A Reforma religiosa

As reformas foram um movimento de caráter religioso que, no século XVI, expressaram as contradições inerentes à transição do feudalismo para o capitalismo no nível ideológico.

A igreja controlava grande quantidade dos meios de produção, sobretudo as terras, e se apropriava de grande parte do produto realizado por todos os membros das formações sociais em que ela atuava através da cobrança de dízimos e outras obrigações. Essas obrigações e a exploração feudal de suas terras emperravam o processo de formação do capital e nesta medida contrapunham-se aos interesses mercantis em plena expansão.

A Igreja era um Estado feudal, de território descontínuo, cuja existência dificultava, em função de suas estruturas, o progresso da formação de amplos mercados.

A doutrina da Igreja, através da teoria do preço justo, da condenação da usura, do menosprezo às atividades comerciais e manufatureiras, impedia o desenvolvimento do capital.

À medida que a igreja, enquanto instituição tipicamente feudal, representava um obstáculo real ao desenvolvimento das forças capitalistas, a burguesia tinha, pois, necessidade de destruir o poder da Igreja, sendo que as Reformas Protestantes foram, em última análise, um instrumento para tanto.

Havia uma efetiva contradição entre o processo de formação dos Estados Nacionais centralizados e a existência da Igreja como um Estado de territórios descontínuos. Daí a luta encabeçada pelos soberanos contra os senhores feudais leigos.

Havia ainda uma profunda contradição entre as necessidades econômicas dos diversos grupos sociais e o fiscalismo, a simonia (venda de cargos eclesiásticos) e a venda de indulgências (perdão para os pecados), que a Igreja realizava como um Estado opressor.

E, finalmente, havia a contradição entre as afirmações da doutrina e a prática da Igreja: opressão econômica, desregramento de costumes, nepotismo (prática de nomeação de parentes do Papa para altos cargos eclesiásticos).

Nos séculos XIV e XV, essas contradições foram produzidas e ampliadas como efeito da crise geral do feudalismo. Movimentos contrários à Igreja, de base camponesa, foram considerados heréticos e esmagados. As tentativas de reformas purificadoras internas, realizadas por humanistas, como Erasmo, e tendo como modelo a Igreja cristã primitiva, também fracassaram.

REFORMA LUTERANA


Martinho Lutero

A Alemanha no início do século XVI era um Estado feudal não centralizado; o Sacro Império romano germânico, na prática tinha muitos Estados feudais e várias cidades livres. O imperador era eleito na Dieta (assembleia feudal) por sete príncipes, quatro leigos e três eclesiásticos. A nobreza, grande e pequena, tinha ampla autonomia. O sul do país era uma região de transformações econômicas com ativa e importante burguesia, onde se destacavam os banqueiros Fugger, em Augsburgo, ligados aos Países Baixos e à Itália. A Igreja controlava um terço da Alemanha.

Desde a fase aguda da crise feudal, a nobreza aumentava a taxação feudal e eliminava o uso comum, pelos trabalhadores camponeses, de terras de comunidades, do direito de caça etc. Parte da pequena nobreza tornou-se assaltante de estradas. Nas cidades e nos campos, frequentes rebeliões expressavam a situação dos trabalhadores. A burguesia queria a centralização do poder. Esse foi o sentido político do financiamento, pelos Fuggers, da eleição de Carlos V de Habsburgo como Imperador.

Martinho Lutero (1483 - 1546) era monge agostiniano, professor de Teologia na Universidade de Wittemberg, quando o Papa Leão X renovou a indulgência para a obtenção de fundos necessários à construção da Basílica de São Pedro. O descontentamento geral com o Papado aumentou na Alemanha quando o frade Tetzel lá chegou para pregar a indulgência.

Em 1517, Lutero publicou suas "95 Teses", condenando as indulgências, e logo foi amplamente apoiado, tendo sido Tetzel expulso da cidade de Wittemberg. Recusando retratar-se, Lutero foi excomungado pelo Papa e declarado fora da lei por Carlos V e pelo édito de Worms, sendo, no entanto protegido pelo duque Frederico da Saxônia. Em 1522, retornou a Wittemberg, onde permaneceu até a morte.

O luteranismo afirma a "justificação pela fé" na graça de Deus, que realiza a salvação do homem condenado às chamadas boas obras (caridade, penitência, cumprimento das obrigações eclesiásticas). Sua doutrina do "sacerdócio universal dos cristãos" abole a necessidade de intermediários (clero) entre Deus e os homens. Todos os homens, portanto, são iguais, não se justificando as hierarquias feudais e eclesiásticas.

Na Igreja Luterana, o ofício eclesiástico foi suprimido. O culto reduziu-se a comentários da Bíblia e cânticos de salmos; mantiveram-se dois sacramentos: batismo e eucaristia; suprimiu-se o culto à Virgem e aos Santos; foi negada a existência do purgatório; os sacerdotes luteranos são apenas guias mais instruídos, podendo casar-se.

A doutrina de Lutero afirmava o individualismo no plano religioso, mas não admitia ainda a usura, não rompendo totalmente, nesse aspecto, com a antiga ordem feudal. Ela expressou mais os anseios da nobreza alemã que da burguesia. Mas esta encontra nele justificativa para se lançar contra a Igreja e adere ao luteranismo na Alemanha. Em seu "Discurso à Nobreza da Nação Alemã", atacando o Papado como potência estrangeira, Lutero expressou também o nacionalismo alemão (inclusive traduzindo a Bíblia para o alemão). Dessa forma, sua doutrina coincidia com as necessidades de amplos setores sociais.

Em 1522 - 1523, a pequena nobreza fez a Revolta dos Cavaleiros, que pretendia a expropriação de terras da Igreja. Em 1524 - 1525, ocorreu a grande guerra camponesa no centro-sul da Alemanha, aproveitando-se da derrota dos cavaleiros.

Inicialmente, os camponeses rebelaram-se contra as corveias e as taxas em dinheiro, eles queriam igualdades com o clero e a nobreza, isto é, o fim da servidão e a anulação das diferenças de classe, baseando-se numa interpretação das ideias luteranas, ganhando apoio de trabalhadores urbanos e de alguns cavaleiros. Lutero exortou os trabalhadores e os príncipes à não violência. Mas o movimento assumiu caráter revolucionário, liderado pelo anabatista Thomas Münzer, que pregava uma espécie de igualitarismo místico. Lutero o condenou, formulando a doutrina da subordinação e obediência dos súditos (e da Igreja) às autoridades leigas, porque toda autoridade política, afirmava, foi instituída por Deus. Logo, a Igreja também deve subordinar-se ao Estado.

A rebelião camponesa foi esmagada. Como consequência, os camponeses permaneceram submetidos à servidão até o século XIX (exceção da Westfália e outras poucas regiões); os príncipes (grandes nobres) ficaram mais poderosos, a Reforma Luterana passou a ser também o movimento político de maior parte dos príncipes contra o Império e o Papado, inclusive tomando bens da Igreja. Seguindo essa linha, o grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos criou, com as terras da Ordem, um Estado Leigo, a Prússia (1525).

O Imperador Carlos V tentou impor seu absolutismo de base católica e ordenou aos reformados que se submetessem (1529, Segunda Pieta de Spira), mas estes protestaram contra a Ordem, apresentaram a "Confissão de Augsburgo" redigida por Melanchton (1530, exposição da doutrina alemã) e formaram a Liga da Esmalcalda (1531), que teve apoio da França e da Inglaterra, temerosas do projeto político Habsburgo de hegemonia na Europa.

O Imperador, diante da expansão do Império Turco na bacia do Danúbio, não teve condições de guerrear com os protestantes, a não ser em 1546/1547 (Guerra Esmalcalda). Mas fracassou e abdicou. A luta terminou pela paz de Augsburgo (1155), na qual foi estabelecido o princípio segundo o qual a religião dos súditos seria a de seus respectivos príncipes ("cujus regio ejus religio"), só luteranos podiam ter liberdade de culto e os príncipes luteranos podiam manter as terras tomadas à Igreja. Essa foi uma solução de compromisso; o problema foi retomado no século XVII (Guerra dos Trinta Anos, 1618-1648).

O luteranismo tornou-se a expressão religiosa do nacionalismo na Suécia e na Noruega, então em luta contra a Dinamarca, onde também se impôs.

REFORMA CALVINISTA

A Suíça, na Idade Moderna, caracteriza-se por ser uma região basicamente voltada para uma economia de subsistência e por ser um ponto de passagem obrigatória das rotas comerciais terrestres, que partiam da Itália buscando o resto da Europa.

Dadas suas condições específicas, podemos entender que sua sociedade era constituída por uma massa de pequenos lavradores, alguns poucos nobres proprietários de terras e uma crescente camada social urbano mercantil. Politicamente, a Suíça constituía-se em uma Confederação (a Confederação Helvética), que se tornara independente em 1494, em relação ao Sacro Império Romano Germânico.

A primeira manifestação reformista religiosa na Suíça foi liderada por Ulrich Zwinglio.

Zwinglio (1484 - 1531) era um humanista e pároco em Zurique, atacou os abusos eclesiásticos e rejeitou as práticas religiosas tradicionais: o celibato, a abstinência de carnes, a veneração de imagens e o caráter de sacrifícios na missa.

Segundo Zwinglio, cada comunidade deveria escolher os seus pastores e decidir acerca dos rumos de sua vida. Discordou de Lutero quanto à Eucaristia. Enquanto este acreditava na presença corporal de Cristo, Zwinglio considerava a Eucaristia como a comemoração do sacrifício de Cristo em benefício dos homens.

Zwinglio foi morto pelos católicos suíços. O zwinglianismo propagou-se fundamentalmente pelas regiões germânicas da Confederação Helvética.

O movimento reformista, ocorrido na Suíça, de maior profundidade e maior influência, foi aquele liderado por Calvino. João Calvino (1509 - 1564) era francês e fez estudos humanísticos. Após sua conversão ao luteranismo, foi obrigado a fugir de seu país para a Suíça em consequência das perseguições religiosas a que foi submetido. Sua doutrina foi sintetizada na obra "Instituição Cristã", publicada em 1536, e cujos principais princípios foram:

  • todo homem está predestinado à salvação ou à condenação ao inferno.
  • salva-se aquele que cumpre seus deveres segundo a Sagrada Escritura.
  • a Eucaristia é uma união espiritual com Cristo.
  • o culto deve ser reduzido à prece e à pregação.
  • a repulsa às imagens.
  • preconizava a subordinação do Estado à Igreja.

Calvino condenava o luxo e o esbanjamento, não condenando nem a usura nem o comércio e incentivando o trabalho sob todas as formas. Apoiado na ideia da predestinação, o Calvinismo foi a melhor expressão ideológico religiosa das novas realidades sociais da transição para o capitalismo.   O lucro e o êxito eram vistos como sinais da predestinação do homem trabalhador e parcimonioso. Nessa medida, havia uma efetiva identificação entre o Calvinismo e a ética burguesa.

Calvino fixou-se em Genebra e governou-a como um tirano baseado em sua austera moral e com grande intolerância.

O Calvinismo propagou-se na França, onde seus adeptos formaram a facção Huguenote. Nos Países Baixos, os Calvinistas foram duramente reprimidos pelo Absolutismo espanhol de Felipe II. Na Escócia, John Knox transformou-o em religião do Estado com o nome de Presbiterianismo. Nos Países Baixos e na Escócia, o Calvinismo identificou-se com o Nacionalismo.

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Sumário

- Reforma Luterana
- Reforma Calvinista
- Reforma Anglicana
- Reação Católica
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