O Governo de Washington Luiz

O governo de Washington Luís representou o fim do poder exclusivo das oligarquias do Sudeste. Washington Luís, que governou entre 1926 e 1930, foi o último presidente da República Velha. O governo de Washington Luís, deposto por um golpe de Estado, ficou marcado pela crise econômica mundial de 1929 e pelo fim da Política do Café-com-Leite.

No início de sua gestão, o novo presidente, interessado em acalmar os ânimos nacionais, apresentou-se como liberal, suspendendo o estado de sítio que amordaçava o país desde os últimos meses do governo Epitácio Pessoa. Entretanto, temendo pela sorte do regime, Washington Luís recusou-se a conceder anistia aos tenentes exilados e obrigou o Congresso a aprovar, em 1929, a Lei Celerada, que cerceava a liberdade de imprensa e permitia a aplicação de penas aos acusados de “delito ideológico”. Essa medida de caráter repressivo se dirigia não só contra a contestação tenentista, mas visava também a abalar as oligarquias operárias. Com efeito, no final da década de 20, o movimento sindical, após livrar-se das lideranças “amarelas”, isto é, corrompidas pelo governo e pelo patronato, conhecera um rápido e sólido crescimento. Além disso, a ideologia marxista se enraizava cada vez mais nos meios proletários e o Partido Comunista, apesar de violentamente reprimido em 1927, conseguiu formar, com outras organizações esquerdistas, o Bloco Operário e Camponês.

Em 1928, o BOC, atuando no Rio de Janeiro, São Paulo, Santos e Recife, elegeu um deputado e diversos vereadores, cuja posse, entretanto, foi impedida pelo governo federal. Cientes de que não tinham condições de enfrentar isoladamente a escalada repressiva das autoridades, as organizações operárias de esquerda passaram a buscar o apoio dos tenentes. Passaram das intenções aos atos Astrogildo Pereira, um dos mais importantes líderes do PCB, e Pedro Mota Lima, redator do jornal “A Esquerda”, em 1927. O dirigente comunista Leôncio Basbaum procurou formar uma frente eleitoral com os tenentes, entrevistando-se também em Buenos Aires com Prestes, Siqueira Campos e Juarez Távora. Porém, o acordo desejado pelo PCB não foi firmado, pois os jovens oficiais exilados se recusaram incluir em seu programa político uma série de reivindicações esquerdistas, notadamente a nacionalização de todas as empresas estrangeiras que operavam no Brasil, a jornada de trabalho de oito horas, a nacionalização de terras, a abolição das dívidas externas e a legalização do Partido Comunista.

Duas grandes preocupações assinalaram o programa administrativo do governo de Washington Luís: construção de estradas e reformulação das finanças nacionais.

Com efeito, dias depois da cerimônia de posse do ex-governador paulista no cargo de supremo mandatário da nação, foi iniciada a abertura de duas grandes rodovias: a Rio-São Paulo e a Rio-Petrópolis, que justificaram o lema da última gestão presidencial da República Velha: “governar é abrir estadas”.

No plano das finanças , Washington Luís, auxiliado pelo seu Ministro da Fazenda Getúlio Vargas, político que por várias vezes declarava ser desconhecedor de assuntos econômicos, elaborou um plano destinado a sanear o meio circulante brasileiro através da formação de reservas metálicas, inicialmente obtidas por empréstimos.

A reforma financeira propugnada pelo Presidente da República foi levada a cabo em três fases: na primeira, estabilizou-se a moeda a câmbio baixo (o famoso “câmbio vil”, no valor de pence por mil réis), a fim de preparar a sua conversibilidade, na segunda, deu-se o resgate do papel-moeda não conversível, na terceira, instituiu-se o cruzeiro, padrão da Caixa de Estabilização, à qual foi concedida a faculdade emissora de papel-moeda contra empréstimos em ouro conseguidos e depositados em Londres e Nova Iorque (outubro de 1929), o aumento da procura do padrão-cruzeiro e a retirada dos empréstimos-ouro pelos países estrangeiros determinaram o colapso da Caixa de Estabilização.

Politicamente, a situação do país não era tranquila. A representação popular durante a Primeira República sempre fora uma farsa. As fraudulentas eleições feitas pelos chefes políticos das oligarquias estaduais, embora mantivessem no poder seus representantes provocavam um desejo de reformas, que encontraria eco entre a classe média e a oficialidade mais jovem do Exército. A escolha dos candidatos à sucessão de Washington Luís funcionou como estopim para a mais importante revolução da história republicana. Apresentavam-se como prováveis candidatos Júlio Prestes, governador de São Paulo e dono das simpatias do Catete, Getúlio Vargas, governador do Rio Grande do Sul e líder da Frente Única Gaúcha (agremiação que resultara da fusão do Partido Republicano Rio-grandense e do Partido Libertador) e Antônio Carlos de Andrada, governador de Minas Gerais.

Os entendimentos políticos evoluíram no sentido de se agruparem em torno do candidato sulino as hostes oposicionistas. Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba tornaram-se os grandes focos de rebeldia à política dominante, formando-se assim a chamada Aliança Liberal, cujo programa era vagamente reformista. Com a transformação do tenentismo numa força política ponderável, o clima que então se formava já era revolucionário quando chegaram ao Brasil os efeitos do colapso da bolsa de Nova York. São Paulo, como tradicional fornecedor de café aos países capitalistas desenvolvidos, abalados então pela Grande Depressão, foi a principal vítima brasileira da crise de 1929. Enfraqueceu-se dessa forma o Estado, que sempre fora o pilar do regime oligárquico.

Em consequência da derrocada econômica e dos descontentamentos que então grassavam nas camadas médias, nas oligarquias dos estados menores e no Exército, a campanha presidencial de 1930 apresentou um alto grau de violência.

Na própria Câmara Federal anunciavam-se “prélios terríveis pelas armas”. A oposição tornava-se cada vez mais agressiva: um deputado governista fora morto a tiros por outro da oposição no recinto do Parlamento. Os tenentes, ainda no exílio, apoiavam as candidaturas de Vargas e João Pessoa aos mais altos cargos da nação salvo o capitão Luís Carlos Prestes, que aderira ao marxismo e assinalava o jogo das contradições oligárquicas.

Apesar de tudo, o governo federal estava otimista: dezessete estados estavam ao lado dos candidatos oficiais. Realizadas as eleições, a 1º de março de 1930, comprovou-se que as esperanças de continuísmo da oligarquia paulista eram bem fundadas: as candidaturas governistas triunfaram com facilidade. Entretanto, Júlio Prestes e seu companheiro de chapa, Vital Soares, não chegariam a tomar posse: 22 dias antes de terminar o mandato de Washington Luís, a revolução ganharia as ruas.