crescente amargura que separava o casal imperial de quase toda a nação. Removendo um dos sintomas à guisa de curar uma enfermidade, o crime expôs a autocracia czarista em toda sua nudez: ídolo capaz ainda de inspirar devoção, pronto a ser abandonado por todos os grupos populares, partidos, instituições ou unidades militares, aos primeiros sinais da revolta de março de 1917.

FASE BURGUESA DA REVOLUÇÃO

O assassínio de Rasputin não contribuiu para restabelecer as graças da monarquia ou para aumentar o respeito popular pelo Czar. Se o afastamento de seu amigo reduziu a influência da Czarina nos assuntos nacionais, Nicolau, porém, não demonstrava nenhuma inclinação para ouvir as advertências de seus ministros mais liberais. Ao contrário, voltou as costas tanto para o governo quanto para a Duma e passou a confiar em sua própria autoridade imaginária, exercida principalmente através de seu Ministro do Interior, Protopopov, que dominava a administração.

Durante o mês de janeiro de 1917, a tormenta da guerra continuava a cobrar seu preço da economia e o descontentamento aumentava. A escassez de gêneros alimentícios e o custo de vida em rápida ascensão resultaram numa inquietação geral entre os operários da indústria, particularmente em Petrogrado e em Moscou.

A 20 de janeiro, Rodzyanko, presidente da Duma, avisou o Czar de que estavam sendo previstas manifestações muito sérias. A Rússia clamava por uma mudança de governo porque, afirmava ele, "não resta nenhum homem honesto a seu lado; todas as pessoas decentes ou foram demitidas ou saíram voluntariamente". Esses avisos, todavia, nenhum efeito tiveram sobre o teimoso e autocrático Czar.

Rodzyanko, porém, sabia que tudo estava em processo de deterioração e a 23 de fevereiro preveniu o Czar de que era possível uma revolução. Nicolau não deu ouvidos ao aviso, dizendo que, caso os deputados não refreassem sua linguagem, a Duma seria dissolvida. Essa última reuniu-se no Palácio Tauride em 27 de fevereiro e o governo, esperando problemas durante a sessão, endureceu a sessão, endureceu a censura e deteve todos os agitadores em potencial. A tensão na capital aumentou. Uma semana depois, 07 de março, o Czar resolveu deixar Petrogrado e partir para o quartel-general do exército, em Mogilev.

No dia seguinte, eclodiram revoltas na capital, que, dentro de uma semana, levariam à derrubada da monarquia. Aparentemente sem qualquer orientação central e de início sem quaisquer objetivos políticos definidos, os operários de várias grandes fábricas em Petrogrado entraram em greve. Seu movimento representava principalmente um protesto contra a redução dos gêneros alimentícios, mas a reação nervosa das autoridades logo formou a inquietação industrial e econômica em protesto político.

A Duma estava impossibilitada de tomar qualquer decisão e transformá-la em ação eficiente. Quando seu presidente Rodzyanko mandou uma mensagem ao Czar, dizendo que o destino do país e da monarquia estavam em jogo, e que medidas urgentes deveriam ser tomadas, Nicolau respondeu com uma ordem de dissolução da Duma. Embora temesse enfrentar abertamente o Czar, a Duma continuou reunida informalmente e, no dia 12 de março, elegeu um comitê provisório, integrado por doze membros, que incluía elementos do Bloco Progressista, com Alexandre Kerensky, social-revolucionário, e Chkheidze, social-democrata. O comitê assumiu a impossível tarefa de restaurar a ordem.

No mesmo dia, em outro local, surgia outro organismo. Era o soviete dos representantes dos trabalhadores e soldados de Petrogrado, que representava os interesses dos operários revoltosos, dos soldados e dos grupos e partidos democráticos e socialistas. O país como um todo estava, agora, em mãos desses dois organismos.

Rodzyanko manteve o Czar informado sobre o desastroso curso dos acontecimentos, concitando-o, primeiro, a instituir reformas e, depois, quando a situação se agravou, a abdicar no interesse da monarquia como instituição. Quando dois delegados da Duma chegaram a Pskov (local onde se encontrava o Czar), Nicolau entregou-lhes finalmente um documento em que dizia: "Por meio destes transmitimos nossa sucessão a nosso irmão, o Grão-Duque Miguel, e o abençoamos por sua ascensão ao trono do Império Russo".

Porém, após refletir um pouco, Miguel recusou-se e, dessa maneira, terminou a monarquia na Rússia. No mesmo dia em que o Czar assinou o ato de sua abdicação, criava-se, em Petrogrado, um governo provisório. Ele, porém, tinha de compartilhar do poder com o soviete, e o conflito entre as duas organizações iria ocupar os oito meses seguintes do ano de 1917.

Nota: Em 1917, a Rússia ainda continuava usando o calendário juliano, cujas datas são treze dias atrasadas em relação ao calendário gregoriano adotado no mundo ocidental. Assim, o que se chama Revolução de Março, denominou-se para os russos, a Revolução de Fevereiro, o mesmo sucedendo com relação à Revolução de Novembro, que para a Rússia ocorreu em outubro.

FASE BOLCHEVIQUE

A derrubada do regime autocrático-czarista em março de 1917 (ou fevereiro, segundo o calendário juliano) foi uma extraordinária vitória para os povos da Rússia. Aliada ao Exército, a classe trabalhadora lutou e conquistou a liberdade política. O país inteiro organizou-se em uma extensa rede de Sovietes (conselhos) e comitês de soldados e camponeses.

O poder estava dividido no país, mas desde junho o governo provisório havia estabelecido uma ditadura, auxiliado pelos mancheviques e pelos social-revolucionários. Nenhum dos objetivos sociais da Revolução fora atingido. Nem o governo do Príncipe Lvov, nem o de Kerensky, que o sucedeu, deram terra aos camponeses ou libertaram-nos da servidão em que eram mantidos pelos proprietários de terras. Nas fábricas e usinas, os operários continuavam a ser cruelmente explorados, seu padrão de vida declinava acentuadamente, seus salários eram reduzidos e a fome imperava nas cidades.

Um país esgotado pela Primeira Guerra Mundial tinha agora sede de paz e, no entanto, a política do governo provisório era dar prosseguimento à guerra.

A Rússia debatia-se em meio a violentas contradições. O progresso da agricultura era retardado pela concentração de áreas enormes nas mãos dos donos das terras. Ao mesmo tempo, a indústria moderna vinha-se implantando no país, com grande concentração do processo produtivo e da mão de obra. A classe urbana estava organizada em sindicatos e muito aprendera sobre lutas políticas na revolução fracassada em 1905.

O Partido Bolchevista

O Partido Bolchevista, liderado por Vladimir Ilitch Ulianov (Lenin), orientava a luta da classe operária para a conquista do poder, a solução da questão agrária, o término da guerra, o estabelecimento do controle de produção pelos operários e nacionalização dos bancos e dos ramos mais importantes da indústria. Mas, essa luta dos operários e camponeses defrontou-se com a acirrada resistência das classes dominantes.

Lênin
Lênin

Em setembro de 1917, o partido da burguesia russa, o dos Democratas Constitucionais e os círculos militares reacionários, chefiados pelo general Korlinov, tentaram executar um "putsch" contrarrevolucionário e implantar uma ditadura militar. Essa conspiração despertou oposição generalizada do povo e fez com que as forças revolucionárias cerrassem fileiras em torno dos bolcheviques.

A influência dos bolchevistas nos sovietes ampliou-se rapidamente por todo o país, nos meses de setembro a outubro. Em quase toda parte, eles passaram a ser o principal elemento dos sovietes. No outono de 1917, a Revolução atingiu seu estágio decisivo.

Todas as classes e todos os setores da sociedade russa foram envolvidos pela crise revolucionária. Uma crise que afetou a nação inteira, pois manifestou-se em todas as esferas da vida nacional, envolvendo a massa trabalhadora, as classes dominantes e os partidos políticos. Com implacável precisão, Lenin revelou a inevitabilidade do colapso da economia russa, dominada pela burguesia e pelos proprietários de terras, e da política econômica do governo provisório.

O colapso da política de alimentação do governo provisório teve um efeito particularmente grave sobre a condição da massa popular. A lembrança dos dias de março de 1917, que haviam provocado revoltas contra a falta de alimentos, ainda estava bem fresca na memória do povo. Às vésperas da Revolução de Outubro, a situação alimentar do país piorou, como resultado da política dos governos provisórios, notavelmente o de Kerensky, o qual não se preocupava com as principais necessidades do povo.

Sinal bastante evidente da crise nacional foi o colapso dos partidos dominantes, dos social-revolucionários e dos social-democratas (mencheviques). A formação, em ambos, de grupos de esquerda, a intensificação dos conflitos entre a liderança desses partidos e seus membros, e entre as chefias partidárias, as organizações locais, além de forte rejeição, pelos comitês locais social-revolucionários e mencheviques, do lema de coalizão com a burguesia, foram resultados diretos do colapso da política reformista desses partidos.

Início das Hostilidades

A partir de meados de outubro de 1917, a guerra aberta dos trabalhadores contra o governo provisório passou a ser ocorrência diária na vida da nação. Em toda parte, os operários se armavam, o número de seus destacamentos em armas, os Guardas Vermelhos, aumentava rapidamente, eles ampliavam seus contatos e planos de ações comuns com as guarnições das principais cidades.

Uma resolução aprovada num congresso de sovietes da província de Vladimir, em 29 de outubro, declarava que o governo provisório e todos os partidos que o apoiavam eram traidores da causa revolucionária e que todos os sovietes daquela província estavam em guerra aberta e resoluta contra o governo provisório. A mesma resolução foi aprovada pelos sovietes de outras cidades. Quando um congresso de sovietes na província de Ryazan resolveu transferir imediatamente o poder para os sovietes, o ministro do interior, Niktin, exigiu o emprego da força armada contra a população de Ryazan.

O soviete da província de Moscou propôs que todos os sovietes da província ignorassem as ordens dadas pelo governo provisório. O soviete de Vladivostok, a uns 9000 km de Moscou, baixou instruções segundo as quais qualquer desobediência às ordens do soviete seria considerada ato contrarrevolucionário. Os sovietes dos Urais afirmaram que a tarefa principal era derrubar o governo provisório.

Foi a classe operária industrial e seu partido que assumiram a vanguarda desse movimento popular. Comitês de fábrica surgiram em toda parte, rapidamente tornavam-se fortes e eram dominados pelos bolcheviques.

Revoltas Camponesas

A força do movimento operário multiplicava-se em virtude de os trabalhadores da indústria exercerem tremenda influência sobre os camponeses e, em troca, receberem apoio sob a forma de uma crescente guerra camponesa contra os proprietários rurais.

"Se num país de camponeses, após sete meses de república democrática, as coisas chegaram ao ponto de uma revolta camponesa, isto prova, sem sombra de dúvida, o fracasso nacional da Revolução, a crise com que se defronta, além de tornar claro que as forças contrarrevolucionárias estão chegando ao limite de seus recursos", escreveu Lenin em meados de outubro de 1917.

Mas, a representação oficial do campesinato, na ocasião, era o Conselho Russo de Representantes Camponeses, eleito num congresso de camponeses em maio, e que de há muito perdera qualquer direito de representar quem quer que fosse. O Comitê Executivo do Conselho Russo dos Representantes Camponeses sancionava as expedições punitivas contra os homens do campo e apoiava a política de hostilidade ao campesinato mantida pelo governo. As massas camponesas que se haviam revoltado contra os latifundiários conseguiram empreender uma ação decisiva.

Nos principais centros de rebelião camponesa, sob influência dos trabalhadores da indústria, a luta contra os donos das terras assumiu forma organizada, com objetivos definidos. Os 332 delegados presentes a um congresso na Província de Tver tomaram a decisão unânime de entregar imediatamente todas as terras à administração dos comitês agrícolas. Os comitês agrícolas da província de Tambov apoderaram-se de todas as terras pertencentes à Igreja e aos proprietários rurais e arrendaram-nas a camponeses que não possuíam terra alguma, ou tinham muito pouca. Atos semelhantes repetiram-se em todo o país.

O Governo Provisório organizou expedições punitivas e apresentou várias propostas legislativas de eventuais reformas cujo objetivo era "pacificar" os camponeses e, certamente, não o de satisfazer as suas exigências de repartir a terra.

As ações empreendidas pelos camponeses forçaram o Governo Provisório a distribuir suas tropas por inúmeras áreas, onde havia rebeliões e motins.

As autoridades locais, porém, logo perceberam a inutilidade de utilizar a força contra a massa camponesa. Ao longo dos levantes, até mesmo os comitês rurais que apoiavam o governo eram forçados a confiscar as propriedades dos donos de terras e distribuí-las entre os camponeses mais necessitados.

Os social-revolucionários, os Kadetes (democratas constitucionais) e os mencheviques tentavam, por todos os meios, minimizar a importância da luta camponesa, sob a alegação de que não passava de "selvagem anarquia", falando de massacres e "desordeiros". Essa falsificação da verdade é desmentida pelos fatos: nos principais centros de rebelião, os camponeses transferiam a terra para os mais pobres, de maneira organizada.

A experiência de oito meses de Governo Provisório demonstrou que, sem outra revolução, a massa camponesa jamais receberia qualquer terra ou se libertaria da opressão dos latifundiários. Foi essa experiência que levou as massas camponesas a uma sublevação que, aliada à luta dos operários da indústria, criou as condições favoráveis à vitória da revolução socialista.

Os Bolcheviques tomam o Poder

Em novembro de 1917, o Partido Bolchevique contava com cerca de 350.000 membros. Sua força, no entanto, seria medida pela influência que exerceria sobre os milhões de pessoas organizadas nos sovietes, sindicatos, comitês de fábricas, comitês de soldados e de camponeses. Num momento em que a revolta armada se processava em âmbito nacional, a tarefa do partido revolucionário de Lenin foi cuidar da organização política e militar das forças rebeldes. No centro desse trabalho de preparação, encontrava-se a classe operária. Os Guardas Vermelhos adquiriram experiência de luta, aprendiam a tática do combate nas ruas, criavam e fortaleciam seus contatos com as unidades revolucionárias do exército.

Nos bairros habitados por pessoas de outras nacionalidades, os bolcheviques conquistavam o apoio da população oprimida, que encarava a vitória de uma revolução socialista como a garantia de sua emancipação social e nacional. Importantes núcleos de luta revolucionária instalaram-se em todos esses bairros e serviram de ligação entre o movimento de libertação nacional e o movimento de camponeses e operários, unindo Moscou e Petrogrado às regiões mais distantes em um único fronte revolucionário.

A decisão de trabalhar visando a um levante - tomado no Sexto Congresso do Partido Bolchevista, em agosto de 1917 - era consistentemente posta em prática. Em 23 de outubro, numa reunião da qual Lenin participou, o Comitê Central dos Bolcheviques aprovou uma deliberação a respeito do levante. A decisão não fixava uma data, mas salientava que um levante armado é inevitável e o momento é oportuno.

No dia 29 de outubro, numa sessão especial do Comitê Central dos Bolcheviques, aprovou-se a decisão de organizar um levante armado e constituir um centro militar revolucionário. O líder e organizador desse órgão foi Yakiov Severdlov, bolchevique de 32 anos de idade, com um passado de 17 anos de atividade revolucionária, prisões, trabalhos forçados e sete fugas à deportação.

Em fins de outubro, ocorreram, em todo o país, conferências e congressos distritais e provinciais dos sovietes, comitês de fábrica, comitês do Exército e da linha de frente. A história jamais havia presenciado tão maciça mobilização de forças populares, em torno da classe operária, para um ataque decisivo ao sistema capitalista.

Enquanto isso, o governo provisório tentava retornar à iniciativa. A 1º de novembro, dissolveu o soviete de Kaluga, cercou Moscou e Minsk com tropas cossacas e tentou deslocar de Petrogrado as unidades revolucionárias de guarnição das capitais. O único efeito dessas ações foi tornar ainda mais ativas as forças revolucionárias.

Ao anoitecer de 06 de novembro, Lenin abandonou seu esconderijo secreto e chegou ao quartel-general do levante armado que, sob sua liderança, se desenvolveu com muito maior rapidez. Na noite de 06 de novembro e na manhã do dia seguinte, as tropas do Comitê Militar Revolucionário ocuparam a central telefônica, diversas instalações ferroviárias e o Banco do Estado. A capital russa caíra nas mãos do povo rebelado.

Na manhã de 07 de novembro, Lenin redigiu seu apelo aos cidadãos da Rússia, anunciando a passagem do poder do Estado para as mãos do Comitê Militar Revolucionário. Esse documento, o primeiro que surgiu da revolução vitoriosa, foi logo impresso e distribuído ou fixado nas ruas de Petrogrado.

Naquele mesmo dia, reuniu-se o soviete de Petrogrado, onde Lenin anunciou a vitória da revolução socialista. Num discurso breve e comovente, definiu as tarefas mais importantes da Revolução: a constituição de um governo soviético, o desmantelamento da velha administração soviética, o término da guerra, uma paz justa e imediata, o confisco das propriedades rurais e o controle dos operários sobre a produção industrial.

Durante todo o dia 07 de novembro, realizaram-se reuniões das facções partidárias do Congresso dos Sovietes no Instituto Smolny. Os detalhes da composição partidária do segundo Congresso Russo dos Sovietes dão testemunho da profundidade e da extensão do prestígio bolchevique entre o povo. No primeiro congresso, os bolcheviques contavam com apenas 10% dos delegados, mas no segundo, já representavam 52% deles. Os bolcheviques obtiveram a adesão de numeroso grupo da ala esquerda dos social-revolucionários (mais de 15% do total dos delegados), enquanto no primeiro Congresso não houve um só deles. Mencheviques e social-revolucionários de direita, de todos os matizes e opinião, que, indubitavelmente haviam dominado o primeiro Congresso dos Sovietes (84% dos delegados), representavam apenas 26% dos delegados ao segundo Congresso.

É desnecessário apresentar qualquer prova adicional para demonstrar até que ponto os partidos pequeno-burgueses se haviam desintegrado; o declínio de 86%, em junho de 1917, para 26%, em outubro, é bastante eloquente. Não obstante, os bolcheviques não tentaram antagonizar ou isolar os demais partidos que formavam parte dos sovietes.

O enorme salão de colunas brancas do Instituto Smolny fervilhava de gente. Em seu interior, encontravam-se representantes de toda a Rússia, de seus centros industriais e regiões dos cossacos e de todas as frentes de combate e guarnições militares do interior. Era uma assembleia representativa de toda a Rússia, com a missão de decidir o rumo futuro da Revolução.

Após algumas ruidosas manifestações e muitos gritos histéricos e apelos, os social-revolucionários de direita e os mencheviques conseguiram deixar o recinto do congresso levando em sua companhia um grupo insignificante de pessoas (cerca de 50 delegados). Ao mesmo tempo, ocorreu significativo reagrupamento de forças no congresso. O número de social-revolucionários reduziu-se de sete, mas o grupo dos social-revolucionários de esquerda aumentou para oitenta e um. Os mencheviques desapareceram totalmente, porém o grupo de internacionalistas mencheviques elevou-se para vinte e um. Isso significava que muitos membros da facção dos mencheviques e dos social-revolucionários não obedeceram à decisão de seus dirigentes de abandonar o congresso, preferindo passar para os grupos de esquerda.

Por volta das 22 horas de 07 de novembro, as tropas revolucionárias que cercavam o Palácio de Inverno atacaram, após o sinal dado por um tiro de canhão disparado pelo Cruzador Aurora. O Palácio de Inverno foi tomado. Antonov Oyseyenko prendeu os membros do governo provisório e encarregou os Guardas Vermelhos de levá-los para a Fortaleza de Pedro e Paulo.

Assim foi resolvida a principal questão da revolução; em termos legislativos, estabelecia-se o poder dos sovietes. Os problemas mais difíceis, em torno dos quais se travara dura luta durante os oito meses da revolução - as questões da paz, terra, controle operário, autodeterminação das nações, democratização do Exército - foram apresentados e resolvidos, aberta e francamente, nesse documento.

O apelo dos trabalhadores, soldados e camponeses foi aprovado com apenas dois votos em contrário e doze abstenções. Era a vitória das ideias de Lenin de transferir todo o poder aos sovietes. O primeiro decreto aprovado pelo Segundo Congresso Russo dos sovietes falava da paz.

Às 9 horas da noite de 08 de novembro, iniciou-se a segunda sessão do congresso dos sovietes. Lenin subiu ao palanque. "A questão da paz é questão primordial, a questão mais premente deste momento", começou Lenin. A revolução proletária não se enfeitava com a roupagem vistosa de palavras bonitas, nem se ocultava por detrás de ruidosos manifestos e de promessas impossíveis. Ela deu início, de maneira prática e metódica, à grandiosa e difícil tarefa de libertar os povos da Rússia e de todo o mundo de sangrenta carnificina.

Desfile logo após a vitória Bolchevique
Desfile logo após a vitória Bolchevique

Havia um tom de confiança e de firmeza nas palavras contidas no decreto de Lenin, o qual propunha que todos os povos em guerra e seus governos entabulassem imediatamente conversações a respeito de uma paz justa, sem anexações ou indenizações.

O decreto sobre a paz foi aprovado unanimemente pelo Congresso dos Sovietes.

De imediato, o Congresso voltou sua atenção para a segunda questão: a imediata abolição dos direitos de propriedade dos latifundiários. Os anseios do povo e seus sonhos seculares de libertação dos senhores das terras estavam expressos no decreto sobre a terra: "ficam abolidos os direitos de propriedade fundiária, imediatamente sem quaisquer compensações", dizia o decreto.

O decreto sobre a terra foi aprovado pelo voto geral dos delegados, com apenas um voto contrário e oito abstenções. Dessa forma, também sobre essa questão capital da revolução os bolcheviques alcançaram vitória total. O campesinato recebeu terra das mãos da classe operária urbana vitoriosa. Isso transformou a aliança entre o proletariado e a classe camponesa numa força tremenda, capaz de promover o progresso posterior da revolução. Abolindo a propriedade privada da terra, o decreto sobre a terra deu o primeiro passo no sentido de liquidar a propriedade capitalista dos bancos, dos empreendimentos industriais, dos transportes, etc.

Uma vez que possuía esmagadora maioria, era natural que o partido de Lenin formasse o novo governo. No decorrer do congresso, o Comitê Central do Partido Bolchevique mantivera intensivas negociações com os social-revolucionários de esquerda a respeito de sua participação no governo. Os social-revolucionários de esquerda haviam sido membros do Comitê Militar Revolucionário e participado (embora não sem alguma hesitação) de levante armado, e apoiado as principais decisões do Congresso. Todavia, estavam estreitamente ligados a seus colegas da direita no partido, e dependiam de sua orientação política para decidirem uma imediata adesão ao governo soviético. Só se resolveram um mês mais tarde.
Assim, os bolcheviques assumiram a responsabilidade de formar um novo governo. "Queríamos um governo de coalizão de sovietes. Não excluímos ninguém dos sovietes. Se eles (social-revolucionários e mencheviques) não quiserem cooperar conosco, pior para eles. As massas de soldados e de camponeses não os seguirão", afirmou Lenin.

O decreto sancionado pelo Congresso, referente à formação de um governo de operários e camponeses, chefiado por Lenin, tornou-se, com efeito, um documento constitucional. Ele determinava o nome do novo governo: Soviete dos Comissários do Povo, nome que refletia o fato de o novo governo estar intimamente ligado ao povo e haver-se desenvolvido a partir dos sovietes. O decreto estipulava, em termos gerais, que o novo governo ficava sujeito ao controle do Congresso Russo dos sovietes e a seu Comitê Executivo Central. Assim, estabelecia o princípio constitucional concernente à responsabilidade do governo dos trabalhadores e camponeses perante os organismos supremos do regime soviético: o Congresso dos Sovietes e o Comitê Executivo Central Russo, que tinham o direito de afastar os comissários do povo.

Uma vez vitoriosa em Petrogrado, a revolução estendeu-se rapidamente a todo o país. Logo depois de Petrogrado, os sovietes lograram sucesso em Moscou, onde as batalhas pelo poder foram violentas durante cinco dias, culminando, a 16 de novembro de 1917, com a vitória dos sovietes. Em três meses, a revolução socialista vencera em todo o imenso país: da frente ocidental às praias do Oceano Pacífico, e do mar Branco até o Mar Negro.

Desde o início de seu desenvolvimento, a revolução socialista russa obteve êxito naquilo que a Comuna de Paris tentara fazer, porém, fracassara. Os trabalhadores, camponeses e soldados da Rússia criaram uma nova administração, formaram seu próprio governo no congresso de operários, resolveram as questões de paz e terra, e ofereceram a todos os povos da Rússia a possibilidade de independência nacional.

A vitória da Revolução Bolchevique foi tão grande que teve influência nos destinos da humanidade.

A Guerra Civil

Apenas haviam concluído a paz com as potências centrais, os bolcheviques viram-se a braços com uma terrível guerra civil. Os proprietários e capitalistas não se conformavam com a perda de seus bens. Além disso, os aliados estavam decididos a punir a Rússia e para isso enviaram tropas a esse país, a fim de apoiar as forças dos generais reacionários. Resultou daí uma prolongada e sangrenta luta entre os vermelhos, ou bolcheviques de um lado, e os brancos, ou seja, os reacionários e seus aliados estrangeiros do outro. De parte a parte foram cometidas horríveis barbaridades. Os brancos chacinavam os habitantes das aldeias tomadas, tanto homens quanto mulheres e crianças. Os vermelhos instauraram o reinado do terror, a fim de eliminar espiões e contrarrevolucionários. Foi criada uma comissão extraordinária, conhecida como Tcheká, para prender e punir as pessoas suspeitas.

Leon Trotski
Leon Trotski

Sob a liderança de Trotsky, o Exército Vermelho venceu gradualmente a guerra civil. Em 1920, os generais brancos tinham sido derrotados. Os poloneses tentaram invadir a Rússia, mas foram derrotados, e o Exército Vermelho invadiu a Polônia. Trotsky se opôs. Declarou que a revolução não podia ganhar terreno exclusivamente através de baionetas e que os trabalhadores poloneses acabariam respondendo aos apelos de patriotismo e combatendo os russos. Lenin, ao contrário, afirmou que o Exército Vermelho seria bem recebido na Polônia e que, quando alcançasse a fronteira da Alemanha, os comunistas alemães também se insurgiriam. Mas, o Exército Vermelho foi derrotado às portas de Varsóvia. Lenin mudou de tática e passou a insistir na paz. O Tratado de Riga entregou à Polônia grandes áreas de território étnico russo.

A Nova Política Econômica (NEP)

Durante a guerra civil russa, três quartos do país estiveram ocupados por tropas estrangeiras ou contrarrevolucionárias. Ao baterem em retirada, essas acabavam com o gado, as provisões e as matérias-primas, além de destruírem fábricas, estradas e pontes. As minas eram inundadas e as máquinas destruídas.

O nível da produção industrial caiu para um sétimo, em relação aos índices de antes da guerra. As estradas de ferro estavam em estado deplorável: milhares de locomotivas e vagões imprestáveis e centenas de quilômetros de trilhos não aproveitados, com dormentes apodrecidos e pontes destruídas. Os trens gastavam semanas em viagens que normalmente levariam um dia. Os passageiros amontoavam-se nas plataformas, estribos e mesmo no teto dos vagões.

Durante anos, o povo estivera faminto. E agora a produção agrícola estava um terço abaixo do nível do período anterior à guerra. De tempos em tempos, operários e soldados recebiam carne e manteiga nas suas rações, mas o açúcar era considerado um luxo inacessível. Havia escassez de roupas, sapatos e remédios.

Os camponeses, que já haviam suportado privações terríveis, estavam nitidamente insatisfeitos com o Estado, que se apropriava do excedente da produção agrícola. Era através desse sistema que o Estado impedia a alta dos preços e a expansão do mercado negro. O comércio privado era terminantemente proibido. O campesinato como um todo estava insatisfeito e passou a exigir o direito de dispor livremente de seus excedentes. Na luta contra o Estado soviético, os contrarrevolucionários (guardas brancos) tentaram tirar proveito deste descontentamento camponês. Os "Kulaks" (camponeses ricos) levantaram-se então em protesto em todos os distritos um após o outro.

Em face do descontentamento camponês, era fundamental uma mudança completa na política econômica. Não seria possível continuar com o "Comunismo de Guerra" em tempo de paz.

A resposta a esses problemas foi a nova política econômica de Lenin. Ela pretendia oferecer uma solução definitiva para o problema da união dos trabalhadores e camponeses.

O Estado soviético defrontou-se, então, com o problema de como levar a cabo uma reorganização socialista da agricultura, através da criação do cultivo socializado em larga escala. Mas, esse problema não poderia ser imediatamente solucionado, pois a realização do plano envolvia a criação de condições básicas ao seu desenvolvimento, sendo necessário um trabalho de organização longo e cuidadoso. Além disso, também era preciso contornar os problemas surgidos com pequenos proprietários individuais.

O vínculo econômico entre a cidade e o campo tinha que ser reforçado e a troca de produtos agrícolas por bens manufaturados deveria ser realizada de maneira a satisfazer os camponeses.

Para atingir esse objetivo, Lenin propôs a substituição do sistema de apropriação de excedentes, permitindo aos camponeses reter parte de seu excedente e, através da venda direta dos produtos, comprar aquilo de que necessitassem. A NEP incentivou o camponês a aumentar sua produção, assegurando, assim, as bases para uma rápida reconstrução da agricultura. Essa, por sua vez, seria a base do crescimento industrial.

Naturalmente, a liberdade do comércio privado envolvia uma questão muito séria para a continuidade do estado Bolchevique: os "Kulaks" e os comerciantes poderiam trabalhar (como de fato o fizeram) no sentido de reforçar sua posição política e econômica, contrária ao regime.

Além disso, os ideólogos hostis, tanto no país quanto no estrangeiro, assim como alguns elementos dentro do próprio Partido Comunista Russo, começaram a questionar se a NEP não significava uma rendição da construção do socialismo. Esses argumentos não tinham nenhuma base teórica ou prática. E a eles o governo respondia, afirmando que uma tolerância parcial e temporária de certos mecanismos do capitalismo não significava um retorno ao capitalismo. O Estado soviético manteve sua posição de senhor absoluto e os elementos capitalistas na indústria, na agricultura e no comércio dependiam totalmente da autoridade do governo. Mais tarde, o socialismo lançaria a o ataque final contra o capitalismo russo em todos os setores da economia.

Para assegurar a vitória do socialismo, os comunistas tiveram que aprender a comerciar e a dirigir correta e eficientemente a economia. E sua tarefa mais importante era a reconstrução e o desenvolvimento da indústria, especialmente da pesada.

Muito breve, porém, suas esperanças desapareceram. O mês de abril marcou o início de uma longa e terrível seca. Maio e junho continuavam secos e quentes e as más previsões diárias do tempo alarmavam toda a população. Os jornais já noticiavam a perda das colheitas de inverno de trigo e centeio.

A seca espalhou-se, atingindo as áreas agrícolas mais importantes da União Soviética. Malograram as colheitas ao longo do Volga, no leste da Ucrânia, ao norte do Cáucaso, nos Urais, no Cazaquistão e na Rússia Central - regiões já devastadas pela Primeira Guerra Mundial e pela guerra civil.

A economia arruinada pouco podia fazer pelos 30 milhões de camponeses nas áreas afetadas. Faltava-lhes o essencial, os instrumentos de trabalho: animais de carga, ferramentas para a agricultura, fertilizantes, sementes de trigo e mesmo força de trabalho.

Muitas foram as vítimas da fome durante aquele ano. Na primavera de 1922, já somavam um milhão de vítimas fatais. Uma vez mais o país defrontou-se com a necessidade de uma mobilização de ordem geral: dessa vez, a luta era no sentido de conseguir comida e sementes para o plantio do ano seguinte, antes que fosse tarde demais.

De cada região do país foram enviados víveres e dinheiro para as áreas afetadas. Somente as doações voluntárias forneceram 150.000 toneladas de alimentos. "Camaradas camponeses! Paguem imediatamente uma taxa voluntária em espécie! Os campos das províncias do Volga não podem esperar para serem semeados! O atraso no suprimento de sementes significa morte e ruína." Esse apelo ocupava uma página inteira de um exemplar do Pravda de agosto.

A vinda de sementes deu nova coragem e confiança aos camponeses. Deu-lhes também nova força, criou um incentivo para o trabalho e abriu-lhes a perspectiva de conservar suas propriedades.

Eles conseguiram semear 75% das terras disponíveis para a colheita do ano seguinte.

Todos ajudaram durante a semeadura da primavera de 1922.

O auxílio bem organizado em larga escala prestado pelo governo e pela sociedade soviética salvou enormes áreas do país da ruína completa. Por volta de 1922, a NEP já erradicara quase totalmente a insatisfação entre os camponeses, fazendo desaparecer os efeitos dos anos de guerra e as lembranças das desapropriações de produção.

Desse modo, a NEP conseguiu recuperar o nível da agricultura do período anterior à guerra. Porém, o potencial dos camponeses estava completamente esgotado: espalhados em pequenas unidades, contavam com nível de produção relativamente baixo, com poucos tratores, e poucas máquinas. Agora, a produção agrícola e, consequentemente, o progresso do país como um todo dependiam de uma transformação radical na estrutura da agricultura. Aumentou a produção de roupas, sapatos, açúcar, papel, carvão e óleo. As estradas de ferro retornaram gradativamente ao normal. Os trabalhadores superavam a escassez de recursos materiais, através da labuta incessante.

Como nos dias da guerra civil, por toda a parte havia turmas que trabalhavam voluntariamente, sem receber pagamento aos sábados e domingos.

Lênin que dirige-se à parada de Vsevobuch
Lênin que dirige-se à parada de Vsevobuch

Como Lenin previra, a NEP revitalizou certos elementos capitalistas. A parcela que os comerciantes receberam em 1923 correspondia a 83,3% de todo o comércio varejista, enquanto o Estado e as cooperativas mantinham a posição dominante no comércio por atacado. Porém, a partir do outono de 1923, a participação de Estado e de todas as cooperativas no volume comercial começou a crescer de maneira bastante rápida. Em 1926, a reconstrução econômica estava praticamente completa, mas a indústria soviética ainda estava muito atrasada em relação ao Ocidente, o que forçava o país a realizar um programa de industrialização acelerada. Isso se traduziu em coletivização: estabelecimento de unidade em larga escala e eliminação dos camponeses ricos.

A DITADURA DE STALIN

Joseph Stalin
Joseph Stalin

Após ter vencido a guerra civil e resolvido com êxito as dificuldades econômicas e a fome, Lenin teve sua atuação reduzida, vítima que foi de uma série de derrames. Durante os anos de 1922 e 1924, ele esteve praticamente impossibilitado de atuar vindo a falecer em 21 de janeiro do mesmo ano. Fora da Rússia, supunha-se em geral que Trotsky seria o sucessor do chefe morto. Não tardou, porém, a transparecer que o comandante do exército vermelho tinha um rival formidável no obscuro Joseph Stalin.

Nascido em 1879 e filho de um camponês sapateiro da Geórgia, Stalin dedicou-se desde jovem às atividades revolucionárias. Em 1917, Stalin tornou-se Secretário Geral do Partido Comunista, posição que lhe permitiu construir uma máquina partidária. A batalha entre Stalin e Trotsky não foi simplesmente uma luta pelo poder pessoal, senão que também envolvia pontos fundamentais de política. Sustentava Trotsky que o socialismo na Rússia só poderia alcançar completo êxito quando o capitalismo fosse eliminado dos países vizinhos. Insistia, por isso, numa cruzada constante pela revolução mundial.

Stalin estava disposto a abandonar temporariamente o programa da revolução mundial, a fim de concentrar-se na construção do socialismo na própria Rússia. Sua estratégia para o futuro imediato era essencialmente nacionalista.

Em 1927, Trotsky foi expulso do Partido Comunista e, dois anos depois, desterrado do país. A teoria Stalinista do "Socialismo num só país" fornecia igualmente o pretexto para erradicar seus rivais, mesmo os que recentemente haviam integrado a facção stalinista.

No período que antecede a eclosão da Segunda Guerra Mundial, dois aspectos são marcantes na política de Stalin: instalação de uma estrutura de poder ditatorial, cuja ação se fazia sentir através dos expurgos políticos em massa, realizados, principalmente, entre 1935 e 1939, e a elaboração e execução dos primeiros planos quinquenais.

A vitória do Stalinismo significou a fim da NEP. Para o sucesso de Lenin, o Socialismo deveria ser edificado com os próprios recursos da URSS.

Em dezembro de 1927, o XV Congresso do Partido Comunista decidiu a estatização de todos os meios de produção da URSS. Uma comissão de Estado, a GOSPLAN, foi instituída com a finalidade de elaborar Planos Quinquenais cuja principal função seria estabelecer os objetivos básicos da economia para o período. Antes da Segunda Guerra Mundial, foram organizados e postos em prática 3 Planos Quinquenais: o primeiro iniciou-se em 1928, durando até o ano de 1933. Seus principais objetivos foram o estímulo ao desenvolvimento da extração mineral, da produção de máquinas, energia, cereais e algodão; o segundo, de 1933 a 1938, estabeleceu, principalmente, o desenvolvimento da indústria têxtil e alimentar, e o terceiro, de 1938 a 1943, teve como principal objetivo o desenvolvimento da produção de energia e da indústria química.

Esses primeiros planos quinquenais tiveram como principais consequências o desenvolvimento e a valorização de novos territórios da URSS, o grande desenvolvimento da indústria pesada soviética, que passou a ser uma das maiores do mundo, e a permanência, a baixos níveis, da produção de mercadorias para consumo.

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Sumário

- Antecedentes
- Fase Burguesa da Revolução
- Fase Bolchevique
i. O Partido Bolchevista
ii. Início das Hostilidades
iii. Revoltas Camponesas
- Os Bolcheviques tomam o Poder
- A Guerra Civil
- A Nova Política Econômica (NEP)
- A Ditadura de Stalin
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