Baixa Idade Média - Formação dos Estados Nacionais Europeus

O período da história europeia conhecido como Baixa Idade Média (séculos X-XV) corresponde à crise do modo de produção feudal. Tal crise foi resultado de um profundo processo de transformações socioeconômicas, políticas e culturais, iniciado com o movimento das Cruzadas. Os principais sintomas da crise do feudalismo foram a dinamização econômica – com a substituição da economia de subsistência pela economia de mercado (renascimento comercial e urbano) –, o surgimento da burguesia – um novo grupo social, ligado às atividades mercantis e artesanais urbanas – e o fortalecimento do poder central dos reis, originando os Estados Nacionais Europeus.

Esse processo de desorganização das estruturas feudais foi lento e gradual, atingindo seu ápice no século XIV e dando origem a um novo sistema econômico conhecido como capitalismo.

As Cruzadas

A Europa da Alta Idade Média, quando se estruturou o feudalismo, experimentou inúmeros ataques invasores que resultaram no isolamento geográfico e econômico da Europa em relação ao restante do mundo. Os ataques também contribuíram para manter a estabilidade do ritmo de crescimento populacional.

A partir do século IX, porém, as invasões à Europa cessaram. Isso ocasionou um rápido crescimento demográfico, decorrente da queda da taxa de mortalidade e da alta da taxa de natalidade. A melhoria das técnicas de cultivo, a ampliação das áreas dedicadas à agricultura e a diminuição dos surtos epidêmicos foram decisivos para promover um rápido e constante aumento da população, que estava além do poder de absorção da estrutura do feudo. O resultado disso foi o crescimento, na Europa, de uma população marginal: abandonando os feudos pelas dificuldades de sobrevivência, muitos indivíduos passaram a vagar pelas estradas e percorrer vilarejos, ora promovendo saques e assaltos, ora pedindo esmolas. O banditismo e a mendicância tornaram-se frequentes, ameaçando a ordem feudal e atemorizando as populações dos feudos.

Alguns desses servos expulsos dos feudos, porém, estabeleceram-se em aldeias, ou antigos núcleos urbanos, onde exerciam uma incipiente atividade comercial e artesanal.

Preocupada com o aumento da população marginal e do perigo que ela representava para a ordem vigente, a elite feudal, liderada pela Igreja, enxergou uma forma de solucionar o problema do excedente demográfico na Europa. Nasceram, assim, as Cruzadas.

As Cruzadas eram expedições militares-religiosas, convocadas pelo Papa Urbano II, cujo objetivo anunciado era libertar a Terra Santa, onde se encontra o Santo Sepulcro, que na época estava sob domínio muçulmano. Outras razões, no entanto, levaram os cristãos europeus a se engajarem no movimento:

  • o Império Bizantino esperava ajuda dos cristãos do Ocidente para impedir o avanço turco-otomano em direção ao seu território;
  • a Igreja Católica sonhava em ampliar e fortalecer seu poderio e uma vitória nas Cruzadas certamente lhe garantiria prestígio;
  • a nobreza feudal começava a sentir os efeitos do crescimento populacional, vendo suas terras se tornarem insuficientes para legar aos filhos; buscavam, assim, ampliar seus domínios territoriais;
  • os comerciantes das cidades italianas viram nas Cruzadas a chance de restabelecer os contatos com o Oriente, recuperando o acesso ao rentável comércio de especiarias;
  • os marginalizados não tinham nada a perder: ao aderir às Cruzadas, ganhavam importância social e, possivelmente, riqueza.
  • Com estas palavras o papa conclamou os cristãos europeus a participarem do movimento cruzadista:

“Deixai os que outrora estavam acostumados a se baterem, impiedosamente, contra os fiéis, em guerras particulares, lutarem contra os infiéis [...] Deixai os que até aqui foram ladrões, tornarem-se soldados. Deixai aqueles, que outrora se bateram contra seus irmãos e parentes, lutarem agora contra os bárbaros, como devem. Deixai os que outrora foram mercenários, a baixos salários, receberem agora a recompensa eterna.

Uma vez que a terra que vós habitais, fechada de todos os lados pelo mar e circundada por picos de montanhas, é demasiadamente pequena à vossa grande população: sua riqueza não abunda, mal fornece alimento necessário aos seus cultivadores [...] tomai o caminho do Santo Sepulcro; arrebatai aquela terra à raça perversa e submetei-a a vós mesmos. Essa terra em que, como diz a Escritura, ‘jorra leite e mel’ foi dada por Deus aos filhos de Israel. Jerusalém é o umbigo do mundo; a terra é mais que todas frutífera, como um novo paraíso de deleites.

“(In VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo, Scipione, 1997; p.134)

Entre 1096 e 1270, foram organizadas inúmeras Cruzadas como a dos Mendigos, a dos Nobres, a dos Reis e a das Crianças, entre outras. Se o sucesso militar não foi obtido, pois os cristãos fracassaram diante da resistência muçulmana, os efeitos do movimento cruzadista sobre a vida europeia entre os séculos XI e XV foram de extrema importância. Vale destacar:

  • o restabelecimento dos contatos entre Oriente e Ocidente através do mar Mediterrâneo;
  • o renascimento comercial e urbano;
  • o surgimento e fortalecimento de uma nova camada social, a burguesia;
  • o enfraquecimento do poder da nobreza feudal.

O comércio e as cidades

As Cruzadas reabriram o Mediterrâneo ao comércio com o Oriente. A partir das cidades italianas de Gênova e Veneza, surgiram rotas comerciais que se dirigiam tanto para Constantinopla e Alexandria, onde se obtinham as especiarias, quanto para o norte da Europa (mares Báltico e do Norte), onde essas especiarias eram consumidas. As rotas comerciais cruzavam o continente europeu, levando e trazendo mercadorias e, obviamente, enriquecendo aqueles que se dedicavam à prática do comércio.

No cruzamento dessas rotas surgiram as feiras – locais onde se trocavam mercadorias e onde ocorria o câmbio de moedas. Essas feiras, surgidas no interior dos domínios feudais, tornaram-se permanentes e receberam o nome de burgos (cidades), nas quais viviam mercadores e artesãos, que eram abastecidos pela produção rural dos servos e que forneciam especiarias e artigos artesanais às populações vizinhas.

Os nobres sofisticaram seus hábitos de consumo, desejando, cada vez mais, adquirir as exóticas mercadorias orientais. Para isso, concordaram em comutar o pagamento das obrigações em produtos ou serviços por dinheiro. Ao mesmo tempo, os servos contavam agora com uma alternativa de vida melhor, nas cidades. Muitos deles, portanto, abandonaram os feudos. A burguesia se fortalecia enquanto a nobreza perdia poder.

Os comerciantes das cidades reuniam-se em associações mercantis conhecidas como hansas, das quais a mais famosa foi a Hansa Teutônica ou Liga Hanseática, que se desenvolveu na região dos mares Báltico e do Norte, reunindo mercadores de aproximadamente 80 cidades.

A vida nas cidades era precária. As residências eram mal construídas, as ruas estreitas e sujas, o abastecimento de água deixava a desejar. Seus habitantes amontoavam-se em pequenos cômodos e estavam sujeitos a frequentes ondas epidêmicas.

Os artesãos dos burgos também formaram associações para defender seus interesses. Essas associações eram denominadas corporações de ofício: reuniam artífices de uma mesma atividade. Cada corporação regulamentava a atividade de seus membros, controlando qualidade da matéria-prima, os preços de venda e, até mesmo, o número de oficiais dedicados a certo ofício.

Nas oficinas artesanais, trabalhavam o mestre – proprietário da oficina e dos instrumentos de produção –, os aprendizes – jovens que, em troca do aprendizado, trabalhavam para o mestre – e os jornaleiros – indivíduos remunerados para auxiliar o mestre nas épocas de maior trabalho.

Sumário

- As Cruzadas
- O Comércio e as Cidades
- Formação dos Estados Nacionais Europeus
i. A Formação da Monarquia Francesa
ii. A Formação da Monarquia Inglesa
iii. A Formação da Monarquia Portuguesa
iv. Portugal e a Guerra de Reconquista
v. A Revolução de Avis
- A Crise do Século XIV
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