Independência da América espanhola

A Independência da América Espanhola ocorreu ao longo do século XVIII, após quase 300 anos de domínio colonial. A Independência da América Espanhola, uma rebelião das colônias contra a metrópole, foi muito influenciada pelas ideias iluministas, pela Independência dos Estados Unidos e pela Revolução Francesa.

Durante o século XIX, a América se integrou ao quadro do capitalismo em pleno desenvolvimento na Europa, a partir da Revolução Industrial e da Revolução Francesa. Os acontecimentos que sacudiram o continente europeu – a luta pela liberdade política e econômica – repercutiram intensamente na América. Além disso, vale lembrar que um dos duros golpes contra o Antigo Regime foi a conquista da independência pelos Estados Unidos, em finais do século XVIII. Esses fenômenos fizeram com que, nas primeiras décadas do século XIX, as colônias latino-americanas iniciassem a luta contra o domínio europeu e originassem nações independentes.

Todavia, a independência política das nações latino-americanas não significou independência econômica. Mesmo após se tornar independente, a América Latina permanecia economicamente dependente – inicialmente, da Inglaterra e, posteriormente, dos Estados Unidos.

Assim, o processo de emancipação latino-americano – inclusive o do Brasil - deve ser entendido no quadro mais amplo da crise do Antigo Regime, absolutista e mercantilista, e da crise do Antigo Sistema Colonial, com a ascensão da ideologia capitalista e burguesa. As mudanças em curso na Europa desde meados do século XVIII encontraram na América Espanhola terreno fértil à sua proliferação.

A CONJUNTURA INTERNACIONAL

Vários foram os fatores externos que explicam a luta da população latino-americana, sobretudo de sua elite econômica, para obter sua independência em relação às nações colonialistas europeias. Tais fatores foram:

  • A Revolução Industrial: com o aumento da produção industrial, propiciado pela melhoria tecnológica e pela produção em série, a Inglaterra necessitava ampliar o mercado consumidor para suas mercadorias. Os mercados latino-americanos achavam-se protegidos pelo protecionismo mercantilista. Isso prejudicava os interesses britânicos. Isso explica por que a Inglaterra foi a principal estimuladora dos movimentos emancipacionistas latino-americanos. Ao mesmo tempo, o pacto colonial também prejudicava os interesses da população colonial, interessada em obter os artigos industrializados ingleses a preços mais baixos. Em suma, a eliminação do intermediário comercial - a metrópole -  interessava tanto aos industriais ingleses quanto aos colonos hispano-americanos;
  • Iluminismo: as ideias iluministas (liberdade e igualdade) chegaram à América por meio de membros da elite que haviam estudado nas universidades europeias. Tendo tido contato com os novos ideais, a elite passou a apoiar a luta pela liberdade, inclusive econômica. Todavia, o ideário iluminista (liberal) adotado por aqueles que defendiam a independência da América Espanhola tinha limites claros: a manutenção da ordem socioeconômica vigente;
  • Independência dos Estados Unidos: o surgimento da primeira nação independente na América, em 1776, serviu como exemplo para as demais regiões latino-americanas;
  • Revolução Francesa: o movimento que agitou a Europa, a partir da França, em finais do século XVIII, consagrou a ideologia iluminista (burguesa e capitalista). A partir de então, a luta por liberdade e igualdade tornava-se mais intensa;
  • Congresso de Viena e Santa Aliança: após Napoleão Bonaparte ter sido derrotado pelas forças reacionárias europeias, surgiu uma tendência ao restabelecimento do Antigo Regime, expresso nas decisões do Congresso de Viena. A tendência aristocrático-conservadora visava a impedir a difusão dos ideais do liberalismo e do nacionalismo – na Europa e fora dela. Portanto, foi criada a Santa Aliança – pacto militar que previa a intervenção em áreas em que o liberalismo estivesse ganhando espaço. Nas colônias, desenvolvia-se a luta anticolonialista e, portanto, havia o risco de uma intervenção das forças da Santa Aliança. Isso só não ocorreu graças à oposição da Inglaterra e dos Estados Unidos, que começavam também a buscar áreas de influência por meio da Doutrina Monroe.

CONJUNTURA HISPANO-AMERICANA

Para que os fatores externos pudessem contribuir para o rompimento dos laços metrópole-colônia na América espanhola, era necessário que a conjuntura interna fosse favorável. Vale lembrar que era rígido o controle da Espanha sobre suas colônias na América, pois estas constituíam uma enorme fonte de rendimentos para a Coroa e para os comerciantes metropolitanos.

A Espanha havia dividido o território colonial americano (por motivo de controle administrativo) em Vice-Reinos e Capitanias-Gerais. Os Vice-Reinos – Nova Espanha, Nova Granada, Peru e Prata – eram áreas em que os altos funcionários da Coroa usufruíam de relativa autonomia. As Capitanias-Gerais – Cuba, Guatemala, Chile e Venezuela – eram regiões estrategicamente importantes, cujo controle pela metrópole era bastante rigoroso.

A economia colonial hispano-americana era orientada pela política mercantilista. Diferentemente do que ocorrera no Brasil, as atividades econômicas na América Espanhola, ainda que voltadas para o enriquecimento da metrópole, eram mais diversificadas. Por exemplo, a mineração de ouro e prata nas regiões do México e do Peru – com utilização em larga escala de mão de obra compulsória indígena (mita e encomienda) – era a base da economia colonial. Além da mineração, a plantation – monocultora, escravocrata, exportadora de gêneros tropicais de alto valor no mercado europeu, como o açúcar e o tabaco –, encontrava-se presente na América colonial espanhola. Também foi desenvolvida na região platina a atividade pecuarista – produtora de couro e charque, que eram exportados.

O desenvolvimento da economia colonial garantia o enriquecimento da Coroa e dos mercadores espanhóis, beneficiados pelo regime de exclusivo comercial. Mas contribuía também para o enriquecimento da elite colonial (criollos), formada por descendentes de espanhóis que eram marginalizados politicamente pela alta burocracia espanhola (chapetones). Dessa forma, os espanhóis controlavam a vida político-administrativa das colônias, mas a economia era controlada por colonos ricos e poderosos em suas regiões.

Foi essa elite econômica a responsável pela luta contra o domínio metropolitano, pois apesar da riqueza que possuía, considerava mais vantajoso um regime de livre comércio com o mercado europeu. Além disso, foram os filhos dessa elite que voltavam da Europa carregados de ideias sobre liberdade e igualdade.

Em suma, entre as causas da luta emancipacionista hispano-americana, podemos destacar:

  • a influência da ideologia iluminista
  • a rivalidade entre a elite política (chapetones) e a elite econômica (criollos) nas colônias. Os chapetones desejavam a manutenção da subordinação da população hispano-americana à sua autoridade. Já os criollos visavam a romper com a dominação metropolitana, especialmente economicamente.
  • a rivalidade entre chapetones e criollos expressava uma outra rivalidade, mais ampla: o antagonismo entre duas políticas econômicas – o liberalismo (não intervencionismo), defendido pelos criollos e o mercantilismo (intervencionista), advogado pela elite espanhola.

A GUERRA DE INDEPENDÊNCIA

O processo de independência da América Espanhola se iniciou já em fins do século XVIII, quando alguns movimentos esporádicos questionaram elementos do domínio espanhol sobre as colônias. Tais movimentos foram severamente reprimidos pelas autoridades espanholas, mas serviram para enfraquecer o domínio colonial e para preparar o terreno para a guerra que se desenrolaria posteriormente.

Na luta contra a opressão metropolitana, destacaram-se a rebelião de Túpac Amaru (1780), no Peru, e a de Francisco Miranda (1811), na Venezuela.


Túpac Amaru

Em 1808, a Espanha se encontrava sob intervenção das tropas do imperador francês, Napoleão I. Este acabou por depor o rei espanhol, Fernando VII, colocando em seu lugar, José Bonaparte, seu irmão. Isso enfraqueceu a metrópole e, consequentemente, estimulou o movimento emancipacionista da elite criolla. Inicialmente, declarando-se “leais” ao rei deposto, os criollos organizaram, a partir dos cabildos (câmaras municipais), juntas governativas que depuseram as autoridades metropolitanas e assumiram a administração local.

Todavia, a falta de apoio externo - sobretudo britânico, já que a Inglaterra estava envolvida na luta contra o expansionismo napoleônico - fez com que os movimentos emancipacionistas ocorridos em vários pontos da América Espanhola entre 1810 e 1816 fossem derrotados pelas forças metropolitanas.

A partir de 1815, porém, a derrota de Bonaparte na Europa permitiu que Inglaterra e Estados Unidos – que iniciavam uma política imperialista sobre o continente latino-americano (Doutrina Monroe) – apoiassem de forma significativa os movimentos pró-independência que ressurgiam nas colônias hispano-americanas. Entre 1817 e 1824, todas as colônias espanholas na América, com exceção de Cuba, tornaram-se nações independentes.

Os principais líderes do movimento emancipacionista hispano-americano foram Simon Bolívar e José de San Martín. Membros da elite criolla, Bolívar e San Martín, seguindo rotas opostas, percorreram o território latino-americano, difundindo a luta pela independência das colônias em relação à Metrópole espanhola. Seus objetivos não eram, contudo, totalmente idênticos. San Martín defendia um governo monárquico constitucional, em que os poderes locais fossem preservados. Já Bolívar, apelidado de O Libertador, defendia uma América do Sul livre, unida e forte, que adotasse o regime republicano. Em 1822, as forças de ambos se encontraram em Guayaquil: San Martín desistiu de seu projeto monárquico e aderiu à proposta republicana de Bolívar.

 
Simon Bolívar

Os rebeldes foram vencendo as forças espanholas e acabaram por conquistar a independência da grande maioria das atuais nações latino-americanas. O sonho unificador de Bolívar, no entanto, não se consolidou, por vários motivos. Primeiro, devido à oposição da própria Inglaterra – grande apoiadora dos movimentos pró-independência – que não desejava o surgimento de uma nação forte na América. Segundo, devido à diversidade étnico-cultural e econômica das diferentes regiões hispano-americanas. E, finalmente, devido aos interesses dos grandes proprietários, que desejavam preservar sua hegemonia local (caudilhismo).

Assim, surgiram na América Espanhola dezenas de pequenas repúblicas autônomas, em que a estrutura socioeconômica colonial foi preservada, gerando dependência econômica e, consequentemente, subdesenvolvimento.

A consolidação da independência foi garantida pela proclamação da Doutrina Monroe, em 1823, pelos Estados Unidos. Por meio de tal doutrina, os Estados Unidos se posicionaram contra qualquer intervenção militar europeia na América (“A América para os americanos”). Com isso, procuravam norte-americanos garantir o domínio econômico sobre o continente latino-americano.