Império Napoleônico

Imperador Napoleão Bonaparte

O Império Napoleônico se iniciou no dia 18 de maio de 1804 e terminou em 14 de abril de 1814. O Império Napoleônico representou na história mundial a consolidação das conquistas burguesas iniciadas com a Revolução de 1789. Foi a ascensão de Napoleão Bonaparte ao trono da França que consolidou a instituição da burguesia na França.

A fim de compreender o significado histórico de Napoleão, é necessário conhecer alguma coisa da sua vida particular e do papel que desempenhou nos acontecimentos dramáticos precedentes à sua ascensão ao poder. Nascido em 1769, numa cidadezinha da Córsega, exatamente um ano depois de a ilha ter sido cedida à França, Napoleão pertencia a uma família de pequenos burgueses.

Em 1779, ingressou numa escola de Brienne, na França, cinco anos depois foi admitido na Academia Militar de Paris. Não se distinguiu em nenhuma das disciplinas acadêmicas, com exceção da Matemática, mas aplicou-se tão assiduamente à ciência militar que, aos dezesseis anos, conquistou o posto de Subtenente de Artilharia.

Napoleão e a Revolução

Os acontecimentos de 1789 foram recebidos com entusiasmo por Napoleão, imbuído que estava pelas ideias Iluministas. O progresso da revolução e as guerras com o estrangeiro deram-lhe oportunidade de promoção rápida, pois a maioria dos oficiais nomeados pelo antigo regime havia emigrado. Pouco a pouco, Napoleão foi subindo de posto em razão do grande número de vagas existentes nas fileiras.

No final de 1793, começou a se projetar, graças à vitória conseguida no cerco da cidade de Toulon. Napoleão é então promovido a General de Brigada.

Poucos dias antes de partir para a Itália, Napoleão conheceu Joséphine de Beauharnais, viúva do conde de Beauharnais, com quem se casou a 09 de março de 1796. Dias depois, Napoleão partia para assumir o comando geral do Exército da Itália. A Campanha da Itália foi a sua consagração, pois permitiu a submissão do exército austríaco, através do Tratado de Campo Fórmio.

Era uma paz brilhante para a França e para Napoleão, mas trazia sementes de uma guerra futura pelas anexações feitas por Napoleão. O seu retorno a Paris foi triunfal, sendo ele recebido como o herói que os franceses tanto esperavam.

O ministro das Relações Exteriores, Talleyrand, sustenta na França um projeto de Napoleão ao qual não são poupados elogios: trata-se de uma expedição ao Oriente, tendo em vista cortar a rota das índias ao comércio inglês e reconquistá-la.

No Egito, Napoleão vence a famosa Batalha das Pirâmides, onde profere a famosa frase: "Soldados, do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam". Entretanto, no Mediterrâneo, próximo ao Egito, os franceses são derrotados pelo Almirante Nelson, na famosa batalha naval de Abukir.

Enquanto Napoleão está no Egito, na Europa o Diretório continua com sua política de anexação territorial em plena paz e intensifica a propaganda revolucionária. Esses fatos provocaram a formação da Segunda Coligação contra a França (1799), da qual participaram a Inglaterra, o rei de Nápoles, a Turquia e a Rússia. As primeiras operações militares são desfavoráveis à França e os exércitos franceses são obrigados a abandonar as regiões anteriormente conquistadas e anexadas. Logo se tornou evidente aos franceses que as conquistas de anos anteriores iriam reduzir-se a nada.

Além disso, o Diretório vinha sofrendo uma perda muito grande de prestígio, em virtude da sua conduta nos negócios interiores: convocou mais elementos para o Exército, lançou novos tributos e ainda outras medidas antipopulares, que o desacreditaram e provocaram o ódio das facções políticas.

Napoleão, que acabara de chegar do Egito (17/10/1799), aproveitando-se do descontentamento, pensa em tornar-se senhor da situação, preparando para isso um golpe de Estado de comum acordo com três membros do Poder Executivo (Sieyés, Barras e Ducos), alguns ministros, chefes do Exército e membros do Conselho.

O prestígio de Napoleão torna-se maior com sua vitória frente à Segunda Coligação. A burguesia francesa aspirava a um regime estável e se apoiara totalmente no Exército, transformando-o na grande força estabilizadora do regime. Assim, aceitaram o golpe de Napoleão como um movimento efetivo e necessário.

A 09 de novembro de 1799 (18 Brumário), encerrou-se na França a Era da Revolução. O acontecimento que assinalou esse fim foi o golpe de Estado de Napoleão Bonaparte. Nessa data, inaugurou-se o período de estabilidade governamental mais longo que a França conheceu nos tempos contemporâneos.

O período de Napoleão que, politicamente, pode ser dividido em duas grandes fases (Consulado e Império), pode ser considerado como uma verdadeira reação do século XIX às ideias liberais que tinham tornado possível a Revolução. Apesar de Napoleão afirmar sua simpatia por alguns desses ideais, a forma de governo que se estabeleceu era muito pouco compatível com qualquer um deles. Seu verdadeiro objetivo, no que se refere à Revolução, era manter as conquistas que se coadunassem com a glória nacional e com as suas próprias ambições de glória militar, ou seja, alimentou e fortaleceu o patriotismo revolucionário e levou avante as realizações de seus predecessores, que se podiam adaptar aos objetivos de um governo centralizado.

Consulado (1799/1804)

O novo governo instituído por Napoleão, após o Golpe de 18 Brumário (09/11/1799), era uma autocracia mal disfarçada.

O Primeiro Cônsul, que era naturalmente o próprio Napoleão Bonaparte, tinha autoridade para propor todas as leis, além de poder nomear toda a administração, controlar o exército e conduzir as relações exteriores. Apesar de assistido por dois outros Cônsules, monopolizava todo o poder de decisão.

No entanto, os autores da Constituição simulavam acatar a soberania popular, restabelecendo o princípio do sufrágio universal. Em dezembro de 1799, o novo instrumento do governo foi submetido ao referendum popular e aprovado por uma esmagadora maioria. A Constituição assim adotada entrou em vigor a 1º de janeiro de 1800, mas, como ainda estivesse em uso o calendário revolucionário, é conhecida como a Constituição do Ano III.

O Consulado procedeu uma reorganização administrativa do país. A administração departamental tornou-se extremamente centralizada com a Lei do Pluvioso (fevereiro de 1800). Na chefia de cada departamento, encontrava-se o Prefeito, nomeado pelo Primeiro Cônsul e responsável diante dele.

No plano jurídico, saliente-se a construção do Código Civil (1804) ou o Código Napoleônico, destinado a conciliar os grandes princípios revolucionários com a concepção autoritária do regime em vigor. Os princípios do Código denotam já nessa fase da revolução da sociedade burguesa um extremo conservadorismo por parte da classe dominante. Revelavam, entre outras coisas, o temor de uma democracia radical. Entretanto, deve ser lembrado que, para as nações ainda ligadas ao Antigo Regime, o código era extremamente revolucionário. Sua adoção representou uma conquista para a burguesia.

Inúmeras alterações se processaram no ensino, sobretudo no secundário. Para satisfazer à necessidade de instrução da burguesia e, principalmente, para dar aos futuros oficiais e funcionários uma formação uniforme, Bonaparte substituiu, em 1802, as escolas centrais dos departamentos pelos liceus submissos a uma estrita disciplina militar.

Enquanto esses fatos ocorriam no plano interno, no exterior, a luta contra a Segunda Coligação continuava: através da via diplomática, Napoleão conseguira a retirada da participação russa à Coligação e, a seguir, voltou-se contra a Áustria com todas as forças de que dispunha, com grande rapidez. Após rápida campanha, o imperador austríaco foi obrigado a aceitar a Paz de Luneville (1801), que contemplou a de Campo Fórmio e substituiu, na Itália, a influência austríaca pela francesa.

A luta continuou a ser sustentada pela Inglaterra, até que sua economia se viu de tal forma abalada que os ingleses concordaram em ceder as possessões apreendidas durante a guerra, na chamada Paz de Amiens (1802). De suas conquistas coloniais, a Inglaterra deveria manter somente o Ceilão e Trinidad, enquanto que a França recuperaria muitas de suas colônias.

No tocante ao restabelecimento da religião católica, verificamos a assinatura, com o Papa Pio VII, da Concordata de 1801. Através desta, os bispos passariam a ser nomeados pelo Primeiro Cônsul, mas receberiam a investidura espiritual de Roma. Trata-se, portanto, da restauração da união entre o Estado e a Igreja Católica, onde o clero obteria uma pensão do Estado, mas reconheceria a perda dos seus bens, e os sacerdotes prestariam juramento de fidelidade ao chefe do governo francês.

Os triunfos de Napoleão consolidam seu poder, que se torna ilimitado. Entretanto, não satisfeito, em 1802, consegue o consentimento do povo para tornar vitalício o seu cargo de Primeiro Cônsul. Só restava agora tornar a sua posição hereditária.

Império (1804/1814)

Em 1804, por meio de outro plebiscito, Napoleão obteve permissão para converter o Consulado num Império, tornando-se Imperador, com o título de Napoleão I. Elabora-se a Constituição Imperial ou a Constituição do Ano XII, que determinou a conservação do Senado, do Corpo Legislativo e do Conselho do Estado. No dia 12 de dezembro, em presença de Pio VII, Napoleão foi coroado na Catedral de Notre Dame; no entanto, não se deixou coroar pelo Papa e colocou pelas próprias mãos a coroa à cabeça, coroando, em seguida, sua esposa, a Imperatriz Joséphine.

Napoleão imperador
Napoleão imperador

A excelente estrutura do exército francês e a elevada competência do imperador e de seu Estado-Maior concorreram, até 1809, para um grande número de sucessos militares e políticos. Os militares foram às guerras contra as coligações (Terceira, Quarta e Quinta) e a intervenção armada na Espanha; dentre os sucessos políticos destacava-se principalmente o estabelecimento do Bloqueio Continental.

As operações militares por mar não favoreceram os franceses. Napoleão reuniu, no Campo de Bolonha, com a ajuda dos espanhóis, um exército destinado à travessia do Canal da Mancha e à invasão da Inglaterra. Entretanto, o almirante Villeneuve, encarregado de afastar a frota britânica, não consegue resistir à supremacia naval da Inglaterra, sendo derrotado pelo almirante Nelson na Batalha de Trafalgar, a 21 de outubro de 1805.

Já em 1793, a república francesa decidira suspender a importação de mercadorias inglesas, num sistema de bloqueio que se tornou, de 1803 a 1806, um sistema costeiro, abrangendo as costas europeias até Hanover. Estabelecido através do Decreto de Berlim (1806) e do Decreto de Milão (1807), o Bloqueio proibia aos países da Europa continental o comércio com a Inglaterra.

Os objetivos do bloqueio eram de restringir, através da interdição dos portos das nações europeias e de suas colônias, o mercado consumidor para os produtos manufaturados britânicos, arruinando, dessa forma, a economia inglesa. Assim, afastando seu principal concorrente, a França teria o caminho aberto para a afirmação de sua indústria. O imperialismo francês passou, a partir do bloqueio, a ser imposto às nações subjugadas de maneira brutal. Uma vez obtida a hegemonia e provocada uma crise econômica na Inglaterra, o que levaria à instabilidade social e política, Napoleão esperava a negociação de uma paz vantajosa com os ingleses.

Os objetivos imperialistas do bloqueio levaram Napoleão a investir militarmente contra as nações que se recusaram a aceitá-lo. Assim invadiu as regiões do mar do Norte, lançou-se contra Portugal, onde a dinastia de Bragança foi deposta, e invadiu a Itália, tomando os Estados Pontifícios e declarando o Papa prisioneiro no Vaticano.

A revolta espanhola, irrompida em 1808, foi o primeiro episódio que marcou o começo do declínio de Napoleão. Em maio desse ano, Napoleão enganara o rei e o príncipe desse país, levando-os a abrir mão dos seus direitos ao trono e a promover seu irmão José, rei de Nápoles, a rei da Espanha.

Contudo, nem bem o novo monarca havia sido coroado, estourou uma revolta popular. O general Murat, novo rei de Nápoles, no lugar de José, foi o encarregado da repressão. O massacre dos patriotas madrilenhos marcou o começo da guerra de independência.

Estimulados e auxiliados pelos ingleses, os espanhóis sustentaram uma série de guerrilhas que ocasionaram grandes desgastes do lado francês. O inimigo invisível estava em toda a parte, atacando os comboios, interceptando as estradas, massacrando grupos de soldados isolados. Os insurretos organizavam-se em assembleias ou "Juntas", lideradas pela Junta de Sevilha, a organização central que não reconhecia o novo governo, declarando-se fiel a Fernando VII (o príncipe herdeiro). O levante popular era instigado pelo baixo clero, abalado com a possibilidade de secularização (decretada em 1808) e de um regime anticristão. As Juntas eram dirigidas principalmente pelos nobres e pelo clero.

Napoleão decidiu intervir pessoalmente, transferindo uma boa parte do Grande Exército que operava na Alemanha para a Espanha. Em novembro, os soldados franceses, sob o comando do Imperador, chegam à Península Ibérica. É decretada a abolição das velhas instituições e introduzido o Código. Algumas cidades são tomadas após batalhas sangrentas. Napoleão deixará a Espanha sem ver a guerra terminada. Nos anos que se seguiram, aumenta a presença inglesa na Espanha, o que contribui para a derrota final dos franceses, em 1814.

Em 1811, a Europa Napoleônica compreendia a França, os países anexados, que eram as "regiões que estavam sob sua autoridade direta" (Reino da Itália e Províncias Ilíricas), os Estados Vassalos (Confederação do Reno - 36 Estados, Grão-Ducado de Varsóvia e Confederação da Suíça) e, finalmente, as regiões do "sistema familiar" (reinos da Espanha, de Nápoles e da Westfália, e Grão-Ducado de Berg).

Os enormes impostos, cujo aumento era provocado pelas guerras contínuas, pesavam seriamente sobre os ombros da burguesia. Os constantes recrutamentos para o exército suscitavam o descontentamento e o protesto dos camponeses e dos operários. Grandes recrutamentos eram realizados também nos Estados Europeus independentes. Soldados de diversas nacionalidades, que combatiam obrigados e sem compreender a língua francesa, formavam uma parte importante do exército. Nessas condições, realizar-se-ão as campanhas posteriores.

Como país puramente agrícola, a Rússia vira-se com uma dura crise econômica quando não pôde mais, em razão do Bloqueio Continental, trocar o excesso de sua produção de cereais por produtos manufaturados da Inglaterra.

Ante o estrangulamento da economia russa, o Czar Alexandre I resolveu reabrir os portos russos aos ingleses, não dando atenção às ameaças de Napoleão. A Rússia aliou-se à Inglaterra, formando a Coligação Europeia, enquanto Napoleão formava um exército de 600.000 homens (de doze nacionalidades diferentes). Em junho de 1812, 410.000 soldados do "Grande Exército" penetravam na Rússia. Estava em jogo a sobrevivência do Império, a derrota seria fatal. Mas Napoleão pensava em liquidar os russos e dar-lhes uma "lição exemplar", o que, inclusive, amedrontaria os outros povos.

O apogeu do império napoleônico

A campanha terminou em terrível desastre aos franceses. Os russos, sem oferecer resistência, atraíram-nos cada vez mais para o interior do seu território. Em setembro, é travada a batalha de Moscowa, na vila de Borondino e, após perder 30.000 homens, Napoleão entrou em Moscou. A cidade estava semideserta e havia sido incendiada pelos próprios russos. Os franceses defrontaram-se então com o terrível inverno russo, sem alimentos, sem provisões, e sem abastecimentos de retaguarda. Os efeitos do frio logo se fizeram sentir e a retirada então foi ordenada por Napoleão. Essa foi uma das mais penosas e sangrentas. Os russos, tomando a ofensiva, assediavam constantemente os invasores, causando, juntamente com o frio, milhares de baixas entre eles. Do Grande Exército, apenas 100.000 homens conseguiram voltar vivos.

Diante do enfraquecimento de Napoleão, a Prússia e a Áustria aderiram à Coligação Europeia (Sexta Coligação) em 1813, unindo seus esforços para combater o exército francês.

Napoleão é o primeiro a marchar ao encontro de seus inimigos e, na primeira fase das operações militares, bateu conjuntamente os exércitos em Lutzen e Bautzen. Contudo, após a intervenção austríaca, o exército foi derrotado na Batalha de Leipzig (outubro de 1813). As forças inimigas eram pelo menos duas vezes superiores. Leipzig ficou conhecida como a Batalha das Nações. Como consequência, toda a Alemanha se sublevou contra o Império. A Confederação do Reno, a Espanha, a Holanda e uma parte da Itália estavam perdidas e as antigas fronteiras da França, diretamente ameaçadas.

Em janeiro de 1814, o exército prussiano, comandado pelo general Blucher, depois de atravessar o rio Reno, invadiu a França. O exército austríaco, comandado por Schwartzenberg, irrompeu também no país, através da Suíça. A guerra começava a ser travada em território francês e, finalmente, a 31 de março de 1814, os aliados entravam vitoriosos em Paris. Depois de haver tentado transmitir a coroa imperial para seu filho, Napoleão abdicou incondicionalmente no dia 06 de abril. Foi assinado o Tratado de Fontainebleau, pelo qual foi destituído de todos os direitos ao trono da França e, em troca, era-lhe concedida uma pensão de 2 milhões de francos anuais e a plena soberania sobre a Ilha de Elba (situada no Mediterrâneo, perto da Córsega).

Os vencedores, juntamente com o Senado Francês, dedicaram-se então à tarefa de reorganizar o governo da França. Resolveu-se, de comum acordo, restaurar a dinastia dos Bourbons na pessoa de Luís XVIII, irmão de Luís XVI, que morrera durante a Revolução. Teve-se, no entanto, o cuidado de estipular que não haveria restauração completa do regime.

Deu-se a entender a Luís XVIII que não deveria tocar nas reformas políticas e econômicas que ainda sobreviviam como frutos da Revolução. Atendendo a essa exigência, o novo soberano promulgou a Carta Constituinte (04/06/1814) que confirmava as liberdades revolucionárias dos cidadãos e estabelecia uma monarquia moderada.

Cem Dias (1815)

A restauração de 1814 teve vida curta. O novo governo, não obstante os desejos e bons esforços de Luís XVIII, incorreu no desagrado de quase toda a França pois, entre os camponeses e os elementos da classe burguesa que haviam se tornado novos proprietários de terra, muitos temiam que um retorno da nobreza e do clero expropriado pudesse ocasionar a perda de suas propriedades. Muitos oficiais do exército foram afastados, gerando um grande descontentamento entre as fileiras do exército.

Napoleão, do fundo de seu retiro, não deixava de se informar do que sucedia no continente. Conhecendo as deficiências do governo, sabe que o exército quer vê-lo novamente no comando. Foi em tais circunstâncias que Napoleão fugiu da Ilha de Elba e desembarcou na costa Meridional da França, a 1º de março de 1815. Foi recebido em toda a parte com alegria delirante pelos camponeses e pelos ex-soldados.

A partir de 20 de março de 1815, Napoleão reinará por mais cem dias. A retomada do poder, entretanto, não fez ressurgir o antigo despotismo imperial. O regime se reorganizará através de um "Ato Adicional" à Constituição, tornando-se um império liberal.

Os soberanos coligados, então reunidos no Congresso de Viena, surpreendidos com o acontecimento, renovam a aliança, declaram Napoleão fora da lei e decidem levantar novo exército destinado a destruir de vez Napoleão Bonaparte. Entendendo ser melhor tomar a ofensiva, a fim de frustrar os planos de seus inimigos, Napoleão marcha sobre a Bélgica e vence os prussianos, comandados por Blucher, em Ligny. Dias depois, em Waterloo, na Bélgica ainda, foi fragorosamente derrotado pelo Duque de Wellington e pelo general Blucher, à frente de um exército coligado. No dia 21 de junho, Napoleão abdicou pela segunda vez, sendo deportado em exílio definitivo para a ilha de Santa Helena, onde morreu alguns anos mais tarde. A dinastia dos Bourbons voltou a reinar na França. Era o fim do império.

LEITURA COMPLEMENTAR

O BLOQUEIO CONTINENTAL

Durou pouco a trégua com a Inglaterra. E quando, em 1804, as hostilidades recomeçaram, Bonaparte, que aproveitara a paz para se tornar Cônsul Vitalício, valeu-se da atmosfera de guerra para tornar-se Imperador da França. Passou, pois, a ser chamado Napoleão I.

A significativa derrota naval de Trafalgar convenceu o novo monarca da impossibilidade da invasão da Grã-Bretanha. Como seus exércitos, porém, dominassem a Europa Continental, conseguiu fazer com que, em 1806 e 1807, os governos do Continente aderissem ao seu audacioso projeto de arruinar a economia britânica.

Trata-se do Bloqueio Continental, ratificado pelo Tratado de Berlim, em 1807 e que pode ser resumido nas seguintes palavras: a nenhum navio inglês se permitiria entrar em qualquer porto do continente  e nenhum artigo proveniente da Inglaterra ou de suas colônias podia ser desembarcado ou vendido em territórios das nações  "aliadas"  (isto é, submissas).  Não precisamos acrescentar que navio algum desses países poderia dirigir-se à Grã-Bretanha.

Embora numerosos contrabandistas "furassem" o Bloqueio, mesmo porque havia enorme extensão de litoral a fiscalizar, foi pequena a quantia de mercadorias inglesas que, uma vez firmado o acordo, conseguiu penetrar na Europa Continental. Viu-se obrigada, portanto, a produzir tudo aquilo que dantes lhe vinha das fábricas britânicas. E as indústrias nela tiveram notável incremento, conquanto nem sempre fossem favorecidas as populações, com o preço e a qualidade dos artigos da nova procedência. A França, lucrou imensamente com isso.

Acontece que a Inglaterra contrabandeava, por sua vez, com os países submetidos à França. A esses não chegavam, pois, exceto através de audazes entrepolos, os produtos de além-mar, os célebres gêneros coloniais que tão largo consumo tinham no Velho Mundo. Daí surgiram esforços consideráveis para substituir, com recursos locais, tudo que antes costumava vir da América, da África e das Índias. Essas tentativas, em alguns casos, deram ótimos resultados. Haja vista o aperfeiçoamento do processo de extrair açúcar de beterraba, que rapidamente se generalizou, e depois das coisas normalizadas, acabou trazendo não pequenos prejuízos a diversos países tropicais produtores de cana, inclusive o nosso.

Inicialmente, porém, o açúcar de beterraba ficava por preço elevadíssimo. O encarecimento geral da vida foi uma das consequências do Bloqueio, que também veio contrair os hábitos há muito arraigados entre os europeus. A falta de café, entre outras coisas, fortemente se fez sentir. E todas essas restrições não concorreram, por certo, para atenuar o descontentamento das populações sobre as quais Napoleão estendera seu domínio. Outra causa do aborrecimento residia nos prejuízos sofridos por produtores e exportadores de certos artigos - notadamente o trigo - que anteriormente tinham na Inglaterra seus melhores mercados de consumo ou distribuição.

Para obrigar os povos conquistados a suportar todas essas contrariedades, viu-se o Imperador obrigado a contínuas intervenções armadas, em que se foram desgastando as energias da França.

Determinou admirável reação na Inglaterra o golpe, sem dúvida terrível, trazido ao comércio e à indústria pelo Bloqueio Continental. Não perderam um só momento os enérgicos dirigentes desse país. Logo que tiveram notícia de estarem vedados às suas mercadorias os portos europeus, procuraram conquistar novos mercados que compensassem, pelo menos parcialmente, tão grande perda.

As possibilidades eram as possessões portuguesas e espanholas da América, onde ainda vigorava o regime monopolista. Se essas colônias viessem a conseguir sua independência, os novos países assim formados constituiriam mercados esplêndidos, onde os britânicos poderiam despejar, em condições altamente compensadoras, os produtos de suas indústrias. Não só essa vantagem estava ligada à emancipação de tais regiões, pois outro problema preocupava a Inglaterra. Acumulara ela, durante o século XVIII, capitais consideráveis para os quais precisava encontrar rendosa aplicação. Ora, todas as nações que surgissem nas Américas teriam necessidade de dinheiro, a fim de começar sua vida, e aí estariam, pressurosos, os banqueiros ingleses a lhes satisfazer os pedidos de numerários, mediante empréstimos que, forçosamente, seriam muito vantajosos - para quem os concedesse. Havia conveniência, portanto, em fomentar e apoiar diretamente os esforços de libertação dos territórios ibero-americanos. E os ingleses não demoraram a pôr as mãos à obra, conquanto seu astuto governo raramente tomasse atitudes declaradas que o comprometessem nos acontecimentos. No Brasil, a princípio, não lhes foi necessário auxiliar nenhum movimento político ou militar, pois o próprio desenvolvimento dos eventos europeus lhe permitiu aqui virem buscar, sem riscos nem dispêndios, a primeira grande compensação ao prejuízo do Bloqueio Continental.

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Sumário

- Napoleão e a Revolução
- Consulado (1799/1804)
- Império (1804/1814)
- Cem Dias (1815)
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