Primeira Guerra Mundial: causas, a guerra e os tratados de paz

Rivalidades interimperialistas

Inglaterra e Alemanha

A Alemanha se tornara, após a unificação política, uma grande potência industrial, concorrendo com a economia inglesa e superando-a em alguns setores. Além disso, a Alemanha se sentia prejudicada em relação à partilha territorial da África. O país estava desenvolvendo uma importante indústria naval, acenando com a possibilidade de atacar militarmente a Inglaterra. Finalmente, estava nos projetos alemães a construção de uma ferrovia ligando Berlim a Bagdá (Iraque), o que garantiria à Alemanha fácil e rápido acesso ao petróleo do Oriente Médio. Isso, além de favorecer ainda mais o desenvolvimento industrial alemão, poderia comprometer as comunicações entre a Inglaterra e suas possessões coloniais no Oriente.

França e Alemanha

Desde a humilhante derrota sofrida pelos franceses diante da Prússia, na Guerra Franco-Prussiana (1871), alimentava-se na França um sonho revanchista. Os franceses desejavam recuperar os ricos territórios da Alsácia-Lorena que haviam sido entregues aos alemães como indenização.

Rússia e Alemanha

O projeto alemão de construir a ferrovia Berlim-Bagdá ameaçava a economia russa que, no inverno, possuía apenas os estreitos de Bósforo e Dardanelos como saída marítima para o Mediterrâneo e o Atlântico. Se, de fato, a ferrovia fosse construída, utilizando a região desses estreitos, os alemães poderiam impor restrições à passagem de embarcações russas.

Rússia e Áustria-Hungria

A Rússia, acalentando um projeto expansionista sobre o Leste Europeu – mais precisamente na região dos Bálcãs, – pregava o pan-eslavismo: a unificação política de todos os povos balcânicos de origem eslava sob sua proteção. Tal ambição se chocava frontalmente com o domínio austro-húngaro sobre a região.

Sérvia e Áustria-Hungria

A Sérvia, república independente dos Bálcãs, colocava-se como a nação que promoveria o pan-eslavismo almejado pelos russos, opondo-se ao domínio que a Áustria-Hungria exercia sobre a região. Havia grupos nacionalistas sérvios atuando em vários pontos dos Bálcãs, promovendo atentados terroristas contra autoridades austríacas.

As alianças

As rivalidades entre os países mais poderosos do planeta eram latentes, contribuindo para manter um clima de “paz armada”. Para enfrentar um possível conflito militar, cada nação se preparava com armamentos e com recrutamento e treinamento de soldados. Além disso, procurava estabelecer alianças estratégicas que lhe garantisse apoio em caso de guerra.

Assim, estabeleceu-se um sistema de alianças na Europa: a Tríplice Aliança, formada pela Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, e a Tríplice Entente, agrupando a Inglaterra a França e a Rússia

Antecedentes

Em duas oportunidades, a guerra entre as potências europeias esteve prestes a eclodir. A primeira ocorreu em 1904 e ficou conhecida como a crise do Marrocos. O Marrocos era um dos únicos países independentes na África do início do século XX, mas estava entre as pretensões imperialistas da França, que já controlava boa parte do norte africano. No ano de 1904, franceses e ingleses celebraram um acordo secreto que previa a anexação do Marrocos à França em troca da concessão do Canal de Suez à Inglaterra.

A Alemanha, ao saber do acordo, mostrou enorme descontentamento. Ocupou o Marrocos e se comprometendo a defender a autonomia política marroquina. Houve mobilização militar de ambos os lados, mas a diplomacia conseguiu evitar o início do conflito: alemães e franceses firmaram um acordo que previa a entrega do Congo Francês à Alemanha em troca da não intervenção alemã na ocupação do Marrocos pela França.

A crise dos Bálcãs também quase promoveu a eclosão do conflito. Na região balcânica, dominavam dois grandes impérios: o turco e o austro-húngaro. Contra eles manifestavam-se os interesses nacionalistas sérvios e do pan-eslavismo russo. Em 1912, ocorreu a Primeira Guerra Balcânica: Sérvia, Montenegro, Grécia e Bulgária uniram-se para vencer os turcos e expulsá-los da região. A vitória coube às forças aliadas, mas provocou desavenças entre a Sérvia e a Bulgária, fazendo com que, no ano seguinte, ocorresse a Segunda Guerra Balcânica. A guerra foi vencida pelos sérvios, mas, a Áustria interviu nos acordos de paz entre os dois países, impondo a criação de um novo Estado na região: a Albânia. O território albanês, entretanto, impedia a saída marítima para a Sérvia e o sentimento anti-austríaco dos sérvios aprofundou-se ainda mais.

A guerra

mapa Europa 1914 e primeira guerra mundial

Divisao política em 1914 e na Primeira Guerra Mundial

O conflito se iniciou após um atentado terrorista sérvio contra o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina – área de dominação austríaca, mas almejada pelos sérvios para a constituição da “Grande Sérvia”. A Áustria exigiu a imediata extinção dos grupos nacionalistas sérvios sob pena de iniciar uma guerra contra a Sérvia.

Como o governo sérvio, um mês após o atentado (28 de junho de 1914), não havia tomado nenhuma providência, os austríacos declararam guerra contra a Sérvia. Os russos, aliados dos sérvios, entraram no conflito, acionando o sistema de alianças. A Alemanha, aliada da Áustria-Hungria declarou guerra contra a Rússia, e França e Inglaterra acabaram por declarar guerra contra a Alemanha.

Entre 1914 e 1915, a Primeira Guerra Mundial contou com expressivas vitórias alemãs que. A Alemanha executou o Plano Schlieffen – estratégia de defesa alemã, desenvolvida em 1905, contra um possível ataque da França, Inglaterra e Rússia. As forças alemãs promoveram ataques maciços no front ocidental, ocupando o norte da França. A resistência das tropas francesas no Marne, no entanto, impedira que os alemães avançassem em direção à Inglaterra e favoreceram um ataque russo no front oriental.


Soldados em Caporetto

Começava assim a chamada guerra de trincheiras (1915-1917), marcada pelo desgaste e pela ausência de significativas vitórias de ambos os lados. Somente a Rússia, visivelmente despreparada para um conflito de grande porte, começou a sofrer sucessivas derrotas frente aos alemães, o que determinou seu enfraquecimento e retirada da guerra, depois de uma revolução popular, em 1917.

O temor de uma vitória alemã que pusesse em risco os interesses norte-americanos na Europa, levou os Estados Unidos a entrarem no conflito nesse mesmo ano, a fim de reequilibrar as forças beligerantes. De fato, a entrada dos americanos deu novo fôlego aos países da Entente que, a partir de então, puderam contar com algumas importantes vitórias.

Foi também iniciativa do presidente norte-americano, Woodrow Wilson, elaborar uma lista de 14 itens – os 14 Pontos de Wilson – em que propunha o fim da guerra sem sanções para quaisquer dos países envolvidos no confronto.


Woodrow Wilson

A proposta de Wilson agradou sobretudo à população alemã, que já se achava combalida pelos esforços de guerra. Um movimento que chegou a derrubar o governo e a instituir a República na Alemanha tirou o país da guerra e deu início às negociações de paz.

Os tratados de paz

Interrompidos os conflitos militares, os líderes dos países envolvidos na guerra iniciaram as negociações. Desde o início das negociações, tornou-se evidente a pouca disposição de Inglaterra e França em discutir os 14 Pontos de Wilson, revelando seu desejo de impor uma humilhante derrota à Alemanha.

De fato, em 1919, foi assinado o Tratado de Versalhes, que nada manteve do que o presidente norte-americano havia proposto. Esse acordo impôs aos alemães severas punições. Entre as determinações do Tratado de Versalhes impostas à Alemanha, destacam-se:

  • perda de territórios, inclusive colônias;
  • devolução da Alsácia–Lorena à França;
  • pagamento de indenização no valor de US$ 33 bilhões;
  • limite ao exército alemão (100 mil soldados); as forças alemãs não mais poderiam possuir artilharia pesada e aviação;
  • criação do “corredor polonês” que, ao garantir acesso ao mar para a Polônia, dividiu a Alemanha em duas partes, separando a Prússia do restante do país.

A Primeira Guerra Mundial teve consequências dramáticas: mais de oito milhões de mortos e cerca de 20 milhões de mutilados. Além disso, devastou boa parte do continente europeu, rompendo definitivamente a hegemonia do continente sobre o planeta. Novos países surgiram – fruto do desmembramento dos Impérios Turco e Austro-Húngaro –, como a Polônia, a Tchecoslováquia, a Iugoslávia e a Romênia.

O liberalismo – tão admirado pelo mundo ocidental na segunda metade do século XIX – dava evidentes sinais de crise, tanto do ponto de vista econômico (adoção de medidas protecionistas e nacionalistas) quanto político (ascensão dos regimes totalitários: nazi-fascismo). Finalmente, a Primeira Grande Guerra permitiu o aparecimento da primeira nação socialista de nossa história: a Rússia.